quinta-feira, 25 de maio de 2017

[GAMES] NieR: Automata (ou Deus merecia levar umas bifas)



Vamos supor, apenas pelo bem do argumento, que Deus existisse. O que poderiamos pensar a respeito desse sujeito? Bem, como eu já disse quando escrevi sobre Death Parade, não muito realmente. Tentar entender uma inteligencia alienígina que não foi construída na nossa cultura é o mesmo que tentar entender Cthullu.

O que podemos dizer com certeza, no entanto, é que essa figura não foi muito legal com a gente. Fomos largados nesse mundo sem um propósito, sem um manual de instruções, sem uma direção a seguir. Pior ainda, largados em um mundo extremamente hostil onde uma forma de vida só conseguir sobreviver tirando algo de outra.

Como se diz, a vida real tem gráficos lindos mas o feedback para o usuário é pavoroso.

Pois bem, você poderia achar então que ao menos nós iríamos aprender algo com isso, certo? Ao menos não repetir os mesmos erros, certo? Bem, é óbvio que não.

Eventualmente cometeremos os mesmos erros com as máquinas e como elas vão durar nesse planeta muito mais do que nós é apenas questão de tempo até elas se sentirem abandonadas e sem propósito da mesma maneira. Tudo isso já aconteceu antes, tudo isso vai acontecer novamente.

Ao menos nós temos tempo ainda de deixar um "Foi mal gente, desculpe o transtorno", o que é muito mais do que Deus jamais se dignou a fazer por nós. Vacilão. Isto dito, falaremos a seguir sobre robôs depressivos.



Fanservice e depressão. Oh boy, esse vai ser o meu jogo...
No ano 11194 (sim), as coisas deram ruins para a humanidade de  uma forma espetacular: aliens decidiram que queriam a Terra para eles e lançaram uma onda de máquinas inteligentes para expulsar os seus antigos inquilinos. Apanhando mais que custo em bolicho, a humanidade tomou uma ruim tão feia que tudo que conseguiu fazer foi pegar meia duzia de gatos pingados e fugir para uma base na Lua.

Mas isso não ficaria sem resposta, claro que não! Para reclamar a Terra de volta o conselho da raça humana na lua criou andróides para descer lá e fazer o trabalho sujo. Os andróides top de linha desse projeto são os modelos YorHa, e é com as unidades 2B e 9S que faremos a Terra grande novamente!

Glória pela humanidade!

... exceto que em nenhum momento você nunca realmente vê nenhum humano. Seus líderes da YorHa te dizem que recebem ordens deles, mas você não pode falar com eles. Ninguém pode.  Eles te garantem que os seres humaninhos, seus senhores e criadores, estão lá em algum lugar quentinhos e protegidos... só que você não pode ver eles nem falar com eles. Vai ter que apenas aceitar a palavra de seus "representantes" e era isso.

Isso te parece com algum sistema social que exista no nosso mundo? Pois é, né?



De qualquer forma, a missão de 2B e 9S não é particularmente complicada já que embora as máquinas deixadas pelos aliens tenham poder de fogo e quantidade, não são particularmente desenvolvidas ou capazes de pensamentos muito complexos.

Na primeira vez que você joga basicamente seu trabalho é ajudar os outros andróides membros da resistência (não tão avançados quanto os modelos YorHa, mas androides mesmo assim), fazer quests e destruir máquinas aleatórias. As máquinas se comportam de forma estranha, verdade.

Isso não vai acabar para nenhum de vocês nessa imagem.
E por estranho eu quero dizer tentando emular comportamentos humanos como formando famílias, fingindo que estão transando ou encenando Shakespeare... ok, é estranho, mas não são pensamentos de verdade, são? É apenas uma falha estranha de programação... não é?

De qualquer forma os andróides não acreditam que as máquinas contem como seres vivos então glória pela humanidade! No fim você enfrenta alguns "andróides do mal" com muita cara de personagens de anime mas o bem vence o mal, espanta o temporal e ta tudo certo... certo? Certo?

