sábado, 20 de maio de 2017

[GAMES/CONTO] STARDEW VALLEY (ou Deus e eu no vale Orvalho das Estrelas)

Como muitos de vocês podem vir a se identificar, eu tinha um emprego bosta em uma grande corporação. O suficiente para pagar as contas e comprar coisas para distrair a cabeça do fato de que a minha vida, bem, não estava indo a lugar nenhum realmente. Após a décima maratona de séries seguida na Netflix meio que começa a ficar difícil começar a tapar com a peneira que isso era tudo que a minha vida era.

Sabe quando você conta as horas para voltar ao trabalho não porque você adore aquela joça, mas sim porque passa o dia esperando pela próxima coisa sem importância acontecer? De manhã você espera pela noite, de noite você espera pelo dia seguinte, não porque seja ótimo ou animador, mas porque estabelecer pequenas metas sem esperança é o único jeito de seguir a diante?



Espero realmente que não saiba, porque é uma vida… Eu ia dizer “horrível”, mas nem isso é. É apenas … esquecível.

Então um dia eu estava arrumando minha gaveta, mais porque isso ocuparia tempo do que por ter um propósito mesmo, quando encontrei uma carta. Estranho, eu não pensava nela há muitos anos, mas lá estava ela, mesmo assim. A audácia dela, não?

Explico: meu avô tinha me deixado uma carta selada antes de morrer, dizendo que eu deveria abri-la quando sentisse que mais precisasse em toda minha vida. Quando minha alma estivesse prestes a se apagar e ruir, quando os dias parecem frios e todas as cartas estão na mesa. Quando todos os santos que vemos na verdade são todos feitos de ouro. Quando todos os seus sonhos falham e aqueles que admiramos são os piores de todos. E o sangue fica seco…

Eu nunca tinha pensado realmente nisso, porque, como eu expliquei, a minha vida não é algo de que pudesse reclamar. Não é como se faltasse alguma coisa, e minha vida era perfeitamente normal para os dias de hoje. Tenho certeza que essa coisa de pensar no suicídio como uma solução agradável era algo que todo mundo fazia.

Pensando melhor, talvez eu devesse abrir aquela carta…



DOS DIAS QUE PARECIAM LONGOS DEMAIS

Minhas costas estavam doendo e eu tinha dor de cabeça a maior parte do dia por causa do sol. Olhei no relógio, não eram nem 11 da manhã ainda. Como eu vim parar aqui mesmo?

Acontece que a carta que o avô tinha me deixado era a propriedade de uma fazenda esquecida nos cafundós do judas com nomezinho de cidade do interior. Eu não faço ideia do que estou fazendo aqui, eu não sei mais sobre fazendas do que se pode ler a respeito na internet. Eu não faço realmente ideia de como organizar uma plantação ou do que eu estou fazendo aqui.

Quando eu cheguei o prefeito me recebeu, deu boas vindas e disse que eu deveria conhecer as pessoas da cidade. São poucas, aposto que todo mundo se conhece pelo nome em uma cidade tão pequena assim. Bem, a coisa engraçada nisso é que, se tem algo em que eu sou pior do que em plantar batatas é falar com as pessoas.

Não sei, acho que eu nasci com alguma coisa faltando em mim, sabe? Eu não tenho esse botão de “small talk” que parece tão natural às pessoas, eu não saberia ter uma conversa casual com alguém mesmo que a minha vida dependesse disso. Então, mesmo me apresentando às pessoas da cidade, isso meio que foi até onde eu consegui ir. Igual era na cidade.

Acho que você não pode fugir de quem você é, afinal.

Então essa era minha vida agora. Lendo na internet aprendi a plantar, e diziam que batatas eram a opção mais eficiente para essa estação. Bem, batatas seriam. O problema é que isso é muito cansativo, consumia toda minha energia, e antes mesmo do meio-dia eu já estava pensando em encerrar o dia.

Eu sei que as pessoas da cidade se reuniam à noite no pub local para bater papo e socializar, mas, como eu já disse, “ser uma pessoa” é algo no que eu consigo ser pior do que plantador de batatas. Eu fui algumas vezes, mas eu simplesmente não tinha o que fazer ou falar com as pessoas.

