terça-feira, 6 de setembro de 2016

[LIVROS] TOMB RAIDER: Os Dez Mil Imortais (ou e se personagens de videogame fossem gente?)

tomb raiger os dez mil imortais editora nemo feat
Em 2013, a Square-Enix lançou um dos seus jogos mais importantes e ambiciosos: um reboot de Tomb Raider. O jogo era importante porque, afinal, estamos falando da protagonista feminina mais famosa dos videogames e, caso o jogo fosse um fracasso, seria o argumento que a indústria usaria para dizer “ó, não te falei? Colocar mulher no jogo sem ser para fan service não vende!”. O resultado foi que o jogo vendeu um milhão de cópias em suas primeiras oito horas, quase nove milhões em sua carreira (sendo o  Tomb Raider mais vendido de todos os tempos).

Grande parte do sucesso do jogo se devia ao fato de que, bem, o jogo é bom pra caralho! Tomb Raider de 2013 ironicamente não possuía tumbas, mas era a versão moderna das aventuras da Larinha que a gente precisava. É divertido, explorador, tem ação, cutscenes legais, e jogabilidade gostosa pacas. Lara é uma mistura de Rambo com MacGyver e, se mais nada, vale a pena ver o quanto ela vai improvisando na ilha selvagem de Yamatai para criar novas armas usando um canivete e dois fósforos (sendo um deles já usado).
O jogo é uma delicia, jogue. Sério.
Quanto à narrativa do jogo, hmm, bem, aí o negócio é mais complicado…
O reboot de Tomb Raider tem boas intenções, mas de boas intenções é pavimentada a estrada para o inferno. Ou seja, eu respeito o que eles tentaram fazer, mas não o resultado final. Veja, a Lara Croft antiga – Angelina Jolie style – não era muita coisa senão uma fantasia masculina. Ela tinha peitões, era sexy o TEMPO TODO (sério, alguém consegue imaginar a Lara Jolie indo no mercado comprar leite?), RICAAAAAAAAA e tudo mais. Era tudo, menos um personagem.
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No reboot a primeira preocupação da Crystal Dynamics foi tornar a Lara um ser humano. Assim, ela é uma adolescente (tecnicamente acho que ela deve ter 21, mas quanto mais velho você fica, mais essa molecada parece tudo criança igual) ainda RICAAAAAAA, inexperiente indo para uma aventura como arqueóloga. E para arqueólogos “aventura” é sentar em um buraco úmido e conseguir espanar poeira de objetos menores que uma unha, quando uma série de eventos fantásticos (né, senão seria arqueologia simulator 2013) faz Lara e sua gangue ficarem presos em uma ilha muito louca com gente muito do mal.
Lara é apenas uma adolescente, sem armas, treinamento militar, marcial ou ter assistido Power Rangers, tendo que improvisar e dar uma de Jogos Vorazes contra mercenários russos armados e treinados, que nas horas vagas são uma seita fanática religiosa. No papel seria uma experiência fantástica, e que é muito onde The Last of Us deu certo. Na prática… bem, na prática a teoria é outra.
Aconteceu o que normalmente acontece quando homens tentam escrever uma personagem feminina forte: caca (sim, eu sei que a personagem também foi escrita por uma mulher, mas a sensação permanece a mesma). Lara virou uma Mary Sue que derrota um exército inteiro sem treinamento nem nada, usando apenas o poder do protagonismo invencível, porque garotas podem fazer tudo, yay! Imagine uma versão piorada da Rey de Star Wars 7 e você vai entender o quanto essa coisa não funcionou para qualquer um com o mínimo de senso crítico (com efeito, eu fiquei muito surpreso que tenham escalado a excelente Alicia Vikander para interpretar a Lara no filme porvir, e não a Mary-Sue-queen Daisy Ridley, porque as personagens são muito parecidas) .
Agora imagine que, apenas pela diversão disso, Lara fosse tratada como um ser humano crível com fraquezas, limitações e medo. Certo, daria trabalho fazer um jogo onde ela elimina um exército inteiro sozinha assim, mas digamos que fosse feito: digamos que Lara Croft fosse representada como um ser humano, qual seria o resultado disso?
Agora podemos falar do livro Tomb Raider: Os Dez Mil Imortais.
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Lara sempre dorme com fone de ouvido desde que assistiu Parasyte. Seja esperto, seja como Lara.
GENTE COMO A GENTE
Em sua aventura na ilha de Yamatai, Lara foi esfaqueada, baleada, esfolada, perfurada por lanças, pedras, trincou ossos caindo de alturas inimagináveis, quase foi estuprada e devorada por animais selvagens. Em contrapartida ela matou, no mínimo, mais de cem pessoas, e viu muitos de seus amigos simplesmente morrerem na sua frente, alguns deles mortos por ninguém menos do que uma fucking deusa e por aí vai.
Personagens de videogame não ligam para essas coisas, obviamente. Eles matam 200, 300 pessoas e quase morrem doze vezes antes do café da manhã, e nem piscam, porque nada daquilo é de verdade, e os jogos não se esforçam muito em te convencer do contrário. Mas uma pessoa, um ser humano de verdade, ficaria traumatizado pelo resto da vida diante de uma experiência tão horrível.
Para minha grande surpresa, o livro começa com Lara em seu apartamento justamente tendo um ataque de pânico. Ela sofre de stress pós-traumático e tem ataques de pânico e ansiedade, e isso foi uma sacada impressionantemente realista para uma personagem de videogame. E não é apenas uma ceninha para te impressionar e nunca mais falar no assunto: ela se aventura o livro todo lidando com isso, e como ela desaprendeu a funcionar como pessoa depois das experiências traumáticas pelas quais passou. Taí algo realmente novo: um herói com transtorno de ansiedade mostrado de forma realista.
Ela está paranoica, antissocial, irritadiça e distante das pessoas, devido aos seus traumas, e você sente nas entrelinhas o quão quebrada e disfuncional ela é depois de passar pelo que passou. De certa forma, Lara Croft neste livro lembra bastante o Rambo sim, mas não a máquina de matar sem sentimentos que te vem à mente, e sim o do primeiro filme: uma pessoa quebrada que passou por horrores inenarráveis, e que agora não consegue mais se adaptar à sociedade. O casal Dan Abnett e Nik Vincent deu um ângulo de personagem a alguém que não tinha muito.
Adicione a isso Lara ser uma mulher muito inteligente e ter uma grande noção da realidade, e temos uma protagonista bastante interessante.

