domingo, 19 de março de 2017

[CINEMA] JOHN WICK (ou nunca mexa com o cachorro de um homem)


Um filme de ação, um bom filme de ação pelo menos, precisa de algumas poucas coisas essenciais. Pode até ter mais, mas essas são fundamentais: saber quem está batendo em quem e porque. Precisamos saber quem é o sujeito A, quem é o sujeito B e porque eles estão atirando um no outro. Simples assim. Sem isso o filme simplesmente não funciona.

Parece uma premissa bastante simples de se seguir, mas é surpreendente o número de películas que simplesmente falha em um conceito tão simples. John Wick, por outro lado, é uma puta aula de como executar esse conceito.

Existem dias que você sente que não deveria ter levantado da cama. Você apenas sabe que de todos os dias da sua vida que você não deveria ter cruzado as portas do quarto. Tipo por exemplo os bandidos que mataram a família do Justiceiro. De todas as pessoas de todos os multiversos, de todos os civis inocentes que você poderia ter matado, calhou de você dar de cara com a família do soldado mais picaroso das operações especiais americanas. Esse claramente não era o seu dia.

Mais ou menos se sentiram assim os mafiosos russos que decidiram que iam roubar um carro que acharam muito legal e só de zoas matar o cachorro do dono do carro. Em 99,99999% dos casos não daria nada realmente... exceto que você matou o cachorro de John Wick. Mais especificamente, o último presente que a esposa dele deu pra ele antes de morrer. Considere seriamente a possibilidade de se mudar para a Coreia do Norte, talvez seja sua única chance de sobreviver.

De toda forma, corra. Apenas corra, Berg.

ESPERA, MAS QUEM É ESSE TAL DE JOHN WICK?

A coisa mais legal do filme do diretor estreante Chad Stahelski é a construção da aura em torno do personagem. Durante o primeiro terço do filme o personagem de Keanu Reeves não dá um único tiro, não levanta a voz uma única vez, apenas vive sua vida. Mas você sabe que ele é o cara mais foda da industria de crimes organizados de caras fodas.

Como isso?

Não porque alguém parou e ficou vomitando exposição na sua cara, não é assim que se conta uma história. É através do contexto que você percebe isso: quando o chefão da máfia russa para o que esta fazendo (tipo desmembrar alguém que olhou atravessado para ele) e apenas fica em silêncio a mera menção do seu nome com uma cara de "puta merda, fudeu de verde e amarelo". é que você sente que esse é um cara com quem você não quer treta.

Dessa forma o filme estabelece muito bem e com muita clareza quem está batendo (It's John fucking Wick, dammit!) em quem (na máfia russa, que dispensa apresentações no imaginário cinematográfico), e porque. Essa terceira parte é muito importante também.

Outros filmes de ação motivados por vingança são muito mais simples. Em Taken, a filha de Liam Neeson foi sequestrada, e sua virtude está sendo ameaçada, então ele deve salvá-la. Em John Wick, sim, o cão de Keanu está morto, mas há algo mais metafísico em jogo. O herdeiro de mafioso Snotty Iosef (interpretado pelo eminentemente matável Alfie Allen) violou um equilíbrio moral mais profundo ao mexer com John Wick, e quando os superiores ouvem de sua transgressão, eles reagem como se Iosef já estivesse morto. É como se ele tivesse destrancado uma caixa rotulada "NÃO ABRIR" e deve lidar com as conseqüências.

A esposa e o cachorro de Wick, ele explica, representavam seu contato com a humanidade. Sem eles, ele se transforma em uma força da natureza rasgando o submundo. A maioria das pessoas que ele mata está tentando pegá-lo também, mas algumas são apenas segurança que ficam de pé no caminho de seu eventual alvo. Não faz diferença, estão todos mortos do mesmo jeito. Um terremoto não pergunta se você é um bom cidadão ou se trata bem seus vizinhos antes de destruir a sua casa. Ele apenas destroí, porque é o que ele é. Tal como João Uíque.

