sábado, 11 de março de 2017

[OSCAR 2017] LA LA LAND (ou mudo meu nome de usuário para mumunhab0l4d4um se esse filme não ganhar o Oscar)



Existe uma piada na internet que as séries da Netflix são, na verdade, escritas por um algorítimo que captura dados dos usuários do sistema. A realidade não é tão longe disso, entretanto: a Netflix sabe exatamente, cena por cena, ao que as pessoas assistem, com que frenquência, onde elas pararam quanto tempo ficaram longe – isso é, se voltaram.

Ela conhece seus usuários melhor do que qualquer outro sistema, porque enquanto você pode encher sua timeline do Facebook com coisas só “da boca pra fora” que você não realmente liga ou acredita, simplesmente não tem como mentir para a Netflix. Ela sabe que você colocou a “A Lista de Schindler” na sua lista de coisas para ver um dia – para se sentir bem consigo mesmo – mas está mesmo é revendo Friends pela quinta vez.

Ela apenas sabe.


E porque eu estou falando da Netflix no post sobre o filme com maior número de indicações (junto com outros três) na história do Oscar? Porque foi exatamente o que o diretor Damien Chazelle (do excelente Whipslash) fez: ele usou o algorítimo da Netflix, só que para empilhar indicações ao Oscar.

Porque, veja, uma coisa fundamental é entender como a votação do Oscar funciona: a internet costuma achar que as indicações saem de um bando de velhinhos senis isolados do mundo em uma sala (e volta e meia até um site grande repete essa asneira), quando na verdade elas são feitas por quem está ativamente trabalhando na indústria. E se você conversar com qualquer pessoa sobre a sua profissão, a grande maioria delas não vai se ofender em receber uma massagem no ego sobre como o trabalho dela é incrível, importante e não reconhecido o bastante.

La La Land é uma declaração de amor de Hollywood para si mesma, uma carta aberta de ode ao narcisismo.

Nossa história começa com uma jovem que quer ser atriz e não consegue porque todas as audições que ela faz são feitas de qualquer jeito pelos motivos mais toscos possíveis. O que foi a piscadinha de Hollywood para si mesma; Eu quase ouvi os votantes da academia dizendo “nossa, é assim mesmo, eu passei por isso também!”.

Enquanto não realiza seu sonho, ela trabalha numa cafeteria dentro dos estúdios da Warner. Novamente eu pude ouvir os votantes dizendo “ah, eu lembro desse tempo de bicos antes de chegar onde eu cheguei… que tempo bom…”. E por aí vai ao longo de mais de duas horas de filme. Parte das 14 indicações vem desse caminho cuidadosamente talhado para as pessoas de Los Angeles assistirem o filme e pensarem que o filme é sobre a SUA vida.

O personagem de Ryan Gosling é a “salvação branca do Jazz” (WTF?!?) que insiste que jazz é sobre feeling, sobre se deixar levar, sobre improvisar. Considerando sua mecha de cabelo cientificamente estudada para montar esse visual, eu acho isso alguma coisa difícil de acreditar…

Em 2012 “O Artista” ganhou todas as categorias importantes basicamente por fazer a mesma coisa (só que com os filmes mudos, no caso)

Outra parte do segredo do sucesso vem porque, bem… o filme é um musical. Dã! Mas não apenas “um” musical; ele é gravado cena por cena para parecer o mais que puder com os musicais dos anos 50/60. O estilo de câmera utilizado, as locações – sério, tem até pôr-do-sol em fundo de pano como se utilizava naquela época – a iluminação, tudo foi feito para ser um filme dos anos 50 filmado em 2016.

O que é ótimo, é uma ideia genial, é lindo. Só que tem um problema: Ryan Gossling e Emma Stone não são Fred Astaire e Ginger Rogers. Ok, essa é uma comparação injusta: não existe outro Gene Kelly, certo. Mas os protagonistas desse filme não venceriam sequer a Dança dos Famosos. Dificilmente eles sequer seriam convidados para participar de um episódio de Glee.

Sei lá, pode parecer loucura da minha parte, mas eu esperaria que um grande musical tivesse… sei lá, só chutando… grandes músicas e grandes números de dança? Aqui não existe nenhum particularmente marcante realmente. Se Evita não pode ser considerado um grande musical porque só tem uma música realmente marcante, La La Land sequer isso tem. É apenas… meh…

O personagem de Ryan Gosling é a “salvação branca do Jazz” (WTF?!?) que insiste que jazz é sobre feeling, sobre se deixar levar, sobre improvisar. Considerando sua mecha de cabelo cientificamente estudada para montar esse visual, eu acho isso alguma coisa difícil de acreditar…Eu honestamente não consigo imaginar um único motivo pelo qual você está lendo essa legenda agora.

