quinta-feira, 2 de março de 2017

[SÉRIES] DOCTOR WHO: o 3º Doutor (ou quando o Doutor foi um cavalheiro distinto)


No final dos anos 60 a BBC concluiu mudar toda sua programação para programas em cores, aposentando o preto-e-branco para sempre. Isso não veio sem um preço, literalmente: todo o novo equipamento em cores teve um custo e tão importante quanto isso, toda logística dos cenários e figurinos das séries tinha que mudar. Se o preto-e-branco era um tanto indulgente com a escolha de materiais, a paleta de cores entregaria na hora se um cenário fosse feito de borracha ou espuma, por exemplo.

Mais custos significa menor orçamento, e essa foi realmente uma época de vacas magras para o Doutor Quem. Não fosse o fato, é claro, que já havia se tornado uma tradição do programa crescer ainda mais com suas adversidades. A grande crise de orçamento do começo dos anos 70 pode ter prejudicado a qualidade dos arcos do Terceiro Doutor, mas deixou um legado inestimável para a série.


O MAIOR INIMIGO DO DOUTOR QUEM

Com o orçamento da série reduzido a duas rodinhas de adoleta, le petit polá, le café au chocolat (eu sempre dizia Nescafé com chocolate, btw) a BBC tomou uma medida estranha para cortar custos do programa: cancelou a parte de viagens no tempo e\ou espaciais. Agora o Doutor estava exilado na Terra (castigo dos Time Lords depois depois dele roubar uma TARDIS para disputar racha) e suas aventuras se resumiam a auxiliar a UNIT (braço militar das nações unidas para lidar com bizarrices interplanetárias, criado ainda na época do 2o Doutor) em resolver problemas nas cercanias de Londres mesmo.

Isso quer dizer que tivemos muitos episódios gravados em depósitos abandonados, fabricas vazias e outras locações cujo custo não deve ter sido superior a um ou dois anúncios no quadro comercial da maior emissora da Inglaterra. Ok, isso resolvia o problema das locações, mas e os monstros?

Fazer figurinos coloridos para monstros (ou seja, de uma textura decente e de materiais decentes) não era exatamente barato, então reaproveitar os aliens que apareciam na série era uma necessidade máxima. Foi nessa época que a série adotou uma das suas marcas mais famosas: improvisar vilões que são objetos do cotidiano com algum timey-wimey científico explicando. Foi essa fase que o Doutor enfrentou manequins e estátuas, ideias que viriam a ser reaproveitadas no reboot de 2005.

Mas dizia eu que o Doutor precisava de um inimigo recorrente e que não fosse caro de se fazer, Cybermens são exatamente o oposto disso, Daleks não podiam ser usados pois o seu criador (Terry Nation) estava tentando vender a ideia para os Estados Unidos. O único jeito era criar um novo inimigo icônico para o Doutor, e um bem barato de se fazer.

Posto isso, a BBC recorreu a uma das ideias mais clássicas da literatura: um inimigo que fosse uma versão corrompida do herói. Aquilo que ele poderia ter sido se tivesse feito outras escolhas - de fato eles poderiam até mesmo ser amigos sob outras condições, ou talvez tenham sido. O professor Xavier tem o Magneto, o Batman tem o Coringa, o Senhor Fantástico tem o Doutor Destino e Sherlock Holmes tem Moriarty. E o Doutor tem alguém que você já ouviu falar, chamado "o Mestre".

O Mestre é um amigo de infância do Doutor que, como ele, é um dos mais brilhantes Senhores do Tempo e que, também como o Doutor, não aceitava toda burocracia e protocolo da sua raça, por isso deu no pé, jacaré. Só que ao contrário do Doutor ele não saiu para conhecer o universo e sim domina-lo, algo que o Doutor também poderia fazer se quisesse já que ele tem a tecnologia e o conhecimento para isso.

Para interpretar essa figura a BBC escolheu se basear no que é talvez um dos vilões mais iconicos da ficção cientifica, mesmo que hoje ninguem mais lembre dele. Mas se você disser a palavra "vilão", automaticamente essa é a imagem que surge. Estou falando, é claro, do terrível Ming de Flash Gordon. Você não tem como ser muito mais raíz na vilania sci-fi do que isso.

