sexta-feira, 17 de março de 2017

[OSCAR 2017] ESTRELAS ALÉM DO TEMPO (Hidden Figures)



Uma das coisas que eu acho mais interessante no ser humano é a sua infinita capacidade de ser absurdamente inteligente e completamente imbecil ao mesmo tempo. E não estou falando enquanto espécie, mas sim que as pessoas conseguem ser de uma genialidade impar em algumas coisas, e de uma asneirice tal que, se colocar um fardo de grama na frente, já eras.

O canal Eu, Ciência fez um vídeo sobre esse tema – o qual eu realmente recomendo que você assista.

Eu sei que não é assim que a inteligencia funciona (para começar não existe “inteligencia” como um número mágico unificado da mente de cada um), mas, ainda assim, é um fenômeno que chama muito a minha atenção.

Como, por exemplo, quando em 1961 os caras da NASA conseguiam mandar coisas para o espaço e (razoavelmente) trazer de volta usando fórmulas matemáticas tão complexas que, quando tinha algum número de verdade nelas, eles paravam e checavam se não era um erro. Isso em uma época em que o melhor do melhor da computação top de linha que o mercado tinha a oferecer não rodava nem um Tamagochi. Eles calculavam tudo na mão mesmo.

Eu não preciso dizer o quão foda, incrível e épico isso é. Não, sério, é um negócio espetacular pra caralho.

E esses mesmos homens brilhantes, geniais e incríveis, não dividiam o bule de café com uma mulher negra, porque ela era mulher e, oras, negra. I mean…


Quer dizer, eu até entendo seu tio que mal sabe desenhar o nome (escrever implica em saber o que significam individualmente aqueles risquinhos no papel) falando no almoço de domingo que “não tem nada contra os viado, desde que eles fiquem escondidos no cantinho deles“, mas das melhores mentes da humanidade? Serinho mesmo, gente?

Somos uma espécie doida demais, já dizia o shinigami Ryuki.

INDO AUDACIOSAMENTE ONDE OS RUSSOS JÁ TINHAM IDO

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures no original) conta a história de três mulheres negras que trabalharam na NASA durante a época da corrida espacial, e meio que salvaram a porra toda em três categorias bastante diferentes de atuação dentro da instituição.

Embora o filme conte a história das três amigas, o foco maior é para Katherine Globe, e como ela meio que carregou nas costas o projeto Atlas – a ironia do nome, hã? – que foi a primeira missão tripulada americana a dar a volta na órbita da Terra. Isso enquanto ela tinha que correr um quilometro e meio para ir ao banheiro sempre que precisava, porque não existiam banheiros para “gente de cor” no prédio onde ela trabalhava.


A parte de ciência do filme é muito interessante de se ver. Os bastidores de uma das primeiras missões tripuladas da NASA lembra muito o filme Apollo 13 em vários momentos. De uma forma boa. Vou dizer que me desconcentrou um pouco ver o Sheldon no filme interpretando mais ou menos o mesmo personagem de Big Bang Theory, e meio que rolou um fanboyismo explicito com a figura de John Glenn (astronauta da Friendship 7 e primeiro americano a orbitar a Terra, falecido em dezembro de 2016), mas, fora isso, a coisa vai que vai quicando.

Se algo está sendo comparado com Apollo 13, você sabe que estamos falando de um bom filme.

A parte sobre o preconceito e a discriminação, no entanto…

“Vocês não conseguiram instalar esse computador em 3 meses? Eu e minhas meninas já estamos zerando Doom nele”


TUDO CULPA DESSIS OMI BRANCO MACHISTA CIS ALUEBLÉBRGRRRRRR!!!

Uma crítica frequente que eu vejo a respeito do filme é que ele não é ofensivo o suficiente quando é para falar sobre o racismo. De fato, não é. O filme não é um textão do Facebook dizendo que tem que mata tudo essas porra que deviam ter sido abortadas e blablabla.

O que o filme é, é algo muito mais inteligente do que isso.

Ao invés de fazer um filme de racismo para os negros, o filme escrito e dirigido por Theodore Melfi mostra o racismo para os brancos. Eu posso imaginar que faz muito bem para a alma o filme vir e dizer “olha, eu sei o que tu passa, é isso, isso e isso, você não está sozinha”. Ok, show de bola.

Só que o que filme faz não é isso. O que ele faz é chamar o homem branco cisgênero não para vomitar ódio em cima dele, porque tudo que existe de errado no mundo é culpa dele, e sim para conversar.

“Então, tá vendo esse cara aqui no filme que é uma boa pessoa, inteligente, esclarecido, mas que está tendo uma atitude completamente retardada, não porque ele é um vilão maniqueísta de história em quadrinhos, apenas porque sempre foi assim e ele nunca pensou sobre isso antes?”

“Pois é, realmente. Acho que tem algumas atitudes na minha rotina que eu posso realmente rever”.

É assim que se resolve as coisas: conversando. E é o que o filme faz com uma pegada leve e de alto astral. Essa coisa de “nós contra eles” pode fazer você se sentir muito bem quando vomita ranço sobre o “eles”, mas não resolve o problema. Pelo contrário, só o piora.

Foi EXATAMENTE essa linha de pensamento que fez o Trump ser eleito (bem, um dos, nada é tão simples assim), olha o tamanho da bosta que esse tipo de pensamento gera!

Em uma das cenas mais icônicas do filme, a personagem da Kirsten Dunst diz para a mulher que não vai dar a promoção a ela não porque ela é negra e sim porque… sacumé, né? Não que ela pessoalmente tenha algo contra negros, apenas não é assim que as coisas são, né?.

A prejudicada na situação tem a resposta mais verdadeira possível: “Eu sei que você acredita no que está dizendo.”

O filme lembra os acertos de Zootopia ao mostrar que o preconceito não nasce de vilões de anime maus como pica-paus, mas sim de gente comum que nunca parou para se perguntar porque eles estão fazendo o que fazem (verdade que alguns se perguntam e continuam sendo cuzões, mas esses meio que estão além de qualquer ajuda já).

Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou bastante cansado de tanta raiva e negatividade que nos cercam nos dias de hoje. Os problemas do mundo se esfregam na nossa cara, quer queiramos ou não. Por isto não é necessário ir atrás de ficar chafurdando na lama. O que nós precisamos são de soluções.

E o que resolve esse problema (qualquer problema na verdade) não é apontar o dedo e gritar frases de efeito. É sentar, conversar e apontar os erros que o outro está cometendo.

Estrelas Além do Tempo faz isso, ao mostrar de uma forma inspiradora e até divertida o quão ridículos os homens mais inteligentes de uma geração estavam sendo sem vilaniza-los. Nos desarma para que possamos refletir sobre as nossas próprias atitudes. O que de melhor pode ser dito sobre o assunto?

OSCAR 2017 (3 indicações)

Melhor Filme
Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Melhor Roteiro Adaptado (Allison Schroeder e T. Melfi)

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