terça-feira, 11 de abril de 2017

[ANIMES] SHOUWA GENROKU RAKUGO SHINJUU (ou o anime do Whinderson Nunes)



Uma das coisas mais surpreendentes que eu aprendi este ano é que quem inventou a comédia de stand-up foram os japoneses. Na idade média. Aposto que você não sabia disso, huh?

"Rakugo" é uma forma de teatro japonês em que um caboclo fica em pé no palco (bem, ajoelhado porque essa é a versão japonesa da coisa né?) e conta uma história humoristica interpretando os personagens e dialogos apenas mudando o tom de voz ou a postura no palco. A grosso modo, o que os japoneses faziam desde o século XVIII era mais ou menos isso:


Só que como é a versão japonesa disso, é claro que é repleto de tradição, disciplina e hierarquia. Você tem que ser iniciante por tantos anos e só pode contar determinadas histórias, aí evolui para outra categoria e pode contar outras histórias e por aí vai. Só porque é comédia que não vai deixar de ser japones, né?

Mas então, esse é um anime sobre Rakugo - e agora que você sabe o que é Rakugo, vamos a isso.

Você achou que era uma novinha, mas sou eu, Dio!
Nos anos 70, quando Youtarou sai da prisão, a primeira coisa que ele faz é ir diretamente ao maior mestre de rakugo de Tóquio. Isso porque ele assistiu uma apresentação que o mestre fez no presidio e não só ele se encantou pelo rakugo como aquilo lhe deu forças para ajudar a suportar os dias difíceis na prisão.

Só que o mestre - chamado de Yakumo -  é um homem velho amargo e rabugento (com efeito seu rakugo é famoso por ser mais dramático do que engraçado realmente), que surpreendentemente aceita treinar o ex-presidiário como seu seu aprendiz.

Youtaro então vai viver com o velho mestre e a moça que ele criou - a filha de seu falecido melhor amigo. O mestre Yakumo não é um homem nem um pouco fácil - ou agradável de se lidar - e Youtarou vai ter que suar bastante para realmente conseguir aprender alguma coisa com aquele homem tão dificil e repleto de amarguras.

O primeiro episódio termina mais ou menos por aí, e eu meio que já esperava como seria a série dali para frente. Yada yada yada, depois de muito levar na cabeça Youtarou derrete o coração do mestre e se torna um prodigio do rakugo, todos se abraçam e são felizes para sempre. Animes não são exatamente conhecidos por sua imprevisibilidade, afinal...



 ... eu não poderia estar mais errado.

Depois que vimos quem é o mestre Yakumo nos anos 70, o segundo episódio começa trinta anos antes o jovem Yakumo (na época chamado de Bon, trocar o nome é muito comum no mundo do rakugo) ainda criança no começo dos anos 40. Dali para a frente o anime seria sobre a vida do Yakumo na verdade e como ele se tornou aquele homem tão rabugento e repleto de arrependimentos que vemos no primeiro episódio. Eu não esperava por isso.

A primeira coisa que mais chama atenção em Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu é o quanto ele não parece um anime. Nada de lutas que modificam a geografia ao seu redor, closes ginecológicos em calcinhas ou meninas que dão socão em quem elas gostam. O anime todo lida com sexualidade, condições sociais e propósitos de vida de uma forma impressionantemente madura. Os personagens são complexos e não podem ser apropriedamente descritos em apenas uma linha - o que é a verdade sobre 80% dos animes.

Peguemos o próprio Bon - posteriormente chamado de Kikuhei e depois ainda o próximo Yakumo. Ele é filho de  uma gueixa que morreu no parto e foi criado em uma casa de luz vermelha, porém quando ele era criança sofreu um acidente e não poderia mais dançar ou se mover graciosamente - o que meio que limitava as opções artisticas ao qual ele tinha acesso. Então ele foi colocado no segundo caminho mais perto disso: se tornar aprendiz do Yakumo da época e fazer sua carreira no rakugo.

É o melhor caminho que alguém  na condição social dele poderia almejar, o Japão não é exatamente conhecido como a "Terra das Oportunidades" e de que família você vem meio que já determina todo o curto leque de opções que você sempre terá na sua vida. Isso pode não ser tão verdade hoje, embora ainda seja, mas era muito mais verdade nos anos 40.

Eu sei que é anime, mas não é o que você
está pensando!
Então Bon começa a aprender rakugo com o mestre porque era ou isso ou morrer de fome ou ser peixeiro. Rakugo foi a menos pior das opções. Mas "menos pior" não quer dizer ideal, e ele não realmente gosta daquela porra toda. Embora ele goste das histórias em si, ele não poderia cagar mais para o público e se apresentar para as pessoas não é uma grande motivação (te entendo, bro). Durante o anime Bon luta muito para encontrar o "seu" rakugo, aquilo que o motiva além de "tenho contas pra pagar, bosta!", porque afinal ser comediante é uma arte muito dificil (eu diria que a mais dificil de todas as formas de atuação) e você não pode apenas fazer pela metade. Não vai dar certo.

Pense em todos os comediantes que você conhece, a maior parte deles não apenas interpreta o personagem mas vive ele em todos os momentos de sua vida pública. É esse tipo de dedicação que um "bom rakugo" exige também.

Após muito quebrar a cara e quase desistir muitas vezes, Bon (agora chamado de Kikuhei a essa altura) finalmente encontra o seu caminho no rakugo: ele pode não ser muito engraçado, mas brilha como ninguém interpretando mulheres e personagens delicados. De fato juntando isso com todas as coisas - sua relação com seu melhor amigo, sua relação com as mulheres - eu fiquei com a sensação de que Kiku talvez fosse gay.