Algumas coisas da vida você simplesmente tem que aceitar. Eu tinha que aceitar que jamais seria bom em “ser normal”. Eu deveria simplesmente parar de tentar, e foi o que eu fiz.



O INICIO DO IMPÉRIO DAS BATATAS E O FATÍDICO BAILE DA PRIMAVERA

Pesquisando na internet, e trabalhando tanto quanto minha estamina pessoal permitiam, eu dei um jeito com uma pequena plantação de batatas. Regar todo dia ainda era um saco, mas eu mais ou menos comecei a pegar o jeito da coisa. Descobri também que eu tinha um talento nato para a pescaria, veja só você.

Então essa era minha vida agora, plantar batatas e pescar até não conseguir mais manter meus olhos abertos. Apenas eu, meu cachorro e meus tubérculos. Não era uma vida maravilhosa, mas era alguma coisa. Percebe um padrão se repetindo aqui?

De qualquer jeito era o que eu podia fazer, não é como se eu magicamente fosse aprender a como falar com alguém ou algo do tipo.

Perto do final da estação eu meio que já tinha pegado o jeito da coisa. A fazenda estava me rendendo algum dinheiro, e eu estava aprendendo a administrar minha energia, até me sobrava tempo e animo para explorar as redondezas. As coisas estavam se acertando. De uma forma solitária e um tanto quanto depressiva, mas estavam dando certo para os meus padrões.

Tudo isso mudou quando
a nação do fogo atacoueu recebi uma carta do prefeito me convidando para o festival das flores. Toda comunidade se reunia, comia coisas legais, batia papo e até mesmo dançavam. Naquele dia eu estava me sentindo animado o suficiente para ir.

Os resultados foram o que você poderia esperar. Não é como se alguém da comunidade tivesse algo particularmente contra mim, eu era apenas um conhecido de vista. Suponho que é o que eu nasci para ser, aquele “Quem? Ah sim, agora que você mencionou acho que lembro dele…

Ao menos todas as garotas foram muito educadas em rejeitar falar comigo, isso era um progresso. Eu suponho…


DAS COISAS QUE ACONTECEM POR ACIDENTE E O SEGREDO OCULTO DA FELICIDADE

Entressafras são períodos difíceis para os fazendeiros, eu aprendi isso do jeito difícil. Você ganha bastante dinheiro, mas também gasta muito dinheiro. Então, entre a plantação e a colheita, existe um limbo no qual o seu dinheiro está literalmente enterrado no chão esperando crescer. Estranho colocar dessa forma, não?

Enfim, o ponto é que entre uma colheita e a próxima eu fiquei com muito pouco dinheiro, e aceitei fazer uns bicos de entrega para o prefeito. Procurar as pessoas pela cidade não é difícil, não é uma cidade grande, afinal. Só que foi procurando as pessoas que, pela primeira vez, eu realmente parei para prestar atenção nelas. Eu nunca tinha pensado muito nas pessoas mais do que elas costumavam pensar em mim. Olhando em retrospecto não me admira que eu estivesse tendo os resultados que estava tendo.

Foi apenas depois de uma estação inteira que eu comecei a prestar atenção em coisas pequenas, mas importantes. Havia uma garota que passava o dia todo fora de casa, mesmo os dias de chuva e tempestade. Era comum vê-la deprimida por aí, lendo ou apenas matando o tempo. Eu não tinha me dado conta até então que ela morava em um trailer, por acaso o mesmo que morava a pinguça da cidade. Essa era a mãe dela, e muita coisa começou a fazer sentido.

Eu conversei com ela e, sabe, não foi totalmente horrível. Acho que tem algo haver com ver as pessoas como pessoas, sabe, e não um objetivo inatingível a ser alcançado. Eu comecei a prestar mais atenção nas pessoas e perceber que todo mundo tinha sua história.

