segunda-feira, 8 de maio de 2017

[CINEMA] ASSASSINS’S CREED (ou algumas coisas são reais, mas não deveriam ser permitidas)


Teste rápido: eu te digo uma premissa e você me responde o quão interessante isso poderia parecer nas telas do cinema, ok? Vamos lá: “um culto de assassinos do século XV enfrenta a inquisição para evitar que ela ponha as mãos em um artefato sagrado milenar que vai permitir que ela controle o mundo”. Nada mal, não? Se feito do jeito certo, podia ser algo tipo Indiana Jones (é só trocar “inquisição” por “nazistas“) só que com parkour e corridas nos telhados.

Ora, certamente eu assistiria um filme disso!

Então me avisem quando fizerem esse filme, porque esse Assassin’s Creed não é nada disso.

Pensando bem, acho que foi bom a Ubisoft não ter tanta participação no filme assim…
Michael Fassbender, também conhecido como “o cara que só pode estar devendo dinheiro para a máfia russa, porque é impossível alguém participar de tanto filme ruim por escolha própria”, é Cal – um cara que viu a mãe morta quando criança e agora está no corredor da morte. Façam as conexões que quiserem entre essas duas cenas. Se o filme não se deu ao trabalho de explicar não serei eu a fazer o papel dele.

De qualquer jeito, o androide de Prometheus é executado com injeção letal e acorda prisioneiro em uma instituição de pesquisa. Acontece que o rapaz é descendente de um dos membros de uma seita que sabe o paradeiro de um artefato muito poderoso. E acontece das industrias Abstergo terem uma máquina que permite reviver as memórias dos nossos antepassados gravadas no nosso DNA. Por isso eles salvaram o cara da pena de morte em troca de dar um bizu no DNA dele.
Parece simples, não? E é, só que o que eu expliquei em três linhas o filme leva UMA HORA E MEIA para explicar, e nem isso faz direito!

Você pode achar que eu estou exagerando, afinal, embora seja um conceito fantasioso (embora não tão longe da realidade quanto possa parecer) não é algo TÃO difícil assim de explicar. Quer dizer, como poderia ser preciso um filme inteiro para passar uma ideia dessas?

Simples: todos os diálogos do filme foram escritos pelo roteirista rejeitado para escrever as falas do Lex Luthor em Batman vs Superman. Vejam, eu não estou dizendo que foi o cara que não conseguiu escrever duas frases conectadas para um personagem, e sim alguém que fez o teste para esse trabalho e não foi considerado bom o bastante nem para isso. Porque, sério, essa é a única explicação que eu consigo imaginar para os diálogos pavorosos do filme.


- Me diz o que está doendo!
- É o meu bom senso. Acho que vamos ter que amputar!
Eu duvido muito que tenha sido feito algum teste de exibição para o público, porque se uma criança de oito anos tivesse assistido esse filme antes de ser lançado, ela apontaria facilmente que não é assim que seres humanos falam.

Um exemplo? Tão logo Cal acorda nos laboratórios da Abstergo (muito confuso, já que ele sequer deveria estar acordando, dado que sua última memória era de estar sendo executado através de injeção letal), ninguém tira dois minutos para explicar para ele o que está acontecendo (aquela mesma explicação do parágrafo acima). Ele sai andando aleatoriamente enquanto uma cientista, com tanto traquejo social quanto eu matraqueio com um cara chapadão sobre destino, erradicar violência e o sentido da vida. Aí ele vai parar no meio de uma gente em estado catatônico e, quando ele pergunta que porra tá acontecendo ali, o pessoal da Abstergo decide descer o sarrafo nele porque ele “não está colaborando”.

Eu não estou exagerando nem fazendo piada, é exatamente isso que acontece. Esse nível de coerência é o que costura do filme todo.

