segunda-feira, 20 de março de 2017

[SERIES] CLASS (ou o spin-off de Doctor Who que repetiu de ano)



Ao contrário da televisão americana, a TV britânica não tem tanta experiencia assim com programas para adolescentes - até porque é uma coisa muito da cultura americana se apegar mais aos rótulos do que ao conteúdo, os ingleses julgam mais um programa de televisão pela proposta do que pelas tags que se usa para descreve-la. 

De modo geral seus programas não tem um público particularmente especifico - pense em Downtown Abbey, Sherlock, ou mesmo Misfits não tem essa segmentação obsessiva que os americanos tanto adoram. Não dá para dizer que essas séries são feitas para um publico especifico porque não é assim que a BBC faz as coisas. No máximo eles tem programas family-friendly (embora eles  usem o termo "infantil", essa palavra tem uma conotação em português que não é bem o que eles querem dizer) como Doctor Who.

Por isso é um tanto inusitado que a BBC tenha tentado copiar o modelo americano e criar uma série "teen muito irada para toda galerinha curtir porque é da hora, coroa!". Ou algo assim. Estou falando, é claro, de Class.

Class é o mais perto que a televisão britânica já teve de Buffy, só que vinte anos depois. E isso tem alguns aspectos positivos e negativos.

A série se passa na escola Coal Hill School, a um cenário recorrente no universo de Doctor Who. Assim como a sede de Torchwood em Cardiff, Coal Hill é o lar de uma fenda interdimensional que de tempos em tempos cospe marotos alienígenas em uma conveniente programação de "monstro da semana". Nossos protagonistas são, é claro, um grupo de adolescentes bonitos juntados pelas circunstâncias improvaveis.

A menos que você seja completamente novo em dramas adolescentes sobrenaturais, Class parecerá irremediavelmente formulaico. Nos primeiros episódios ela não oferece nada que não tenhamos visto em Buffy, Teen Wolf ou Smallville. 

O elenco encantador e repleto de diversidade de Class fez o melhor que pode com papéis que basicamente são estereótipos : Ram, o atleta arrogante, Tanya, a jovem gênio prodigio, Charlie o alienígena engraçado porque tem uma falta de noção de conhecimento da cultura pop e Abril, uma "nice girl" que se sente deslocada nice-girlness, embora o show não dê muita evidência para apoiar isso. 

Por mais esforçados que os atores sejam, não tem muito realmente o que fazer com esses personagens. O grande destaque e a coisa realmente especial da série mesmo é a "adulta" do grupo, a senhorita Quill.

A professora Quill é uma figura meio Snape-like, que abertamente despreza estar presa ali fazendo o que ela esta fazendo. A história da minha vida profissional, sys, te entendo.

Logo descobrimos que ela é uma alienígena que lutou pela liberdade do seu povo (ou foi terrorista, dependendo de quem conta a história), condenada e sentenciada a ser escrava de Charlie, o príncipe herdeiro da classe dominante que ela estava tentando derrubar. É um bastante decepcionante que Charlie tenha uma escrava particular em 2017 e isso seja amplamente ignorado pela série.

Quer dizer, a senhorita Quill joga isso na cara dele (e de todo  mundo) o tempo todo e o de vez em quando alguém comenta "poxa, que chato isso" mas é só até onde vai. O que por outro lado acaba ajudando a torcermos pela Quill para que ela consiga se libertar e afundar a cara do almofadinha com um tijolo de seis furos. 

Eu DESCONFIO que essa sensação não era o esperado pelos criadores da série, mas é o que temos para o lanche. Ajuda muito também que a Quill seja uma guerreira badass e com cara de "não tenho tempo pra essas merdas de vocês", vinda de uma cultura alienigina não tão preocupada assim com longevidade, podemos dizer.

Com efeito, eu realmente gostaria de ver mais disso. E se a Katherine Kelly fosse o próximo Doutor eu realmente não ficaria muito ofendido.

Mas enfim, quando a série não está lidando com a badassice da srta Quill, Class tenta seguir o modelo de Buffy e entremear os problemas adolescentes dos jovens com problemas sobrenaturais que vem pela fenda de Coal Hill.

