quinta-feira, 16 de março de 2017

[OSCAR 2017] A CHEGADA (ou os aliens passariam no ENEM?)



Uma coisa que sempre me incomodou um pouco sobre os aliens na ficção científica é que, bem, não existem aliens na ficção científica. Sério, pense sobre isso: o que existem são seres humanos de outras cores (e às vezes com roupas ridículas de borracha) que são essencialmente… seres humanos. Eles pensam como nós, têm os nossos mesmos valores morais – certamente podem ser tocados pelo nosso entendimento de amor ou da amizade – dependendo do que você estiver assistindo, até mesmo falam nosso idioma entre eles.

Eu entendo porque isso é feito. Um filme ou livro sobre um contato com outra cultura é tão complexo que teria que ser exclusivamente sobre isso. Acho que o mais perto que eu já vi sobre “aliens de verdade” em alguma coisa são os escritos do mestre Lovecraft.

Os monstros dos mitos de Cthulhu são tão alienígenas, tão aberrantes, tão de fora da curva, que nós sequer conseguimos compreender o que eles são sem enlouquecer no processo. Muito menos como eles pensam. O que eu posso garantir que eles não são é apenas um cara com tentáculos no lugar de pelos pubianos.

Por isso eu gostaria de ver um dia desses Hollywood tentar mostrar aliens de verdade, com outra cultura, outra forma de pensar, com valores que não dependem de coisas que são firmemente calcadas na cultura e história da Terra (que, por pura arrogância e falta de informação, achamos que são “universais”)..

E esse seria “A Chegada“.

OS MILITARES MAIS BURROS DA FACE DA TERRA ORGULHOSAMENTE APRESENTAM…

Em um dia desses aí, provavelmente numa terça-feira, 12 naves alienígenas chegam ao redor do Globo. Como eles não puxaram lasers of DOOM para nos destruir, assumimos que eles querem conversar. Certo, problema: nós não falamos cthulhunês, e nem os aliens têm google translator. Ainda bem.

Os militares, então, fazem a coisa mais inteligente que poderia ser feita: encarregam o sargento Saw Gerrera para chamar a melhor especialista em linguística que os US and A tem (que por acaso é a Lois Lane). Ele vai até lá, toca uma gravação de áudio pra ela, que parece com um som de uma baleia engasgando com um donut azedo e dizem: “traduz ae de ouvido, vamo vamo vamo, foi!”.

Quando ela diz que simplesmente não é assim que tradução funciona, ainda mais de um idioma ALIENÍGENA, o sargento fica putinho com a falta de colaboração da mulher e vai embora. Sério. Oh boy, esse vai ser um filme daqueles, né?

Sabe, eu gosto de pensar que eu sou bastante inteligente e, por isso, eu sou condescendente com as pessoas burras em filmes. De nada. Agora, quando o sujeito parece que tem um crayon enfiado no cérebro de tão idiota, puta merda. Adicione isso a clichês do senso comum (tipo “a igreja católica é má porque a inquisição blablabla”) e você não estará na minha lista de presentes de natal.

Enfim, eventualmente alguém tirou o crayon do sargento pela bunda, e ele chamou a Lois Lane para bater um papo com os aliens. É aqui que o filme realmente começa.

A BÊ CÊ, A BÊ CÊ, TODO ALIEN TEM QUE SABER LER E ESCREVER

Em um dos momentos mais emblemáticos do filme, o general Saw Gerrera pergunta a Lois Lane porque cargas d’água diabos ululantes do pacífico sul ela está perdendo tempo ensinando os aliens a falar o nosso idioma, quando tudo que eles querem saber é “o que vocês estão fazendo aqui na Terra?”.

Ela, então, explica que mostrar o que é “Terra” para os aliens é absolutamente fácil, é só apontar e mostrar. Agora, para os aliens entenderem o que é uma pergunta, e o que é o conceito de “vocês” – se é que eles têm um – é algo que requer todo um arcabouço linguístico enorme. E é mesmo.

Nós achamos que algumas coisas são universais porque nascemos nessa cultura. Em que, por exemplo, desconhecimento se expressa entoando uma palavra de uma forma diferente, ou colocando um sinal gráfico aleatório no final da frase (ou no começo, como em espanhol). Pode parecer “universal”, mas é uma coisa muito especifica nossa por motivos históricos e culturais muito únicos nossos, quando você pensa sobre isso.