Sério, é uma coisa exaustiva de se assistir. Todos os aspectos do filme parecem contados por alguém que teve um AVC e tem a capacidade de fala muito reduzida.
P: O que é a “Maçã do Eden” e o que ela faz? Por que ela é tão importante para a Absergo?
R: ahuãlabuãralaralandootchãae destino Deus genes alchalagadanida
P: Por que o usuário do Animus (a máquina que recupera memória do DNA) precisa imitar fisicamente os movimentos da memória?
R: Bem, porque ele só ficar deitado lá seria chato de se ver no cinema… err, digo, aluãdãmadarafazendocongacombijuus sincronização catataunucleararrãcrã
P: Se os Assassinos são inimigos declarados dos Templários (cuja fachada moderna é a Abstergo), então por que a Abstergo deixa eles soltos em suas instalações para tramarem o que bem entenderem?
R: alibabaadibiodapudashouriukentectectugen
Desculpe, mas isso sequer parece uma resposta.
R: Sim, nós nem tentamos explicar isso. É só para ter uma reviravolta no filme, mesmo que não faça sentido algum.

É um daqueles casos em que eu realmente duvido que alguém tenha lido esse script antes de sair filmando. O que é uma pena, porque as cenas coreografadas de ação são realmente lindas. Visualmente as cenas de ação que se passam na Espanha em 1492 são tudo que qualquer gamer sempre sonhou ver adaptado na tela grande. Palmas para o controle de qualidade da Ubisoft.

Quer dizer, são tão bonitas quanto desnecessárias, claro. Porque, por mais espetaculares que as perseguições nos telhados sejam, não fazem o menor sentido quando a rua abaixo deles está abarrotada de gente e os Assassinos se perderiam na multidão em meio minuto (porque, ao contrário dos jogos, eles não usam robes brancos que se destacam a oito hectares de distância, e nem carregam dois machados, quatro espadas e duas bestas nas costas),

O problema é que essas cenas “das memórias” são menos que 10% do filme. E pior que isso, as cenas de ação no presente ultrapassam o ridículo. Fassbender parece uma criança brincando de lutar kung-fu na frente do espelho, ou uma versão saradona do Star Wars kid, se preferir. É tão tosco e ridículo que é difícil acreditar que estamos assistindo ao mesmo filme.

Com efeito, não sei o que é pior: ouvir diálogos que foram escritos para uma versão piorada do Lex Luthor de BvS ou as cenas constrangedoras de ação.

Eu sei que eu estou parecendo muito implicante com o filme, mas ao ouvir a motivação que faz Cal querer ajudar a Abstergo a exterminar a raça humana e mudar de ideia são de uma imbecilidade que chocam se você já não tivesse tocado o foda-se para o filme quase uma hora atrás.

A falta de conexão de lé com cré acaba diminuindo mesmo as belíssimas cenas ambientadas na Espanha, já que não sabemos exatamente quais são os objetivos dos personagens naquelas cenas, exceto que eles estão saltando de telhado em telhado.

Mesmo a “Maçã do Eden” acaba soando absurdamente ridícula, porque acaba parecendo muito menos com um artefato mítico, e muito mais com um bando de adultos levando o capítulo do Gênesis ao pé da letra. O filme realmente te dá a impressão de que eles estão mesmo procurando a própria maçã de Adão e Eva do jeito que a coisa é colocada.

E mais uma vez, por aí segue a dinâmica da coisa.

E eu continuo sem fazer ideia do que essas coisas no telhado são…

Muitas coisas funcionam desse jeito. O “Salto de fé”, por exemplo, é um movimento icônico dos jogos e tem um contexto para não parecer gratuito e imbecil (acredite, cair de 800 m de altura em uma cama de feno e sair ileso é, sim, muito imbecil). No filme quase deu pena da atriz na cena do “tenho que usar essa palavra porque é uma coisa do jogo”.

Sei lá, talvez tenha sido só a dublagem muito ruim, mas parecia que os atores estavam profundamente constrangidos em estarem naquele filme – não que eu os culpe. Se eu me senti mal por ver o Jeremy Irons e a Marion Cotillard em papéis com falas tão mongoloides (do tipo “vou curar a violência porque ela é igual ao câncer”), imagino como eles se sentiram. Acho que todos têm contas a pagar, afinal…

Resumo da ópera: visualmente não se poderia desejar adaptação melhor do Credo dos Assassinos. Para muita gente – e gamers não são o mais exigente dos públicos quando o assunto é narrativa – isso pode ser suficiente. Mas não muda o fato de que faltou colocarem um filme no meio disso aí.

Ou como disse o The Telegragh:Para aqueles que achavam que nos filmes de Dan Brown faltavam um pouco parkour, esse talvez seja o filme certo para você, mas para os outras 99,9% pessoas sãs ao redor do mundo, é uma grande decepção.”


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