segunda-feira, 23 de maio de 2016

[SERIES] PARKS AND RECREATION (ou Trotski pode ser divertido)

VOCÊ ESTÁ ENTRANDO EM PAWNEE
Boa sorte com isso.
Leslie Knope é uma mulher com um sonho. Em seu mundo ideal ela sonha que o governo possa determinar o que as pessoas vão comer, com quem elas podem se relacionar, que tipo de entretenimento podem ter e os lugares que devem frequentar. E por governo entenda-se "as opiniões dela" (como todo esquerdista sempre sonha que ele vai estar do lado da caneta que manda).

Não obstante a isso, Leslie não se roga em usar a máquina do governo (ou seja, dinheiro tomado a força das pessoas) para fazer favores para seus amigos ou preferencias suas. Ela não vê nada errado, por exemplo, em usar recursos tomados das pessoas para manter funcionando uma vídeo locadora que estava as portas da falência. Se um negócio vai a falência é porque seu serviço não é mais relevante a comunidade, do contrário ele estaria sendo utilizado. Existe uma palavra para quando negócios incompetentes dão lugar a outros que atendem as necessidades das pessoas: progresso. Mas o que é a decisão intima das pessoas sobre o que é melhor para si perto da sabedoria onisciente do camarada Estado, não é mesmo?

No mundo de Leslie Knope, as pessoas deveriam apenas parar de encher e deixar o governo lhes dizer como viver suas vidas.

Uma série com esta personagem como protagonista teria tudo para ser um thriller opressivo de terror, praticamente uma versão semanal de 1984 (que não tenho a menor dúvida que Leslie deve ler toda noite e suspirar apaixonadamente). Mas apenas graças a magia da televisão, não é nada disso.

O que deveria ser uma história de terror acabou sendo uma das mais engraçadas comédias da televisão. A vida tem dessas coisas.
"Eu não faço ideia do que eu estou fazendo,
mas sei que estou fazendo isso bem"
A SÉRIE QUE FOI QUASE NÃO INDO

Em 2008 a NBC encomendou ao produtor Michael Schur uma série na linha de The Office, e Schur entregou algo bastante parecido só que levemente diferente. No lugar de Steve Carell teríamos uma mulher como protagonista ao invés de uma firma seria um escritório do governo. Mas a estrutura de semidocumentário continuaria a mesma e o tema seriam as tretas corporativas.

Assim foi feita a primeira temporada de Parks and Recreation com apenas oito episódios e o resultado final não foi muito bom. Com audiências horríveis a série por muito pouco não foi cancelada e mesmo sendo renovada a equipe sabia que teria que trabalhar duro para manter a série no ar.

Foi nesse instante que a protagonista Amy Pohler sentou com os escritores e deu uma guinada nos rumos da série. Em seu livro "Yes, Please", Amy conta que foi uma luta até o fim pois todo final de temporada não era certo de que a NBC iria renovar a série.

Ainda sim, e a partir da sua segunda temporada com seu elenco definitivo, Parks and Rec funcionou. E funcionou muito bem.

Quando diz que é 2% leite,
eu não sei o que são os outros 98%
QUANDO AS ESTRELAS ESTÃO CERTAS

Leslie Knope (a personagem de Amy Poehler) é a vice-diretora do departamento de Parques e Recreação da cidade fictícia de Pawnee, no estado (real) de Indiana. Mas diferente de The Office em que o personagem de Steve Carell é um idiota egocêntrico, Leslie Knope é uma idiota altruísta. Bem, talvez idiota não seja exatamente a palavra mas talvez inocente e sem noção da realidade ao seu redor. Uma Pollyana moderna que adora o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

O que Amy e sua turma conseguiram atingir foi um tipo muito especifico de humor para um tipo muito especifico de público: o humor do absurdo. A cidade de Pawnee é ridícula e seus cidadões parecem ter saído de Springfield, mas o que faz a série funcionar é justamente o quanto ela mantém um pé na realidade enquanto ridiculariza o absurdo.

É um tipo muito complicado de humor que faz você rir mas ao mesmo tempo pensar que isso tem um fundo de verdade. As pessoas de Pawnee são ultra preconceituosas, conservadoras, preguiçosas e burras a um ponto absurdo, mas esse absurdo se torna mais engraçado porque você sabe exatamente da onde essa crítica está saindo.

Dê um peixe a um homem e o alimentará por um dia.
Não ensine um homem a pescar... e se alimente.
Ele é um homem crescido.
E pescar não é tão difícil.
Essa mesma tonica se aplica a seu elenco principal - talvez exceto Ann e posteriormente Bem - onde todo mundo é muito alguma coisa ao ponto do absurdo. Personagens tão fora da casinha  coexistindo entre si com apenas duas pessoas "normais" para contrabalancear é uma receita para o desastre, já que aleatoriedade demais não é bom.

No humor para cada protagonista das piadas é preciso um coadjuvante (chamado de "escada") tanto para o público poder se identificar como para manter a suspensão da descrença, assim como preparar a piada. Quando quase todo o elenco é seu próprio protagonista é muito difícil uma série funciona.

