domingo, 12 de junho de 2016

[FILMES] WARCRAFT (ou sangue e bebês orcs cuti-cuti)

É muito difícil para mim escrever uma opinião imparcial sobre Warcraft porque não eu não tenho como dissociar o nome das dezenas de horas que eu investi da minha vida nesse jogo em uma época particularmente relevante da minha vida.

Dessa forma é muito difícil para mim ver a grande fortaleza de Karazhan e não lembrar todas as dezenas de horas que eu passei fazendo quests para entrar lá e tantos wipes que eu já tomei. Quando a primeira expansão de WoW saiu, Burning Crusade, Karazhan era a primeira raid onde você poderia conseguir itens de tier 4 - então era que meio que um calvário necessário para todo noob. Com efeito, as guildas perguntavam aos novatos se eles já tinham feito KaZ.

Quando aparece no filme o pessoal cavalgando pelas estradas estreitas da Trilha do Vento Morto, eu não consigo deixar de lembrar as vezes que eu já me perdi nessa porra e a epopeia que era para voltar quando você caia e sua heartstone ainda estava no cooldown.

Então sim, Warcraft é uma experiência muito pessoal para mim e por esse motivo eu imaginaria que seria muito mais crítico com o filme do que o usual. Adicione a isso que as primeiras criticas haviam malhado o filme direto e as expectativas eram bastante mistas.

Mas o que eu posso dizer? Eu sou um homem simples, dê-me um murloc mrrrllgggando em qualquer dia da semana e eu estarei feliz.



Viu? Estou feliz.


90% das piadas de "sua mãe é tão gorda que..." eu aprendi
com esse jogo. Cultura, eu te digo!
FANTASIA MEDIEVAL 5.834.972 E CONTANDO

Até a última estatística que eu reuni, existem mais de 5 milhões de universos de fantasia medieval e até hoje eu falho em entender o que tem de tão atraente em um mundo sem saneamento básico ou antibióticos. Seja como for, por menor que seja meu apreço pelo tema, Warcraft é um universo que consegue se destacar nesse interim porque as coisas são diferentes aqui.

Em Warcraft os orcs não são apenas bestas genéricas para serem o inimigo sem rosto e os humanos não são o último bastião de nobreza e cavalheirismo. Diferente do usual, existem orcs maus mas também existem orcs bons. Humanos bons mas também humanos maus. É um mundo onde os trolls são mandingueiros que falam como surfistas chapadões, e é vudu é pra jacu cara!

Isso se reflete no filme logo na primeira cena: Durotan e sua orquisa Draka estão deitados conversando sobre o futuro bebe orc que Draka carrega na barriga. Oww, Orcs são gente também, cara!

E ao mesmo tempo não, quando vemos que a horda orc está trabalhando em abrir o Portal Negro para ir até Azeroth já que a magia de fel (vileza na tradução) secou a vida de sua terra natal. O que seria muito legal, não fosse necessário draenar a vida de milhares de draeneis (viram o que eu fiz aqui, hã? Hã?) mantidos como escravos. Porque draenei só se fode nessa porra, é brincadeira...

Então a questão é: os orcs são bons ou maus? Nenhum dos dois realmente, os INDIVIDUOS podem ser bons ou maus, mas não a raça inteira como se fosse um caminhão de melancias. Esse é o grande diferencial de Warcraft como cenário de fantasia e o filme traduz bem essa ideia.

- Pai, eu já disse que não sou mais Jesus, eu sou o
guardião Medivh agora!
- Adolescentes... Maria, dá um jeito nesse menino!
ENQUANTO ISSO, NO CORNER LIMPINHO DO RINGUE

Enquanto os orcs fazem e acontecem para impedir que outros orcs mais maus tornem Azeroth em uma Draenor 2.0, a maior parte do filme é voltada para os humanos e como eles reagem a ter seu mundo invadido por uma raça não interessada em fazer miçangas e cantar canções sobre amizade.

A dinâmica principal do filme se foca em Lothar, o grande campeão de Ventobravo, o mago novato (um tanto atrapalhado) Khadgar e a meio orqueza (capturada pelos humanos) Garuna, e como em um bom filme de Sessão da Tarde, a química entre os três funciona melhor do que você esperaria para uma adaptação de videogame - que se esforçam muito para serem maçantes e hediondas por motivos que apenas Davros entende.