E se La La Land não segue alguns dos princípios básicos de um grande musical (ter boas músicas e danças), ao menos um ele segue espetacularmente: sua trama pode ser rascunhada em um guardanapo. Na maior parte do tempo isso não é realmente um problema porque Ryan Gosling e Emma Stone são atores fantásticos e a química entre eles é impecável, yay. Eu totalmente veria um filme sobre a Gwen Stacy fazendo pão por duas horas, isso é.

Eu honestamente não consigo imaginar um único motivo pelo qual você está lendo essa legenda agora.

Só que por mais espetaculares que os atores sejam, eles só podem carregar o filme nas costas até certo ponto (e o fazem até onde dá, realmente). Porém, quando o filme exige coisas que estão além das capacidades dos dois, como digamos, um bom roteiro… não dá muita liga.

Oh, Jorge Roberto, não podemos ficar juntos
pois vivemos em um mundo que
jamais ouviu falar de Skype ou Whatsapp!
Todo romance, para ser uma história, tem que ter algum tipo de conflito. Alguma coisa que os impede de ficarem juntos: seja a personalidade de ambos, seja um fator externo, seja uma doença muito rara que transforma sua pele em geleia de goiaba e você tem que fugir para não acabar sendo colocado como recheio da merenda das crianças perto de você. Alguma coisa. Em La La Land, o mocinho e a mocinha se amam muito, muito mesmo mas não podem ficar juntos porque… hã… eles apenas não conversaram sobre isso sem estar com a cabeça quente? Sério, eu não entendi muito a “grande separação” (todo romance parece que tem que ter um penúltimo capítulo assim antes do clímax do reencontro) ou porque isso era um problema.

Sabe aquela máxima “se organizar direitinho, todo mundo transa”? Pois é, o grande vilão do filme para o clímax romântico foi só faltar o organizar direitinho. Esquisito.

Então, resumidamente, é um romance musical em que a parte do romance foi preguiçosamente escrita (basicamente tacaram para os dois atores e disseram “salvem o dia aê”) e o musical não é nada de especial mesmo. O que esse filme faz de bom, então?

UMA MARAVILHA TÉCNICA PARA A TODOS OSCARS ARREBATAR

O diretor Damien Chazelle não pode fazer muito a respeito da coreografia do filme, mas o que ele efetivamente pode fazer é realmente impressionante. Todas as indicações por prêmios técnicos não são desmerecidas. Basta ver a cena que abre o filme, por exemplo: é uma tomada de dez minutos sem cortes. Dirigir uma cena daquele tamanho, com tanta gente envolvida assim, cataplau, no seco, é algo realmente impressionante.

Essa foi boa, vai!
E isso se repete durante a maior parte do filme: ele efetivamente consegue criar um híbrido que remete a edição, fotografia e aspecto dos clássicos dos anos 50/60 mas sem parecer apelativo ou cafona. Existe uma miríade de referências a esses filmes que foram incorporadas tão graciosamente que parecem parte da ideia original e não uma coleção de referencias desesperadas (cof, cof, aprende Warner/DC. cof)

Certo, o estúdio não deu para ele atores que são lá grandes coisas dançando, mas a parte que cabia a ele fazer, o filme é repleto de cenas tecnicamente muito difíceis de se fazer, e ele as faz muito bem.

Outra coisa muito interessante é que a partir da segunda metade, o filme muda bastante o seu foco. Sai o foco nas cenas de canto aleatórias e entra um tema de arte-vs-comércio e “como manter o seu sonho vivo enquanto você paga as contas do mês“. É uma ótica interessante, com alguns bons diálogos realistas.

La La Land é um filme mediano (que se beneficiaria muito com meia hora a menos de filme) com uma qualidade de produção e atores que o faz parecer melhor do que é realmente. Meio que o que o Christopher Nolan faz com os filmes dele: parece muito aceitável na hora, mas quando você para e pensa sobre isso solta um “Hey! Eu fui tapeado!”. La La Land é uma tapeação bonitinha (principalmente porque seus protagonistas são duas das pessoas mais bonitas de Hollywood, né), mas não menos tapeação por conta disso.

 OSCAR 2017 (14 indicações)

MELHOR FILME
MELHOR DIRETOR (Damian Chazelle)
MELHOR ATOR (Ryan Gossling)
MELHOR ATRIZ (Emma Stone)
MELHOR ROTEIRO (Damian Chazelle)
MELHOR TRILHA SONORA (Justin Hurwitz)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Duas indicações, por Audition (The Fools who Dream) e City of Stars
MELHOR EDIÇÃO DE SOM (Ai-Ling Lee e Mildred Iatrou Morgan)
MELHOR MIXAGEM DE SOM ( Andy Nelson, Ai-Ling Lee e Steve A. Morrow)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE (Sandy Reynolds-Wasco e David Wasco)
MELHOR FOTOGRAFIA (Linus Sandgreen)
MELHOR FIGURINO (Mary Zophres)
MELHOR EDIÇÃO (Tom Cross)

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