quarta-feira, 19 de abril de 2017

[CINEMA] GHOST IN THE SHELL (ou quando você está dançando, uma linda dama se embriaga)



Se a vinte anos atrás, no auge da minha fase otaku, você me dissesse que um dia eu ouviria Making of a Cyborg no cinema, em uma superprodução com atores hollywoodianos, eu não teria acreditado.

Se a dez anos atrás você me dissesse isso eu contemplaria a possibilidade, mas pararia quando você me dissesse que o filme em questão é realmente bom. Eu não teria acreditado.

E ainda sim, temos Ghost in the Shell em 2017. Veja só você.


"Ela perdeu 45 kg em algumas horas e os médicos a odeiam!
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"O Fantasma do Futuro" é um dos meus animes favoritos de todos os tempos, e por isso mesmo eu tenho que ser o primeiro a tirar o elefante branco da sala: The Ghost in the Shell de 1995 não é um bom filme. Sua estrutura é esquisita, sua narrativa é um tanto lenta e não tem realmente um senso de progressão, ele termina e você fica pensando "ué, foi isso? Acabou?"

Então a primeira coisa que Hollywood tinha que fazer para adaptar isso em live action era consertar o próprio filme original. O que ele eles fizeram, diga-se de passagem. O filme estrelado pela Viúva Negra é um filme infinitamente superior ao original enquanto filme. Ele conta uma boa história, você sabe quando ele começa e quando termina você fica com a sensação de que a história está concluída.

O ritmo também foi infinitamente melhorado e as cenas de ação são muito boas. Você fica com a sensação de que o filme fez o que uma adaptação realmente deve fazer: entender a essencia da obra, o que faz aquilo funcionar e então recomeçar do zero com todo o resto. É o que filme de 2017 faz: ele pegou a essencia do que é The Ghost in the Shell e com essa ideia em mente fez o seu próprio filme.

- Enviem o Spider-tank!
- Mas puta que me pariu, é só eu sentar pra cagar que...
MAS O QUE É A ESSENCIA DE THE GHOST IN THE SHELL?

Resumidamente, é sobre uma humana que está se tornando uma máquina perseguindo uma máquina que está se tornando humana. Tem algo de profundamente poético e poderoso aí, e em grande parte é o que faz o filme funcionar apesar de sua estrutura desconjuntada.

O filme de 2017 é parecido com isso, mas tem um twist interesante para o nosso tempo. Scarlet Johanson é igualmente uma policial (que não se chama Motoko Kusanagi agora) que está perdendo sua humanidade. Só que ao invés de ser um filme policial sobre caçar uma Inteligencia Artificial que saiu do controle, o filme escolhe um tema bem mais relevante para 2017: é sobre um governo que saiu do controle (para próposito deste texto, por governo eu me refiro a "quem efetivamente manda na porra toda", que no caso do filme é uma empresa).

Em um mundo afogado em informações onde o conceito de individualidade pode ser reduzido a numeros, estatisticas, likes e links compartilhados, a rebelião das máquinas é um futuro distante perto da realidade. Redes sociais e serviços de busca têm um controle total e absoluto sobre tudo aquilo que você pesquisa na internet, sobre o que você gosta ou sobre o que você pensa. Isso é usado desde coisas inofensivas como customizar as propagandas que você vê até coisas mais sérias, como filtrar quais noticias você recebe - o que acaba moldando a forma que você pensa.

Já foi vazado que agencias de inteligencia como a CIA e o MI5 facilmente hackeiam qualquer coisa conectada a internet como cameras de laptops ou geladeiras inteligentes. Vivemos em um mundo em que cada vez as pessoas colocam o governo para dentro da sua vida, da sua cabeça. Isso não é ficção cientifica, esse é a realidade em que o filme de 2017 foi feito e por isso a sua mudança de foco.

Eu sinceramente gostei dessa proposta, o oponente da Major não é mais uma IA "do mal" e sim algo relacionavel com a nossa realidade. Troca a metafora poética por uma metafora política e segue o jogo.

Dificil mesmo vai ser explicar para as gerações futuras como
vivemos em um mundo que as pessoas reclamaram de ver
essa cena interpretada pela Scarlet Johanson
QUANDO EU ERA CRIANÇA, FALAVA COMO CRIANÇA, PENSAVA COMO CRIANÇA, RACIOCINAVA COMO CRIANÇA. DESDE QUE ME TORNEI HOMEM, ELIMINEI AS COISAS DE CRIANÇA

Se em temática o filme não deve nada ao original, em execução... bem, não é que tenha algo realmente errado aí, mas ...