E se os aliens expressam desconhecimento batendo palmas, soltando um peido de tinta ou, pior ainda, através de um padrão mental muito especifico que nós não conseguimos identificar, mas que para eles é ululante? Se eles têm formas de comunicação não verbais (como é o caso do filme, aliás), nossa “forma de falar a frase diferente” para indicar pergunta não significa mais para eles do que significa para nós um grilo cricrilar numa frequência de 50 ou 60 mhz.

Ou, pior ainda, e se eles têm uma mente compartilhada e, por conta disso, sequer têm o conceito de dúvida? E se eles têm uma forma de pensamento binário determinista em que você sabe o que sabe e não existem perguntas?

Como se transmite o que é uma pergunta e que estamos fazendo isso para o alienígena?

Entendeu o tamanho do problema aqui?


Essa é, de longe, a parte mais interessante e espetacular do filme. Os alíens são realmente aliens, e se comunicar com eles é mais do que traduzir as palavras (ou logomarcas do Chamado, no caso desses aqui), e sim conseguir entender como pensa uma cultura que nunca teve polegares opositores, Jesus Cristo, ou a necessidade biológica de atirar merda no macaquinho do galho adjacente – estágio evolutivo que muitas pessoas ainda hoje não superaram).

Com a ajuda do seu assistente Gavião Arqueiro, o grande grosso do filme é sobre a Lois Lane fazendo progresso em conseguir uma forma de contato com os Lula Molusco da 5ª Dimensão de Quibrow. Por incrível que pareça, eles conseguiram fazer um filme sobre linguística que é absolutamente interessante de se ver.

Eu não sei exatamente como Denis Villeneuve e seus capangas amestrados conseguiram, mas eu juro que jamais passarei fome novamente… mas oi? eles conseguiram. Uma coisa que ajuda muito a explicar isso é a atuação da Amy Adams, porque ela realmente parece ser a melhor do mundo no que ela está fazendo. Nossa, você não faz ideia de como isso ajuda.

Eu sou traumatizado por filmes em que o destino da missão é decidido por idiotas que eu não confiaria nem para trocar o chuveiro, como Interestelar e Prometheus. Quando o sargento Saw Gerrera pergunta para ela por que ela fez determinada coisa que pareceu um salto de fé, eu senti um calafrio na espinha, me preparando para um discurso sobre o poder do amor e blablabla. Surpreendentemente, ela deu uma resposta técnica que mostra o quanto ela sabia pra caralho o que estava fazendo.

Ufa.

Pixação “Celacanto provoca maremoto” em heptapodês


HUMANOS FAZENDO HUMANICES, CLARO

Mas é evidente que o filme não podia ser um Telecurso 2000 para os primos do 8-Caudas. Enquanto Lois Lane e seu assistente estão ficando pró-eficientes em Gallifreyniano para principiantes (sério, o idioma dos aliens parece muito a escrita dos Time Lords), o resto do mundo está fazendo o que a raça humana sabe fazer de melhor: odiar as coisas e dar chilique sem pensar direito.

Ou seja, em paralelo a isso, tem todo um quadro da tensão mundial se agravando porque o que os militares querem é meter chumbo nesses tentaculudo, e foda-se a porra toda. O filme dedica uma grande parcela também a “comentaristas de Facebook” dando sua opinião de bosta sobre o assunto, e o que você tem é o que normalmente tem quando gente que sabe de menos dá opinião sobre assuntos complicados demais: o senso comum entra em fúria berserker e quer sentar a porrada nesses marginal tudo.

Não que não seja realista essa parte. E bastante, e acho que a reação das pessoas e dos militares seria bem por aí mesmo. Só que, pessoalmente, eu acho enfadonho ser lembrado tão violentamente o quão estúpida é a nossa raça. Sério, eu já não tenho Facebook ou televisão em casa há alguns bons anos já por um motivo, e esse motivo é que eu não me divirto em ver humanos “humanizando”. Aff.

Ainda assim, é uma parte importante do filme, relevante e bem feita. Whatever, apenas não é para mim.

Repare na cara de desprezo do Gavião Arqueiro por ter saído dos Vingadores para ir trabalhar com gente que tira foto sem tirar a tampa da lente da câmera


ENTÃO, PRECISAMOS FALAR SOBRE O FINAL

O terceiro elemento que compõe o filme é o seu final e a grande reviravolta que acontece. Desnecessário dizer que tem spoilers violentos nessa parte, dã.