O velho cadeirante rabugento podia parecer só isso à primeira vista, mas, prestando atenção, eu entendi como era ser um homem adulto precisando de ajuda de outros para fazer as tarefas mais simples do cotidiano. O dono da loja de artigos de pesca (a qual eu frequentava com certa assiduidade, dado o meu hobby) quando não estava trabalhando sempre estava sozinho, e nas raras vezes que falava sobre sua família o fazia no pretérito-mais-que-perfeito.

Eventualmente eu entendi que não precisava salvar a vida de ninguém ou nada drástico assim. “Fazer parte” às vezes é só estar lá, comentar sobre o clima, oferecer um rabanete para o seu vizinho. Simples assim. Não existem grandes truques ou segredos, basta estar no lugar certo e na hora certa (você vai saber se não está no lugar certo, acredite) e ouvir. Não é tão difícil assim.

Hoje fazem dois anos que eu cheguei aqui, e passei esta manhã apenas admirando a plantação. Ela está dez vezes maior do que quando eu comecei, e quase totalmente automatizada – a parte de irrigação e tudo. Eu só preciso plantar e colher, mas deu muito trabalho chegar a esse ponto. Talvez eu possa tentar um desses novos irrigadores de 24 metros, acho que já tenho o material para construí-los e sei como fazer.

Talvez, mas isso vai ter que ficar para amanhã, porque hoje eu já tenho um evento muito importante agendado. Vou me casar com a menina do trailer, e não poderia estar mais feliz. Não porque alguma solução mágica e dramática foi atingida, mas sim porque esse é um dia bom. Alguns são, outros não. A vida é meio que isso, e está tudo bem com isso.

Todos os nossos amigos vão estar lá, o que é praticamente a cidade toda. Tudo bem, não é uma cidade muito grande, afinal. É apenas do tamanho certo.

Fazer parte de algo é uma coisa que só acontece com o tempo, sabe?



Stardew Valley é como o filho crescido que Harvest Moon teve com Minecraft, embalado pela nostalgia dos anos 90. Mas indiscutivelmente o jogo indie vai além da franquia Harvest Moon. Você pode escolher qualquer tipo de corpo ou cor da pele, um recurso ausente na série da Nintendo. E ninguém parece se importar se um homem se casa com outro homem, apesar de todas as relações heterossexuais estabelecidas no jogo.

O que torna Stardew Valley notável, no entanto, é seu foco conceitual na depressão transcendental, comunal. A evidência é sutil no início. Alcoolismo, sonhos perdidos, deficiência, ansiedade, timidez, pobreza, e a magia negra acontecem na aldeia pacata. Por fora, tudo é ok e todos são normais, mas por dentro todos os moradores estão perdidos em suas cavernas carregando um punhado de medos, esperanças e desejos.

Mesmo no casamento, todo mundo tem uma dose especial de miserabilidade. Quando as mudanças no jogo são feitas – como reconstruir o centro da comunidade, casar com um personagem, ou melhorar um relacionamento, grande parte do conteúdo do jogo permanece consistentemente triste, dando ao usuário nenhum feedback de progressão linear. Assim como na vida, a mudança não necessariamente dá uma melhora significativa na atitude ou na felicidade dos personagens.

O casamento, convencionalmente uma recompensa nesse tipo de jogo, tem seus contras e prós. Muitos jogadores relataram que o casamento não é gratificante, e os usuários também relatam um cônjuge com depressão. Os jogadores logo perceberam que cada personagem traz sua própria bagagem emocional em cada casamento.

Maru sente falta dos pais e acha o ajuste difícil. Elliot está sempre insatisfeito com a sua decoração da casa e vai mudá-la sem a sua permissão. Sam perde sua conexão com a cidade e desiste de música. O casamento pode ser uma ferramenta de destruir almas. Não é uma recompensa onde tudo é luz do sol e margaridas. E é preciso trabalho para dar certo.

Stardew Valley é um jogo programado do zero por Eric Barone, ou ConcernedApe, e é muito mais do que um simulador de fazenda. É uma experiencia (ainda em atualização, a opção de divórcio foi recentemente implantada por exemplo) sobre a vida, depressão e comunidade. É um gênero que não agrada todo mundo, verdade, mas quem é fã de slice-of-life não vai encontrar nada melhor para jogar tão cedo.



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