segunda-feira, 6 de março de 2017

[OSCAR 2017] MANCHESTER A BEIRA-MAR (ou triste, tudo é tão triste…)


Da forma como eu vejo as coisas, existem dois tipos de homem no mundo: aqueles que, ao serem abordados por qualquer interação humana de qualquer tipo, vão fazer o melhor que suas formações lhe permitem para se mostrarem o melhor, mais forte e mais alfa que um homem deve ser. E tem aqueles que vão escolher as palavras mais eficientes possíveis para que a outra pessoa o deixe em paz o mais rápido possível. Eu e Lee Chandler (Casey Affleck) pertencemos ao segundo grupo. 



Porque, vê, o que as pessoas entendem errado sobre a depressão é que ela não é sobre chorar caindo lentamente de costas pela parede quando algo terrivelmente dramático acontece. Não é sobre estar triste por motivos que realmente deveriam fazer você estar triste. É, sim, sobre viver com um travesseiro em cima dos seus sentimentos, sobre ter como palavras principais do seu vocabulário “aham”, “tanto faz…” e “pode ser…” a maior parte do tempo. 

O personagem interpretado pelo irmão Affleck que não é o Batman é desse tipo que não conseguiria levar meia hora de small talk com alguém, mesmo que sua vida dependesse disso. I know that feel, bro! Pois bem, é esse adulto absolutamente disfuncional que tem que viajar de volta à cidadezinha de Manchester (a americana, não a inglesa) quando seu irmão morre, lhe deixando a guarda do seu sobrinho. 

Como você pode imaginar, voltar para a cidade onde ele cresceu e ser responsável por um adolescente estão na lista de coisas que Lee gostaria de fazer algumas posições atrás apenas de enfiar um garfo no olho ou assistir Batman v Superman novamente. 

Você tinha que me lembrar disto?
O filme é basicamente sobre isso, e em um filme normal seria sobre o tio e o sobrinho vivendo juntos e magicamente aprendendo a saborear as cores da vida mais uma vez, um belo conto de redescoberta do amor e da esperança depois de altas confusões e clichês muito engraçados! 

Tem uma cena que eles tentam colocar alguém dentro da
ambulância e as rodinhas da maca emperram,
fica quase um minuto tentando fazer a coisa funcionar e
você pensa: “puta merda, que coisa triste,
olha só, nem a maca funciona!”
 Bem, é, até poderia ser um desses filmes que passa na Sessão da Tarde, só que não é. O filme é sobre a depressão realmente, e tudo é pesadamente triste e arrastado. Lee só quer se livrar desse estorvo para voltar à sua vida, onde as pessoas não falam com ele, e o seu sobrinho tem que lidar com o fato de, uma hora para a outra, ele simplesmente não ter mais família. Não é algo simples para um adolescente processar. Tudo é triste, tudo é cinzento, é sempre inverno, a trilha sonora é triste, as atuações são tristes. 

Feito por qualquer outra pessoa no mundo, esse filme teria tudo para acabar se tornando engraçado de tão depressivo que ele é. Um pouco menos de cuidado e teria acabado por ser uma paródia sobre filmes de arte ou algo que o valha. Felizmente (talvez não para ele), o diretor Kenneth Lonergan parece estar tão deprimido quanto o roteiro do filme, que é até uma surpresa que ele simplesmente não tenha dado um tiro na cabeça ao terminar as filmagens, porque a depressão que permeia o filme todo é muito verdadeira. 

Assim como na vida com depressão, não existem momentos catárticos no filme, em que você põe tudo para fora e depois está feliz e contente para seguir adiante. Não é assim que a depressão funciona, ao contrário, ela é uma bola de ferro presa na sua perna que vai estar sempre lá pesando e sendo cinzenta. É o que ela faz e o que sempre fará. 

E se ser genuinamente depressivo é a melhor qualidade do filme, também é o seu maior defeito. O ritmo é dolorosamente lento, os atores parece que tomaram um caminhão de Prozac antes de começarem, a filmar e duas horas de um filme mono tono acaba por ser inevitavelmente monótono. E isso porque eu sei do que eles estão falando por experiência própria, imagino que para uma pessoa normal assistir a um tratado sobre a depressão de duas horas deva configurar crime de guerra. Se pessoas depressivas não são exatamente populares, porque ninguém aguenta muito tempo perto de alguém com essa merda, esse filme não tem melhor sorte no tema. 

Sem exagero, 70% dos diálogos do filme são assim
Não ajuda muito também que o roteiro não vá a grandes lugares. A única parte que motiva o espectador a continuar vendo o filme é querer saber o que aconteceu com Lee e porque saiu de Manchester. Dica: não foi por um motivo feliz, mas você jamais adivinharia se eu não dissesse isso. Só que essa informação é dada lá pelo meio do filme, e com essa curiosidade saciada o filme não tem mais muito a instigar o espectador. Conhecendo a personalidade depressiva-prática de Lee, você meio que já sabe como as coisas vão terminar para ele e o sobrinho antes da metade do filme. 

Mesmo que o sobrinho tente lentamente descongelar a dor de seu tio, com tanta graça quanto um adolescente é capaz de fazer qualquer coisa, ele permanece imóvel e incapaz de seguir em frente. É ousado da parte do diretor não colocar um momento de catarse do tipo “não é sua culpa” onde todos se abraçam, choram e fica tudo bem depois, mas, ao mesmo tempo, faz a coisa toda parecer sem progresso ou resolução. A nuvem cinza nunca vai embora. 

Há um minúsculo passo de evolução no final por parte de Lee, e isso meio que é tudo. O que é bastante realista, verdade seja dita, mas a realidade nem sempre é algo tão interessante de se ver. Principalmente quando se fala sobre depressão. 

OSCAR 2017 (6 indicações) 
MELHOR FILME MELHOR ATOR (Casey Affleck) 
MELHOR ATOR COADJUVANTE (Lucas Hedges) 
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (Michelle Williams) 
MELHOR DIRETOR (Kenneth Lonergan) 
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL (Kenneth Lonergan)

Nenhum comentário:

Postar um comentário