sábado, 9 de julho de 2016

[ANIMES] DEATH PARADE (ou Deus é imoral?)


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Como todo bom ateu satanista, boa parte da minha adolescência se passou vociferando o paradoxo de Epicuro com toda raivinha sapateante que cabe a um adolescente revoltz. Para quem não sabe (ou não tem páginas ateias no Facebook – saporra é postada a cada 15 minutos), o paradoxo de Epicuro diz o seguinte:

“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente.
É capaz, mas não deseja? Então é malevolente.
É capaz e deseja? Então por que o mal existe?
Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?
Enquanto isso é muito legal quando você tem 16 anos e tá putinho da cara porque acabou de descobrir que foi trouxa a vida inteira sem nunca se questionar que talvez o Papai Noel dos adultos não existisse, esse paradoxo tem um problema.

Ele parte do pressuposto de que há uma definição de mal, e isso é tão longe de uma verdade absoluta quanto se pode ser. O conceito do que é bem, mal, moral ou aceitável é algo completamente relativo, e atrelado a um dado momento de uma dada sociedade – embora todas elas, sem exceção, acreditaram que é a máxima flor da definição de moralidade (inclusive a nossa).

Então, esperar que um ser alienígena e atemporal como Deus se enquadre na definição da nossa sociedade especifica de moralidade, e não nenhuma de todas as outras que existiram, existem e podem existir, mas nunca pensamos nisso, é tão imbecil quanto soa. Deus pode não evitar o “mal” apenas porque ele não entende como mal o conceito de “mal” da sociedade judaico-cristã ocidental do século 21, simples assim. Nós não conseguimos chegar a um consenso do que é “mal” nem com alguém que nasceu míseros dez anos depois, ou mora do outro lado de uma fronteira imaginaria completamente aleatória, quiçá com uma criatura que está mais perto de Yog-Sothoth do que de um ser humano.

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A vida é injusta. E aí, vai chorar? Vai chorar? Chora nenenzinho, chora!

Imaginar o que uma cultura completamente alienígena acha “bom” ou deixa de achar é um exercício de futilidade tão sem propósito quanto tentar se suicidar com homeopatia.

Claro, o fato de Deus muito provavelmente não existir é um motivo bem mais relevante para ele não evitar qualquer coisa também, tem isso.

Entretanto, acidentalmente, há um ponto relevante aqui a ser discutido: não podemos julgar Deus pelo nosso senso de moralidade, certo. Mas o inverso não seria verdadeiro também? Deus não tem a menor experiência em ser um ser humano, então pode-se afirmar, com certa propriedade, que ele não entende absolutamente porra nenhuma sobre ser humano. Você pode argumentar que ele pensou bastante a respeito disso, e certamente leu a respeito na Wikipédia, mas, desculpe, isso não é suficiente. Se você acha isso, apenas posso te apresentar uma das melhores cenas da história do cinema que explica o quão piá de prédio Deus é:


E se ele não entende a nossa moral ou nossas experiências, qual justiça há em ser julgado por um ser assim? O conceito de um deus julgador da condição humana é aberrante e injusto em sua própria essência, e ainda assim é uma das ideias mais recorrentes da cultura humana.
Death Parade é, acredite se quiser, um anime que discute sobre isso.

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TOMANDO A SAIDERA. LITERALMENTE.
Quando duas pessoas morrem ao mesmo tempo (mas não necessariamente no mesmo lugar), suas almas são enviadas para um bar no pós-vida onde o bartender será o arbitro que julgará se elas devem reencarnar ou serem enviadas para o vazio abissal.

O árbitro possui todas as memórias relevantes das pessoas, mas como isso é insuficiente para passar pelo julgamento ele aplica um teste definitivo: as pessoas (que não sabem que morreram nem têm memória disso) têm que jogar um jogo, e são levadas a acreditar que sua vida depende de vencer a partida. E aqui entra a pegadinha: apesar das pessoas serem levadas a acreditar nisso, o resultado do jogo não importa absolutamente nada na verdade. O que importa para o julgamento é como as pessoas se comportam quando são levadas a acreditar que suas vidas estão em jogo.

Parece eficiente, nada como uma situação extrema para trazer a natureza sombria dos corações humanos à tona, não?

Decim é o nosso protagonista, um árbitro não muito expressivo que passa em julgamento alguns pares de casos ao longo dos 12 episódios do anime, acompanhado de sua bela, porém estranhamente humana, assistente.


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E agora você sabe como a Retrospectiva da Globo é editada
FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA

Em todos estes anos nesta indústria vital assistindo animes, algo que poucas vezes me aconteceu foi não saber categorizar exatamente um anime. Death Parade é um destes raros casos em que o anime não segue as fórmulas do shonen, shoujo, harem ou terror. Não é nenhuma destas coisas, e a melhor forma que eu teria para descrever o anime seria o formato dos seriados ocidentais: são episódios com casos isolados (o “morto do dia” no lugar do “monstro do dia”), mas com um plot maior sendo desenvolvido ao fundo, não muito diferente do que vemos em The Flash ou Doctor Who, por exemplo.

Isso se deve ao fato de que Death Parade teve uma origem diferente do habitual para virar anime: ele não é uma adaptação de um mangá, nem de uma light novel, muito menos a criação de um profissional da área da animação. Acontece que no Japão existe um programa chamado “Anime Mirai” (o futuro do anime) financiado pelo governo para buscar novos talentos na animação, e o vencedor do concurso tem sua ideia animada em um curta de 30 minutos.

Death Billards foi o vencedor de 2013 e transformado em um curta. O estúdio Mad House comprou a ideia em 2015 e a transformou em um anime completo de 12 episódios, daí nasceu Death Parade.

Com efeito, é um anime bastante diferente de qualquer animação de qualquer coisa que se costuma passar em animes, tanto em estrutura quanto em proposta.

Não, o anime não se passa no Facebook
SÉRGIO MORO ESPIRITUAL

Death Parade é fantástico por sua complexidade: julgar toda a existência de uma pessoa não é algo fácil ou simples de se fazer. Como tal, apesar dos árbitros terem as memórias e serem juízes neutros, eles são incapazes de sinceramente entender cada e toda pessoa que passa por eles no tempo que eles têm para julgá-los.

Isso é um problema que é exasperado por um simples fato: os árbitros não são e nunca serão humanos, e como tal não possuem conhecimento em primeira mão da vida, morte ou mesmo como as emoções humanas funcionam. Como consequência disso o julgamento pode acabar sendo… injusto. Essa falha no sistema é um dos conceitos mais filosóficos dentro do anime: é moral um sistema essencialmente defeituoso ser ter a última palavra sobre uma questão tão crítica?

Em outras palavras, Deus realmente tem o direito de julgar alguém? De igual modo, onde está a justiça em ter sua vida julgada por um arbitro que apenas leu a respeito do que uma “vida” é?

Pior que isso, na verdade, ele recebe memórias cuidadosamente selecionadas como relevantes… por alguém que nunca foi humano também, nunca se apaixonou (não da forma que humanos fazem, existem infinitas formas de amor, como Shub-Niggurath que ama os seus cultistas os dilacerando em pedaços e sorvendo suas mentes em seus sucos digestivos através de uma agonia eterna), nunca ficou atrás de um idoso na fila do supermercado, e nunca teve um dia de cabelo ruim. Então, qual é o critério, exatamente, que essa lava-jato espiritual usa para filtrar o que é importante e o que não é na vida de alguém?

Existe outro problema inerente à forma com que os julgamentos são conduzidos. Colocar uma pessoa em uma situação desesperadora pode realmente dizer muito sobre quem ela realmente é, mas às vezes revela que somos apenas humanos, e reagimos em resposta a raiva ou ao medo de uma forma instintiva – não quer dizer que é o que realmente somos. Seria justo julgar uma pessoa para toda eternidade por um breve momento de desespero?

Questionando isso, Death Parade explora a natureza humana em uma extensão mais profunda do que qualquer outro anime que eu já tenha visto, e o faz não apenas de uma forma visualmente interessante para a animação, mas integra sua própria essência no conflito.

COSMIC MARIONATION!
COSMIC MARIONATION!

NO FIM O QUE IMPORTA É O ZÉ

Todos esses debates filosóficos e temas inteligentes podem levar o anime só até certo ponto, porque o anime não seria nada sem o conflito. Quando você coloca dois humanos em um cenário de vida ou morte no qual suas próprias vidas estão em jogo (ou ao menos eles acreditam nisso, que é o que importa aqui), cria uma excelente oportunidade para o suspense que o anime não desperdiça.

Os humanos julgados são os verdadeiros protagonistas do anime, e a experiência de suas vidas (e morte) enquanto eles disputam um jogo de bar (dardos, fliperama, cartas) por sua vida são progressivamente tensas, conforme suas memórias da vida passada vão voltando e eles começando a imaginar que talvez não estejam mais no Kansas, Totó. As disputas são tensas e envolventes, você não consegue pausar o vídeo mesmo que precise.

Uma das inúmeras razões disso é que o anime é surpreendentemente bom em desenvolver personagens. Eu digo surpreendentemente não só porque é um anime (mídia na qual os personagens saírem de seu estereótipo já é pra glorificar de pé, igreja), mas porque a maioria dos personagens aparece apenas por um episódio ou dois, e ainda assim tem um arco de personagem completo, te fazendo embarcar na sua jornada pessoal e querer saber se, no fim, eles vão subir ou VÃO DESCER.


Personagens bem construídos com os quais você pode se relacionar (o que é completamente diferente de gostar) ajudam os julgamentos a terem peso e, em essência, é sobre isso que o anime é.

A história de Death Parade é sobre compreensão e pessoas incompreendidas. A mulher que mente para salvar o marido. A menina que não consegue expressar seus sentimentos. O menino com um trauma de infância. O ídolo que não dava valor a ninguém. A mãe que amava seus filhos. O irmão que quer proteger a irmã. O marido que quer vingar a esposa. A garota que perdeu sua razão de viver.

Os seus julgamentos foram justos? Sim e não, porque a maioria das pessoas é uma mistura de bem e mal. Uma pessoa pode ser horrível e abusiva com seus subalternos e ainda ser completamente devotada a sua família em casa. E aí, comofas\\\? Não existe uma resposta unanime e – feito da forma certa – essa é a melhor exibição que se pode ter.

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ENQUANTO ISSO, NO METAPLOT DO CASTELO…

Uma das minhas maiores preocupações quando eu comecei a assistir esse anime é que não houvesse uma história geral a ser contado, a sensação de estar assistindo The Walking Dead que saporra não ia levar a lugar nenhum. Felizmente não é isso que acontece.

Porque quando Decim e sua assistente novinha com a barriga de fora não estão julgando pobres coitados que não estão comendo capim pela raiz, nas horas vagas o anime constrói o interessantíssimo mundo dos árbitros no pós-vida em uma construção de cenário exemplar. E eu digo exemplar porque você termina o anime querendo saber mais sobre aquela cidade, quais suas regras, como ela surgiu e o que vai acontecer. Não é apenas um pastiche preguiçoso do esquete Harry Potter de tocar burocracia humana em algo místico (a ideia de J.K. Rowling foi inspirada na época, todas as 258 cópias só mudando o tema que vieram depois não podem clamar o mesmo), e sim um cenário deveras interessante.
Afinal, o que são os árbitros? Quais suas regras? A quem eles obedecem? Qual é o propósito dos julgamentos? Que fim levou Deus?

Em seu arco maior de história, Death Parade acompanha o árbitro relativamente novato Quim em sua jornada de experiência para se tornar um árbitro melhor – assim que chegarmos a um consenso do que um árbitro é em primeiro lugar.

O anime consegue entregar um arco de desenvolvimento satisfatório, e não o gosto amargo de que o anime foi “sobre nada em particular”, um efeito muito comum em animes com esse formato (12 episódios compostos de arcos isolados). Eu sou bastante chato com finais, de modo que essa era uma grande preocupação para mim – uma que felizmente não voltou para me assombrar.

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