quarta-feira, 8 de março de 2017

[GAMES] NIGHT IN THE WOODS (ou todos nós já fomos os piores)



Existe uma discussão bastante válida sobre se "walking simulators" devem ou não ser considerados como jogos de verdade. Afinal você só anda e tem uma caralhada de exposição (seja em texto ou fala) jogada na sua cara.

Buenas, a discussão é válida porém quando o referido jogo em questão é um walking simulator em 2D aí já é sacanagem, né? Quer dizer, tem umas três telinhas com plataformas para você andar e falar com os NPCs, que bosta, né?

É, bem, normalmente sim. A menos que estejamos falando de um jogo maravilhosamente bem escrito. Aí tem jogo, mesmo que talvez não tenha "jogo".

Vamos falar sobre esse tal "Uma noite no matão".



UMA PROTAGONISTA PARA CHAMAR DE CUZONA ...

A gatinha antropomorfica Mae Borowskié a personagem mais obnoxiosa que eu consigo lembrar na história dos videogames. Volta e meia é claro que queremos socar a cara do personagem que estamos jogando porque ele é um completo babaca (sim, Arkham Asylum, estou olhando para você), mas Mae é uma categoria a parte nesse mundinho seleto.

Aos 20 anos, Mae é o espirito da adolescencia encarnado: ela acha que sabe tudo que precisa saber sobre tudo, e apenas faz as coisas porque "sei lá, deu vontade" mesmo que sejam merdas colossais. Sabe aquele adolescente que nunca teve um emprego ou sequer tem uma responsabilidade na vida mas enche a boca para dizer como todos deveriam viver a vida deles? Aquele piá de bosta cujo único compromisso é dormir pelo menos 10 horas por dia e depois dar discursos sobre como as relações de emprego e família deveriam funcionar? Essa é Mae. 

Você começa o jogo sabendo que Mae largou a faculdade no primeiro ano, porém quando você descobre que seus pais economizaram anos para ela poder ir para o curso superior e desistiu apenas porque "deu vontade, você não entenderia!" é muito dificil querer que ela continue com todos os dentes na boca.

Como a maioria dos adolescentes, Mae só pensa na própria Mae e suas ações são guiadas por "tava afim" sem pensar em consequencia alguma, por mais cruéis que sejam. Argh!


...  MAS QUE É GENTE COMO A GENTE

É uma escolha ousada focar sua narrativa em um protagonista tão detestável, que só poderia funcionar se os caras da Infinity Fall soubessem muito bem o que estavam fazendo. Por sorte, eles sabiam.

Sejamos honestos: que atire a primeira pedra quem não foi um retardado quando era adolescente. É parte inevitavel da vida, com alguma sorte você pode ter sido adolescente numa época que não se registrava tudo para posteridade como hoje mas isso não faz de nós menos imbecis por isso. Been there, did that.

E por isso mesmo quando Mae não está sendo uma das pragas que Deus jogou sobre o Egito, ela é uma confusão adolescente extremamente familiar. Apesar de ser uma babaca agora, da para ver alguns traços de personalidade nela que são extremamente divertidos e que a farão ser uma adulta extremamente legal quando essa fase passar.

Além disso ela esta naquela fase que começamos a descobrir algumas verdades tão óbvias sobre a vida mas que ao mesmo tempo ninguém nunca havia nos dito até esse ponto como que Deus ou não existe, ou não se importa, ou é um cuzão. E que a sexualidade não é algo escrito em pedra como os bolsonaretes adoram pregar. Verdade que algumas pessoas nunca chegam a esse ponto de maturidade durante a vida toda, mas isso é outra questão. 

O jogo é sobre coisas assim. Sobre descobrir que Deus está pouco ou nada se fodendo para a gente, e que sempre terão uns cretinos disposto a pisar em qualquer um para "fazer a XXX grande novamente".

E isso é um nível de verdade e maturidade que não se costuma ver em videogames, que é uma midia bastante imatura em 90% das oportunidades.

O que eu estou querendo dizer é que apesar de sua história principal é focada em eventos paranormais em uma cidezinha do interior, lembrando um feelings muito Twin Peaks, esse é um jogo sobre a amizade, sobre a reconstrução de laços quebrados com os amigos, pais e a comunidade. É um jogo sobre descobrir que não se está sozinho, mesmo quando você se sente cortado do resto do mundo e ninguém tem o poder de ajudá-lo.

Isso é exaltado através dos excelentes dialogos do jogo. Quem já passou a noite na casa de um amigo (é, eu já tive amigos um dia) falando bobagens e fazendo planos imbecis para o futuro, é esse nível de verdade que os dialogos do jogo carregam.



UM JOGO MELHOR PARA SE ASSISTIR DO QUE JOGAR, ENTRETANTO

Mais de 90% do "jogo" é sobre conversar com as pessoas da cidade, e viver uma rotina de cidadezinha do interior: acordar, dar uma olhada no computador, dar um rolê pela cidade e então passar a noite com algum dos seus amigos. Parece bastante simples, e é, mas ao mesmo tempo é tão sincero e  reconfortante. Eu realmente gostaria de ter pais como os da Mae, amigos como os dela e até mesmo os seus vizinhos. Eu totalmente moraria em Possum Springs, uma cidadezinha do interior definhando após a crise de 2008 como tantas outras

Mae e sua gangue tropeçam seu caminho através de situações embaraçosas, problemas de saúde mental, auto-expectativas baixas e crueldade mesquinha - um espectro de emoções raramente focado em videojogos. "Night in the Woods" faz parte do pequeno grupo de jogos que é mais sobre um sentimento do que sobre uma mecânica como "To the Moon", "Her Story", ou "Life is Strange". 

Para um walking simulator, Night in the Woods é relativamente longo. E embora isso possa ser um pouco cansativo, ao mesmo tempo reforça o senso de rotina e degeneração mental da protagonista.



Há dias em que ela vai falar com uma pessoa que está sentada no mesmo lugar que eles estavam no dia anterior, e a conversa será tão trivial como era então. Mas eventualmente, inevitavelmente, algo muda e o incidente aparece mais consequencial porque emerge contra um pano de fundo da banalidade. Duvido que eu achasse o jogo tão afetuoso quanto eu achei, se não tivesse ficado tão sedado pelos elementos mundanos do dia-a-dia da vida de Mae em Possum Springs. Isso não quer dizer que Mae não sai em aventuras. Ela tem várias, e eu acho que vou sempre lembrar algumas dessas excursões, que é mais do que posso dizer sobre as missões em um monte de RPGs.

Se alguma coisa, eu apenas acho que Night in the Woods funcionaria melhor como uma série animada do que como um jogo. Seus elementos de gameplay não são lá grande dignos de nota, mas seus dialogos e seu senso de fim da adolescência é na mosca. 

Eu compararia esse jogo com uma versão mais madura e pesada de Doug - que se você pensar bem a respeito não é nada sobre particularmente incrível, só um adolescente meio loser como a gente vivendo a vida. Possivelmente um reboot indie-millenial de Doug seria exatamente como Night in the Woods. E isso é um tremendo de um elogio.

Mae é meio pancada da cabeça e completamente retardada como adolescente, mas todos nós já fomos assim um dia. O que é meio que cool, eu acho. 

 



Nenhum comentário:

Postar um comentário