Mas se fosse seria uma coisa tão introspectiva que ele sequer cogitaria admitir nem para si mesmo, porque afinal estamos falando do Japão dos anos 40, eu não consigo imaginar um cenário menos "de boas" para alguém lidar com a própria sexualidade. Mas sei lá, isso é apenas uma teoria minha, o anime não esfrega isso na sua cara ou comenta sobre o assunto em momento algum, talvez não tenha nada haver também...

... e isso é muita complexidade para analisar um personagem de anime. Entendem onde eu quero chegar com isso?

Todos os personagens do anime são bem elaborados e complexos assim, presos entre o que eles desejam realmente e o seu lugar na sociedade (que, mais uma vez, é muito rigida com isso). Senroku, o melhor amigo de Kikuhei, é o melhor exemplo disso: ele é um gênio no rakugo, muito melhor que Kiku, mas também é um boêmio e com a disciplina de um Stark.

Você certamente já viu esse personagem em alguns dramas de época: o boêmio que até tem um bom coração e é brilhante na arte que executa, mas sua vida é uma desgraça pelo desregramento em que vive. Mas nunca em um anime. É um personagem muito pesado, muito complexo para um anime.

Imagine que em Death Note o L fosse o maior gênio da investigação policial, mas ao mesmo tempo fosse um alcoolatra que vive na sujeira porque gasta todo seu dinheiro em canha. Não dá, animes usualmente não são feitos para serem pesados desse jeito.

Boa parte da carga emocional do anime é sobre Kiku tentando ajudar seu amigo e vendo o esforço escorrer por entre suas mãos. Como o primeiro episódio já vemos um Kiku velho e seu amigo Senroku tendo morrido sem nunca ter se tornado famoso, sabemos que isso não vai acabar bem. Com efeito, a filha de Senroku que ele critou diz que odeia o velho Kiku porque entende que ele foi responsavel pela morte do pai dela. O elemento de venda do anime é mostrar como as coisas terminaram desse jeito.

Opa, é agora que o rakugo vai canta mermão!

Não bastante o maravilhoso desenvolvimento de personagens e o relacionamento entre eles, o cenário é não menos espetacular. O anime se passa durante trinta anos, dos anos 40 aos anos 70, e como essas decadas afetaram não só os personagens mas todo o mundo do rakugo. Como o teatro tradicional da idade média foi perdendo relevancia diante das formas modernas de entretenimento (rádio, TV, filmes), e como a guerra afetou o panorama social da sociedade japonesa.

Sim, esse é um anime que fala sobre a segunda guerra mundial e as consequencias dela, porque é o período que os personagens vive. Como se sabe, os japoneses não costumam gostar de falar muito sobre o assunto porque a guerra não acabou nada bem para eles, deixando uma marca que dura até os dias de hoje em sua sociedade (até hoje o Japão não tem um exército próprio, dependendo inteiramente dos Estados Unidos para fazer sua defesa, por exemplo).

Shouwa Rakugo, por outro lado, não escolhe o caminho fácil. Muitos dos conflitos que Senroku tem com os seus veteranos do rakugo é sobre como eles tem que se flexibilizar diante de uma estrutura social que foi literalmente implodida diante dos seus olhos, e como ele quer "fazer o rakugo grande novamente". Não foram tempos fáceis para o Japão aqueles anos, preso entre o passado e o novo que foi imposto a força, e o anime retrata isso no seu background maravilhosamente.

Por fim, eu gostaria de falar também do rakugo. O anime dedica muito tempo a isso, e quando os personagens estão exercendo o seu oficio ele não tem a menor vergonha de simplesmente parar e mostrar apenas o personagem contando uma história.

Cara, eu só tinha perguntado se tu já almoçou... artistas, viu!
E quer saber? Isso é ótimo. É tão bem feito que você consegue perceber por conta própria quando um personagem é bom e quando ele não é no rakugo. Ninguém aparece depois de uma apresentação e para dizer (e explicar ao espectador) "esse cara é chato!". Você já sentiu isso assistindo, sem que ninguém precise te dizer nada.

E quando o cara é bom você fica grudado na história que ele está contando, ninguém precisa Nolanizar a cena e narrar para o espectador o que a obra quer que você tire daquela cena. Isso é narrativa em seu melhor, É ASSIM que se conta uma boa história (trocadilho a parte).


O anime termina exatamente no ponto em que começou, com Kiku (agora o novo Yakumo) rabugento e velho, e com Sukeroku morto. Mas ao chegar ao fim do anime nós vemos a cena inicial com um espectro totalmente diferente, compreendemos o que aquela situação realmente significa e toda a jornada complexa e única que foi para chegar até aquele arranjo. O que eu quero dizer é que por mais que a cena seja a mesma, nós não ficamos com a sensação vazia de não termos evoluído com a história ou "ido a algum lugar" com ela.

Ou como dizia  a grande pensadora Elsa: "Lerigou, minha nega!"
Em termos narrativos isso é tão absurdamente dificil de fazer, mas ao mesmo tempo é emocionalmente poderoso quando funciona. E esse anime funciona espetacularmente.

Agora, formas de arte vêm e vão, evoluem e se dissolvem, e mantêm a humanidade respirando com sua própria força vital. Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu mostra as complexidades desse processo através da vida de dois homens que através de sua arte, transformam um ao outro. Eles são um lembrete da eternidade da arte (mesmo que o mundo mude) e aqueles que a criam (independentemente da história que fica para trás). Assim mesmo quando o shamisen para de tocar, e o teatro mal-iluminado fica vazio, nós podemos ainda ouvir as histórias de Sukeroku e de Kiku.





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