sábado, 9 de julho de 2016

[ANIMES] PARASYTE (Kiseiju: Sei no Kakuritsu) [ou você é o que come você]

“Shinchi, eu pesquisei o conceito de demônios e acredito que, entre todas as espécies, os humanos são os mais próximos a eles. Os humanos matam e comem uma grande variedade de formas de vida. Minha espécie come apenas um ou dois tipos no máximo. Nós somos bastante simples em comparação.”


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Escolecifobia (fobia de vermes, parasitas e similares) pode não parecer algo tão incomum assim, mas eu sou o tipo de pessoa que passou mais de uma semana sem dormir direito por causa da cena dos Simpsons em que uma borboleta pousa na mão do Homer, se enterra na sua pele e vai até o cérebro dele (para morrer por falta de nutrientes, aparentemente). Aliás, borboletas são essencialmente minhocas voadoras, quem foi a pessoa mentalmente doente que decidiu que isso era sinônimo de beleza? Sério, como uma minhoca voando por aí, esperando apenas um mínimo descuido para entrar em qualquer orifício do seu corpo, pode ser algo bonito?

O fato de assistir o episódio “The Jiggler” de Hora de Aventura me fazer passar mal fisicamente talvez fosse um indicio de que um anime chamado “Parasyte” TALVEZ não fosse o mais adequado para mim, certo?

Mas o que eu posso dizer? É claro que eu assisti, pois eu vivo com emoção!

O MILAGRE QUE VEIO DO ESPAÇO

Em uma terça-feira (aposto que era, malditas sejam terças-feiras!) milhares de esporos na forma de MAMONAS RADIOATIVAS caíram do céu, o que teria sido um evento muito bonito, não fosse o fato de que eles carregavam pequenos parasitas que tinham como objetivo entrar no ouvido do ser humano mais próximo que encontrassem e absorver seu cérebro.

Nossa história conta as desventuras de Shinichi, uma das vitimas desses parasitas, que por uma cagada de sorte IMENSA não teve o cérebro consumido por espirococo do inferno. Ao invés disso, o parasita acabou se alojando na sua mão direita, e o resultado final foi esse:

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Pouta que o pareo, era melhor ter deixado tomar o cérebro logo! Mata com fogo!

Seja como for, nosso jovem Shinichi, que agora está condenado a nunca mais ver a masturbação da mesma forma, é obrigado a conviver com esse parasita em seu corpo. Você pode se perguntar, com toda justeza, se não seria melhor para Shinichi simplesmente cortar sua mão fora e passar os próximos 50 anos fazendo terapia, mas infelizmente essa não é uma opção razoável.

Acontece que Migi (mais ou menos traduzido seria algo como “Destro”, que é o nome que ele dá ao parasita, porque ele tinha que chamar de alguma coisa afinal) pode sentir outros da sua espécie, e pode defender seu hospedeiro, já que os outros parasitas (aqueles que tomaram o cérebro da pessoa com sucesso) não estão tão interessados em vender biscoitos de escoteiras e cantar canções sobre amizade.

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Acho que a imagem acima ilustra bem o meu ponto. Diante dessa nova realidade, tudo que resta a Shinichi é dar a mão a um admirável mundo novo de carne mórfica falante, yay!

DR. MANHATTAN, SE ALAN MOORE TIVESSE TOMANDO (muito mais) DROGAS

Ok, mas sobre o que é o anime, exatamente?
A sensação que eu tive foi que é um anime que parece muito com a estrutura de uma história sobre super-heróis. No começo, Shinichi é um nerd esquecível sem nenhuma qualidade interessante ou digna de nota – mesmo sua aparência é comum e perdedora. Então, quando ele ganha poderes, ele passa a ser mais descolado, confiante e seguro de si.

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Os cabeleireiros o odeiam, descubra o seu segredo!

O resultado lembra muito o Peter Parker no primeiro filme do Homem-Aranha (aquele do Sam Raimi), inclusive na transformação visual do herói de nerd loser a cara descolado do colégio.

Mais do que visual, no entanto, o anime é verdadeiramente sobre “evolução“. Uma coisa que eu nunca entendi sobre animes (e muitas séries de heróis, na verdade) é o quanto eles continuam agindo como se nada tivesse mudado em sua vida.

Porra meu, agora você é um cara que consegue atirar o valentão do colégio no outro lado da rua sem o mínimo esforço, consegue parar um carro em movimento a mão, e enfrenta em base rotineira monstros que deixariam Lovecraft orgulhoso. Parece bastante claro que as mesmas regras da sociedade não se aplicam mais a você.

Existe um número sem fim de merdas da sociedade que nós aguentamos única e exclusivamente porque somos obrigados a faze-lo, mas quando você é mais resistente, melhor, mais rápido e mais forte, muitas das regras da sociedade simplesmente não se aplicam mais a você (embora as letras do Daft Punk sim).

Conforme a série progride, a simbiose de Shinichi com o parasita (e tenho certeza que matei um biólogo de desgosto agora com essa frase) modifica a ambos, e cada um adquire traços do outro – tanto fisicamente quanto psicologicamente. De uma forma estranha, é mais ou menos o processo pelo qual o Dr. Manhattan passou em Watchmen: quando você deixa de ter os limites humanos definindo o que você pode fazer, isso também modifica sua noção de moralidade e ética.

Aquela vidinha de acordar cedo, ir pra escola, se formar, ter um emprego bosta e um casamento assim assim, simplesmente não define mais quem você é quando você consegue fazer isso:


Shinichi começa a se questionar sobre o que realmente significa ser humano, e esse é o cerne que realmente importa da série.

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Bem, taí uma evolução…

PARASITOMON MEGADIGIVOLVE PARA…

O protagonista não é a única coisa que evolui no anime, sendo os parasitas e seu impacto na sociedade a mais relevante das evoluções. Os parasitas começam o anime tendo recém “nascido”, simplesmente matando e comendo tudo que veem pela frente.

Como você pode imaginar (e eles também, já que são altamente inteligentes) que isso não acabaria tão bem quanto soa, com os parasitas sendo caçados e exterminados. Isso porque, individualmente, os seres humanos não são os biscoitinhos mais espertos do pacote, mas como espécie, nós somos os únicos seres vivos a colonizar os seis continentes do mundo.

Se você acha que pode chegar na nossa casa e fazer bagunça desse jeito, bem, lamento te dizer que nós (como espécie) temos mais de 200 mil anos de experiência em acabar com caras que tentaram fazer isso. Assim, os parasitas começam a evoluir como sociedade também, aprendendo que se adaptar é muito mais eficiente do que bater de frente diretamente com a humanidade.

Essa construção, essa evolução de simples vermes que comem gente a um principio de sociedade, e como isso afeta os seres humanos, é uma das coisas mais interessantes de se assistir no anime. Eu aprecio muito que os aliens (ou seja lá de onde os parasitas venham) não tenham uma “agenda de dominação global” a ser seguida, e estejam mais lutando para entender o seu lugar no mundo do que qualquer outra coisa, é uma mudança muito bem vinda.

Ao contrário do que adolescentes (e o Zack Snyder) pensam, sentimentos e sociedade não são uma fraqueza evolutiva (considere o quanto personagens “du mauuuu” e sem sentimentos positivos são populares entre essa turma), justamente o contrário. Sentimentos são uma vantagem evolutiva enorme para os mamíferos, e se hoje nós fazemos bolsa de couro dos répteis e não o contrário, coloque muito disso na conta dos sentimentos.

Como os parasitas, que apesar de altamente inteligentes não possuem nenhum sentimento senão o da autopreservação, começam a chegar a esta conclusão é algo completamente fascinante.

Com efeito, na reta final do anime, Shinichi nem é particularmente importante, porque as coisas já escalonaram muito além do que um simples colegial poderia fazer, e eu agradeço muito o anime por não cair no velho clichê de “exército de um homem só adolescente salva o dia”. Aqui, para variar um pouco do que é recorrente nos animes, são os adultos que resolvem as coisas em última instância.

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O PARASITA TEM UMA FRAQUEZA INATA: A DEPENDÊNCIA DO SEU HOSPEDEIRO. E ESSE ANIME TAMBÉM.

Parasyte tem um visual perturbador (cortesia da excelente animação do estúdio Mad House, como de costume), uma evolução de personagem e cenário muito interessante, e levanta diversas questões sobre o que significa ser “humano”. Na teoria, é um anime formidável. Na prática, a teoria é outra.

Ao contrário do que é muito comum, o problema do anime não é exatamente seu protagonista. Pelo contrário, Shinichi é um rapazinho extremamente razoável e relacionável, e sua jornada enquanto ele vai perdendo sua humanidade é algo bastante interessante de se ver (assim como sua convivência com seu parasita Migi, que é divertidíssima). O problema mesmo é o elenco de apoio. Ou a falta dele, para ser mais preciso.

