domingo, 26 de março de 2017

[CINEMA] KONG: ILHA DA CAVEIRA (ou eita macacão da porra!)



Kong: Ilha da Caveira é para os "filmes de monstro" o que Logan é para os filmes de Super-Heróis. Eu poderia terminar a resenha aqui, porque meio que já disse tudo que há para ser dito sobre o filme.

Caralho, Niuzao! Vai dar susto na mãe!
Se Logan esfregou na nossa cara que não existem "filmes de super heróis", temos que parar de falar disso como se fosse uma coisa real. Ou "filmes de videogames". Isso não existe. O que existe são bons filmes e filmes ruins. Ponto. Então o filme é bom como filme, tem uma proposta narrativa, uma alma, ou não venha encher o saco.

Dois anos atrás, "Jurassic World" saiu e fez U$ 652 milhões nos Estados Unidos, mesmo sendo um caça-níquel de nostalgia com algumas boas ideais, mas sem muita imaginação. Um filme tão impessoal que pareceu geneticamente manipulado. 

Nessa escala, " Kong: Skull Island " parecia seguir pelo mesmo caminho: um sucesso comercial com tanta alma quanto dois cocos empilhados sobre um tapete persa. 

O Mufasa não disse pra nunca ir aí, porra?
A surpresa é que "Skull Island" não é apenas 10 vezes melhor que "Jurassic World"; É um filme espetacular enquanto filme. O filme inteiro acontece na ilha de Kong (ele não escala nenhum arranha-céu), e você poderia dizer que é mais baseado em ação e menos ambicioso do que qualquer um dos remakes de "King Kong" já feito. 

Em sua forma de filme-B preso na selva, "Kong: Skull Island" conseguiu se aproximar da sensação de aventura, descobrimento e maravilha do filme original mais do qualquer "releitura" cena por cena poderia ter feito. Porque fazer uma adaptação não é recortar e colar, e sim entender o que faz aquela coisa funcionar e transpor sua essencia para outra midia ou outro tempo. Isso é algo que o até então desconhecido diretor Jordan Vogt-Roberts entendeu como poucos.

Ninguém está realmente interessado em ver duas horas de filme sobre um macaco gigante em CGI, o que as pessoas querem é a sensação de surpresa, a experiencia de estar diante de algo novo, a excitação de não saber o que esperar. ISSO foi o que fez verdadeiramente Kong funcionar em 1933 - não o tiozão vestido de macaco - e é ISSO que faz a Ilha da Caveira funcionar em 2017.

A gente tocou fogo no Kong, agora estamos sendo atacados
por um macaco flamejante! Pior ideia ever!
A grande atração do filme é a própria locação da Ilha da Caveira, um lugar tão exótico e perigoso que deixaria um australiano com medo. Com efeito, a coisa que eu mais lembrei desse filme foi a sensação de John Wick: a Ilha da Caveira evoca uma aura de respeito e mortalidade que mete muito respeito. Se meter com esse lugar é o equivalente a matar o cachorro do John: "Porque você foi fazer isso, cara? Você já está tão morto..." 

E dito e feito, uma grande parte dos personagens morrem durante o filme. Para minha grande surpresa, não só o "cara genérico que estava ali para morrer de graça e mostrar que o lugar é perigoso" (cof, Interestellar, cof) mas também personagens carismáticos e legais, os quais você investiu emocionalmente neles.

Kong também se inspirou muito em Godzilla de 2014 também, porque assim como o Rei dos Monstros que no filme parece mais um urso gigante que disparar raios de radiação (o que será eternamente awesome), aqui o Kong parece muito mais um animal em tamanho grande do que só um cara vestido de macaco. Em raros momentos o Kong demonstra "humanidade", e por isso mesmo quando acontece é muito mais poderoso e sentimental. É uma decisão técnica muito feliz por parte do diretor não tentar ordenhar demais o protagonista. Reparo agora que essa frase soou melhor na minha cabeça. 

Faltou só Jurassic Park nessa lista de indicações do IMDB

Estamos 1973, o caso Watergate (o maior escandalo de corrupção de um presidente na história dos Estados Unidos... o que nós chamariamos por aqui de "apenas outra terça-feira") está se aquecendo e a Guerra do Vietnã está terminando. John Goodman, fazendo o que ele faz de melhor que é interpretar o gordo que fica muito puto da cara e perde o controle  sai de um táxi perto do Capitólio e diz: "Marque minhas palavras, nunca haverá um tempo mais ferrado em Washington!", e eu senti aquela piscadela anti-trump. Eu tive um mal pressentimento sobre o filme nesse ponto. Felizmenteo filme meio que para por aí e tenta muito menos ser um textão de Facebook de qualquer ideologia (mesmo anti-guerra) e mais um filme divertido. Ufa.

