sábado, 18 de março de 2017

[SERIES] STRANGER THINGS (ou o pesadelo da pastichização)



Existe um tipo de história que você pode escrever uma única vez na vida. É aquela que você passou anos e anos ruminando sobre ela no seu subconsciente, juntando referencias, sendo influenciado, é literalmente o trabalho de uma vida inteira.

Quentin Tarantino, por exemplo, usou todos os seus anos como balconista de videolocadora assistindo filmes de artes marciais para fazer Kill Bill. Isso é a soma de uma vida inteira, ele jamais vai conseguir fazer outro mesmo que tente. Os (na época) irmãos Watchowiski colocaram sua vida inteira em The Matrix, é um trabalho que você não faz com menos de dez anos juntando referencias e ideias (ou faz em seis meses porque vai dar dinheiro pra caralho e temos Matrix Reloaded, né?). 

Muito autores só tem esse tiro na agulha, o trabalho de uma vida Afinal nem todos são Douglas Adams ou Hirohiko Araki que pode um dia acordar e decidir "hoje vou escrever sobre tartarugas!" e vai ser épico pra caralho. 

Esse tipo de obra, quando bem executada, é fenomenal. Ela só funciona, no entanto, se você colocar sua alma nela. De verdade. Sua visão de mundo, tudo que você é. Do contrário você só tem uma colagem desconjuntada de coisas que servem só como catalogo de que elas se baseiam em algo muito maior e melhor. Em outras palavras, você tem Stranger Things.


No papel este show é apenas muito o meu tipo de coisa: a ideia é um mistério de Stephen King escrito por Steven Spielberg e dirigido por John Carpenter .

Então o que poderia dar errado? Bem, eu tenho uma confissão a fazer: tendo assistido ao show agora, em sua maior parte eu achei ele ... bem ... meio chato. Não é ruim, ruim. Eu acho que é só ... ok. 

Eu não quero ser "o Grinch que seu hype de nostalgia dos anos 80s", mas Stranger Things tem alguns problemas sérios que as pessoas parecem dispostos a esquecer na porque elas querem que o show seja bom. Como a maioria das coisas hoje em dia (possivelmente sempre foi assim, mas aí eu não saberia dizer), as pessoas decidem se vão gostar ou não de algo muito antes do primeiro frame atravessar suas retinas.

O CASO BARBARA E OS GAROTOS LEGAIS

Barbara é o melhor exemplo de caso de tudo que tem de errado com Stranger Things, porque os erros na execução desse personagem se permeiam toda a obra. Veja, eu já sabia quem era Barbara antes que ela dissesse uma única palavra no show.

E quando ela disse, eu sabia exatamente o que ela ia dizer antes que ela dissesse. Como eu sabia disso? Infelizmente não porque eu tenha poderes psiquicos maneiros e sim pelos mesmos motivos que eu sei 80% das falas que um estereótipo de anime ruim (tsundere, yandere, melhor amigo marginal, etc) antes que eles digam: eu já vi isso antes.

Nerd, loser, melhor amiga ruiva, sofre bullying mas é bff da garota mais popular do colégio... já vi isso antes. Dezenas de vezes. 

O homem da lei durão que perdeu alguém da família...

E esse é meio que todo o problema com Stranger Things, ele é uma colagem de várias coisas que você já viu antes em outros lugares - só que o original era melhor. Para ter uma ideia da falta de tesão da série em fazer qualquer coisa que não seja recriar pedaços de cenas de filmes dos anos 80 juntas,  sepois de seu rapto no final do episódio 2, Barb tem, se tanto, talvez mais três menções ao longo das próximas seis horas? E no meio de uma investigação de desaparecimento de crianças, o desaparecimento de outro jovem é completamente e completamente negligenciado pela polícia?

 Uma vez Barb serviu seu propósito para o enredo, depois que ela recriou as cenas de filme que o estereotipo dela evoca, ela é esquecida da história. E embora seja o paragon da escrita ruim nessa série, isso se aplica a todos os personagens: a agencia do governo "do mal", o chefe de polícia que falhou no teste de elenco para Twin Peaks, a mãe desesperada que sabe a verdade mas é vista como maluca por causa disso, os bullys malvadões, etc. Já vi isso antes, tudo isso.
Eu sabia! Mas sério, o arco do namorado babaca da menina
é uma das raras ideias proprias da série que é legal.
Pena mesmo que sejam tão poucas.
O ponto é que isso é extremamente desinteressante! Enquanto eu desfrutava o show em alguns momentos (nos raros momentos que eles ousam ter ideias proprias), em nenhum momento Stranger Things tenta trancender transcender suas influências para se tornar algo realmente grande, com sua própria voz única. 

