terça-feira, 7 de março de 2017

[OSCAR 2017] Até o último homem (Hacksaw Ridge)


Se eu tivesse que imaginar como seria o filme dos sonhos que o Mel Gibson tem na cabeça, eu imaginaria algo como um filme profundamente religioso, ufanisticamente patriota, e possivelmente de guerra. E, oh, veja você, não é exatamente o que Hacksaw Ridge é?

Até o último homem conta a história de Desmond Doss, um cara que decidiu jogar a Segunda Guerra para ganhar o “no kill Achievement”. Porque ele quis ir para a guerra sem matar ninguém, e como ele conseguiu isso é o ponto desse filme e, bem…


“Ai Ricky, me doer muito!”
THOU SHALL NOT PASS KILL

Certamente a coisa mais interessante do filme é a motivação de Doss para fazer o que ele faz, e o filme explora muito bem isso. Quer dizer, por que exatamente ele quer ir para a guerra sem matar ninguém? Mais ainda, durante o treinamento ele se recusa sequer a tocar em uma arma ao ponto de ficar ridículo. O filme tem todo um segundo arco sobre o boot camp de Doss, e o quanto o exército dos US and A não leva isso nada na boa. O espectador pode, com razão, pensar “ok, cara, eu entendo não machucar as pessoas, mas no treinamento já é exagero, só faz o que eles querem e na hora só não usa”. Surpreendentemente o filme está ciente desta questão, e a própria noiva de Doss pergunta isso a ele quando ele vai para corte marcial por desobedecer ordens dos seus superiores.

A coisa interessante do filme é que não existe uma resposta simples para isso. Vendo o primeiro arco do filme, sobre a infância e juventude de Doss, não tem nada que leve muito firmemente a essa convicção. Ok, é um dos mandamentos não matar gente, mas eu meio que devo ter perdido a parte da Bíblia que diz que encostar em armas é fazer amor com o capiroto.

Responder essa pergunta ao longo do filme todo, soltando pedaços de informação sobre o que REALMENTE foi a infância de Doss, é o que o diretor Coração Valente faz de melhor. Ou não faz, mas de uma forma realista, no sentido de que religião é uma coisa que não faz nenhum sentido quando você tenta racionalizá-la, ela funciona apenas se você aceita sem pensar muito sobre isso, e parece que isso é o que Doss faz na sua vida.

Essa é a manchete da “história real” a que eu me refiro, que as pessoas vão no cinema para ver. O problema está realmente em todo o resto além disso.

Ligação para o sr. Colatra, primeiro nome Al. Algum Al Coolatra aí?
PENSANDO BEM, PODE MATAR SIM. DESDE QUE OS OUTROS FAÇAM, MEU PROBLEMA É SÓ EU PESSOALMENTE SUJAR AS MÃOS

Curiosamente, a moral do filme é que ele não é contra a guerra. America fuck yeah, motherfuckers! Aparentemente o único problema de Doss era que ELE especificamente puxasse o gatilho, fora isso tá tudo de boas. E esse é meio que o problema aqui: esse é um filme de war porn, como o Mel Gibson gosta muito de fazer, temos tripas e pernas voando pra tudo quanto é lado. Brutalidade e carnificina pura é pelo que ele ficou conhecido como diretor (A Paixão de Cristo) e isso não falta aqui. É um filme tão violento e sangrento que faz parecer que O Resgate do Soldado Ryan poderia passar no Discovery Kids.

E em meio a tudo isso, Doss só dá de ombros e parece pensar “foda-se, não é problema meu mesmo, vou só fazer o meu trabalho de healer”. Com efeito ele é um healer do caralho salvando quase uma centena de pessoas entre aliados e inimigos, mas o problema é que suas ações não se traduzem em uma discussão mais profunda dentro do filme. Ou qualquer discussão, na verdade.

Eu já disse praquele topetudo burro que o muro tem que ficar ali, caralho!
MEL GIBSON, O FILME 

O que eu estou querendo dizer é que a mensagem do filme é “Desmond Doss foi um herói!”. Certo, foi mesmo, só que isso eu já tinha sacado na manchete da história real lá atrás. E isso meio que é tudo. Enquanto filme, Hacksaw Ridge não é nem de perto subversivo quanto sua proposta poderia dar a imaginar.

Na verdade é o oposto disso: é um filme sem troca de ideias, sem discussão de um tema, sem questionamentos, apenas adoração de uma verdade inquestionável escrita em pedra. Ok, Mel Gibson é profundamente religioso, e isso meio que é do que as religiões são sobre: lapidar um ponto de vista no lugar de questioná-lo – mesmo que seja um que não faça muito sentido quando você pensa sobre isso. O que pode funcionar como filosofia pessoal de vida, mas certamente não funciona tanto assim como filme.

Não há tons de cinza em Hacksaw Ridge. Doss é absolutamente irrepreensível e seus companheiros acabam por perceber isso e venerá-lo. Ok, certo. Nada contra o incrível heroísmo da vida real de Doss, mas como filme isso não funciona tão bem assim. Reduzir tudo a “nosso Deus é melhor que o de vocês, amarelos comedores de peixe cru” é um desserviço para com as complexidades da guerra. A impressão que o filme passa é de que se fosse aceitável fazer alterações na história real (o público teria chiliques homéricos com isso, então não é), Doss estaria enfrentando nazistas usando armaduras feitas de bebês (mas se você conseguir empilhar mais malignidade em uma imagem só, adicione a vontade).

Filmes baseados em histórias reais têm um problema intrínseco a ser contornado por seus diretores: eles são baseados em uma história real. Hã, duh? Jura? Sim, eu sei, mas esse é justamente o ponto: a maioria delas não dura muito além da própria manchete, tipo “homem é atingido por raio sete vezes e sobrevive”. Ok, é um fato realmente interessante. E, hey, bom pra ele. Embora de fato interessante, eu meio que já sei tudo que preciso saber sobre isso. Não preciso de um filme de duas horas sobre isso, preciso?

Por isso escolher uma história que merece ser adaptada para o cinema não é algo que deva ser feito levianamente, do contrário, pode terminar nesse problema de não ter muito o que contar além da própria manchete.



OSCAR 2017 (6 indicações)
Melhor Filme
Melhor Ator (Andrew Garfield)
Melhor Diretor (Mel Gibson)
Melhor Montagem (John Gilbert)
Melhor Mixagem de Som  (Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace)
Melhor Edição de Som (Robert Mackenzie e Andy Wright)

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