Randa (o personagem de Goodman), com seu nariz para os eventos bizarros que passam desapercebidos pelo stabelishment encontra uma ilha não cartografada no Pacífico sul. Ele convence um senador a financiar uma missão de campo lá, uma exploração em que ele será apoiado por um par de solucionadores de problemas: Preston Packard (Samuel L. Jackson), um comandante militar dos EUA que está chiando de ter sido tirado do Vietnã, e James Conrad (Tom Hiddleston), um renegado mercenário britânico que trabalha como guia. Vindo documentar o processo cabe a  Mason Weaver (Brie Larson), uma "fotógrafa anti-guerra" de espirito livre. 

Essa noite em bijuu wars: Hachibi vs Son Goku!
Ou seja, a equipe dele é formada pelo Loki, a Capitã Marvel e um pelotão comandado pelo Nick Fury e o chefe da RCE (Shea Whigham). O que poderia sair errado, não?

Bem, quando eles se aproximam da Ilha da Caveira descobrem que ela é ETERNAMENTE CERCADA POR UMA TEMPESTADE. É. Tipo pra sempre. "Bem vindo a ilha da caveira, terra do furacão eterno". Parece promissor. Esse começo estabelece toda a tonica do filme e o que podemos esperar dele, e é uma construção divertidissima de se assistir. 

Visualmente o filme é impressionante, quase metade das cenas do filme pode ser pausada a qualquer momento e daria um papel de parede muito foda. Sério, se a fotografia do filme não for indicada ao Oscar então simplesmente não há justiça nesse mundo. Isso trabalha muito em favor da construção do senso de deslumbramento e aventura. Se alguma coisa, Kong meio que lembrou uma mistura de Jurassic Park com John Wick - se você puder juntar os dois na sua cabeça, o resultado maravilho será muito perto do produto final desse filme. 

Os últimos 20 minutos de Godzilla (de 2014) estão entre os vinte minutos mais divertidos que eu já tive em uma sala de cinema. Após uma hora e meia provocando o espectador e não mostrando absolutamente porra nenhuma, quando o Rei dos Monstros finalmente aparece e luta é um desbunde que poucas vezes se viu na tela grande. Mas isso não veio sem um preço: enquanto a tão esperada cena final não acontece, nós somos largados com uma hora e meia de humanos bem pouco interessantes na tela.

Aqui esse erro foi diminuido: os "humaninhos" na tela são extremamente divertidos de se assistir, parecendo ter saído de um clássico dos anos 80. Temos o militar que surta e quer foder a porra toda, temos o maluco tipo Jumanji que sobreviveu na ilha esse tempo todo (o nosso eterno "senhor celofane", John C. Riley), temos... a pior biologa do mundo? Sério gente, o mulherzinha desinteressada da sua profissão diante de todo um ecossistema novo e biologicamente impossivel, mas enfim. Meu ponto é que Skull Island só com as pessoas tentando cruzar a ilha seria um ótimo filme de aventura sem um macaco gigante lutando contra um monstro dinossauro gigante. Juntar os dois no  mesmo filme é a receita da mais pura vitória

Nunca sabemos o que vamos ver a seguir. Que tipo de coisa desnecessariamente mortal vai os atacar agora? Alguém vai morrer? Qual é o próximo desafio? 



Tudo é feito com um carinho e sensibilidade que não é comum nos blockbusters modernos. Quando o diretor disse que se inspirou em Shadow of the Colossus e Pokémon, com uma filmografia de Coppola (Apocalypse Now) e toques de Steven Spielberg. Ele não estava exagerando, e o resultado é tão bom quanto a premissa promete. São as pequenas coisas que mostram que ele se importa, como já dizia a música do Blink182. Os militares que parecem mais saídos de Trovão Tropical do que necessariamente de Apocalipse Now roubam a cena com diálogos espirituosos, toda a trilha sonora do filme é incidental (o que significa que os personagens também estão ouvindo aquelas músicas e isso ajuda muito o tom da coisa toda) e por aí vai.

Eu estava com as expectativas bem baixas pro filme, porque o bando de trailerzinho genérico e sem graça, viu? Mas acabei me surpreendendo positivamente, o que marca que até onde os grandes lançamentos vão, até agora 2017 is on fire!


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