quarta-feira, 15 de março de 2017

[OSCAR 2017] A Qualquer Custo (Hell or High Water)



Existem alguns filmes que são indicados ao Oscar de melhor filme não porque efetivamente são o melhor filme daquele ano, mas porque os membros da Academia queriam provar um ponto com sua indicação. Lion (não vou escrever sobre ele, já que envolveria falar sobre assuntos bastante sérios, e a internet não é o lugar adequado para discussões sérias), por exemplo, não vai ganhar o prêmio, mas eu entendo o ponto da sua indicação. O mesmo não pode ser dito de Hell or High Water (A Qualquer Custo, no Brasil), que foi indicado porque… well… because… é, né?


Colocando as coisas no papel, Hell or High Water é um filme incrível. É um daqueles raros casos em que um faroeste consegue se adequar à modernidade, mas ainda manter o feeling de faroeste, como em “Onde os fracos não têm vez“. Ajuda muito que o cenário moderno pareça o velho oeste: após a crise da bolha imobiliária de 2008, cidades inteiras no interior dos EUA (e até mesmo cidades grandes, como Detroit) viram sua economia implodir e se tornaram cidades fantasmas. Se você ver uma bola de feno cruzando a rua principal da cidade, estará totalmente dentro da realidade.

Pessoas desempregadas, lugares abandonados, aumento da criminalidade e os bancos, principais responsáveis pela ruína de milhões, lucrando cada vez mais. Cruze esse filme com A Grande Aposta (The Big Short) e não é mais tão absurdo entender porque frases de efeito e propostas populistas se tornaram tão bem recebidas assim, o que explica muito como o Trump venceu as eleições.

Sabe, esse filme realmente teria funcionado melhor como um episódio da série do Chuck Norris. Apenas dizendo.
Mas, whatever, eu disse que não ia falar de coisas sérias aqui. Enfim. Como em um faroeste que se preze, dois irmãos assaltam bancos e um xerife no melhor estilo texano os persegue. E como já era previsivelmente de se esperar, um dos irmãos é muito esperto e o outro é um brucutu que não pensa direito. Clássico. Adicione um toque extra de esperteza do roteiro, ao ir revelando gradualmente, ao longo da película, que os irmãos têm, sim, um ótimo motivo para estarem fazendo o que estão fazendo, e temos alguma coisa aí.

O plano dos irmãos é tecnicamente perfeito: roubar apenas o dinheiro do caixa dos bancos (nunca o cofre), evitando, assim, notas marcadas e chamar atenção de autoridades maiores. Ninguém se machuca (quase), e só quem se ferra é um banco que, honestamente, nem deve ter percebido a quantia minima que eles roubam (para os padrões de um banco). E sejamos honestos, ninguém fica chateado em ver um banco se ferrar, né?

Só não é o crime perfeito porque um xerife que está para se aposentar decide encarnar no caso e fazer dessa a saideira da sua carreira.

Você sabe que está no Texas quando vê o dono da casa conversando com uma visita com uma arma na mão e isso é perfeitamente normal à paisagem


As primeiras cenas de “Hell or High Water” são as suas melhores. Depois de ver tantos assaltos meticulosamente coreografados como em Onze Homens e um Segredo, é interessante bom ver em um filme um assalto a banco em escala menor e bem mais realista. Torna-se ainda mais interessante uma vez que entendemos que há mais acontecendo do que parece à primeira vista.

No entanto, uma vez que o roteirista Taylor Sheridan (o mesmo de Sicario) estabeleceu a premissa básica, ele não parece ter muita ideia de como preencher a hora de filme que falta entre essas primeiras cenas e o “duelo final” do filme.

Durante todo o grosso do seu miolo ele tenta emular “No Country for Old Men” sem acrescentar muitas ideias novas ou uma voz própria ao filme. Não é ruim, mas não é nada que você já não tenha visto algumas vezes em outros lugares. Sabe aqueles filmes que você consegue adivinhar o que os personagens vão dizer ou o que vai acontecer antes que aconteça? Pois é.

O resultado é que o final é um tanto decepcionante. Não porque ele não seja bem encenado ou bem executado, mas é que o recheio do filme é feito tão no piloto automático que o “duelo” final não tem o impacto que o diretor ou o roteiro claramente desejavam.

As atuações são a coisa mais interessante do filme, já que temos Jeff Bridges sendo o Jeff Bridges (e isso é meio que tudo que precisa fazer), Chris Pine (o novo capitão Kirk) na melhor atuação da sua carreira, e o guarda-costas da princesa inca no episódio de Buffy sobre a múmia (essa foi uma referencia bem obscura, de nada).

Mas o ponto meio que é esse. É frustrante que “Inferno ou Água Alta” contenha tantas coisas boas que simplesmente não se fundem em uma experiência muito foda enquanto filme. A premissa é boa, mas faltou um recheio um pouco mais interessante e, por causa disso, nem mesmo os elementos fortes que estão lá são capazes de compensar. Se ao menos tivesse passado um pouco mais de tempo tentando encontrar sua própria voz, e um pouco menos tentando abertamente recriar os filmes que o influenciaram, “Hell ou High Water” poderia ter sido de fato merecedor dessa indicação de melhor filme.

OSCAR 2017 (4 indicações)

Melhor Filme
Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges)
Melhor Roteiro Original (Taylor Sheridan)
Melhor Edição (Jake Roberts)


Nenhum comentário:

Postar um comentário