sexta-feira, 7 de abril de 2017

[A HISTÓRIA DOS VIDEOGAMES] Parte VI (Playstation e o reich de dez anos)



No final dos anos 80, as empresas de videogames já tinham uma boa noção de que o CD seria o futuro dos consoles domésticos. Capaz de armazenar 10 vezes mais informação por 1 décimo do preço de produção de um cartucho, era a escolha óbvia para o futuro.

Por isso a Nintendo (que ainda estava com o seu Super Nintendo na prancheta de design) e a SEGA começaram a estudar o assunto. Eventualmente a Nintendo fez uma parceria com a maior produtora de produtos eletrônicos da época, a Sony.

Desse trabalho em conjunto nasceu…
..nada. Absolutamente nada. Acontece que o protótipo do SNES CD chegou a avançar alguns estágios, mas, então, a discussão legal a respeito de como essa grana seria dividida desagradou a casa do Mario.

Pense só, se coloque no lugar da Nintendo: você tem um sistema que está funcionando para você, seu videogame é praticamente dono do mercado no Japão e nos EUA, e sua margem de lucro é de 100%. Se o projeto de parceria com a Sony fosse para frente você teria que dividir seus lucros em um mercado com concorrência totalmente sob controle. PRA QUÊ?

HOJE nós sabemos que a Nintendo fez uma cagada do tamanho de misturar laxante no caldo da feijoada, mas, para a época, era uma decisão compreensível. Assim sendo a Nintendo mandou a Sony pastar e ia encontrar quem fizesse o SNES CD para ela em troca de três feijões mágicos e um high five.

O que eles conseguiram com tamanha vontade de abrir a mão foi isso:


Por que eu não estou impressionado? Quer dizer, o pagamento da Nintendo para a Philips foi basicamente a licença de poder usar algumas marcas da Nintendo e olhe lá…

Verdade seja dita, a Nintendo se virou bem pelos próximos anos sem um driver de CD para os seus videogames, usando chips nos próprios cartuchos para compensar o hardware defasado. Mesmo quando sua rival lançou um para o Mega Drive, a Nintendo apenas sacudiu os ombros e disse “meh…”. O SNES se saiu bastante bem contra o SEGA CD.. e o 32X… E, sério, que diabos a SEGA tinha na cabeça? Mas, enfim, Nintendo wins e todos vão para casa felizes…

… mas, e o que foi feito da Sony?

Duvido você ter visto essa imagem e não ter começado a ouvir You do Bad Religion na cabeça
RECEIO QUE TENHAMOS ACORDADO UM GIGANTE ADORMECIDO

Foram estas as palavras do almirante japonês Yosoroku Yamamoto após o ataque a Pearl Harbor. Que foi uma forma elegante de dizer “não mexe com quem tá quieto”. Como as coisas acabaram para os japoneses, todo mundo sabe.

De igual modo, a Nintendo chamou para a dança uma das maiores empresas do mundo e lhe apresentou um mercado que, em poucos anos, estaria ultrapassando o cinema em lucros apenas para lhe dizer “meh, não queremos mais, obrigado“. Ora, só que não tinha um botão para fazer a Sony se desinteressar por videogames, e foi aí que fodeu a porra toda na vida da Nintendo.



Esse Let’s Play do Amer tem outras boas histórias de filhadaputagens e rateadas da Nintendo

Tendo levado um pé na bunda da Big N, a Sony, então, procurou a rival dela – a SEGA – para propor o projeto do “Mega Drive CD”. Não passou nem da porta.

“Essa é uma ideia estúpida. A Sony não sabe como fazer hardware. Eles não sabem como fazer software. Por que iriamos querer fazer isso?” – Tom Kalinske, presidente da SEGA de 1990 a 1996

Novamente, pode parecer idiota hoje. Mas na época não ficou muito claro para eles o que a SEGA tinha a ganhar com essa parceria com uma empresa que nunca tinha montado sequer um brick game com 999 versões de Tetris na vida.