Em determinada cena, por exemplo, tem um rapazinho lá que está ajudando ela a descobrir uma coisa importante. Ela SABE e tem uma noção bem realista de com que intenções rapazinhos ajudam mocinhas com problemas, ela entende como o mundo funciona, e é bastante realista quanto a isso. Lara é uma pessoa prática, realista e um tanto cínica, ao mesmo tempo é uma adolescente com uma condição psiquiátrica – e dá para sentir tudo isso nas falas da personagem. Até onde protagonistas vão, Lara é uma bastante agradável de se acompanhar, e pelo menos eu não tive nenhum momento de passar raiva com ela (o que é mais do que se pode dizer de outras figuras literárias mais famosas, né Potter?).
Lara não é uma Mary Sue invencível, apenas porque flower power wins, ela é uma garota sem treinamento, com as vantagens e limitações de uma garota sem treinamento – e ela tem noção disso. Isso quer dizer que algumas brigas ela ganha porque é inteligente, mas outras ela perde porque, em condições normais de temperatura e pressão, não tem muito o que uma garotinha de 50 kg que brigou uma vez na vida possa fazer contra mercenários armados que treinaram a vida toda. Em outras palavras, o livro não insulta sua inteligência como leitor (o que, novamente, é mais do que eu posso dizer do jogo de 2013)
Tão importante quanto isso, o livro não cai na armadilha da “Arma de Checkov“, e mostra a Lara surtando porque vai ser útil para o roteiro e “oh, não era paranoia, ela estava certa”. Não, ela age assim porque esse é o tipo de pessoa que ela é agora, não porque “vai ser apenas uma ferramenta da história” mais pra frente.
tomb raider aquele periodo do mes
Eu já mencionei que a Lara só se fode nessa merda?
UM LIVRO NÃO É UM VIDEOGAME
Essa observação parece óbvia, mas não é tanto assim. Uma das coisas que mais me intrigou a respeito da ideia de fazer um livro sobre Tomb Raider era justamente COMO se poderia fazer isso. Escalar uma parede e usar um arco com corda para derrubar caras maus é muito divertido quando se está jogando um jogo, mas não dá para fazer um livro de 200 páginas sobre isso. Quer dizer, tecnicamente dá, mas ficaria uma merda.
Então faz o quê?
Assim como o jogo, esse livro de Tomb Raider não é sobre tumbas exatamente. Seria extremamente maçante isso, e as passagens menos interessantes do livro são nesse sentido. Então imagine o seguinte: você precisa encontrar o Velo de Ouro em pleno 2016. Sim, aquela capa dourada de lã do mito de Jasão que tem poderes curativos. Como que faz?
Em primeiro lugar, é claro, você iria pesquisar na internet. Em uma wiki de preferência. A seguir procuraria especialistas em mitologia grega onde eles se encontram: na maior universidade que estivesse perto de você. E então visitaria colecionadores. Parece bastante crível, não? Pois é.
O livro é sobre Lara correndo atrás de um item mitológico, e é representado de forma tão realista quanto possível – algo que jamais poderia ser feito em um jogo. É claro que só isso seria chato, então tem mais ingredientes nessa panela: Lara é perseguida por organizações (no plural mesmo) conforme vai conseguindo respostas que a levam mais perto do seu objetivo.
De alguma forma isso funciona: há um equilíbrio entre uma busca plausível por um objeto lendário, mas também tem ação e sensação de urgência o suficiente para que as coisas se mantenham interessante. Mesmo tendo o super poder de ser RICAAAAAAAA, Lara tem que se virar com poucos recursos e aliados contra uma organização opressivamente maior do que ela (os tais Dez Mil Imortais do título).
Para ter uma ideia de como as coisas são – e o ato final passa bem essa ideia – em determinado momento eu achei que o livro poderia ser um crossover entre Tomb Raider e Assassin’s Creed, porque totalmente caberia colocar os Imortais como Templários e a Trindade (outra organização que está atrás do artefato) como Assassinos. E a Lara no meio dessa guerra. Imagina que louco seria, fica a dica, hein?
De qualquer forma, é o mais perto que teremos de um Tomb Raider Creed.
tomb raider assassins creed crossover 

