segunda-feira, 17 de julho de 2017

[SERIES] GLOW (ou o Stranger Things que deu certo)




Provando que ainda não estamos muito distantes dos nossos instintos mais primitivos (nossa, eu lembro dessa frase do mensalão... acho que ninguém mais nem lembra o que foi isso), violência é sempre muito gratificante de se assistir. Não adianta negar, é legal pacas.

O problema é que violência necessariamente precisa que alguém se machuque ou sofra de alguma forma, o que não é nada legal. Como resolver esse problema então? Bem, nossa sociedade moderna tem isso bem resolvido: violência de mentirinha, é claro. Ninguém se machuca de verdade e ainda temos aquela satisfatória sensação de "waaaaaaaaaarrrrrrrggggghhhhhh" que manteve nossos ancestrais vivos.

Se pudermos adicionar a isso roteiros de vingança e rixas, golpes visualmente mirabolantes (embora nem sempre efetivos), vilões maus como pica-paus se dando mal, temos... bem, basicamente, wrestling.

Só que wrestling tem uma pegadinha que muitas vezes passa despercebida quando pensamos no Seth "Freaking""Kingslayer""Architech" Rollins (sério cara, te decide!) pulando da terceira corda em cima da mesa da equipe de televisão:


Para fazer isso, para vender o show, tão importante quanto ser um bom atleta é ser um bom ator. Na verdade, ser um bom ator é mais importante até. Não é realmente surpreendente que de tempos em tempos a luta livre premie o cinema com excelentes atores, porque essa é a essencia do negócio.

André, o Gigante (A Princesa Prometida), Dave Bautista (Drax, dos Guardiões da Galaxia) e The Rock (se você não conhece, você está na vida errada) que o digam.


Ciente disso, em 1985 David Mclane teve a ideia de fazer um show de televisão exclusivamente sobre wrestling feminino - o que até já existia, mas nunca como atração principal ou mesmo um programa próprio para isso. Pouco surpreendentemente, Gorgeous Ladies of Wresting (GLOW) foi um sucesso que durou 5 temporadas.

A série da Netflix de 2017 não é um documentário nem muito baseada nisso além do próprio conceito. O que é mais do que suficiente para fazer um show divertido pra caramba.

A coisa é, no entanto, que já existe um programa sobre wrestling. Dois até, chamam-se Monday Night Raw e Smackdown Live. Não foi isso que a Netflix tentou fazer, foi algo além. E por esse além entenda que vamos falar sobre mulheres.

Sim, eu sei, mas vai ser divertido. Prometo.

Te DESAFIO a achar algo mais anos 80 do que
essa foto do elenco real de GLOW
Hoje em dia quando se fala em "feminismo" na internet inevitavelmente ja podemos revirar os olhos e dizer "aff, la vem" porque na maioria das vezes é alguém idiota reclamando de algo ridiculo. Como isso, por exemplo. Mas isso é meio que é o que a internet faz, dá voz ao idiota da vila - como já disse Umberto Eco.

O que é um problema, porque tantas Pedrinho já gritaram "lobo!" tantas vezes na internet que ninguém mais liga realmente. Falta de Chapolin na vida dá nisso. O que não quer dizer que não existam lobos de verdade a serem combatidos, contudo.

Às vezes, a luta contra os lobos é sutil, ou mesmo dolorosamente irônica.

Na nova dramédia da Netflix, GLOW, uma mensagem feminista inescapável é proeminente - embora envolvida em lycra. O show altamente divertido e sorrateiro mostra ficcionalmente a vida real das mulheres de Wrestling que as pessoas de uma certa idade podem se lembrar dos anos 80. A nova série é produzida por Jenji Kohan, de Orange Is the New Black, que com a GLOW expande sua habilidade em montar um grande elenco de mulheres e contar histórias cativantes sobre suas vidas (nenhuma delas é a Laura Preppon, infelizmente).

Ser esmagado pelo Big Show é a única coisa para
a qual não tem filas na União Soviética, camarada!
As protagonistas de GLOW são Ruth Wilder (Alison Brie), uma atriz que é mais esforçada do que boa lutando para ter papéis que não sejam imbecis em Hollywood dos anos 80 (protip: o que é muito, muito dificil se você for uma mulher), e Debbie Eagan (Betty Gilpin), a amiga um pouco mais bem sucedida de Ruth, cuja carreira de ator está paralisada pela falta de peças e seus compromissos domésticos. O seu eventual chefe da porra toda é Sam Sylvia (Marc Maron) um diretor de filmes B (quase caindo pra C) - uma pessoa extremamente desagradavel, ainda que com uma boa noção da realidade.

