segunda-feira, 1 de maio de 2017

[LIVROS] A MÚSICA DO SILÊNCIO (The Slow Regard of Silent Things)


Eu tenho que confessar que uma das coisas que eu menos gosto na literatura são de descrições. Embora importantes, claro, eu acho profundamente massantes e me sinto tentado a pular para o paragrafo onde os personagens estão falando ou fazendo alguma coisa. Agora imagine, se puder, um livro quase inteiramente sobre descrições de cenário. O horror, ó, o horror.

Agora imagine também que esse livro é um spin-off de uma saga maior focado no personagem mais misterioso dessa saga. Você esperaria algumas respostas, certo? Mas em mais de cem páginas são apenas dois ou três paragráfos que contém fatos novos a respeito desse personagem. Ou seja, ele não te dá nada muito carnudo para ruminar a respeito nem sacia realmente nenhuma curiosidade sua.

Parece a receita do desastre, certo? Quer dizer, você teria que ser um completo lunático para publicar um livro assim. Ou um gênio.

Eu desconfio que Patrick Rothfuss seja um tanto de ambos.


Como qualquer pessoa alfabetizada na face da Terra, eu adoro as Crônicas do Matador do Rei (que eu ainda não descobri se ele vai se tornar o assassino do rei ou um assassino que trabalha para o rei, mas enfim). Isso não quer dizer que, por mais que eu adore a escrita do tio Patricio, não veja problemas enormes em sua execução.

A começar pelo protagonista, que é um enorme Gary Stu incrível em tudo (embora isso se deva, provavelmente, ao fato que ele é quem está contando a própria história - é algo a se considerar). Enfim, falta uns pingos de amadurecimento aqui e acolá que me impedem de classificar Patrick no mais alto patamar que um autor pode chegar. Ele chega muito perto disso, tá quase, mas ainda tem o que melhorar.

A Música do Silêncio é uma coisa completamente diferente de sua saga épica de fantasia, contudo. É uma obra de arte, é poesia travestida em prosa. É uma demonstração inacreditável de domínio sobre as palavras e amor sobre um personagem.

O livro se passa mostrando uma semana da pequena e misteriosa Auri enquanto ela espera por uma visita do Kvothe (supostamente). E meio que é isso, é apena a Auri vivendo sua vida nos subterraneos, sem dialogo algum e o mais perto de ação que o livro tem é sobre ela fazendo um sabonete e depois uma vela. É sério isso.

Então como eu disse, o livro é básicamente sobre descrições. De que maneira isso poderia possivelmente funcionar? Talhando cuidadosamente o texto, é dessa forma.

Para quem nunca tentou escrever um livro, eu vou explicar como funciona: você primeiro escreve um blocão de texto sem muito refino ou qualidade, adiciona dialogos crus, descrições básicas e ações narradas da forma mais simples possível. O segundo passo é o que eu chamo de "sentar em cima do texto", em que você dá uma polida na coisa toda e transforma aquela massa de texto em algo legível e agradavel. E depois revisa de novo. E de novo. E de novo.

Dizem que perguntaram uma vez a Michelangelo como ele fez a famosa estátua de Davi e ele respondeu que era simples, ele precisou apenas retirar da pedra tudo que não fosse a estátua. Um livro funciona da mesma forma, e Patrick Rothfuss aqui dá uma puta de uma aula de como se faz isso.

Cada paragrafo é informativo e poético, acrescenta a história e ao desenvolvimento do personagem sem deixar de ser literariamente rico. Nada é mais do que precisa ser, tudo é exatamente o que precisa ser. Sério, de um ponto de vista técnico o que ele fez aqui não é nada senão uma obra de arte, talhada com amor e carinho.

Sabe como Douglas Adams consegue (quando ele estava inspirado) transformar cada paragrafo sobre coisas mundanas em uma piada muito inteligente que jamais poderia ser identificada como tal se você perguntasse? Patrick faz mais ou menos a mesma coisa aqui, só que com lirismo no lugar de humor. O resultado é fenomenal.

Eu me apeguei mais emocionalmente a alguns objetos descritos no livro, que meio que são os personagens da história, do que personagens de verdade na maior parte dos livros que eu li na minha vida. Eu troco dez Harry Potters (o personagem, não o livro... odeio titulos homonimos) pela engrenagem de bronze em qualquer dia da semana.

Falando em personagens, o livro não revela muito sobre Auri que já não soubessemos. Não responde nenhuma pergunta realmente (exceto que ela realmente é humana e foi aluna da Universidade), mas meio que isso é tudo. Mas isso não importa realmente.

O que importa é que Auri é um personagem único e seus anseios e transtornos carregam o livro inteiramente. Terminado de ler, eu não sei dizer realmente se ela tem o caso de TOC mais grave da história da humanidade, ou se ela realmente sabe o nome de todas as coisas e conversa realmente com elas. Um pouco de cada, eu suponho.

Eu sempre acreditei que bons personagens carregam uma história fraca, mas personagens ruins não levam uma história por mais épica que ela seja. A Música do Silêncio é o melhor exemplo disso, em que Auri tentando encontrar o "lugar certo" para colocar uma pedra que ela encontrou é mais interessante e verdadeiro que qualquer mecha gigante arremessando galáxias uns nos outros (sim, Gurren Lagan, estou olhando para você).

Pelo que Kvothe conta em suas Crônicas, sabemos sabemos que Auri é enigmática e que tem fobia social, mas não sabemos nada de seus hábitos ou o que ela faz enquanto não revê Kvothe. Esse livro mostra como é a vida meio faérica da menina e o quanto ela é preciosa, o quanto merece ser abraçada ao mesmo tempo que deve ser deixada em paz - se isso faz sentido para você. A forma como a mente dela funciona, em algum ponto muito único entre a verdade mais verdadeira das coisas e a loucura é descrito de uma forma encantadora e mágica.

“Auri apressou-se pela Rubrica, virando duas vezes à esquerda e duas à direita, por razões de equilíbrio, tomando o cuidado de nunca seguir nenhum dos canos por muito tempo, para não cometer nenhuma ofensa.” 

A Auri é o meu tipo favorito de personagem, aquele que não nunca temos realmente certeza se ele é um completo lunático com muita sorte ou se ele sabe exatamente o que está fazendo (como o Doutor, o Wander ou a Luna Lovegood), e ver um livro inteiro feito apenas do jeito certo é para se gostar  mais do que apenas um pouco.

Em um sentido muito estranho, eu ousaria dizer que é o melhor livro dele porque bem ou mal existem outros livros de fantasia como as Cronicas do Matador do Rei, mas não existe absolutamente nada como A Música do Silêncio.


O autor está certo ao afirmar que nem todos gostarão desse livro. É preciso enxergar além das palavras para apreciá-lo. Muito mais do que ler, é um livro para se sentir.

Dedicado a minha Auri, de quem eu também gosto mais do que apenas um pouco






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