Toda a coisa do questionamento existencial, sobre a diferenciação entre corpo e alma (a expressão "ghost in the shell" foi  Descartes ao escrever sobre o tema) está lá, tecnicamente falando, mas...

Eu não sei. eu tenho a impressão que falta alguma coisa. Talvez uma direção melhor, eu suponho, não sei. O que eu sei é que toda coisa da perda da humanidade no filme parece que a Scarlet Johanson está fazendo sozinha (e fazendo muito bem, pq ela é uma motherfucking atriz afinal) em um filme que não é exatamente sobre isso. Eu já vi atores carregarem toda a carga dramática de um filme nas costas, mas um ator que carrega toda carga filosofica do filme sozinha eu nunca tinha visto. E não ficou tão legal assim.

Acho que essa é a melhor forma que eu posso expressar isso: parece que a Scarlet Johanson está fazendo um filme diferente de todos os demais ali. Talvez isso seja proposital, para ilustrar o quão sozinha ela se sente pela Major ser o que ela é, talvez apenas o diretor não tenha entendido o espirito da coisa.

Me permita dar um exemplo: a cena de abertura do anime é uma das minhas cenas da história da animação. Depois de uma rápida contextualização e apresentação da narrativa, é apresentada a fabricação de um ciborgue. A trilha sonora e o desfoque proposital da imagem trazem um tom espiritual à fabricação de um robô. A cena tem um ar meio mistico e religioso para a criação de uma máquina. A segunda cena é sobre pessoas agindo como máquinas em uma cena de ação. Percebe a dualidade na composição das cenas?

A trilha sonora contida, a pouquíssima utilização de planos mais fechados durante o filme, criam um certo distanciamento, evitando identificações com as personagens. Porém, o filme apresenta sempre uma dualidade: o caráter intimista se mantém através de simbologias criadas pelas imagens e cores da fotografia, em consonância com o distanciamento.

Aqui eu não sinto que o filme tentou me "passar" alguma coisa ou ele tinha um ponto maior a propor, na realidade. As artes conceituais são lindas, verdade (e a Jo também), mas eu não senti como se elas estivessem servindo a um proposito maior do que apenas serem visualmente bonitas.

Verdad seja dita, durante um tempo é estranho mesmo que a Major seja
uma das duas únicas pessoas brancas em toda a cidade. Mas então o filme
tem uma explicação para isso, e é ótima. Show de bola, segue o baile.
Como eu disse, a sensação é que a Major está tentando fazer algo muito mais profundo em um filme que de outra forma seria simplesmente um filme de ação bonito. A Major se pergunta o quão humano você é realmente quando o seu corpo (e mesmo suas memórias) são fabricadas por uma empresa, mas todo o resto do filme que não seja ela não está preocupado com isso.

É estranho, e como eu disse, talvez tenha sido intencional. Mas eu não posso dizer que gostei totalmente.

Não que "o resto do filme" seja ruim realmente, pelo contrário: é um ótimo filme policial de ação. Eu totalmente veria um filme sobre o Batou e embora algumas coisas tenham me incomodado (é meio brega falarem com o chefe de policia em ingles e ele só responder em japones), o salto é extremamente positivo.

GitS faz muitas coisas certas, e a coisa mais importante ele não faz exatamente errado. Então porque eu estou com essa sensação de que faltou alguma coisa muito importante que eu não sei dizer o que é?

Talvez seja assim que a Major se sente com suas memórias adulteradas, e talvez essa tenha sido a ideia metalinguistica do filme. Eu não sei. O que eu sei é que Ghost in the Shell é a melhor adaptação de anime em live action que eu já vi (pelo menos até Death Note, tenho alguma esperança nesse porque o original tinha muitas coisas a melhorar e a Netflix sabe o que está fazendo) e em muitos sentidos consegue ser melhor que o original. O que não é pouca coisa, afinal.




Ironicamente, é mais ou menos como eu me senti jogando Deus Ex (eu falo bastante sobre Ghost in the Shell nesse texto também, pq não tem como não): não é que ruim, só fiquei com uma sensação pior do que foi realmente porque poderia ter sido tão muito mais... Acho que esse tema desperta esse tipo de expectativa em mim, algo que começou justamente com o anime de 1995. O mundo da voltas, huh?

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