sexta-feira, 21 de abril de 2017

[SÉRIE] LUKE CAGE (ou eu nunca mais vou ver o professor Girafales da mesma maneira)



Você sabe como reconhecer se uma adaptação é ruim? Que ela falhou miseravelmente? É bastante simples: basta ouvir alguém que gostou da obra começar. Esqueça os haters, vá direto aos fãs mesmo. Se o argumento dele começar com "ah, mas para entender você teria que ter lido/visto/jogado...". Pronto, lixo radioativo. A menos que estejamos falando de uma obra intencionalmente multimídia, mas esses casos são raros.

Nesse sentido, Luke Cage é uma adaptação maravilhosa, porque traduz a sensação para quem não tem vivencia naquilo (que é meio o que a arte supõe fazer). Ou, se não é assim como eles mostram na série, ao menos me enganou o bastante e isso é o suficiente. Não, não estou falando dos quadrinhos, e sim da experiência de ser um negro suburbano americano em 2016.


Essa sensação, esse feeling, a batida das ruas do Brooklyn, do hip hop, as quadras de basquete, a truculência policial desnecessária ao tráfico de drogas, a série faz muito bem em transmitir. Com efeito, seriam necessárias poucas alterações estruturais para que a série se passasse em uma favela brasileira.


Passar sua ideia, sua mensagem através de metáforas (muito melhor elaboradas e discretas que em Jessica Jones) é algo que Luke Cage faz muito bem. Todo o resto é que é, hm, discutível...


UMA SÉRIE PARA CHAMAR DE SUA. MAS QUAL DELAS?


Se um dos maiores problemas de Jessica Jones era ser um samba de uma nota só, e descarrilhar grandemente quando se afastava de seu tema principal, Luke Cage faz o caminho inverso. "Luke Cage" na verdade é um conjunto de séries muito diferentes dentro de um mesmo programa, que não conversam exatamente muito bem, e algumas são melhores do que outras. Algumas MUITO melhores do que outras.


No espaço de 13 episódios de uma hora, Luke Cage é uma série de origem de super herói (no clássico arco que um herói relutante assume lutar a "boa luta" por uma motivação pessoal), é um thriller policial, é uma metáfora sobre o tratamento que os negros recebem da polícia e da imprensa, é uma trama sobre corrupção e poder a lá "House of Cards do guetto".


E como eu disse, nem todas essas séries exatamente conversam entre si.


Temos, por exemplo, a trama da detetive Misty Knight, que está tentando descobrir o que diabos está acontecendo no Harlem. Misty é uma personagem interessantíssima, só que sua trajetória tem um problema: nós já sabemos o que está acontecendo. Os "crimes inexplicáveis" que ela investiga (que só seriam explicados através de um super humano na área), a corrupção que bloqueia o seu caminho, nós já sabemos o começo e o fim dessa história, porque já foi mostrado – é só a coitadinha da Misty que não sabe mesmo, e existe um ponto sobre o quão divertido pode ser um drama policial que nós já sabemos o fim.


Já a jornada de origem de Luke Cage, de sair do conforto do seu mundinho comum até ser o campeão da comunidade é mais interessante de se assistir, mas não tanto assim também. Acontece que Cage não tem como fazer muitas cenas de ação porque, bem, ele é praticamente invulnerável. Novamente, existe um limite do quanto se pode atirar em uma pessoa a prova de balas e isso ser interessante de se assistir. É um limite muito baixo, eu diria.


Então, se Cage não pode ser vencido no combate, a única ameaça real a ele é em quem os tiros rebatem. Isso é feito com variados graus de qualidade e, frequentemente, de uma forma bastante piegas. O que faz o diferencial aqui, e o que realmente faz nos importarmos com o que acontece ao redor de Luke, é a grande atuação de Mahershala Ali como o vilão "Boca de Algodão" (como a cobra, a mesma da Lucy Liu em Kill Bill).


