domingo, 9 de abril de 2017

[CINEMA] POWER RANGERS (ou o Clube dos Cinco com robôs gigantes)



Um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um rebelde. 

Um dia cinco adolescentes com as vidas bastante fodidas (por motivos bastante diferentes) se encontram na detenção. Dali nasce uma amizade única, daquelas que só pode existir quando se percebe que eles realmente só tem uns aos outros nesse mundo. Talvez não para sempre (e o que realmente é para sempre, né?), mas por aquele curto espaço de tempo eles se tornam tão amigos quanto se pode  ser. E então eles pegam seus robôs gigantes na forma de animais do cenozóico e salvam o mundo.

Se isso não é a descrição do melhor filme que os anos 80 poderiam conceber, então eu não sei mais o que poderia ser.


Muito surpreendentemente, o filme começa com uma
cena que é uma referencia aquele curta sombrio de Power Rangers
que ficou famoso
. Os cara que fizeram aquilo vão
dirigir Castlevania, alias.
 De todas as coisas que eu não esperava assistindo um filme dos Poderosos Morfantes Defensores do Poder em 2017 foi que o filme se baseasse firmemente em um dos melhores filmes dos anos 80. A outra é que eles quase não aparecessem como "Power Rangers" exceto no final do filme.

E surpreendentemente isso funcionou de uma forma que eu não esperava que fosse funcionar. Mas vamos começar do começo.

Power Rangers é na verdade sobre cinco adolescentes que estão com a vida absurdamente fodida. Jason tem ficha criminal e usa tornozeleira eletronica antes dos 18 anos por causa de uma imbecilidade de adolescente, Kimberly é conhecida na cidade toda (que é uma cidade pequena, onde todos se conhecem) como a filha da puta que espalhou nudes da coleguinha por causa de um macho qualquer, Trini é homossexual em uma família tão tradicional que não só vota no Trump como certamente já pediu sua cidadania brasileira para votar no Bolsonaro em 2018, Zack tem uma mãe doente para cuidar e ninguém que possa fazer isso por ele no lugar dele, Billy tem sindrome de Asperger.

Não tem nada de absolutamente fora do normal aí, poderia ter acontecido comigo ou com você. Diabos, certamente aconteceu (em maior ou menor grau) comigo ou com você. Se um dos grandes dos motivos do Clube dos Cinco ter funcionado tão bem nos anos 80 é que podia ser qualquer um de nós naquela sala de detenção, Power Rangers em 2017 evoca essa mesma sensação. Poderia ter sido qualquer um de nós.

Por um motivo sobrenatural - que é onde a parte "Power Rangers" do filme entra - os cinco jovens são forçados a trabalhar juntos mesmo depois das horas de detenção. Yeah, yeah, eles precisam treinar juntos para derrotar o mal e salvar o mundo, mas surpreendentemente essa é a parte menos interessante do filme.

- I'm the one who knocks, Jason!
- O senhor é uma parede, senhor White.

É no relacionamento interpessoal entre os jovens que o filme tem sua maior força, e a atuação dos atores está acima de qualquer espectativa que eu poderia ter. Billy (interpretado por RJ Cyler), por exemplo, é o alívio comico E o compasso moral do grupo ao mesmo tempo. Sério, narrativamente isso é uma coisa muito difícil de fazer e por isso tão poucas histórias ousam juntar os dois no mesmo personagem. Aqui a coisa flui com maestria. 

Billy é o melhor personagem do filme, mas todos os rangers funcionam muito bem. Você torce por eles, você quer que eles vençam não só a luta contra monstros de CGI mas em suas vidas. Ser olhado com respeito pelo seu pai é emocionalmente mais importante do que derrotar monstros.

E é por isso que o final do filme, só no final, quando eles finalmente se transformam em Power Rangers é tão gratificante. Você se importa com aquelas pessoas, você torce por elas, você quer que elas usem um tiranossauro-robô para escalar um monstro de trinta metros de altura e dar porrada.

- Jason, não come isso, vai te dar cancêr!
- Essa porra tá brilhando, cara!
- Quando vocês acharem uma Trakinas no chão, vocês fazem as regras
 Quando finalmente depois de quase duas horas os cinco zords finalmente correm juntos ao som da música tema da série, eu quase chorei. Foi lindo. De verdade.

Dito isso, o filme não vai sem alguns problemas entretanto. Embora ele seja muito inspirado no Clube dos Cinco e evoque seus sentimentos - e tenha atores tão bons quanto - ele nem de perto é tão bem escrito quanto o clássico dos anos 80. Algumas falas, e pior ainda, algumas resoluções de conflitos emocionais são meio clichés e/ou um tanto mal escritas.

O que eu quero dizer é que Power Rangers tem o coração no lugar certo, mas sua execução não pode ser chamada de perfeita. Não é um clássico do cinema, mas é um filme putamente divertido e bem feito.

Outra grande inspiração do filme foi Voltron da Netflix. E quando você inspira o senso de humor e diversão do seu filme em algo feito pelos criadores de Avatar, você está fazendo certo. Taí, "Clube dos 5 encontra Voltron" é a descrição perfeita desse filme.
 Ah sim, uma última coisa que eu queria falar era sobre os uniformes dos rangers. Quando eu vi nos trailers eu achei bastante ruins na verdade, piores até que o do filme de 1994. Parecia uma coisa alienigina e estranha, sei lá... mas então o filme abre com uma proposta que justifica isso: as armaduras dos rangers SÃO uma coisa alienigina, tipo literalmente, elas foram originalmente feitas para uma raça que não tinha apendice, então faz TODO SENTIDO elas parecerem aliens. É o que elas são, afinal.

Já os zords... infelizmente essa parte não ficou tão legal. Claro, eu adorei o conceito de que eles são robos que assumem a forma do animal mais poderoso do planeta em que se encontram. Ok, cool, mas o problema é a execução, eu me senti assistindo Transformers porque até agora eu não entendi que diabos de animal o do ranger preto deveria supostamente ser. 

Assim como nos filmes do Michael Bay, as cenas de CG são confusas e as vezes é dificil entender o que está acontecendo na tela, além dos zords parecerem um monte de peças sem identidade visual (sério, quem consegue diferenciar os Transformers do Michael Bay que não seja pela cor está de parabéns). Inclusive o Megazord parece muito mais com o Optimus Prime do que com uma fusão dos zords originais. Um visual mais clean teria feito maravilhas, tal qual em Transformers.



Outro problema do filme é que a Elizabeth Banks está esquisita como Rita Repulsa porque a coisa de "vilã cracuda louca" é muito distoante do resto do filme. Ela funcionaria na série de TV, mas aqui ficou meio cartoon demais. Pelo menos a cara dela de "uatarrel, eu devia ter lido a porra do manual..." quando eles formam o Megazord é impagável



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