segunda-feira, 13 de março de 2017

[GAMES] STORIES UNTOLD (ou os anos 80 ainda não voltaram)



Videogames são a mais conservadora de todas as mídias, de modo geral. Isso é algo que eu repito com uma certa constancia, mas não é algo que me pareça menos verdadeiro a cada dia: videojogos evoluem muito lentamente. Um blockbuster que está abafando hoje nada mais é do que uma coletanea de mecanicas que vem sendo polidas nos últimos 10, 20, 30 anos.

Por isso é muito raro pegar um jogo e dizer "uau, isso é novo, eu não sei bem o que esperar". Este é o caso de Stories Untold, um jogo que é diferente de quase qualquer coisa que eu já vi e por isso mesmo ele parece ser melhor do que é realmente. 

Stories Untold é um jogo sobre... bem, você joga com um cara jogando um jogo só que o que acontece no jogo que ele está jogando é real para ele... ou não... enfim, vamos começar do começo: era uma vez quando os jogos eram inteiramente compostos de texto. E não, não estou falando do segundo CD de Xenogears.

História engraçada: a arte de Stories Untold foi feita por Kyle Lambert, o mesmo que fez a capa da série da Netflix. Adicione isso e que o jogo se passa nos anos 80 e os portais saem dizendo amem para o press release sem nem ter jogado o jogo. Se tivessem jogado por 5 minutos teriam visto que não tem nada haver, mas que portal de games tem tempo para bobagens como "jogar o jogo", não é mesmo?
 Populares no início dos anos 80, os jogos de texto e aventura descrevem um cenário, apresentam o jogador com um cursor intermitente e aguardam a entrada digitada. Os jogadores entram comandos básicos como 'look' e 'open' seguido de tudo o que parecer importante a partir da descrição fornecida.

Em Stories Untold você não joga o jogo per se, mas sim com alguém que está jogando um adventure de texto do cramuião. Vai sem dizer que isso não vai acabar bem.

Stories Untold é dividido em quatro episódios, mas apenas o primeiro e o último contem text-adventures. A história é exibida em um monitor em um mundo 3D. Isso proporciona ao jogo uma pequena vantagem - a capacidade de mudar o mundo conforme o jogador digita. Você provavelmente pode adivinhar como isso é usado, com coisas simples como luzes piscando e ruídos estranhos; A abordagem acrescenta desconforto e intriga. Combina com sucesso o estilo de texto-aventura antigo com um traço de apresentação moderna que lembra o feeling de Além da Imaginação.

Como os jogos antigos, os comandos são meio tronchos. Por exemplo, "usar a chave na porta" falhará, mas "usar a chave" abre a porta mais próxima. Não há muitos itens interativos de qualquer jeito. A navegação básica e a descrição do mundo é boa, mas não há muito além disso. Há apenas um punhado de locais e desvio mínimo fora do caminho principal. A primeira parte do jogo leva cerca de meia hora para concluir, e você termina esperando ver essa ideia ser melhor desenvolvida nos outros capitulos do jogo (ao todo o game é composto por quatro histórias separadas)... o que não é bem o que acontece. 

E aí temos um problema.



Ambos os episódios do meio mudam radicalmente a proposta do jogo, o que não é um problema em si, mas são dolorosamente lentos e arrastados, o que é um problema. Eles não são aventuras de texto, são sobre clicar em botões em um mundo 3D a partir de um ponto de vista de câmera fixa.

No segundo episódio, você joga como um técnico de laboratório que experimenta em um objeto desconhecido (possivelmente alienígena) em uma sala apertada. Vários testes são descritos por um colega em outra sala e o equipamento precisa ser configurado. Um terminal de computador contém um manual, então o que voce tem que fazer é acessar  o manual do equipamento e aprender quais botões apertar para fazer o que o seu colega na outra sala está te pedindo

Uma vez que as configurações se alinham com os parâmetros, a experiência ocorre e você pode obter um pouco de narrativa abstrata. Agora, repita o processo várias vezes, com configurações ligeiramente diferentes. Apesar das traquitanas científicas, não há quase nenhum pensamento necessário e o capítulo é muito mais uma tarefa do que uma diversão.

Receba a ordem, navegue no manual do sistema para ver que botões apertar, aperte. Repita várias e várias vezes.

O terceiro capítulo não é muito diferente disso, só que agora você é um operador de rádio em uma estação de observação meteorológica (ou algo assim) na Groenlândia. Enquanto a ideia não é ruim (elevando para 1 o número de jogos que eu conheço que se passam na Groenlândia), a execução é mais tediosa do que divertida. Receba uma ordem pelo rádio, veja nos microfilmes como inserir os códigos solicitados (operar a máquina de microfilmes é lento e desajeitado), obedeça. Enxague e repita várias e várias vezes.

Estes dois episódios "compõem o grosso do jogo. Então, na maioria das vezes, você estará pressionando botões, girando mostradores ou traduzindo áudio. O que seria ótimo se isso fosse um emprego e estivessem te pagando para fazer essas coisas, como entretenimento não é tudo isso.

E, enquanto a história se desenrola de uma forma inteligente, o processo não é realmente divertido.

O quarto capítulo do jogo é um pout-pourri de todos os anteriores, e os liga de uma forma muito inteligente - embora você já faça uma certa ideia do que esta acontecendo quando chega a esse ponto. O quarto capitulo é onde os três anteriores se juntam para contar a história do jogo e ele consegue acertar por não ser demasiadamente ambiciosa: é uma história pequena para um jogo pequeno. Nem tudo precisa ser sobre salvar o mundo e raios azuis da destruição, afinal. 

Sério, trabalhar com microfilmagem é uma profissão de fé
É difícil recomendar Stories Untold, porque o jogo não sabe muito bem o que ele quer ser. Se você gostou da parte da aventura de texto com um twist, então o jogo não é muito sobre isso na verdade. Seria foda se fosse, mas não é. 

A abordagem da história é inteligente e os elementos de texto e aventura (combinados com o mundo 3D) são certamente intrigantes. Mas a text-adventure é menos de um terço do jogo, separados por dois episódios bastante chatos. Estes episódios centrais não podem ser pulados e existem principalmente para apoiar a narrativa global.  Que é boa, mas se perde um pouco no quão maçante é chegar lá.

Seguir o rígido script do jogo de apertar botões, girar mostradores e navegar em microfilmes não é tão fascinante quanto os pequenos começo e fim do jogo. Se Stories Untold se concentrasse mais na aventura de texto e menos em clicar em botões quando te dizem para fazer isso, teria sido muito mais memorável.

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