A coisa interessante a respeito do Boca de Algodão é que ele quer muito, mas muito mesmo, ser o novo Rei do Crime. Só que ele não tem o talento e a capacidade do Wilson Fisk. Sua tentativa de ser um bandido muito melhor do que ele efetivamente consegue ser, e as inevitáveis limitações nas quais esbarra por causa disso (e também por ter os piores capangas do mundo, vamo ver esse RH aí, meu filho), tornam o personagem único e em uma interessante comédia de erros.


A valsa entre Cage e Boca de Algodão é interessante enquanto dura, e os danos colaterais que o vilão acidentalmente causa tornam mais interessante ainda. Com certeza esse é o clímax da série, lá pela metade dela.


Só que na segunda metade da série a coisa só vai ladeira abaixo. Sai um dos melhores atores da atualidade em um personagem falho e complexo e, em seu lugar, surge um vilão de filme ruim de super-heróis. Kid Cascavel é um acidente de trem que leva quase toda a reta final da série consigo, basicamente por ao tentar ser um uber vilão ele não consegue ser coisa nenhuma.



Aparentemente a Netflix tem obrigação contratual de
ter uma cena foda de luta de corredor por série

É muito pedir a um personagem para ser um assassino frio-frio que faz todo o trabalho sujo ele mesmo E ser um chefe do crime que se classifica acima do Boca de Algodão e todos os gângsteres do Harlem E ser meio-irmão vingativo Cage, que não só incriminou Cage como o colocou na prisão E que tem uma super armadura (ridícula, por sinal) para lutar de igual para igual com o Poderoso
Ufa, é "E" demais. Uma ou até duas dessas coisas poderiam ter trabalhado juntas, mas do jeito que foi feito só faltou ele ter um bigode fininho de vilão dos anos 30 para ficar retorcendo enquanto tramava amarrar a mocinha da série nos trilhos do trem. Sério, né?


Enquanto não está amarrado ao drama familiar menos interessante da Marvel (hey, ao menos o Loki é legal), Cage gasta a maior parte da segunda metade da série andando com a Claire Temple, e esses são alguns dos melhores momentos do Luke como personagem porque, de alguma forma, a Rosario Dawson faz ele parecer um ser humano de verdade, e não uma parede (a prova de balas) de responsabilidade após a morte do seu mentor. 


Na verdade a Claire é uma das coisas mais interessantes dessa série. Ela dá uma levantada legal na qualidade dos personagens quando esta por perto que, de outra forma, são bastante protocolares (a exceção da Misty Knight, que é muito legal, mas enfiaram ela em uma subtrama policial que você já sabe desde o começo que não vai dar em nada).


A qualidade da escrita do roteiro também compromete muito as questões sociais da série. Visualmente é muito bonito ver a comunidade abraçando a ideia de um super herói negro, e de como a policia tende a ter o dedo progressivamente mais nervoso no gatilho quanto menos alva for sua pele, mas os motivos pelos quais isso acontece, e pelos quais Luke é “incriminado”, são tão mal escritos que você não consegue apreciar a cena sem pensar “éééééé… eu ACHO que não seria assim que aconteceria não...”. De todos os momentos que a suspensão de descrença poderia falhar, atrapalha muito que seja justo na hora de passar a sua mensagem.


Deixa eu explicar: existe uma grande sacada em transformar o maior preconceito que o personagem sofre - ser um homem negro ex-presidiário - no elemento chave de suas habilidades. A ironia e a justiça poética são lindas. Mas quando sabemos que ele foi preso por um motivo absolutamente idiota, muito dessa força se perde no caminho. Eis o problema.


Da mesma forma existe uma mensagem poderosa por trás do conceito de um protagonista negro à prova de balas, que se torna o alvo de perseguição tanto da polícia quanto dos bandidos, apesar de suas ações serem benéficas. Mas quando a polícia e os bandidos estão atrás dele por motivos mal escritos no roteiro… Perceberam o problema aqui?






Luke Cage não é uma série ruim, mas tenta fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e pelo menos metade delas faz muito mal. O que significa também que metade faz muito bem (como transmitir o feeling do Harlem, ou a história da origem dos poderes do herói atualizada para 2016, que ficou muito boa, por exemplo). Então é mais uma questão de ver o copo metade cheio ou metade vazio, eu suponho...

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