domingo, 7 de maio de 2017

[CINEMA] MOANA (ou a continuação de Frozen que você não esperava)


Moana é uma continuação direta de um dos maiores sucessos da Disney nos últimos anos, mas não da forma que eu esperava. Como era a forma que eu esperava? A princesa Anna encontra um artefato mágico que a faz crescer exponencialmente até se tornar um kaiju, então as pessoas de Arendelle diriam “ih, cara, ela é moh Anna agora!”.



Vou te dar um momento para refletir sobre o que eu fiz aqui enquanto eu falo sobre o resto do filme.



Em cartaz: “The Legend of Disney – Wind Waker”
Há muito tempo, atrás em um oceano muito distante, havia uma pequena comunidade muito feliz em sua ilha. Quer dizer, tão feliz quanto alguém pode ser quando sua dieta é 90% composta de coco. Mas, enfim, as pessoas estavam de boa. Exceto por uma única pessoa.

A filha do chefe, a “princesa” Moana, cresceu com essa sensação de que havia algo errado, de que havia algo faltando. Ela tinha um sonho: ir além, cruzar a barreira de corais do atol da sua ilha e apenas ver o que tem lá. A sensação mais humana que existe, e uma de nossas melhores características. Um sentimento inato à nossa própria espécie que nos fez querer ver o que tinha além das savanas da África, e um dia nos levará a ver o que tem para lá de Alfa Centauri.

Então Moana cresceu com esse chamado à aventura, mas, infelizmente, como nós, ela não podia simplesmente sair por aí numa aventura. Ela tinha um emprego pela frente (no caso, vir a ser “chefe da porra toda”), contas a pagar e cocos para cozinhar. Sério, gente, essa dieta de vocês tá foda, hein..?! Mas, enfim, não é difícil se identificar com ela.

Você que tem um emprego bosta das 08h às 18h nunca se perguntou se não havia nada mais na vida? Se a vida não podia ser apenas mais que isso? Se não havia nada espetacular esperando para ser visto em algum lugar? Que a vida não podia ser muito mais estranha e divertida do que ela é?

Mas, infelizmente, aquelas contas não vão se pagar sozinhas. E, no caso da Moana, aqueles cocos não vão se descascar sozinhos.


Por isso o filme tem um primeiro arco incomumente longo. Um tempo de exposição muito maior do que o normal é dado ao “mundo comum” (como diria Joseph Campbell), onde mostra quem é Moana e porque os seus dilemas pessoais importam antes da aventura propriamente começar.

É uma escolha incomum em termos de roteiro, porque é uma aposta arriscada. Um tempo de exposição e construção de mundo tão grandes dados a um protagonista menos interessante ou relacionável implicaria no começo do filme parecer lento ou cansativo (mesmo o excelente Rogue One tem críticas nesse sentido).

Felizmente, a Disney sabe o que está fazendo. Ou, mais precisamente, a dupla de diretores John Musket e Ron Clements, que é praticamente o sinônimo da Disney nos anos 90, tendo sob seu cinturão filmes como A Pequena Sereia, Hércules e Aladdin. Então, sim, estamos falando com quem sabe muito bem o que está fazendo.

Foi uma escolha que deu certo, mas não sem um preço. O resultado disso é que Moana é a “princesa” da Disney mais legal de que eu consigo em lembrar em muitos, muitos anos. Honestamente, eu não consigo lembrar de nenhuma protagonista de filme da Disney mais legal que ela, agora pensando sobre isso.

Se alguma coisa, ela não espera ser salva ou pede ajuda – mas não em um sentido babaca arrogante, e mais no sentido de que, se ela precisa fazer alguma coisa, ela simplesmente vai lá e faz. Seja aprender a navegar na tentativa-e-erro, seja enfrentar um demônio de lava, mesmo sem ter nenhum tipo de poder especial, porque ninguém mais irá faze-lo. Ou seja, ela lembra muito uma versão adolescente da princesa Leia.

Alguns filmes da Disney já tiveram protagonistas bem legais, como a Rapunzel de Enrolados, a Tiana de A Princesa e o Sapo (nos primeiros cinco minutos de filme) e a Anna de Frozen. Mas aqui eles chegaram à verdadeira maestria.

Isso porque a missão de Moana é encontrar o semi-deus que roubou o coração da deusa (o que está fazendo o mundo morrer lentamente), e fazê-lo devolver. É assim que ela conhece o semi-deus arrogante Maui. Que é dublado pelo The Rock. Então, faça o que fizer, assista esse filme legendado. Não porque a dublagem não seja ótima (e é, ainda mais em longas da Disney), mas porque The Rock é vida, né?



Colocando dessa forma, não é tão diferente dos já citados A Princesa e o Sapo, Enrolados e Frozen. Uma princesa de personalidade forte tendo um companheiro que tem mais ego do que tem sangue nos filmes do Tarantino. Ambos os filmes têm rapazes arrogantes, chamativos e que surtam quando percebem os limites dos seus talentos.

A grande diferença aqui é a mocinha em questão, que é onde a Disney finalmente aperfeiçoou a fármula na qual vinha trabalhando nos últimos anos. Moana não é só uma “mocinha forte com personalidade”, ela é uma heroína não apenas impulsionada por sua própria força interior, assim como pelos ensinamentos e valores de sua cultura também.