É natural supor que em uma série sobre lutadoras (ou com mais precisão, as atrizes que fingem ser lutadoras) em um universo predominantemente masculino seria recheada de cenas a lá "Rosie, a rebitadeira". Mas o GLOW faz algo muito mais esperto: mostre suas mulheres em uma caixa metafórica coberta por uma cúpula de vidro impenetrável. A partir da cena de abertura, na qual Ruth faz uma audição para uma parte que claramente não é para ela, GLOW brilha sua luz brega de neon em um mundo no qual as mulheres têm pouca escolha; Ou escolhas que envolvem apenas orbitar em torno dos homens.

Debbie, uma vez uma atriz de novelas promissora, aceita sua nova identidade como (somente) a esposa de seu marido e a mãe de seu filho com um ranger reluzente de seus dentes. E ela, como Ruth, sabe que um show de luta feminina de baixo orçamento não é um show ideal - é apontado que é apenas um (curto) passo antes da pornografia. Mas o que elas podem fazer? Uma garota tem que comer. Mais importante, elas querem trabalhar ... e o trabalho, de outra forma, não existe.

Vendo as pessoas fazerem isso toda semana na WWE
acabamos achando que parece fácil, mas fazer esses saltos e
movimentos sem se machucar ou machucar alguém é
algo inacreditavelmente dificil. GLOW retrata bem esse lado
do wrestling tambem.

Sam, na vanguarda, trata Ruth - e todas as mulheres, em sua maior parte - como objetos sexuais descartáveis. Ele diz para Ruth que tem duvidas para escalar ela porque ela não é bonita o suficiente. Para Debbie ele diz: "Você é bonita, você tem grandes seios. Você é como Grace Kelly em esteróides. Eu quero colocar isso na TV todas as semanas". E os protestos são raros. Ninguém dá um soco nele e e o chama de creep misógino, não há indignação porque é assim que as coisas são.

Essa é a pegadinha aqui: é pelo que não é dito que GLOW faz uma declaração poderosa sobre o sexismo, a objetificação e a falta de opções: elas apenas aceitam e continuaram com isso. É tão chocante e triste como é inspirador, eventualmente, porque essas mulheres acabam usando isso a seu favor.

GLOW emprega muitos clichês em sua temporada - Sam, para começar, e depois a estrutura da própria história que no meio do caminho, torna-se a clássica a história da "equipe desacreditada que tem sucesso", que vimos já vimos 1.000 vezes. Tudo feito com uma piscadela e um aceno de cabeça, transbordando ironia e um cheesiness de filme B que torna GLOW muito divertido e sofisticado, até as referências de soft porn sapphianas.

Nesse aspecto, GLOW acerta onde Stranger Things errou feio, errou rude. Ao invés de simplesmente recriar personagens, cenas e etc de coisas dos anos 80, GLOW pegou o espirito da coisa e faz suas próprias piadas sobre o tema. Sempre se levando  muito a sério, o que gera um efeito-Keijo hilário.

O show faz com que a noção da sua própria irônia seja particularmente evidente com as suas mulheres de cor, cujos arcos abertamente ridicularizam o preconceito, ampliando-o para proporções ultrajantes. Tome, por exemplo, Tamee (Kia Stevens), que tem um filho indo para Stanford, mas ganha o nome de ringue de "Welfare Queen" por ser negra e gorda e faz chover cartões de programas sociais do governo no ringue. E tem Arthie (Sunita Mani), a mulher indiana que está sempre estudando mas ganha o apelido de "Beirute" e representa uma terrorista libanesa. Jenny (Ellen Wong), a única asiática, é batizada de "Fortune Cookie". É desconfortável, confuso e divertido, mas também enraizado na verdade (uma vez que essas pessoas eram semelhantes às do GLOW da vida real) e uma maneira de, como diz Sam, "lutar com os estereótipos".

A melhor forma de acabar com o preconceito é mostrar o quão ridiculo ele é, e GLOW faz isso magistralmente.


No entanto, GLOW fica mais intrincado e complexo à medida que a temporada avança - suas "lições" desaparecendo em segundo plano, pois as vitórias e golpes pessoais dos personagens prevalecem. Ruth e Debbie têm um grande conflito que avança na trama de luta livre; Sam suaviza um pouco para revelar alguma decência e até mesmo boas intenções.

No final da temporada, as mulheres são uma comunidade própria, uma tribo de pessoas que abraçaram essa idéia como meio de se abraçar. "Estou de volta ao meu corpo", a mãe e esposa e atriz atrofiada Debbie conta a Ruth no final da temporada. "Não pertence a (os homens em sua vida). Estou usando para mim. Eu me sinto como um maldito super-herói". É surpreendentemente sincero, sem deixar de ser elegantemente ridiculo. Como o bom wrestling deve ser.


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