sexta-feira, 28 de abril de 2017

[GAMES] Pokémon Sun/Moon (ou i’m too old for this shit)


Em Pokémon Sun/Moon você joga com um(a) jovem (foi um detalhe legal deixar escolher qualquer sexo ou tom de pele, isso ajuda na experiencia) que acabou de se mudar para o equivalente ao Havaí do mundo de Pokémon. E é impressionante o quanto de carinho e atenção a Game Freak colocou nessa primeira parte do jogo.



O jogo passa realmente a sensação de uma criança se mudando para outra cidade, onde tem que fazer novos amigos do zero, se adaptar aos novos costumes, e conviver constantemente com a sensação de “estar fora de casa”. Pokémon Sun/Moon faz isso muito bem.

Adicionalmente, a primeira ilha de Alola é muito interessante, porque eles têm para os pokemons um tratamento diferente de qualquer outra coisa que você já viu em 20 anos de franquia.

Você conhece novos amigos e, depois de mais de uma hora de jogo (sério) é levado ao kahuna (o chefe da ilha), que após alguns eventos te pede para escolher um pokémon inicial. Então aconteceu a coisa mais impressionante que eu já vi em todos esses anos jogando Pokémon: o kahuna explica que não basta escolher o seu pokémon inicial (entre água, grama ou fogo), é importante que ele te aceite como treinador também.

Em mais de vinte anos jogando Pokémon, foi a primeira vez que eu vi os pokemons serem tratados com respeito, como algo especial naquele mundo.


Eu estava impressionado. Realmente era diferente de qualquer coisa que eu poderia esperar jogando Pokémon, e aquele poderia ser o começo de uma aventura completamente única. Os seus amigos não são personagens dolorosamente ruins, como em X/Y (argh, que desperdício de tempo aquilo), e a caracterização da ilha de Melemele é realmente única. Parece realmente outra cultura, com outros hábitos. Mais de uma vez eu ouvi algum nativo dizer “ah sim, mas não é assim que nós fazemos as coisas por aqui”.

Eu estava realmente impressionado. Tudo que o jogo precisava fazer agora era me deixar explorar esse mundo novo e… Eu disse, me deixar sair para explorar esse mundo novo e… Sério jogo, eu não estou conseguindo explorar muita coisa. Você poderia me deixar por conta própria? Eu acho que sei me virar daqui pra frente. Pode me deixar, e qualquer coisa eu te aviso, tá? Hm, não? Não vai rolar?
Ãh, jogo, você poderia soltar a minha mão agora e me deixar ter minha aventura?

Só que por algum motivo, não, o jogo não deixou.


BEM VINDO AO PESADELO DO ANIME RUIM
 
Basicamente o que você faz em Pokémon Sun/Moon é ir do ponto A ao ponto B marcado em seu mapa, sendo bloqueado de fazer qualquer outra coisa que não isso. Pior ainda: quando eu chegou ao ponto B, me é socada goela abaixo uma cutscene desinteressante com personagens para os quais eu não ligo, com falas genéricas que eu já sei exatamente quais são antes mesmo de serem ditas.

Após o começo muito interessante e sensível do jogo, Pokémon descamba para uma narrativa com qualidade de anime ruim, não muito diferente do que é o padrão na série.

O pior mesmo é que a premissa da história é muito boa. A Fundação Aether ajuda pokemons abandonados e maltratados, o que é muito legal da parte deles. Legal até demais, e desde o começo fica a desconfiança de que algo errado não está certo nessa história.

Em paralelo a isso tem as Ultra-Bestas – que são monstros de outras dimensões que alguém teve a brilhante ideia de querer trazer para o mundo de Pokémon (porque isso sempre acaba muito bem, né?). Eu sei que não parece grande coisa trazer mais monstros para um mundo que já está abarrotado deles, mas eles retrataram as Ultra-Bestas mais alienígenas no sentido lovecraftiano do que como apenas outros pokémons.

Existem muitas ideias acertadas aí, como Alola existir entre manter as tradições ou incorporar a globalização. Não existe uma “liga Pokémon” em Alola, e seu primo, o professor Kukui, quer substituir o sistema de desafio em ilhas pelo padrão de ginásios e com insignias consagrado no resto do mundo. É incrível… em teoria. Porque na prática eu não posso estressar o quanto nós temos escrita ruim de anime empilhada interrompendo seu jogo toda minima oportunidade que aparece.

Sério, a Game Freak é apenas ruim em contar histórias. Tudo dentro do jogo que está relacionado à narração, o que inclui a estrutura do mundo (a própria construção de mundo ignora os impactos práticos da existência dos pokemons, e certamente ignora completamente suas entradas na pokédex), a caracterização de personagens, o fluxo de enredo e a construção de história, mesmo como conversas entre personagens e NPCs, é da qualidade mais baixa dentro de todos os jogos de RPG que eu já joguei. Salvo raríssimas exceções, os jogos de Pokémon sempre foram assim.