O que quer dizer que, apesar de ser uma adolescente, Moana é a filha de um chefe polinésio e ciente das suas responsabilidades. De certa forma ela lembra um pouco o Aang de Avatar, porque, apesar de ser jovem e divertida, ela carrega a sabedoria e o fardo da sua cultura nas costas.

Então Moana é a evolução natural do que a Disney estava tentando fazer há algum tempo e havia culminado em Frozen. De certa forma, e foi isso que eu quis dizer com o título do texto: Moana é, de alguma forma, um “sucessor espiritual” de Frozen. Não uma continuação direta, claro, mas um aprimoramento das ideais que a Disney já vinha ruminando desde lá.


Se você entendeu a referencia, você é
automaticamente uma pessoa formidável
Uma das cenas mais emblemáticas e inteligentes de Frozen é que quem dá o “beijo do amor verdadeiro” para salvar a Anna não é o rapazinho que ela conheceu há dois dias porque, né gente? Bom senso. Moana é uma evolução natural dessa ideia.

Não há príncipe, não há mocinha a ser resgatada, e sua missão é muito menos sobre procurar um herói para salvar o seu mundo, e muito mais sobre achar o cara e arrastar ele pela orelha para salvar o mundo, quer ele queira, quer não.

Maui, em sua arrogância cômica, é, sim, muito interessante como personagem, claro. A Disney pegou cada gota de carisma do The Rock que pode (o que é muito mesmo) para o seu semi-deus, e o resultado é fascinante a cada cena. Maui (e sua tatuagem, o mini-maui) poderia facilmente levar o filme nas costas como protagonista. Dizer que a Moana é tão gostável e divertida quanto ele é dizer muito sobre ela

O mais interessante, na verdade, é que originalmente Maui é que deveria ser o protagonista do filme e não Moana. Foi uma sacada genial da Disney manter a estrutura da história escrita para um deus enfrentar, mas colocar como protagonista uma garota que só tem como poder ser cuspida de volta pelo mar (sério, é genial isso). Em seu melhor, Moana é uma heroína que tem que fazer não porque ela seja arrogante ou louca, mas apenas porque, se ela não o fizer, ninguém mais fará.

Isso quer dizer que ela sente medo, tem dúvidas, erra, e não sabe se o que ela está fazendo é realmente o certo. Mas faz mesmo assim, porque, como disse o grande Roberto Gómez Bolaños, isso é o que faz um herói de verdade:



O CALCANHAR DE AQUILES DO PACÍFICO

Como eu disse, os diretores escolheram fazer um primeiro arco longo para expor e familiarizar o público com a personagem – o que deu magnificamente certo. O problema é que isso não vem sem um preço, e agora vamos falar sobre isso.

O problema é que, como a introdução é muito longa, passa a sensação de que a aventura em si é um tanto curta. Ajuda muito que a batalha contra o caranguejo gigante seja genial – originalmente o personagem foi escrito para ser interpretada pelo David Bowie, e acabou ficando como uma brilhante homenagem.



O problema é que isso é quase meio que tudo. A aventura passa quase direto batida para o final. O resultado é que passa uma sensação esquisita de que os personagens são melhores que o filme.

Eu sei que não existe mágica e que o tempo no cinema é um cobertor curto. Para sobrar no começo tinha que ser tirado de algum lugar. Ainda assim, se existe alguma coisa que pode ser dita sobre esse filme não ser absolutamente perfeito, seria esse meio de campo aqui.

Ou acho apenas que eu gostaria de mais cenas dos cocos piratas. Afinal são cocos piratas que fazem referencia a Mad Max. Quem não gostaria de mais disso?


Referência tier-god. De nada.
DE VOLTA PARA A ESCOLA FAZ DE VOCÊ BOM DE BOLA

Musket e Clements não precisam provar nada para ninguém, não depois de tudo que eles fizeram nos anos 90. Felizmente, para nós, eles acharam que precisavam provar para si mesmos e estudaram muito antes de fazer seu filme totalmente em 3D.

O resultado é que eles usam elementos que só poderiam ser explorados com essa tecnologia. A saber, tem duas coisas dignas de nota no filme, que são a movimentação da água e o cabelo dos personagens.

Quando se faz animação em 3D é o elemento mais difícil de acertar a mão, porque ela tem uma movimentação muito única para se animar. Aqui ela é praticamente um personagem. Eles estão de parabéns por ter acertado a mão nisso.

Agora o mais impressionante é o cabelo dos personagens. Os polinésios não são conhecidos por seu cabelo liso, e a qualidade com que se retratou o “cabelo ruim” (infelizmente essa expressão ainda é muito usada no Brasil) dos personagens seria muito difícil obter em 2D.


 Moana não reinventa a roda, mas às vezes não é preciso faze-lo. Sim, o filme tem uma “princesa relutante com seu lugar no mundo” e um animal absurdo como alivio cômico. Muitos filmes tem essas coisas.

Só que mesmo um arquétipo antigo como “A Jornada do Herói” pode ser algo novo e revigorante, quando você tem um ponto sobre o que você quer falar. E, felizmente, nos últimos anos a Disney tem mostrado que tem muitas coisas a dizer ainda.




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