Com efeito os melhores momentos de alivio comico do filme vem com as cenas de Garuna questionando a cultura "frescurinha" dos humanos e de Khadgar fazendo noobices como mago. Pessoalmente eu gostaria de ver esse lado leve de Warcraft um pouco mais explorado, já que Warcraft não é exatamente uma fantasia séria. Quero dizer, estamos falando de um mundo onde uma das magias mais populares é transformar o oponente em ovelha e que existe uma tribo de ogros chamada Gorduni em guerra com centauros chamados Magram. Mesmo.

O que eu quero dizer é que Warcraft se beneficiaria em ser um filme mais leve do que foi feito, mas ao menos a variação de ritmo é suficiente para que o filme não tenha saído um "BvS 2: Mais trevas e menos sorrisos ainda!"

- Aqui, use minha Pedra do Regresso
- Não dá para trocar itens vinculados, noobão!
EU TRAIO A SUA TRAIÇÃO COM UMA TRAIÇÃO EM MODO ARMADILHA!

O filme segue a linha de raciocínio diferente da fantasia medieval tradicional (orcs são maus, humanos são menos maus) e isso é bom, mas ao mesmo tempo pode ser bastante confuso. Medivh (que deve significar Jesus no idioma anão) é um personagem confuso que você não tem certeza de que lado está, isso acontecendo durante uma cena em que o clã de orcs de Durotan está traindo a horda se encontrando com os humanos e a traidora Garuna até que são atacados por outra traição!

Puta merda, eu não via tanta traição dentro de traição desde que li um fanfic de Game of Thrones com Death Note ao ponto que é fácil se perder em quem está do lado de quem e quem está traindo quem.

E se isso pode ser um problema (não saber o que está acontecendo na tela é parte da minha definição de "problema" para um filme) também é um sinal muito raro de coragem no cinema moderno: Warcraft não toma saídas fáceis.

Seria muito mais simples, por exemplo, terminar o filme com uma solução explicita na tela para os conflitos e muita gente saiu do cinema com a sensação de que nada foi resolvido quando na verdade é meio que como o final do primeiro Matrix: embora a vitória definitiva não tenha sido atingida, você entende que as sementes para as coisas se arrumarem foram plantadas e por hora isso é o suficiente.

De igual modo o filme não mastiga as coisas para você, ao que eu fiquei muito agradecido já que é deveras raro não ter sua inteligência subestimada em um blockbuster. O filme mostra que existem anões e elfos, e que existe uma cidade voadora mantida por magos - mas mostra sem muito estardalhaço, como se fosse algo normal e sempre estivesse estado ali. Entendeu, entendeu, não entendeu chupa que é de uva. Isso é uma qualidade admirável do filme, embora um pouco confusa as vezes.


"Vou totalmente por meu bebê num cesto no rio para ele
libertar nosso povo quando crescer. Porra, que ideia boa,
como será que ninguém nunca pensou nisso antes?"
SIR GENERIC E OS CAVALEIROS DO AMANHÃ

Meu maior medo é que Warcraft descambasse para uma fantasia medieval genérica e esquecível e felizmente isso não acontece. Tem reis e chefes guerreiros decisivos e dispostos a lutar pelo seu povo (nada de nobres vilõezinhos almofadinhas), mulheres chutando bundas e anotando nomes usando quantidades razoáveis de armadura, e uma trama que não é tão simples assim quanto a premissa poderia dar a imaginar.

Claro, temos um uber vilão mais mau que pica-pau de ressaca mas nem o trato com Gul'dan se resolve da forma tradicional. Ele é derrotado sim, mas de uma forma bem mais sutil do que se poderia imaginar.

Eis dois grandes motivos pelos quais
Jessica Nigri totalmente deveria ser chamada
para interpretar a Valira Sanguinar
Quase tão importante quanto isso é que o filme não exige nenhum conhecimento prévio do mundo para fazer sentido. Tudo que você precisa saber sobre orcs, reinos e magias nesse mundo é explicado dentro do próprio filme se você prestar um pouco de atenção. Claro que ajuda a diversão ver que a Garuna aponta justo a Lamento Gelado (futura espada do Lich King) quando pede para lhe darem uma arma ou reconhecer o mmmmmrrrrrrrlllllllggggggg de um murloc caçando, mas não é isso que faz o filme funcionar.

O que faz o filme funcionar é justamente o encontro de duas raças culturalmente  muito diferentes aprendendo a conviver uma com a outra na base do martelo de guerra enquanto Jesus solta um golem em cima da galera. Se isso não é boa diversão no cinema, eu não sei mais o que poderia ser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário