domingo, 16 de abril de 2017

[LIVROS] PEQUENOS DEUSES (ou Deus está desligado ou fora da area de cobertura)



Na minha fase atual da vida, eu me definiria como "pós-ateu". Isso significa que eu tenho uma noção bastante boa de como a realidade funciona, mas apenas escolho nunca mencionar essa palavra com "A". Porque? Bem, como Oscar Wilde supostamente disse uma vez, "um idiota é alguém que percebe uma verdade que todos os outros já sabem mas não comentam, e mesmo assim a diz em voz alta". Ou Mark Twain. Ou nenhum dos dois, sabe como é a internet, né?

Seja como for, já deu meus dias de assistir "Deus não está morto" para apontar todos os erros de lógica (e bom senso) do filme, meio que já passei dessa fase de ateu revoltadinho que precisa compartilhar com o mundo inteiro o quando ele está putinho da cara porque se deu conta que acreditou em papai noel até os 20 anos de idade. Na verdade eu acho bem imaturo quem faz isso e não tenho muita paciencia com isso.

Por isso fica claro que um livro de 300 páginas fazendo uma paródia de como as instituições religiosas funcionam, em particular chutando o cachorro morto que é a inquisição, dificilmente provocaria algum interesse meu maior do que revirar os olhos entediado.

A menos, é claro, que esse livro tenha sido escrito por Terry Fucking Pretchet.

"E, como é geralmente o caso em épocas em que um profeta é esperado, a Igreja redobrou seus esforços em ser santa. Algo bem parecido com a agitação que acontece em toda grande questão que envolve auditores, só que com a prisão de todos os suspeitos de serem menos santos, mortos de centenas de maneiras engenhosas. Considera-se isso, na maioria das religiões realmente populares, um barômetro confiável do estado de piedade de uma pessoa. Há uma tendência em enxergar mais escorregadelas do que no campeonato nacional de tobogã, em declarar que a heresia deve ser arrancada pela raiz — e também pelos braços, pernas, olhos e línguas — e que é a hora de um novo começo. sangue é geralmente considerado muito eficiente para esse fim"

Obras-primas verdadeiras são raras no meio de uma série. Mesmo quando elas são muito boas, novelas em uma série geralmente têm um elemento de previsibilidade que os mantém aquém da grandeza real. Small Gods, no entanto, é um trabalho de ficção em série que se classifica como uma das melhores ficções humorísticas já escrita.

A maioria dos romances de Terry Pratchett se ambienta num cenário de fantasia chamado Discworld. É plano e dá pra cair da borda. É suportado por quatro elefantes que estão na parte traseira de uma tartaruga gigantesca. Magia funciona, e as leis da física são estranhamente distorcidas. Pratchett usou este cenário para criar alguns excelentes romances humorísticos envolvendo vários personagens recorrentes. Essa é sua série "Discworld"

Small Gods se passa muito antes do período de tempo em que a maioria desses romances ocorrem; Além de uma cena breve de viagem no tempo, o único personagem em comum com os outros romances é a Morte, que é eterna. Esta separação permitiu Pratchett fazer algo muito diferente, criando um romance que é ao mesmo tempo humorístico e filosoficamente expressivo.

Em Discworld, há muitos deuses. Seu poder depende de ter crentes; Um deus sem crentes se desvanece em um espírito impotente, errante, se torna um "pequeno deus" que desaparece atrás do rodapé da história. O Grande Deus Om tem uma igreja poderosa, mas apenas um crente real, um monge novato chamado Brutha. Drenado do poder da devoção, ele encontra-se preso no corpo de uma tartaruga comum que só pode se comunicar com Brutha.

No início, Brutha é extremamente simplório. Ele tem memória fotográfica e nenhuma ambição, isso e a vida severamente restrita do mosteiro tornaram desnecessário para ele aprender a pensar. Mas estar em comunicação regular com um deus pode fazer coisas estranhas a uma pessoa - coisas que nem mesmo o deus pode esperar.

O Exquisidor, Díacono Vorbis, acha o talento de Brutha aliado a sua completa inocência muito úteis. Vorbis é uma personificação muito bem desenhada do fanatismo autoritário, e o humor que atravessa o livro não o impede de ser assustadoramente mal. Como Brutha finalmente observa, Vorbis muda as pessoas para serem como ele, mesmo quando estão lutando contra ele. Brutha começa tentando servir a dois mestres muito diferentes e contraditórios, Om e Vorbis. Mas até o final, ele cresce para uma compreensão completa de ambos, e percebe que não necessidade de se "servir" a ninguém.