E isso é algo que os filmes referenciados conseguiram alcançar, é por isso que nós não esquecemos deles. Apesar de um par de picos divertidos, após os créditos finais rolarem eu ainda estava pensando em Spielberg, King, Carpenter, Lucas, Craven, etc e não a história que eu tinha assistido. 

Esse é o problema fundamental com o pastiche: ele não só que ser tão bom quanto os clássicos. Enquanto ele vai constantemente nos lembrar deles, ao mesmo tempo ele realmente tem que estar separado se quiser criar seu próprio lugar nesse cânone.  

Caso contrário, o referenciamento torna-se distrativo e faz o espectador desejar que estivesse assistindo os originais ao invés disso. A coisa vai a tal ponto que estraga mesmo as coisas boas da série! Tipo, a atuação das crianças na série é muito boa, são moleques muito talentosos ali, de verdade. Mas eu não conseguia parar de pensar em Stand by Me ou ET a cada cena!  

"Nós consumimos mais cultura pop dos anos 80 do que você!" não é realmente a melhor base para contar uma história. 

E mais importante que isso, Stranger Things certamente nunca respondeu à pergunta de por que eu deveria usar oito horas da minha vida para assisti-la quando eu poderia estar fazendo ma maratona de ET, The Thing, The Goonies e Poltergeist.


SEM ALMA, MAS COM O CORPO DE UMA TARTARUGA

Vamos ser honestos aqui, o ritmo é desordenadamente desigual. Longos trechos - episódios inteiros, de fato - passam onde o enredo mal avança uma polegada. Talvez esta seja outra homenagem, já que como Stephen King tem sido culpado deste tipo de ritmo desigual e auto-indulgente humor na sua ficção.  

Mas ele é meio que Stephen Fucking King, quando ele faz essa "merda arrastada" ele é brilhante nisso. Desnecessário dizer que os irmãos Duffin não são Stephen Fucking King, acho que alguém deveria ter a gentileza de dizer isso para eles. 

Ao fim do episódio 3 você já sabe tudo que há para saber sobre a série - o "mistério do monstro" e a "grande conspiração do governo" já estão esclarecidos, daí para frente é só cumprir tabela. E você achando que a segunda temporada de Twin Peaks que era ruim...

Com o enredo já esgotado antes da metade da série, em vez de nos chocar ou nos surpreender, cada "plot twist" tinha uma familiaridade quase dopante. Só chocar apenas por chocar (não é a tora qe a série se inspirou em Elfen Lied, né?).

Nessa série, Wynona Rider pega coisas na loja sem pagar.
A arte imita a vida.
Por exemplo: como Will está usando a eletricidade para se comunicar? Não sei, mas espero que quando o Mundo Invertido for mostrado algo assim vai ser respondido. Bem, olha só: quando os adultos vão ao mundo Invertido e passam por aquele MESMO lugar das luzes, não tem nada lá. Ou seja, o Will ganhou aquele poder do nada só para fazer aquela cena e depois sumiu. Impacto visual pelo impacto visual, Stranger Things em uma casca de noz.

Falando nisso, o "Mundo Invertido" foi uma tremenda de uma oportunidade desperdiçada. Era uma chance única para criar algo perturbador ou meio - já que referencias são tão importantes assim - a lá Silent Hill. Mas não, é só uma coisa vaga e genérica e escura. Apenas no último episódio parece uma versão umbral do nosso mundo (gosto muito da expressão "o mundo depois do mundo", quando as energias já se foram ou se corromperam). E em duas cenas ainda.

Outro exemplo disso é o monstro da série, a Demogorgona. Ele é dito que é um "animal daquele mundo", mas não se comporta como um. Nem como uma pessoa, é só um plot device que faz coisas quando a história precisa que ela faça. 

Se essa série fosse feita nos anos 80, certeza que ia ter
comercial da Pepsi zoando a Onze amassar a latinha da
Coca. Lembra de quando publicidade podia ser divertido?
Qual o seu padrão alimentar? Quais são as regras para entrar no nosso mundo? A resposta para essa e todas as perguntas a respeito da criatura é: não existem regras ou padrões. Depende apenas do que for ficar mais dramático na cena. E isso é o oposto de como se constrói qualquer coisa na ficção.

Por fim, ouvi dizer que a segunda temporada vai ser uma continuação da primeira, mas eu não vejo como. Não porque os clichés dos anos 80 se esgotaram, mas porque a história já foi contada. Arrastar o que já está terminado não funcionou para nenhuma série até hoje... mas enfim, aí já é outra discussão.

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