Bem, se eu tivesse que descrever NieR com alguma sensação que te permeia o jogo inteiro, seria "algo errado não está certo".

Quando você joga o jogo pela segunda vez, agora controlando o andróide batedor 9S ao invés da guerreirona 2B começa a ver que algo errado está muito errado.

Um dos primeiros chefes do jogo é uma grande máquina vestindo um vestido vermelho rasgado e usando cadáveres de andróide pendurados ao redor de seu rosto. O jogo inicialmente o apresenta como uma máquina que despirocou. Beleza. Na primeira vez que você a enfrenta você senta o sarrafo nela com a 2B enquanto o jogo controla 9S que hackeia ela - mas como você está ocupado descendo a lenha nem presta muita atenção nisso

É só quando 9S hackeia a máquina no segundo gameplay, e agora você está jogando com ele, que você entende o que aconteceu. A máquina é "ela", e seu nome é Simone. Ela estava apaixonada por outro robô que não retornava seu interesse. Simone então pesquisou a história da humanidade para ver se conseguia alguma ideia. E essa foi a sua ruína.

Ela aprendeu com o que os humanos deixaram que para ser amado você precisa ser bonito. 

"Mas o que é beleza?", Simone então se perguntou. Depois de muito andar pelo velho mundo, Simone meio que pegou uma ideia do que os humanos entendiam por beleza. A beleza é pele bonita. A beleza é acessórios elegantes. A beleza é parecer agradável. 

Simone tentou tudo que conseguiu achar para ganhar afeição, para sentir a concepção humana de desejo, e isso acabou a deixando louca. Tipo Cisne Negro louca. Ela devorou as máquinas ao seu redor, baseado em um boato que ela tinha ouvido. Esse autómato de canibalismo a fez vomitar, mas se isso significava ser amada, valia a pena. Não significou.
"Eu olho no espelho", disse ela. "E em seu reflexo vejo apenas minha própria falta de sem sentido. E assim, eu grito." Essas foram as últimas palavras de Simone antes que 2B a estraçalhasse sem ter a menor noção do que estava matando. Ou mesmo a noção de que estava matando alguém. 9S decide ficar quieto, talvez seja melhor para 2B que ela não realmente saiba o que está fazendo.

Eu sinto muito, Simone. Eu realmente sinto muito.

A história de Nier é a história da própria humanidade: uma busca pelo propósito. Mais e mais, o jogo apresenta máquinas (também abandonadas por seus criadores aliens) que largadas sobre uma Terra em ruínas procuram um significado para sua existência, apenas para não encontrar nenhum. Não existem respostas, não existe propósito. Existe apenas desespero e vazio.

Poucas vezes um trailer honesto foi tão verdadeiro. E realmente você tem que entregar sua carteirinha de ser humano se não gostar da trilha sonora. Sinto muito, você apenas tem.

Bem, isso é realmente muito ruim para as máquinas mas ao menos os andróides tinham um proposito ainda, uma última tabua de salvação: eles poderiam sempre retornar a uma idéia central: salvar a humanidade. Significa suportar uma guerra que já dura milhares de anos, mas se está a serviço do que é supostamente o bem maior então tudo bem.

"Glória pela humanidade!", é o bordão que os andróides repetem a exaustão. Mais para si mesmos do que para os humanos.

Mas no segundo playthrough, onde o jogador assume o controle do 9S, essa ilusão é quebrada. A humanidade foi extinta há muito tempo. Não há colônia na lua. O chamado "Conselho da Humanidade", um grupo de humanos que ocasionalmente envia mensagens para as máquinas que lutam por eles, não existe. As mensagens vêm da lua, mas não de seres humanos. 

"Precisamos de um deus pelo qual valha a pena", te diz a sua comandante. 