UMA CAMERA PARADINHA E GENTE MORRENDO

Nada disso adiantaria se as cenas de ação do filme não fossem fabulosamente bem executadas. O diretor Chad Stahelski pode não ter experiencia como diretor de filmes, mas foi dublê em Hollywood por muitos e muitos anos (Jogos Vorazes, 300, Rambo IV, Matrix...). Se alguém já viu alguma cena de ação na sua vida, foi esse cara. Que dizer, o cara CLARAMENTE sabe o que está fazendo:



Se Wick está matando pessoas em uma boate, uma doca durante uma tempestade, ou uma casa de banho iluminada por néon, tudo é sempre apresentado com uma nitidez que falta dos filmes de ação hoje em dia, preguiçosamente filmados com a camera tremendo e balançando para "passar urgencia".

O quarto grande pilar de um filme de ação é fazer com que o espectador entenda (e goste) da violencia que está vendo na tela. John Wick passa nesse com louvor também.

Por algum tempo estivemos em uma fase de filmes de ação que pensam que o realismo era o caminho a percorrer. Eles tendiam a ser deprimentes, amargos e cheio de tons de cinza que eram um saco de assistir.  

E então temos este filme que é brilhante, colorido, divertido e completamente louco. Está cheio de algumas das mais inventivas e ridículas formas de violências que você jamais verá, e tudo isso em situações absurdas como algumas de uma banheira de hidromassagem ou uma igreja que é uma fachada para a mafia russa.

 


WORLD BUILDING LIKE A PRO

Por todas essas coisas, a jornada de vingança de João já seria um ótimo filme. Mas o que o faz dar um passo além é o cuidado na construção do mundo, isso eleva o filme um patamar acima. John faz parte de uma sociedade de assassinos profissionais com suas próprias regras. Essas regras nunca são diretamente ditas ao espectador, mas assistindo o filme você faz uma boa ideia do que está acontecendo em um universo previamente estabelecido e não "hey, o filme acabou de tirar essa regra da bunda só porque ficaria legal nessa cena".

De verdade, a coisa que mais me impressionou nesse filme, e o que o realmente o destaca dos demais, foi a incrível construção de mundo que esse filme realiza. Eu terminei de ver o filme e imediatamente pesquisei para ver no que era baseado. Tinha que ser uma adaptação de uma série de quadrinhos louca que eu nunca tinha ouvido falar, ou algo assim. 

Porque o mundo em que John Wick se encontra sendo arrastado de volta é tão completamente formado e fascinante, que eu só podia acreditar que isso era apenas uma parte de um cânone já estabelecido. Mais ou menos como "O Procurado" (outro filme que eu adoro, mas é parte de um universo de quadrinhos bem maior). Mas não. Esta é uma história autônoma, que construiu completamente seus próprios mitos, e de uma maneira completamente crível.  

O mundo criminoso apresentado neste filme é fascinante, com todos parecendo conhecer uns aos outros. Criminosos neste filme têm sua própria forma de moeda (moedas de ouro) e parecem ter sua própria economia - além do seu próprio código de conduta, claro. Existem regras que são firmes e são puníveis. E tudo está tão bem estabelecido - o que é insanamente dificil de fazer!

A maioria das histórias da ficção científica se bate muito nesse ponto, onde os escritores têm que passar mundo intrincado desenvolvido nas cabeças deles, e querem apenas vomitar toda a essa informação no consumidor. O resultado é uma merda.  

É um puta trabalho imiscuir a construção do mundo em uma história, e John Wick lida com isso magistralmente. Você pega uma ideia de como esse mundo funciona, e o que não é respondido pelo filme só enriquece a experiencia ao invés de ser prejudicial à história (tipo como o passado do Max em Mad Max).  

É um roteiro original que permite que você experimente completamente este mundo louco, e queira saber mais sobre ele. Esperemos que quando a sequencia que saiu agora siga com essa fórmula, e não fique apenas atolada em sua própria mitologia. Mas se este fodendo filme é indicio de qualquer coisa, sinto que estamos em boas mãos.






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