E estava tudo bem.

Normalmente isso não importava, porque Pokémon é muito mais sobre os lugares que você vai do que o que você lê na tela. Só que aqui não, porque A CADA NOVA TELA essa escrita ruim e sem graça para o seu jogo por motivos com os quais eu não poderia me importar menos.

Isso combinado com uma escrita medíocre, uma premissa interessante não sendo explorada, e uma quantidade maciça de cutscenes que estão ali apenas pelo prazer de destruir seu sentido do ritmo, fazem de Sun/Moon uma experiencia frustrante. Mesmo se Alola é uma região incrível (o que é), você nunca se sente como se tivesse permissão para explorar, porque o jogo quer que assista essa cena e em seguida, assista a outra. O jogo está jogando por você e em Pokémon isso é imperdoável.

NO MAIS, MARAVILHAS TÉCNICAS
 
Quando o jogo não está ocupado não deixando você jogar em paz, Pokémon Sun/Moon é tecnicamente a melhor experiencia que se pode ter com Pokémon, sem quebrar os moldes da franquia. Tudo no jogo está muito bom, eles finalmente ouviram os fãs e adotaram o padrão Bravely Default de qualidade (de ir anotando as ideias pequenas que se tem enquanto joga).

O hediondo sistema de HMs foi finalmente substituído por algo mais simples, e que não depende mais de ocupar espaço no seu grupo (embora o Poke Ride seja muito bom, melhor mesmo só se fosse com os seus pokemons – fikadika), as telas de gerenciamento de itens e pokémons estão pimponas de tão otimizadas.

O sistema de ginásios foi substituído por algo bastante similar, mas que amplifica a sensação de aventura. Agora cada ilha tem dois ou três trials – que são pequenos puzzles ou desafios que não envolvem combates – como sempre foi nos ginásios antes de você chegar no líder. A diferença é que aqui você não enfrenta o “líder do ginásio” e sim o Pokémon Totem – uma versão grandona e bombada de algum pokémon que é o chefe da porra toda. Depois de enfrentar todos os trials de uma ilha, você pode enfrentar o seu kahuna, que é tipo o “líder de ginásio” da ilha.



Outra diferença bastante grande nesse jogo é que sua mecânica de combate foi simplificada, e para melhor. Agora, depois de lutar com um pokémon, quando lutar pela segunda vez com ele o jogo indica quais golpes são inefetivos ou superefetivos contra eles. Sim, eu sei, estou ouvindo seu ranger de dentes aí porque “no meu tempo…” e “os jogos de hoje em dia estão muito…” e tudo mais.
Eu sei. Been there, did that.

Entretanto, eu preciso te lembrar que, atualmente, existem 802 Pokémons distribuídos em 117 combinações de tipos diferentes, sendo que alguns têm características únicas devido às suas habilidades únicas (como o Ghastly ser imune a ataques tipo Terra por causa do seu Levitate, mesmo que fantasmas não sejam normalmente). Então, deixa eu repetir, ô seu fodetio: 802 POKÉMONS DIVIDIDOS EM 117 TIPOS DIFERENTES.

Se não era necessário o jogo te ajudar quando só existiam 151 pokémons e você podia decorar a tipagem de cabeça, agora seria de uma estupidez incrível limitar o jogo apenas a asiáticos ou acidentes genéticos dotados de tanta capacidade mental.

Aliás, o jogo também tem o “Island Scan”, que basicamente diz o paradeiro de pokemons contra quem você já lutou. Sim, agora tem como saber as coisas do jogo sem ter que pesquisar na internet. É pra glorificar de pé igreja!

Tem também os Z-moves, que são o novo gimmick dessa geração – que são basicamente um ataque especial que você pode fazer uma vez por luta (não importa quantos pokemons tenham o item para isso no seu time) e o Battle Royal, que é um modo de luta muito divertido de 4 pokemons contra 4. Sim, cada treinador solta um pokemon na arena e quem sobreviver no fim ganha, muito legal isso.

A MELHOR GERAÇÃO DE POKEMONS EM ANOS

Os jogos de Pokémon são muito sobre, adivinhem só, os pokemons. E essa é a melhor geração de pokemon em anos, discutivelmente a mais interessante de todos os tempos. Tem novas formas (variantes regionais) para pokemons tradicionais (então, TOME UM RATATA DE BIGODE, SENHOR!), mas, principalmente, muitas ideias únicas para pokemons. Quando eu fiz uma lista das coisas que precisavam mudar em Pokemon foi uma das coisas que eu pedi e, bom Arceus!, eles me ouviram!