E ainda sim, Parks and Rec funciona numa linha muito tênue amarrada apenas pelo talento de seus atores como a química entre eles. Quando você vê os rumos que os atores tomaram depois de Parks, fica mais compreensível entender como uma química tão difícil foi alcançada: os atores são fenomenalmente bons. Foi um alinhamento de estrelas que dificilmente acontecerá tão cedo.

Amy Pohler protagonizou a melhor animação de 2015 (Divertidamente), Chris Pratt tem sob seu nome as maiores bilheterias de 2014 e 2015 (Guardiões da Galaxia e Jurassic World), Aziz Anzari empilha prêmios com sua série Master of None, e Nick Offerman é tão mitoso que existe um vídeo dele bebendo uísque diante de uma lareira durante 45 minutos com quase três milhões de visualizações no You Tube. Sério.



Acho que era brincadeira?

Tão importante quanto isso, todo esse talento é usado para um crescimento crível dos personagens. Você os vê evoluindo como pessoas e torce por eles conforme eles se tornam grandes seres humanos, tendo um arco completo e perfeito de personagens. Exceto o Jerry, damn it Berry!

A ARTE DE FALAR MAS TAMBÉM APRENDER A OUVIR

Existe um vídeo na internet que define com perfeição o brasileiro (e por tabela os americanos, eu insisto que são povos essencialmente parecidos): uma criança destruindo a sala de aula e as professoras de braços cruzados sem fazer nada. Bem, não é o vídeo que é importante realmente e sim os comentários dele - metade dos comentários defende que é isso mesmo, que a criança é vitima de um processo e não pode ser responsabilizada e blablabla, e outra metade defende que tem que meter tanta porrada nessa criança que as duas fileiras do DNA dela vão se tornar uma só.

Muita pouca gente, para não dizer quase ninguém, apontou que um meio termo seria o ideal. Esse é o problema do brasileiro (e novamente, dos americanos): tudo se torna torcida de time de futebol e se você não está conosco está contra nós. Me deixou profundamente desapontado ter que ver que foi preciso erguer um muro para separar quem era contra e a favor do impeachment em Brasília - porque em algum momento perdemos a nossa capacidade de ouvir o outro e dialogar como seres humanos.

Parks and Recreation é bastante tocante nesse ponto: suas situações absurdas de polarizações absurdas normalmente terminam com um meio termo que atende a todas as partes. Leslie representava muito bem isso: por ela mesma ela seria um rolo compressor a tocar o Estado por cima de tudo que ficasse em seu caminho, mas a série não toma particularmente o partido dela. Normalmente termina com Leslie percebendo que ela foi longe demais e chegando a uma solução razoável para todos. E engraçada também.

Isso é algo que faz muita falta na sociedade de hoje: não apenas ter suas convicções (opinião todo mundo tem), mas ser capaz de sentar, ouvir o outro lado e ter uma saída adulta e racional. Com exceção da invasão de guaxinins, com esses não tem como negociar.

- Estou interrompendo algo importante?
- Impossível, eu trabalho para o governo.
Não que a série seja perfeita e totalmente imparcial (eu acho essencialmente errado um episódio inteiro ridicularizando os "direitos dos homens") mas no geral a discussão tem um saldo mais positivo do que o contrário.

Ou como o Bem disse em um dos melhores episódios da série:

"Ninguém nunca me pergunta onde estão meus filhos. Ou quem está cuidando deles. (Quem está cuidando das crianças? Sua mãe, ah tudo bem). Certo. Talvez Leslie não se encaixe na idéia que vocês tem de como deveria ser a esposa de um candidato. E daí? É ótimo, porque não deveria haver uma ideia mesmo. Se ela quer ficar em casa fazendo uma torta, está ótimo. Se ela quer ter uma carreira, está ótimo também. Faça os dois ou não faça nenhum, não importa. Só não julguem o que outra pessoa quer fazer com a vida dela. Todos nós somos apenas indivíduos tentando achar nosso caminho nessa Terra"


Esquerdistas, direitistas, feministas, machistas, fundamentalistas, maratonistas e tantos outros "istas" querem essencialmente a mesma coisa: o poder de socar goela abaixo de todo mundo a sua visão de mundo. Precisamos de mais Parque e Recreações para dizer para as pessoas sentarem e ouvirem o coleguinha, e que todo mundo pode chegar a um meio termo mesmo sendo radicalmente diferente.

O problema dos guaxinins está sob controle.
Eles tem a parte deles da cidade e nós temos a nossa.
Por isso Parks and Recreation não é só uma série assistivel apesar da sua protagonista ter sonhos molados com um pesadelo comunista, ela é incrível justamente por causa disso. Piadas de bibliotecárias loucas e guaxinins a parte, a grande lição é que podemos nos dar bem mesmo sendo difentes - algo muito bastante em falta nos dias de hoje.

Uma lição que já deveria ter sido aprendida desde um dos melhores episódios de My Little Pony (e que foi indicado ao prêmio Hugo justamente por causa disso).



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