Eu acho que aí é que está o problema da série, porque eu achei realmente dificil me enturmar com o pessoal que é amigo do "cara que tem uma escrava particular e está tudo bem com isso". Mesmo que eu me identifique com alguns dos problemas que eles tem, eu totalmente não gostaria de andar com essas pessoas. Não é o mesmo que, por exemplo, o Xander, a Willow, o Gilles e a Buffy - eu ficaria muito feliz em ser amigo dessa gente. 

E se eu não me importo muito com essa galerinha, bem, então qual é o ponto realmente?


Adicionalmente, Class tem outra série para ser comparada e também não faz muito bonito: Torchwood. Torchwood parte de uma ideia muito legal para os seus episódios: observar o universo de Doctor Who na escala micro.

Por exemplo, em um episódio de Doctor Who tipico os Cyberman convertem dezenas, as vezes milhares de pessoas em novos Cyberman até que o Doutor salva o dia. Ok, beleza, mas E SE essas pessoas que foram transformadas em máquinas tivessem nome, família, se fossem alguém que conhecemos?

Torchwood é muito sobre isso, sobre o lado micro e humano das constantes invasões alieniginas. Coisas que o Doutor resolve em meio segundo puxando da sua wikipedia de Time Lord e balançando a chave de fenda sonica como se não fosse dificil, bem, pode custar várias e várias vidas humanas para resolver quando não temos tecnologia e conhecimento sobre o espaço-tempo relativo a nossa disposição. Torchwood é sobre esse tipo de história.

Eu tenho que comentar também que a série tem um protagonista gay, mas a série NÃO É SOBRE ISSO.
O relacionamento deles é tratado como uma coisa normal, porque adivinha só? É uma coisa normal.
É pra glorificar de pé, igreja!

Já os monstros de Class são sobre... bem... eu não identifiquei nada que desse um aspecto único, que desse uma personalidade a série. São criativos, verdade, mas não tem  um tema, eles não passam muito um propósito além de serem coisas aleatórias que a fenda vomita. O que acaba não ajudando tanto assim na experiência de assistir a série.

As ideias básicas por trás de Class não são ruins. O coisa de Coal Hill ser uma Boca do Inferno de aliens não é uma ideia original, mas esse não é tanto o problema. A verdadeira questão é a escrita que não parece ter um propósito, um tema, contando com arcos de personagens previsíveis - novamente, nada que Teen Wolf já não tenha feito.  

Suas pinicadas ocasionais na cultura pop são meio deslocadas também, parecem muito mais um adulto querendo se enturmar com os jovens do que algo genuíno. Logo nos primeiros cinco minutos tem uma piada sobre o teste Bechdel tão forçada que eu quase tive que checar se não estava assistindo um vídeo do Tumblr.

Ou a série poderia ser sobre a Quill com um marretão. Eu assistiria.
Enquanto Doctor Who geralmente cria um fundo específico, mas relacionável para seus personagens humanos (por exemplo, a trabalhadora de emprego bosta genérico de classe média Rose Tyler e sua mãe obnoxiosa mas adorável), a configuração da Classe é tão genérica que poderia facilmente ser transposta para uma escola de TV americana. 

Com efeito, o primeiro episódio culmina mesmo em um confronto durante um baile escolar, um evento quintessencialmente americano (apesar de ser adotado por muitas escolas britânicas atualmente). Já que a ideia era representar a juventude millenial, porque não fazer algo mais sincero e ter as crianças em uma festa que esse jovens iriam de verdade?

Mais para o final da temporada a série começa a encontrar o seu próprio ritmo, contando a sua própria história com sua própria voz. As coisas sobre espiritualidade e metafísica pareciam um caminho bom a se seguir - uma vez que Doctor Who não faz isso - mas parece que a série só descobriu sua própria identidade tarde demais.

Nos últmos episódios temos dimensões paralelas, uma visitinha ao céu e ao inferno e Weeping Fucking Angels, e tudo isso é muito legal de se assistir. Pena que a essa altura o estrago já estava feito e o navio dessa série já tinha partido. Class foi cancelada justo quando parecia que estava se achando, o que é uma pena realmente.

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