Tem ideias realmente criativas aí, como o Oriocorio – que é um pássaro que pode mudar de tipo conforme a comida que ele come – ou o Wishiwashi, que é um peixinho que muda para a “forma de cardume” se estiver com mais de 20% do HP. E claro, o adorável, abraçável e fofuravel Mimikyu, que não só é o pokemon que mais merece um abraço em anos, como tem uma das habilidades mais únicas do jogo inteiro.

Basicamente todo meu time no jogo foi formado por Pokémons únicos de alguma forma, embora não necessariamente poderosos. Apenas diferentes, e isso é algo que a série precisava há muito tempo. O grande segredo aqui é que são apenas 80 novos pokemons (dos quais 20 são lendários, um absurdo até). Trabalhando em tão poucos novos pokemons, eles tiveram tempo para fazer a maior parte deles especial.

Claro que ainda tem alguns pokemons genéricos ou esquecíveis, mas não é como se não tivesse sido sempre assim. Ainda assim, essa é a uma das melhores gerações em todos os tempos.





Outra diferença bem grande é que o nível de amor do seu pokemon faz diferença prática no combate – antigamente importava apenas para evolução ou EV – e se o seu relacionamento com o pokemon é bom, ele pode evitar golpes, status ou até mesmo receber um endure. Isso é algo que faltava muito nos jogos, e o minigame de pet com o seu pokemon não só deixa ele mais feliz como remove status.


A frequência com o que o pokemon deseja ser “tratado” (e cada pokemon tem lugares onde ele gosta mais ou menos de receber carinho) também está diretamente ligado à natureza dele. Eu tinha uma Dugtrio que odiava sujeira, e toda luta que usava golpe de Terra ela pedia para ser escovada depois. Já o Mimikyu era meio depressivo e quase nunca me pedia nada.

TALVEZ NÃO TENHA NADA ERRADO COM O JOGO, SENÃO EU NÃO TER MAIS 14 ANOS. OU A GAME FREAK NÃO ENTENDEU O QUE É IMPORTANTE EM UM JOGO

Vou propor uma teoria estranha: a coisa que faz os videogames serem interessantes é exatamente a mesma coisa que faz os filmes, livros e seriados serem interessantes. Não parecida, não análoga, mas sim exatamente a mesma.

Um jogo não é relevante por seus botões ou seus gráficos, tanto quanto um livro não é importante pelas letrinhas desenhadas nele. O que realmente importa, o que você realmente leva contigo é a experiencia que você tira do entretenimento. É o que você leva com você que importa.

Um filme pode ser visualmente espetacular, e isso não representa nada. Ou me avise quando você estiver encomendando seu Blu-Ray de The Spirit. Eu gostaria de ver isso acontecer.

Por isso mesmo videogames brilham em seu melhor quando propõem experiencias que nenhuma outra mídia pode oferecer. Os melhores jogos, aqueles que marcam realmente, são os que mexem com os seus sentimentos assim como com a sua imaginação.

Isso, essencialmente, é o que faz jogos como Minecraft (que é basicamente o Lego dos videogames), Stardew Valley e mesmo os jRPGs do SNES em que a batalha eram apenas números na tela tão especiais. Porque o jogo de verdade acontece na sua imaginação.

E poucos jogos conseguiram cativar tanto com essa sensação quanto Pokémon. Pokémon foi um sucesso porque era um jogo sobre imaginação, aventura e descobrimento (tanto quanto a memória ram limitada do Game Boy permitia, é claro). Não foram os gráficos, a trilha sonora, ou mesmo o sistema de combate (que é muito interessante, tanto que praticamente não mudou em 20 anos) que fizeram Pokémon ser Pokémon.

E, louvado seja Arceus!, certamente não foi a narrativa. Pelas pokebolas do Bill, com certeza não foi a narrativa.



Nos últimos vinte anos, a Game Freak trabalhou muito em todos esses aspectos, culminando no que hoje é o jogo mais tecnicamente impressionante de Pokémon de todos os tempos. Gráficos, mecânicas de jogo, sistemas de combate, gerenciamento de pokémons e itens, e até mesmo a história. Tudo foi polido à exaustão, a fim de criar o melhor jogo de Pokémon de todos os tempos.
Em muitos aspectos técnicos eles realmente conseguiram isso. Exceto, talvez, naquele que realmente importa: a experiência.




A experiencia é o que faz você dar esse sorriso, e é justamente isso que falta em Pokémon Sun/Moon. Ou, sei lá, talvez eu apenas esteja velho demais para essa merda



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