domingo, 5 de março de 2017

[SERIES] SANTA CLARITA DIET (ou o algorítmo da Netflix ataca novamente)


Desde a cena de abertura teve algo que me incomodou a respeito do novo show da Netflix, Santa Clarita Diet. A coisa é que, no começo, foi difícil apontar o dedo e dizer o que EXATAMENTE estava de errado com o programa. 

Eu só sabia que tinha alguma coisa errada. Talvez fosse o tom querendo ser descontraído demais para uma série sobre canibalismo – ou talvez fosse o fato de que o humor do programa parece uma paródia ruim de sitcom que você veria em um filme. Sabe quando um personagem de filme quer mostrar o quanto a TV é imbecil e está passando uma série retardada para comprovar o seu ponto? Santa Clarita Diet seria essa série. 


Hora do lanchinho, que hora mais feliz!
Mas vamos começar do começo: Timothy Olyphant é um corretor de imóveis casado com a mulher mais desinteressante da face da Terra desde que a Nação do Fogo atacou. Suponho que ele também seja tão chato quanto, mas o show não mostra muito sobre ele antes da “mudança”. 

Enfim, a classe média alienada Drew Barrymore tem a espontaneidade de um eleitor do Trump e o apetite sexual de uma porta de zinco. Tudo isso muda quando, de repente, ela vomita até morrer (literalmente, não é uma cena bonita de se ver) e acorda como um zumbi. Começa aí a nossa série. Em teoria, Santa Clarita Diet é para ser uma sitcom sobre uma família suburbana, só que a mãe da família come gente. Eu confesso que fiquei muito surpreso por não ter um claque com risadas gravadas toda vez que alguém fala algo como “tem um dedo nos seus dentes” ou algo do tipo. 

O problema, o real problema da coisa, é que a parte de sitcom da coisa é muito sem graça. De verdade. Imagine Modern Family, que já não é essas Coca-Cola toda não, só que piorada. Esse nível de sem graça. E aí você já não está no melhor dos climas com a série e, em cima disso, ela tenta ser “crua” (com o perdão do trocadilho). Em uma série bem azeitadinha talvez funcionasse misturar gags de lidar com os vizinhos chatos e tripas espalhadas pingando sangue viscoso. Aqui só adiciona ofensa à injuria. 
 
Obvio que a filha do casal tem um amigo nerd loser
friendzonado e... espera, aquilo é uma HQ de
Plantas vs Zumbis?

Eu imagino que o objetivo da série fosse adicionar humor negro à coisa toda, mas a única reação que consegue é um perplexo “espera, isso deveria ser engraçado?” quando Drew Barrymore arranca os dedos de alguém que estava só cuidando da sua vida (e que até podia ser um chato, mas nada que justifique ser mutilado lentamente pelo menos). 

Sério, eu sou filhadaputa pra caralho e adoro humor negro, mas Santa Clarita Diet não é isso: é apenas de extremo mau gosto mesmo. SCD é engraçada no mesmo sentido que Elfen Lied é “dramática”. Oh. 

Eu não vou entrar no mérito da dieta da moça zumbi consistir idealmente de criminosos porque “eles não são pessoas de verdade e mereceram”, apenas vou colocar que, em Death Note, é explorado muito melhor isso de “se você usa os métodos dos caras maus contra eles, você é um deles também”. 

E se você está fazendo algo pior do que um anime, é porque algo muito errado está acontecendo aí. Sério, Dexter lida melhor com isso, e olha que Dexter não é parâmetro para série nenhuma se espelhar! 

A ideia de uma “mãe zumbi suburbana” não é de toda ruim. Daria um bom quadro no Saturday Night Live, ou até mesmo um filme de uma hora e meia. Mas para transformar isso em série de dez episódios é mais encheção de tripas do que a equipe da Netflix é capaz de prover. 
 
Minha câmara criogênica bugou, ou ainda estamos nos anos 90,
onde era tido como engraçado implicar
que alguém está tendo um relacionamento homossexual?
Verdade que depois dos primeiros episódios, que são realmente muito ruins, a série encontra um meio termo e quase funciona graças a uma coisa exclusivamente: Timothy Olyphant. De alguma forma ele interpreta o marido do casal quase tendo um ataque de nervos O TEMPO TODO e isso é genial. 

Sabe quando a sua vida está tão fodida, mas tão fodida que você começa a rir de nervoso? Este é o Joel dele. Como ele está tendo um colapso nervoso com o que acontece na sua família e, mesmo assim, tenta seguir o mais normal possível é espetacular de se assistir. 

Com efeito, a atuação dele é tão boa que você quase esquece que as piadas que colocam para ele na série já perderam a graça desde a quinta série. 

Eu já tinha comentado que a Netflix usa bastante data mining dos seus usuários para determinar seus interesses e produzir suas séries. Deu muito certo com Stranger Things, e aqui foi feito da mesma forma: comédias de 20 minutos, Drew Barrymore, zumbis, não tem como errar. 

Exceto, talvez, se eles deixarem para os algorítimos escreverem os episódios também, porque realmente parece que foi o que aconteceu aqui. Santa Clarita Diet queria muito, mas muito mesmo, ser uma mistura de Desperate Housewives com Shaun of the Dead. Infelizmente o que ela consegue chegar mais perto é de ser uma mistura das temporadas atuais de Walking Dead com a sexta temporada de Dexter. Lembra da sexta temporada de Dexter? Pois é, achei que você diria isso. Eis o meu ponto.

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