A Sony, então, chegou à conclusão que qualquer pessoa que já tentou fazer um trabalho em grupo já chegou: “Foda-se essa merda! Vou fazer essa porra EU MESMA!”. E assim começou o projeto PSX, que viria a se tornar o Play Station.

Viria, só que não veio. Devido a ronhas legais da Sony com a Nintendo por conta daquela parceria que não deu certo, a Sony não poderia usar o nome “Play Station”. No problemo, Guillermo! Eles então rebatizaram o videogame de Playstation, e o resto é história.

Ainda hoje Playstation é sinônimo de videogame quase tanto quanto Xerox é de máquina copiadora.


Mas que bobagem. Megaman X3 é uma obra prima e nada possivelmente pode… SANTA PUTA QUE PARIU EM CHAMAS!!!!1111!!!ONZEONZE!!!1!

MAS POR QUE O PLAYSTATION DEU TÃO CERTO? MUITO PORQUE SEUS CONCORRENTES DERAM ERRADO

Muitas coisas contribuíram para o sucesso estrondoso, monumental, colossal do Playstation. A primeira, e na minha opinião mais importante, é que a Nintendo foi destruída pela própria "arrogância".

Não, pense só: se a Nintendo lançasse um videogame mais ou menos do nível do PS1 nos anos 90, os consumidores não pensariam meio segundo ao escolher uma marca que eles cresceram amando do que um completo novato no ramo. A Sony tinha que ser NO MÍNIMO 150% melhor que a Nintendo para ter chance nessa dança.

E a Nintendo ajudou muito nisso.

Vê, um dos maiores problemas é que os gamers amavam (e ainda hoje amam) a Nintendo. Com boas razões. Já as desenvolvedoras de jogos odiavam a Nintendo com a fúria do metrô do RJ às 18:00 com a PM em greve. Com razões melhores ainda.

Uma das coisas que o capitalismo precisa para funcionar de forma saudável é a concorrência, e sem isso temos monopólio. E monopólio leva a dor e ranger de dentes para todos os envolvidos. Desde a época do NES, a Nintendo tratava as desenvolvedoras de jogos quase tão mal quanto a Warner trata os filmes da DC hoje em dia: se metia na produção, limitava a distribuição, estabelecia metas e censura tirados de lugar nenhum senão da bunda deles.

Existiam dezenas de motivos para as empresas odiarem a Nintendo (sério, a Midway não fez aquele “Mortal Kombat Family Edition” para o SNES porque eles não tinha nada melhor para fazer), mas talvez a maior de todas fossem os cartuchos.

Você só podia lançar um jogo do SNES em um cartucho de SNES, dã. Óbvio. Só que os cartuchos eram patente da Nintendo, e para fazer um jogo você tinha que molhar a mão deles e ainda obedecer às regras de marketing e distribuição deles. O juridiquês da coisa é um pouco mais complicado que isso, mas a ideia geral da coisa era essa.


“Se Deus não existe neste mundo… então eu o criarei com as minhas próprias mãos.”

E como a Nintendo meio que não tinha concorrência no Japão e nos EUA, as empresas iam fazer o quê? Lançar seus jogos para o Mega Drive, que só era competitivo em mercados lavados pela pirataria, como a América do Sul? Por isso nunca houve um Final Fantasy para o Mega Drive, ou um Mega Man (ao menos não até muitos anos depois), e várias outras grandes marcas. Comercialmente, tudo que eles podiam fazer era baixar a cabeça e sonhar com o dia em que dariam uma de Kratos com a cabeça da Nintendo.

“Um dia, Nintendo… um dia…” – Squaresoft, sobre os anos 90
Essa oportunidade veio quando a Sony anunciou que estava fazendo o seu próprio videogame. As empresas perguntaram sarcasticamente “Aham, quanto vocês querem para nos dar a gloriosa honra de servirem nossos novos mestres e senhores?”.

A Sony apenas respondeu: “Hã, nada? Quer dizer, tem umas taxas sobre o uso do CD, mas, fora isso, o que vocês fizerem é basicamente de vocês“.