Enfim, durante o filme todo ele é recortado por flashbacks da Lois Lane sobre a filha dela que morreu de câncer. Porque é óbvio que foi câncer. É a única merda de doença que existe em Hollywood, né? Morrer de chikungunya ou esquistossomose que é bom nada, né? Tamerda, viu…

… mas, enfim. A principio eu não entendi porque essa porra tava no filme. Suponho que é alguma técnica narrativa de humanizar a protagonista, ou alguma porra do tipo assim. Boring. Só que vendo a Lois Lane falar, pelos fragmentos de informação pessoal que se dava para obter dela (que é o jeito certo de se revelar background, aliás – que raiva desses filmes que querem ser um episódio de Naruto e socam flashback e exposição até no nariz da vó), alguma coisa não tava batendo nessa história. Algo tava meio off. Show.

Então, no final, é revelado que não eram flashbacks e sim flashforwards. Porque, aprendendo o idioma dos aliens, a Lois Lane aprendeu também a concepção deles de tempo, e passou a ser onisciente sobre a sua própria linha temporal. Ela usa isso para desatar a história, e começar uma era de paz e carinho nas tetas para toda a humanidade.

UADAFÃQUE?




Quer dizer, ok, eu entendi a teoria. Ela se baseia no conceito linguístico chamado “Hipotese de Sapir-Whorf“, que a grosso modo diz que compreender um idioma é compreender a cultura que o gerou.

Por exemplo: aprender japonês (e eu digo compreender em um nível de fluência mesmo), ensina muito sobre paciência, atenção aos detalhes, compreensão do todo e da comunidade. Aprender português brasileiro ensina muito sobre um monte de regras que só estão lá para fazer bonito, e como dar um jeitinho de burlá-las para conseguir fazer o que você queria fazer em primeiro lugar.

É uma teoria bacana e faz sentido. Não sei o quão verdade é, mas, como eu não sou linguista, vou assumir para propósitos do filme que ela está correta. Show de bolice. O problema é que, ao aprender a falar cthulhês, a Lois Lane não adquiriu apenas a compreensão filosófica e moral que os aliens têm do tempo. Quer dizer, isso também, e até aí tudo bien, magrone.

Só que, ao aprender polvonês, ela adquiriu a capacidade de chulapar a quarta dimensão e obter informações que fisicamente não estavam no seu cérebro.

Mas oi? But hi? Pero hola? Shikashi konichiwa?

Quer dizer, pode ser que esteja certo. Eu não sei.

Eu não sou físico quântico também (reparei que tem muitas coisas que eu não sou), mas meio que o ponto é justamente esse: eu não precisei de um doutorado em física avançada polimérica para manter a suspensão da descrença em 90% do filme. Então, como que diabos guibruei now do nada o filme tem uma explicação que é totalmente destoante de todo o resto?

Essa quebra de ritmo no nível da narrativa é um tapa muito amargo na sua cara, porque ou a explicação do final do filme é completamente imbecil, ou eu não tenho conhecimento suficiente em física quântica para entender. Só que, por que eu precisaria ter conhecimento avançado em física quântica quando em NENHUM momento o filme chegou perto de exigir isso?

Veja, eu sou nerd o bastante para não me bater com conceitos como o paradoxo de Bootstrap, ou narrativas não-lineares. Fine com isso. O problema é que a explicação no final ficou muito abaixo de todo o resto da qualidade do filme. E o próprio diretor do filme já disse que “eu sei que não é assim que funciona, mas foda-se porque é sci-fi”.

O fato de eu ter dedicado um terço do texto para falar disso mostra que algo errado não está certo. É uma quebra da suspensão de descrença em um filme que é absolutamente inteligentíssimo (mesmo na parte que eu não gosto, que é a reação mongoloide das pessoas) em todos os outros aspectos (sério, leia essa teoria de “arma” estava certa e a Lois Lane errada).

Foi brilhante. E Arrival é uma das melhores ficções cientificas dos últimos anos. De verdade, só podia ter passado sem essa.

OSCAR 2017 (8 indicações)

Melhor Filme
Melhor Diretor (Denis Villeneuve)
Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer)
Melhor Edição de Som (Sylvain Bellemare)
Melhor Mixagem (Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye)
Melhor Direção de Arte (Patrice Vermette e Paul Hotte Pendente)
Melhor Cinematografia (Bradford Young)
Melhor Edição (Joe Walker)

Nenhum comentário:

Postar um comentário