terça-feira, 14 de março de 2017

[OSCAR 2017] MOONLIGHT (ou Gone Home, o filme)



Um dos jogos mais premiados de 2013, Gone Home é a melhor ambientação que eu já vi em um jogo. O cenário de uma garota voltando para casa onde cresceu nos anos 90 transborda magia e perfeição. Tudo é como deveria ser. Você realmente sente no âmago da coisa como seria realmente se VOCÊ estivesse voltando para o lugar onde cresceu (ela encontra até o caderno onde anotava os golpes e passwords do Super Nintendo). A atmosfera é absolutamente sublime.

O problema é que o jogo meio que é isso: a ambientação é perfeita, mas claramente esqueceram de pôr um jogo ali. Você anda pela casa, e só. A experiência não tem um propósito maior que isso, é só o cenário mesmo. Se isso é bom o suficiente ou não para você, isso é algo que só você pode dizer. Mas o jogo é isso.


Eu achei muito louca a ideia de fazer um spin-off de toda
vida do segurança do Boca de Algodão que
leva uma porrada do Luke Cage e aparece, tipo, 5 segundos na tela. Doidão.
Esse é o melhor paralelo que eu consigo pensar para explicar Moonlight: o filme é absolutamente perfeito na construção e estudo do personagem. Mesmo. As motivações, as nuances, as atuações, tudo ali está em seu máximo de qualidade. O filme acompanha o jovem Chiron em três fases da sua vida, e a cada fase vemos como a influência de todas as pessoas que o cercam moldam sua personalidade para o melhor ou para o pior.

É tão bom, tão bem feito que Mahershala Ali foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante por uma participação só nos primeiros vinte, trinta minutos do filme. Não vejo como poderia ser melhor desenvolvido que isso.

O problema é que isso é meio que tudo que o filme faz, contudo. Acompanhamos Chiron crescer e se encontrar na vida (ou não), mas não há um propósito maior na narrativa da história. Ele não quer nada em particular, ele não luta por muita coisa senão ser deixado em paz, não há um arco de personagem no sentido clássico da palavra. Temos só uma pessoa crescendo e o filme tá lá para ver o que acontece. Só.

Se isso é bom ou ruim, só você pode dizer. Eu gosto bastante do gênero slice of life, por exemplo, mas senti falta de um propósito maior no filme, meio que – como em Gone Home – o cenário estivesse lá, mas faltasse colocar um “filme” dentro do filme, sabe?

Bem, claro, isso sou eu. Eu sou um homem simples com gostos simples, e por isso mesmo achei que faltou algo, uma catarse, alguma coisa assim. Talvez para você apenas o estudo de personagem seja suficiente, porque é isso que o filme é realmente.

“Já disse pra tu parar de achar que é o Spock,
isso não vai me fazer desmaiar caralho”
SOBRE O QUE É O FILME?

O diretor Barry Jenkins (o mesmo do polêmico-antes-mesmo-de-estrear Dear White People) conseguiu retratar, em minuciosos detalhes, o declínio de um jovem negro para um criminoso endurecido. O filme faz um trabalho maravilhoso de destacar os fatores ambientais em jogo nesta transição, que é muito comum.

Mais ainda, o filme é um dos raros a falar de toda a toxicidade e coisas fodidas que existem na masculinidade. Ele versa muito sobre o que “ser um homem de verdade” significa na sociedade, e o quão fodida essa merda toda é, o quão errado e prejudicial esse sistema todo é. Isso é raro e muito necessário.

Feito do jeito errado, a jornada de um negro pobre e gay teria tudo para se tornar “Social Justice Warriors – o filme”. Felizmente, a equipe de produção soube muito bem o que estava fazendo.

As atuações são alguma coisa de perfeição. Todos os atores que interpretam Chiron nas três frases da sua vida devem ter juntos menos falas que o Peter Parker em Capitão América 3, mas passam muito mais pelo que eles não dizem. É raro encontrar um ator que consiga passar tanto com a postura corporal, olhar e silêncio. Moonlight encontrou três.

Ou seja, enquanto cinema, Moonlight é tecnicamente perfeito. Não é por nada o filme tem 98% de aprovação no Rotten Tomatoes dos críticos. Isso, claro, é o quanto eu posso de falar de cinema tecnicamente – o que é bem pouca coisa, na verdade. Vou confiar no que os profissionais da área dizem.

O que eu posso falar mais é sobre a experiência como expectador e, nesse aspecto, como eu disse antes, ou o filme é suficiente para você ou não é. Pessoalmente eu acho que o filme não tenta muito “fazer as coisas acontecerem”, e falha bastante quando o faz. Até agora eu não entendi a lógica do porquê Chiron foi preso quando os outros fizeram EXATAMENTE A MESMA COISA (até pior, na verdade) com ele e não aconteceu nada. Adultos que saem do seu caminho para vomitar sabedoria sobre o menino. Coisas assim.

Eu entendo por que elas estão no filme (sua importância objetiva para a história ir para frente), mas não por que elas estão no filme (a lógica dentro do mundo proposto pelo filme). O resultado é que o final do filme não termina de uma forma poderosa, apenas… para. E eu fiquei pensando: ‘É isso?’

De forma geral, eu aprecio a proposta do filme e a construção dos temas escolhidos. Apenas para mim teria funcionado melhor dentro de uma narrativa mais tradicional. Talvez para uma pessoa mais sofisticada do que eu funcione melhor, suponho.

OSCAR 2017 (8 indicações)

Melhor Filme
Melhor Diretor (Barry Jenkins)
Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali)
Melhor Atriz Coadjuvente (Naomi Harris)
Melhor Roteiro Adaptado
(Barry Jenkins)
Melhor Trilha Sonora
(Nicolas Brittel)
Melhor Fotografia (James Laxton)
Melhor Edição (Nat Sanders e Joi Mcmillon)

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