Mas Om também aprende, quando se mete em apuros sendo parte de um mundo que anteriormente tinha sido apenas uma fonte de adoradores para ele. Ele enfrenta constantemente perigo físico por ser uma tartaruga, bem como a possibilidade de perder seu último seguidor. Sua condição fornece um comentário contundente sobre se as pessoas precisam de deuses ou deuses precisam de pessoas.

A Igreja Omniana afirma que o mundo é esférico e circunda o sol, e aqueles que acreditam de outra forma correm o risco de serem torturados e mortos como hereges. Mas o mundo Discworld é realmente plano e não orbita porra nenhuma, e os filósofos de Ephebe - uma terra com uma forte semelhança com a Grécia antiga - não têm medo de dizer isso. A palavra de ordem dos hereges é "A Tartargura Anda" (uma paródia a suposta famosa frase de Galileu).

O grande lance aqui é que além de proporcionar algum divertimento, esta inversão ajuda a abalar o pensamento do leitor, dando um lembrete de que o que é importante é descobrir o que realmente é verdade, independentemente do que "todo mundo sabe".

Porque o livro não é um simples ataque à religião, eu diria até que é uma defesa da fé verdadeira. Os deuses são reais em Discworld, então a fé não é tola ou equivocada. Acreditar nos deuses é tão válido como acreditar que o Discworld é carregado nas partes traseiras de quatro elefantes que estão na parte traseira de uma tartaruga gigante do espaço.

O que é mau é o tipo errado de crença, a que é usada para fins perigosos. Om chama a atenção para isso quando ele manda Brutha pegar uma pedra e matar Vorbis. Brutha, aterrorizado, recusa. Vorbis e de tudo que  representa tem mais poder do que um Deus real. E não é assim que funciona no nosso mundo também?

É por isso que Om é uma tartaruga, porque seja o que for que as pessoas acreditam em Omnia, não é no Deus; é no sistema em torno dele. Na verdade, o "Deus" em si é a parte menos importante do sistema religioso.

Brutha é o pratognista da novela, um sujeito simpático, ingênuo, sem aspirações, cuja fé é desafiada e questionada durante todo o livro, entre Om que anda com ele (queimando seu filme como Deus) e ele encontrando filósofos na Grécia de Ephebe.

Mas sua fé permanece, sua fé é justificada e ele se torna o maior governante Omnia já viu. Apesar da pirotecnia de Pratchett, ele é muito mais sutil do que ele vende.

Por exemplo, o exquisidor Vorbis não é só um dos melhores personagens do livro, mas um dos melhores personagens da literatura. Ele atravessa os limites exteriores do que um personagem complexo deve ser, mas não se desloca muito para os reinos unidimensionais de vilões que giram os bigodes enquanto tramam coisas horríveis. Ele é um torturador um cruel e sádico, mas eu diria que ele é mais pragmático do que mau.

Ele não está agindo por puro interesse próprio, ele está agindo por interpretação errada da fé e no que ele acha que é o melhor interesse do Estado e seus súditos. Ainda está errado, ainda é horrível, mas o núcleo de sua crença "é" justificado. Como todos sabem, os melhores vilões são aqueles que se consideram os heróis de suas história e Vorbis é o maior exemplo de Pratchett até agora.

No final, Brutha diz à morte que Vorbis mudou as pessoas, para o bem ou para o mal, mas ele não pode mudar a si mesmo. É brilhante. E errado.

A ambiguidade está em toda parte no romance e a coisa chave que Pratchett está exigindo do leitor é fazer perguntas - se a de Brutha ou Vorbis, ou qualquer outro personagem e seu ponto de vista. Tudo funciona aqui. Os personagens são ricos, reais e falhos o suficiente para dar ao leitor uma coceira satisfatória de se coçar. O romance faz malabarismos com alguns temas robustos e habilmente evita respostas fáceis, mas os deixa leves com seu estilo de humor e alguns diálogos brilhantes.
Pratchett, nesta sátira em seu mundo fantástico, faz o que a ficção faz de melhor: usar a fantasia e o humor para falar da realidade. Só que se o humor britânico de Pratchett é freqüentemente marcado por um intenso cinismo, não é só isso. Se Douglas Adams e Monty Python riem como uma resposta desesperada a um mundo sem qualquer sentido, mas Pratchett mostra um lado cínico, mas sempre combina com o calor real. Em Small Gods ele carrega isso mais longe do que em qualquer outro livro dele que eu tenha lido, rindo do autoritarismo religioso para mostrar quão desnecessário ele é, e criando um tributo ao espírito humano no seu melhor.

Se você for ler apenas um romance do Discworld, deveria ser este. Mas eu não consigo imaginar uma situação em que você pudesse ler apenas um livro de um dos melhores autores de todos os tempos!


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