Sério, o visual do Mestre lembra muito o do tradicional inimigo do Flash Gordon. O que é ótimo, faltava então apenas um ator a altura para dar vida ao personagem e isso foi o que eles encontraram: Roger Delgado entendeu muito rapidamente que a melhor forma de interpretar um vilão deliciosamente mau como um pica-pau é se divertindo muito com isso. E isso foi o que ele fez.

O Mestre é aqueles vilões de carteirinha que são tão maus que você se surpreende que ele tenha conseguido gravar suas cenas sem cair no riso. Mas não, ao contrário, ele interpretava com tanta seriedade suas tretas malignicimas que o resultado foi espetacular. Essa é uma tradição que se mantem até hoje, e se hoje temos o prazer de ver Michelle Gomez nos deleitando com sua atuação é por conta e mérito deste homem.


TA, MAS E O DOUTOR?

Bem, agora que eu já falei dos tempo de vacas magras e do bem que isso trouxe, vamos falar do distinto cavalheiro que veio a ser o Terceiro Doutor. Ao contrário do primeiro que foi um menino das artimanhas no corpo de um senhorzinho e do segundo que foi o Trapalhão Galáctico, dessa vez o Doutor foi um cavalheiro britânico com toda fleuma e pompa que se pode associar a tal, Um tanto rabugento (talvez por estar de castigo preso na Terra sem a TARDIS), mas principalmente individualista querendo resolver tudo sempre sozinho.

Agora a coisa realmente genial na composição do personagem interpretado por Jon Pertwee (pai de Sean Pertwee, o Alfred de Gotham, alias) é que enquanto aos seus olhos ele é uma Mary Sue absolutamente perfeita e invencível, o roteiro dos episódios não o trata dessa forma. Então para o Doutor ele sempre está com a razão e sabe tudo que está acontecendo, mesmo quando ele não sabe. Essa cara de pau do Doutor e inabilidade de admitir que ele está errado são os momentos mais deliciosos do personagem, assim como ele fingir que tem toda a situação sobre controle quando ele esta absolutamente impotente para fazer qualquer coisa.



E claro, não podemos esquecer do épico especial de dez anos da série quando William Hartnell já muito debilitado pela arteriosclerose fez questão de gravar uma participação no encontro de todos os Doutores.[/caption]

Uma das coisas mais legais do Doutor desde ponto em diante, mas que foi criada por Jon Pertwee, é essa coisa dele ser tão cheio de si quase nos fazer esquecer que afora uma tecnologia que é funciona quase como magia e de ser muito inteligente, tem coisas que simplesmente você não pode resolver com um dispositivo ou cruzando alguns fios - situações militares e políticas, principalmente, mas também envolvia muito sobre não ter a menor noção de como controlar a TARDIS. O que acontece em Metabilis-3 fica em Metabilis-3, afinal.

Jon Pertwee serviu na marinha com Ian Flemming (criador de James Bond) durante a segunda guerra mundial, diz-se que vem daí muito do estilo do seu Doutor de sempre parecer cool usando as geringonças mais absurdas, principalmente quando as coisas não estavam nada cools para ele. Armado com seu colete de veludo e seu aikido venusiano, realmente existe muito pouco que o mundo possa fazer para impedir que você pareça descolado de uma forma brega (como era a moda nos anos 70).

Afinal, não é porque você não está certo que você precisa agir como se estivesse errado, não é?

 
O meu ponto é que Jon Pertwee foi um comediante genial justamente por saber a hora de ficar totalmente sério. Em uma comparação muito estranha, é mais ou menos o que faz Keijo!!!!!!!! ser tão engraçado. Pronto, taí, escrevi o único texto da história da internet que equipa Doctor Who a Keijo!!!!!!!! De nada.

Jon Pertwee e Roger Delgado se tornaram grandes amigos nos sets de filmagem da série, a um ponto tal que quando Delgado faleceu em um acidente de carro em 1973 ficou tão abalado que foi um dos motivos dele não querer continuar a série. E também porque de qualquer forma após quatro temporadas ele achou que já havia feito o suficiente.

Jamais esqueceremos dos dias em que o Doutor foi um cavalheiro distinto e o seu maior inimigo um vilão iconico em vilania.



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