sábado, 11 de junho de 2016

[LIVROS] A MORTE É LEGAL (ou mas ter 19 anos não é)

Quando eu tinha 19 anos acreditava, como suponho que muitos nerds passaram por isso, que as chances de morrer sozinho, virgem e cujo único contato humano seria as vezes tocar levemente nos dedos do entregador de pizza por acidente. A menos que eu achatasse o máximo da minha personalidade para parecer "normal" e com muita sorte ser tolerado por uma garota com quem eu teria tanta compatibilidade quando a formula de Bhaskara e o curso de história da Federal. Isso era o que eu imaginava quando tinha 19 anos.

O que meio que foi o que teria acontecido comigo salvo por um milagre tipo encontrar a pascoa em novembro , mas eu definitivamente não sou exemplo para nada: a maioria das pessoas (nerds inclusos) cresce e percebe que a vida não é esse mar todo de infelicidade e dor.

Ainda sim, é assim que a adolescência é para os meninos a menos que você seja um macho alfa legalzão e esteja três vezes por semana na balada, considerando a noite um completo fracasso se terminar com qualquer coisa menos do que um ménage quadruplo. Sim, é assim que eu imagino que a vida dos caras descolados é.

Andrew Webley é um adolescente emo/hipster que está nessa fase até o dia em que uma aventura mágica cai do céu no colo dele, onde ele vai se descobrir muito importante, experiências inenarráveis ocorrerão e um romance improvável surgirá da magia do pensamento positivo. E ele continuará sendo um emo/hipster depressivo durante esse tempo todo.

Colocando assim, apesar de claramente ser um roteiro de anime, parece uma experiência interessante de se ler. Talvez até divertida, não?

Bem, é, mas tem um porém. O livro não tem só um protagonista emo/hipster que para de ouvir uma banda se ela "virar modinha", ele foi escrito por um.

Oh boy, essa vai ser uma jornada daquelas...


QUEM É JIM ANOTSU?

O autor do livro, Jim Anotsu, leu muito sobre o cenário do RAP nos anos 90, manja de falar sobre o Blues dos anos 30, conhece toda bibliografia de Lovecraft de cor e pode tranquilamente dar uma palestra sobre o movimento literário romântico no idioma anglofono. Pergunte a ele sobre Lord Byron, ele ficará muito feliz em te falar sobre isso.

Não, eu não conheço o rapaz nem tampouco já falei com ele em qualquer momento da  minha vida. Então como eu sei todas essas coisas sobre ele? Simples: Jim tem uma necessidade patológica de ficar vomitando no texto todo paragrafo referencias que mostram o quanto ele tem referencias para mostrar.

Por exemplo, ele nunca escreve que um personagem se sentiu triste. Ele escreve que o personagem se sentiu "como o minuto 3 do lado B do quarto disco do Weezer em 1973 faz você se sentir numa pradaria da Krakovia em agosto de um ano bissexto". Parece piada, mas imagine ler um livro inteiro escrito assim. Haja coração, como já dizia o grande filosofo Galvão Bueno.

Acha que eu estou exagerando? Então segura essa, malandro:

"Um adulto não entenderia a solidão de Andrew naquela madrugada. Cabeça recostada na janela com o olhar sobre a cidade em chuva, pensando em Briony enquanto ouvia uma canção do The Get Up Kids ou Rites of Spring - não escutava com atenção suficiente para distinguir. Um adulto não entenderia isso. Kafka, Gabriel Garcia Marquez ou Bukowski entenderiam. Mas não um adulto como seu pai"


Eu realmente não duvido que Jim entenda de todas essas coisas, mas infelizmente a sensação que dá é que ele é um escritor de fanfic que acabou de descobrir a Wikipédia e fica vomitando informação no texto apenas para mostrar o quanto ele sabe copiar e colar. A sensação de ler um texto dele é mais ou menos a de ler o Yahoo Respostas.

Referencias são uma coisa positiva em um texto, mas elas tem que ser incorporadas. Quando você assiste Kill Bill, você mais ou menos consegue imaginar o que o Tarantino cresceu assistindo e quais obras marcaram ele. Jim Anotsu não faz esse tipo de referencia, o que ele faz é apenas infodumping mesmo: a arte de copiar e colar informações apenas para mostrar o quanto você sabe (porque sei lá, imagino que a policia hipster vai caçar sua carteira de hipster se você não o fizer a cada cinco minutos)

Not cool, bro, not cool.