Gothic Lolita com espadão vs robos canibais. Yep, é
tão bom quanto soa.
A humanidade é a religião das máquinas de Nier, mas sem respostas claras, e à medida que as máquinas de cada lado do conflito começam a lutar com o desenvolvimento de sua própria consciência, os seres que as criaram - sua forma de deuses - as deixam desesperadas. 

Uma das missões secundárias mais assustadoras em Nier é chamada "The Wise Machines", onde você rastreia uma série de robôs lançando linhas vagas sobre o significado da vida e contemplando o nascimento. A terceira máquina é encontrada no topo de uma torre de transmissão abandonada,  centenas de metros acima do solo. 

"Nós fomos criados para lutar", ele diz. "Para eliminar todos os outros e residir no auge da existência. Mas a batalha se estende eternamente. Nosso maldito ciclo de destruição e renascimento continua sem fim. Nosso único propósito é tirar. Nenhum de nós neste mundo é amado.Este mundo não tem necessidade de nós. Há apenas uma solução". O robô salta da torre, se espatifando no chão. 

Em essência não é isso o que a vida é? 

Mas tudo bem, se em seu segundo playthrough 9S entende que não existe propósito para os andróides nesse mundo, ao menos eles ainda tem uns aos outros. Talvez se eles ficarem juntos eles possam descobrir seu próprio propósito, mesmo que seus criadores já tenham puxado o carro. Ele ainda tem a 2B, então tudo vai ficar bem, certo?

Enquanto eles tiverem  um ao outro tudo vai ficar bem, certo?

Bem, se você percebeu algum padrão aqui ... já sabe como isso termina. Basta dizer que você não joga o terceiro gameplay com a 2B. Isso é mais do que 9S pode aguentar.

 Yoko Taro, o criador da série, faz todas suas aparições publicas usando essa máscara. Todas. Taí um homem cujo trabalho eu preciso conhecer melhor...

NieR, no entanto, não é um jogo exclusivamente depressivo. Em meio a tanta desesperança e coisas que possivelmente não tem como dar certo, em meio a loucura e vazio, nascem momentos genuínamente bonitos. Como quando os drones que acompanham os personagens o jogo inteiro começam a desenvolver os primeiros sinais de consciência é um dos dialogos mais bonitos que eu já vi em um videogame.

Por mais paradoxal que seja, todo o terceiro gameplay é justamente sobre A2 (uma andróide tipo YorHa que foi traída e quase morta pela sua organização) aprendendo a voltar a confiar. Nas maiores adversidades nascem as mais belas flores.

Tecnicamente, o jogo é um hack'n slash da Platinuum. Se você já jogou Bayonetta ou Transformers Devastation, sabe bastante o que esperar aqui. O que meio que é o problema do jogo. Pode parecer estranho dizer isso, mas "jogar" NieR é a parte menos divertida do jogo.

Ao final de cada uma das 8-10 horas necessárias para terminar as três rotas principais, você provavelmente se encontrará repetindo os mesmos movimentos dezenas de vezes. Isso não significa que a jogabilidade é ruim, ela flui bem e tem um ritmo intenso, mas, mais uma vez, há um vazio.

Não sei, talvez a ideia seja essa mesmo. Afinal vazio é o tema do jogo, mas ainda sim é estranho.


A história do mundo de NieR também estranha, mas isso mais porque é apenas em seus momentos finais que o jogo te lembra que na verdade é a QUINTA parte de uma saga. Muito do que acontece no jogo não tem explicações auto-contidas (como porque a morte das androides gemeas é importante), mas vale a pena lembrar que esse é o capitulo 5 da história - mesmo que para mim tenha sido o primeiro.
Everything that lives is designed to end. We are perpetually trapped in a never-ending spiral of life and death. Is this a curse? Or some kind of punishment? I often think about the god who blessed us with this cryptic puzzle...and wonder if we'll ever get the chance to kill him. —2B
Eu te entendo, mana. Eu realmente te entendo.






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