“Aham, sei. E sua politica de publicação? Jogos família fofinhos e temos que mandar relatórios para ter a aprovação de vocês também?”

“Então, meio que a gente não tem uma. Quer dizer, estamos no meio dos anos 90, então, acho que vai pegar mal jogos coloridos 2D… Se for realmente importante para vocês fazerem, vai ser lançado apenas no Japão. Mas, fora isso, façam o que quiserem. Mesmo.”

“Ãh… tipo, uma cena em live action em que pessoas atiram na cabeça de um cachorro zumbi empalhado? Vocês estão ok com esse tipo de coisa? Porque a Nintendo nunca iria…” – perguntou, desconfiada, a Capcom lá do fundo da sala.

“Olha que ideia boa, Capcom-san! Estamos ansiosos por seu novo jogo!”

E por aí foi. Como esperado, a reação das desenvolvedoras foi mais ou menos essa:


A Sony podia fazer esse tipo de acordo com as empresas por dois motivos: primeiro porque ela PRECISAVA fazer isso, sendo uma novata no ramo de games, ela não tinha um estúdio próprio forte, e dependia inteiramente de terceiros para fazer os seus jogos.

E segundo, e mais importante, a Sony era rica, RICA, RICAAAAAAAAAAAAAAAAA! Comparada com a Sony, o orçamento da Nintendo era o da feira de ciências de um colégio municipal. Então a Sony podia se dar ao “luxo” de cortar lucros que a Nintendo não podia (ou não queria) cortar.


Você sabe que está ficando velho quando para de ver o Squall como descolado, e sim como um adolescente chato da porra que merece levar umas bolachas

Foi por isso, basicamente, que a Nintendo continuou usando cartuchos quando lançou o seu Nintendo 64. Não porque – ao contrário do que se gosta de dizer na internet – eles eram abissalmente burros e não perceberam que CDs eram uma mídia muito melhor, mais barata e com mais espaço.

Eles sabiam de tudo isso muito bem, mas mantiveram o formato de cartuchos pelas razões econômicas de controle da produção e distribuição. Não foi um ato de burrice, foi uma aposta. Uma que se saiu muito bem, na verdade.

Mantendo o sistema econômico de cartuchos, que era infinitamente vantajoso para a Nintendo, o Nintendo 64 matou no peito toda concorrência da época. Jaguar, 3DO, Neo Geo CD e até mesmo o videogame de 32 bits da SEGA, o SEGA Saturn, ficou sob o controle da Nintendo. A única coisa que eles não puderam controlar foi a besta que eles mesmos criaram: o Playstation da Sony.

Com o orçamento astronômico da Sony aliado a um modelo econômico que era lindo para as desenvolvedoras, a Nintendo não veria a cor de um Final Fantasy, Resident Evil ou Tomb Raider nos seus consoles tão cedo. E isso fez toda diferença do mundo.

O rei estava morto. Vida longa ao novo rei!


Destruir a torre Eiffel para criar um atalho, quem nunca?
A E3 DE 1995, QUANDO AS COISAS MUDARAM

A Sony podia não entender muito de videogames, mas entendia pra caralho de tendências de mercado e público. Quer dizer, eles não eram a empresa de ponta em tecnologia por mero acaso. E a leitura que eles fizeram sobre os videogames foi perfeitamente acurada.

Eles entenderam como poucos que os gamers que cresceram ganhando o NES de presente de natal agora já eram adolescentes, e voltaram sua plataforma para esse público. Jogos com sangue, violência, fan service (as tetas triangulares da Lara Croft podem não parecer grande coisa hoje, mas, em uma época sem internet que até catalogo de loja era jogo…) e temas complexos (nem sempre executados com profundidade, mas, enfim…).

E o mais importante de tudo: gráficos, gráficos, gráficos. O Playstation tinha uma arquitetura muito mais otimizada para renderizar jogos 3D que o Saturno e o N64, e o espaço em disco permitia incluir cutscenes em CG ou, às vezes, até mesmo filmadas com atores!

Quando você tem 14 anos nos anos 90, a vida não podia ficar mais incrível do que isso. O que diz mais sobre a minha vida amorosa do que eu gostaria de admitir…

Resident Evil, Tomb Raider e Final Fantasy 7 foram o que eu chamo de “teenage starter pack”, que são os sonhos molhados de qualquer adolescente dos anos 90 em forma de videogames. Se juntaram a eles coisas mais incríveis ainda, como jogos de terror (como Silent Hill e Galerians), simuladores de esporte fotorrealistas (para a época né?) com equipes licenciadas e nomes de atletas reais, jogos de stealth (como Metal Gear e Syphon Filter), jogos de luta 3D que não deviam mais nada aos arcades, RPGs com cutscenes de encher os olhos e dezenas de horas de história. Tinham até mesmo jogos cujo objetivo era… andar por aí e fazer o que você tivesse vontade, mesmo que envolvesse tocar o terror na cidade (como em Driver e GTA).

E tudo isso nasceu na espetacular apresentação da Sony na E3 de 1995. A primeira grande feira de videogames do ocidente. Ao contrário das outras empresas como a SEGA, a Nintendo e a SNK, a Sony era veterana em exposições e coisas do tipo, de modo que, perto deles, as outras ficaram parecendo um bando de estagiários que seriam demitidos pelo Donald Trump no final do episódio.

Melhor cosplay EVAH

A mensagem da Sony, no entanto, foi bastante clara: “Os videogames estão nas mãos de profissionais agora. Sentem e aproveitem o passeio.” E nós aproveitamos, que passeio que foi!

Sério, é o videogame mais bonito que eu já tive. Totalmente entraria pra minha lista de crushs

Pelos próximos dez anos a Sony seguiu indisputada como o sinônimo de tudo que os videogames significavam. Na geração seguinte a Nintendo e a SEGA tentaram novamente com o Gamecube e o Dreamcast, mas sequer chegaram perto de arranhar a máquina bem lubrificada de fazer jogos que era o Playstation 2.

Não que não houvessem bons jogos para os dois consoles, mas nada nem perto de ser suficiente para competir com aquele que ainda hoje é o maior videogame de todos os tempos.

O Playstation 2 trouxe bem menos novidades em relação ao Playstation 1 do que o PS1 trouxe em relação ao SNES, por exemplo, mas em contrapartida aperfeiçoou tudo que o videogame original da Sony se propunha a fazer, adicionando DVDs como mídia e conexão a internet para jogos online.


E esse, crianças, é um dos maiores momentos da história dos videogames. É.

 MAS E A SEGA?

Nesse texto eu abordei bastante como a Sony saiu do nada (isso é, tanto quanto uma empresa gigante como a Sony pode "sair do nada") e tomou o mercado das mãos da Nintendo. Mas e a SEGA? O que se deu com ela?

Bem, a SEGA tentou bater de frente com a Sony mas acabou cometendo uma série de pixotadas que mataram seus dois consoles que, tecnicamente, poderiam sim ter competido com o playstation 1 e 2: o Sega Saturn e o Dreamcast.

A série de burradas da SEGA é meio longa, e esse video explica bem as pataquadas da casa do Sonic, que deu de bandeja o mercado para sua nov concorrente:




Foram dias de glória que pareciam que nunca iam terminar. Mesmo quando a giga-poderosa Microsoft entrou nessa brincadeira com seu X-BOX, levou uma lambada tal do Playstation 2 que o Bill Gates deve ter ficado uns dois anos sem poder sentar direito.

No entanto, Bill Gates não estava preocupado com isso. Nem um pouco mesmo. E àquela altura, no auge do seu império de glória, os executivos da Sony deveriam ter prestado atenção nisso e se preocupado: se Bill Gates está falhando e não está preocupado, então é porque VOCÊ deve se preocupar.

Nenhum império dura para sempre. Após dez anos de leite e mel para a Sony, as engrenagens do tempo estavam girando novamente. Por causa de um caranguejo inimigo gigante, nada voltaria a ser como antes…


Nenhum comentário:

Postar um comentário