Você sabe que fez algo errado quando seu filme faz ter
saudade de Smallville
LEX LUTHOR DO ZUKEMBERG, NÃO O CORINGA DO LEDGER

Quando não está dando uma nova roupagem para os clichés Harrypotterianos (o que ele faz muito bem, mais sobre isso em breve), Jim está sendo muito concentrado em que seu livro seja "diferente" e "único". Tenta até demais.

Existe uma diferença muito sutil entre ser louco em um sentido dramático e ser louco em um sentido vaso quebrado. Faça a experiência: visite uma clinica psiquiátrica, não vai ser tão romântico e divertido quanto a ficção diz que é. Isso porque a ficção romantiza a loucura da mesma forma que romantiza o câncer.

Por isso quando pensamos em "loucura" na ficção imaginamos alguém como o Coringa do Heath Ledger no Cavaleiro das Trevas e não o Lex Luthor do Mark Zukemberg em BvS, que não consegue conectar duas frases coerentes. O perigo de tentar fazer um e escrever o outro é muito grande, precisa ter muito cuidado e bom senso para não sair um vaso quebrado. E Jim Anotsu não é exatamente a figura do bom senso.

Isso significa que o seu "non sense" não é divertido e interessante como Lewis Caroll - embora ele deseje muito ser Lewis Caroll - ele é mais incomodo e forçado apenas pelo prazer de ser incomodo e forçado, como Hora da Aventura. Eu não sei o quão intencional é isso, mas o estilo de escrita de Jim tem muito de Hora da Aventura e enquanto você não disser "ah foda-se essa merda, parei de me importar" ele não estará satisfeito (que é o objetivo do desenho Cartoon Network).

UM ROBO DEFEITUOSO DIALOGANDO COM UM ESQUILO

O professor de um curso para escritores que eu acompanho disse que uma vez um de seus alunos pediu ajuda em como escrever dialogos melhores, já que os dele pareciam um robô defeituoso dialogando com um esquilo.

Jim deveria ter frequentado essa aula, pq ele tem outro problema como escritor além de entupir o texto com referencias desnecessárias e forçar no non sense a um nível Hora da Aventura: ele não sabe escrever diálogos. No começo eu achei que era intencional os personagens falarem com a naturalidade de um filme dublado dos anos 80, mas depois de um tempo eu percebi que era só deficiência do autor mesmo.

Você consegue sentir, grita através do texto que tudo que Jim sabe sobre ser um adolescente americano ou sobre ser negro foi algo que ele aprendeu assistindo filmes, porque seus personagens falam exatamente como estereótipos de filmes genéricos.

Quando eu assisto anime costumo dizer que existe um pool limitado de falas que os personagens podem escolher conforme o seu estereótipo. Isso significa que eu não preciso esperar a menina tsundere terminar de falar para saber o que ela vai dizer, eu não preciso esperar realmente a frase do amigo do herói que é rival dele, etc. Isso é muito chato e entediante, e Jim escreve como se estivesse escrevendo para arquétipos de personagens e não seres humanos reais.

Eu já ia mencionando beatniks partindo do pressuposto que
todo mundo entende a minha referencia. Deus, eu estou me
tornando ele!
Ou de forma mais simples, o problema de BvS: NINGUÉM FALA DESSE JEITO. Bem, na verdade é um pouco pior do que BvS já que o autor tenta inserir uma profundidade absurda - já que a policia hipster está de olho - e todo mundo parece falar como se estivesse fazendo um monologo beatnik. Detalhe: não só os personagens que são realmente beatniks enrustidos: TODO MUNDO.

Isso é colocar peso sobre uma construção que já é frágil. Eu realmente duvido que Jim em qualquer momento da vida tenha conversado com um negro pobre do gueto, agora imagine ele escrevendo um personagem assim que soa como se cada frase sua fosse um textão de Facebook.

Agora aplique isso a todos os personagens.
O horror, ó, o horror.