SÓ QUE…

Dito isso, as aventuras da pior arqueóloga do mundo (no reboot até que não, mas originalmente a Lara era tipo “Olha um vaso raro de uma civilização perdida… BLAM-BLAM-BLAM! Não tinha nada dentro. Olha um animal que deveria estar extinto… BLAM-BLAM-BLAM! Está extinto agora!) não é sem seus problemas. Em primeiro lugar, o livro se arrasta muito em descrições de luta e narrativas de cena de ação.
Ação na literatura tem que ser tratada de uma forma diferente do que é no cinema ou nos videogames. Não dá apenas para narrar movimento por movimento o que está acontecendo, porque senão fica maçante, cansativo. Você tem que ser menos literal e mais literário. Uau, essa frase ficou bonitona, né não? Mas, enfim, em diversas partes o livro se arrastam. As melhores cenas de ação são as que envolvem mais de uma camada de desenvolvimento (tipo, tem a ação, mas também uma traição durante a cena), mas a maioria são apenas cutscenes narradas.
Outro problema é que, apesar de todo esforço para transformar uma personagem de videogames em uma pessoa, ele não foi aplicado aos outros personagens do livro, que são bastante unidimensionais, meio que ali apenas para cumprir sua função. O cara mau é só o cara mau, o velhinho gente boa que dá informações é só o velhinho gente boa que dá informações e por aí vai. Isso é bastante frustrante no geral.
Meu maior problema com a história, no entanto, é o seguinte:
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Essa viagem é realmente necessária?
Eu tenho muita dificuldade em me conectar com uma obra se ela não consegue me explicar o quanto sua viagem é realmente necessária, e Os Dez Mil Imortais faz isso muito pouco. Parece meio aleatório que Lara tenha ido atrás do Velo de Ouro para ajudar sua amiga, ela igualmente poderia ter ido atrás do Cálice Sagrado, da Pedra Filosofal ou do Bastão de Esculápio, até onde me consta só de cabeça. Isso faz diferença, porque quando ela enfrenta perigos de vida ou morte por causa disso, enfraquece muito a narrativa que ela tenha escolhido o Velo de Ouro meio que aleatoriamente. Também a subtrama da sua amiga Sam (a causa de Lara embarcar nessa viagem) foi completamente abandonada – tem até um bilhete de suicídio que não faz nenhum sentido no fim da história – e em um livro tão curto isso é um pecado capital.
No fim as organizações e novos personagens introduzidos em Dez Mil Imortais criam uma sensação de perigo e riscos para a trama, sim. Lara navega por vários antagonistas diferentes, todos com motivações diferentes. O livro cria uma teia de pessoas para Lara lidar com cuidado, e funciona bem com a coisa da paranoia. No entanto, a prosa é muitas vezes pesada e excessivamente narrativa. O enredo é bom, e as coisas que personagem faz sentido para um romance divertido e despretensioso.

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