Parasyte tem uma fraqueza importante nesse campo, já que patina para definir outros personagens. Com uma única exceção (a parasita Ryoko), conforme progride, a série progressivamente se transforma em um desconfortável show de um homem só. Não dá para dizer que sequer existem coadjuvantes, no máximo alguns personagens com o desenvolvimento de um cartaz de papelão orbitando Shinichi.

Eu sei que o Japão não é a sociedade mais progressista do mundo, mas a forma que as personagens femininas são apresentadas é ruim mesmo para os padrões já baixos dos animes: elas existem apenas para cumprir o papel de “mulher de marinheiro”: alguém para o herói ter a quem retornar após o combate, e às vezes morrer dramaticamente.

Quando isso é TUDO que a personagem é, bem, temos um problema aí.
Existe na literatura uma coisa chamada “Teste de Bechdel“, que é pra verificar se na obra existem duas mulheres (com nome) conversando entre si sobre algo que não seja um homem. Muitas obras falham nesse teste, mas Parasyte dá aula, mestrado e pós-doutorado em falhar nisso.

Mesmo Migi, que é o elemento fantástico mais importante da história, perde relevância na metade do caminho e começa a desvanecer para apenas uma ferramenta subordinada e subutilizada por Shinichi.

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Parece que alguém aqui chegou aos 30 sem nunca ter tido uma namorada

O PARASITA QUE PODIA ASSUMIR DIVERSAS FORMAS E NÃO ASSUMIU NENHUMA
Agora, personagens à parte, o maior problema de Parasyte é que a série não tem muita certeza do que quer ser. O anime tenta ser shonen, terror, ficção científica, slice of life e comédia romântica ao mesmo tempo, e o resultado final é tão bom quanto isso soa.

Talvez pudesse funcionar com uma escrita muito boa, mas não é o que acontece aqui. Em uma cena Shinichi pula do terceiro andar de um prédio com sua namoradinha nos braços (ela não sabe que ele é um híbrido humano/parasita) e cai perfeitamente bem, ela aceitando apenas a desculpa de que ele estava sendo “heroico”. Puta merda, filha! Nem eu, que tenho a vida sexual de um urso panda leproso, fico de boas depois de pular três andares só pra salvar uma novinha! Dá um desconto!

O anime é repleto de incoerências e escrita preguiçosa assim. A série, por exemplo, de fato levanta questões muito interessantes sobre qual o papel do ser humano no eco-sistema da Terra e na cadeia alimentar, mas responde isso de forma muito vergonhosa, que soa bastante com Capitão Planeta e outros programas “eco-amiguinhos”. Com monologões e tudo, aff… (monólogos são o equivalente em anime a textões no Facebook).

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Esse sou eu lidando com as responsabilidades da vida adulta

Tem pelo menos uns três personagens que você olha e vê que estão ali apenas para morrer dramaticamente e, adivinha só? Catapimba!

E não bastasse isso, a narrativa é terrivelmente lenta e o ritmo doloroso. Por algum motivo a Mad House achou que poderia resolver isso enchendo o anime de cenas de luta, mas essas acrescentam tanto à trama quanto os 79 episódios de Dragon Ball Z onde os caras ficam se socando e nada acontece.

De modo geral, é frustrante (para dizer o mínimo) ver como os aspectos mais interessantes e inteligentes do anime são escanteados em prol de cenas de luta. Parasyte está em seu melhor quando silenciosamente tenta (e consegue) criar cenas de desconforto através de transformações perturbadoras, contrapostas pelo senso de humor seco da Migi.

Não é por nada que Tamiya Ryoko é muito mais interessante do que todos os outros parasitas juntos, porque suas interações com Shinichi vão além de apenas trocar porrada com o protagonista. Enquanto as táticas da Migi para derrotar oponentes completamente desenvolvidos (ao contrário dela) no começo são inteligentes, com o tempo a série começa a parecer mais com um shonen típico, e terminamos com um arco de batalha contra um uber vilão que não é nada senão músculo sem conteúdo.

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Ryoko Tamiya. Melhor. Mãe. Ever.

Existe, sim, muito potencial e muitas boas ideias nessa série, muitas coisas que eu gostei, mas o foco contínuo nas lutas, e a crescente falta de qualidade na escrita, impedem qualquer recomendação acima de “é… bom…“. Infelizmente.

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