UMA HISTÓRIA SÓLIDA E INTERESSANTE

- Você não entende. Ela é a garota mais legal que eu já conheci. Nós gostamos das mesmas coisas e somos bem parecidos.
- Eu gosto das mesmas coisas que milhares de pessoas e não me apaixono por elas. Andy, sinceramente, eu acho que você é apaixonado pelo sentimento de estar apaixonado, entende?

Mas sabe o que é o pior? Sabe o que realmente  me chateou lendo esse livro? É que a história é boa.
Se você pegar todos os acontecimentos do livro, se colocar no papel tudo que acontece (ué, e colocar no papel o que acontece já não é a definição de livro, pedubó?), a história é realmente boa.

As aventuras de A Morte é Legal narram os feitos de Andrew Webley quando a filha mais nova da Morte (o que me leva a imaginar quem pegou a Morte, chupa essa Thanos!) lhe propõe uma caçada fantástica em busca dos três nomes do ser mais poderoso do universo (que por acaso é um gato). O premio serão dois desejos, cada um fica com um e está feito o carreto.

Esse texto está muito negativo, aqui um gif do irmão
da Fluttershy para melhorar o clima.
O cenário dessa caçada não é exatamente original já que é meio que Harry Potter adaptado para o imaginário popular cristão ocidental. Só que ao invés da magia ter sido burocratizada aqui é o pós-vida que recebe esse banho de loja moderno onde parece que Yu Yu Hakusho encontra JK Rowling. E se o resultado não é original, ainda sim é muito interessante.

Vê? Esse é o tipo de referencia interessante, Jim. Você não precisa ficar vomitando na cara do leitor que sabe quem é o Dr. Dre quando o mundo que você criou tem ótimas pinceladas de Sandman, Changeling, Shakespeare e até Mad Max.

As aventuras de Andrew e Ive (a filha da morte), de seus competidores (um bruxo casado com uma fada que quer os nomes do gato para salvar a ambos) e da irmã de Ive (membro do "BOPE Espiritual", mantendo a ordem na coisa entre os mundos) são muito boas, bem construídas e as cenas de ação são interessantes (e eu acho cenas de ação particularmente tediosas em livros, então ponto para ele).

Em paralelo, sem ligação nenhuma com nada mesmo, metade do livro é dedicado a irmã mais nova de Andrew que é uma adolescente branca de classe média que sonha ser rapper do gueto. Apesar da proposta estranha - e até meio idiota - os trechos dela são convincentes e sólidos porque nessa fase da vida nós realmente somos estranhos e meio idiotas mesmo, embora tenhamos certeza absoluta que já sabemos perfeitamente quem somos e quais nossos sonhos serão.

As passagens de Amber são meio ridículas e exageradamente dramáticas sobre pouca coisa, mas um ridículo sincero porque todos somos ridículos e exageradamente dramáticos aos 14 anos. Ser a nova Emimina parece a coisa mais importante do mundo para ela, o que é estúpido, mas lembre do que era a "coisa mais importante do mundo" quando você tinha 14 anos. Neste caso o tema se adequa ao estilo e apesar de ridículo transborda em sinceridade.

MANTENHA SIMPLES, MANTENHA BELO

Só que essa história interessante com bons personagens e motivações sólidas é soterrada por uma camada dolorosa de escrita ruim, falas piores ainda e uma quantidade repulsiva de "textão-facebooklização" de tudo. A irmã de Ive, por exemplo, no papel tem excelentes motivações e uma construção genial mas na prática ela é desnecessariamente fria e cruel como vilã de fanfic.

E como coup de grace, temos que o final do livro segue o seu estilo emo: tudo é ruim, o mundo é cinzento e sem esperança, todos são infelizes para sempre, fim. Porque, é claro, onde eu estava com a cabeça em esperar algum arco de evolução dos personagens ou do cenário? Ninguém aprende nada, nenhum conflito é resolvido e tudo se mantem no status quo inicial porque a vida é dura ou alguma bobagem gótica depressiva assim, whatever.

No fim, Jim sabe como fazer um outline e estruturar um livro bastando apenas ele tirar a necessidade constante que ele tem de gritar para o mundo sobre o quão emo e  hipster ele é a cada paragrafo. Bem, é uma coisa da idade, tenho certeza que é um problema vai melhorar quando ele crescer...

... e aí eu vejo que o cidadão já passou e muito da adolescência. Santa puta que pariu, Batman...

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