terça-feira, 3 de maio de 2016

[SERIES] BETTER CALL SAUL [1a temporada] (ou advogados já foram gente um dia)

E isso não é tudo, os cinquenta primeiros que ligarem...
Vou dizer algo que certamente me faria ser expulso de vários circulos sociais nerds... caso nerds formassem circulos sociais (não, tentar "vencer" xingamentos na internet com textões não conta) ou caso eu tivesse algum contato social com qualquer ser humano... mas enfim, a loserice da minha vida a parte, vamos a parte polemica: eu não acho Breaking Bad tão bom assim.

Oh, o horror, a heresia, queimem a bruxa e todas essas coisas.

Eu gosto de Breaking Bad, recomendo,  mas realmente não acho o suprassumo da narrativa televisiva como é vendido pelos fãs não. Eles claramente lembram do ritmo de faroeste com frases de efeito, mas tem menos sucesso para lembrar dos 59 subplots abandonados sem a menor vergonha e das cenas arrastadas onde nada acontecia. Bem, como eu disse, é bom, mas não tão bom assim.

Grande parte dos problemas da série provinham da inexperiencia do diretor, Vince Gillian nunca havia dirigido nem partida de Banco Imobiliario e para um primeiro trabalho até que ficou bom. Quando foi anunciado que seu segundo trabalho seria um spin off de Breaking Bad, eu ergui meia sobrancelha e meia (também conhecida como uma).

Uma série sobre um dos personagens mais superficiais de Breaking Bad parecia muito caça-níquel para o meu gosto. Não que eu totalmente desgostasse do advogado trambiqueiro Saul Goodman, mas o problema é que não tinha muito mais realmente do que isso no personagem: era só um advogado trambiqueiro que resolvia umas paradas com seu jeitão Gil Gunderson de ser (um chapéu de banana pra você se entendeu a referencia sem pesquisar no Google).

Quer dizer, o quão boa poderia ser uma série sobre Saul Goodman? Eu apostava que não muito.
E Thoriniei totalmente.



É meu maior poder e minha maldição
A TRAGICA BALADA DE UM HERÓI CAÍDO

Antes de ser Saul Goodman, advogado trambiqueiro e sem escrupulos do Novo México, ele foi Jimmy Mcgill. E antes disso, ele era Jimmy Sabonete. Better Call Saul é, por incrível que possa parecer, a épica jornada de um homem sem qualidades que tentou ser o melhor que pode para ser derrotado pela vida e se tornar o canalha sem moral que nos divertia com suas trapalhadas em Breaking Bad.

O curioso aqui é que a jornada inglória do nosso insuposto herói não é realmente trágica ou deprimente mas de alguma forma... épica. A narrativa construida por Vince Gillian te leva a torcer e até vibrar quando Jimmy Mcgill começa a mostrar os traços que o tornariam o personagem que conhecemos em Breaking Bad. O mesmo personagem por quem eu não dava absolutamente nada, diga-se de passagem. Que espécie de bruxaria aconteceu aqui?

Eu diria que a ferramenta mais importante nesse saco de truques é a atuação de Bob Odenkirk, que acaba se tornando o personagem mais relacionavel de todo universo de Breaking Bad. A coisa é que Jimmy Mcgill é só um cara, como eu e você. Sem grandes talentos, sem grande coragem, sem nada particularmente especial a seu respeito. Apenas um cara que tenta fazer o melhor que pode com o que tem a mão, não muito diferente do que eu o faria.

huehuehue br
Mais importante que isso: ele sinceramente tenta ser um cara bom. Ele tenta honestamente fazer a coisa certa e sinceridade é a palavra aqui. Certo, claro, o vemos na primeira cena tentando inocentar três adolescentes que não tem a menor condição de viver em sociedade, mas esse é apenas o trabalho dele e se ele não o fizesse alguém o faria de qualquer jeito. Mas isso é só um trabalho bosta pra ganhar 700 pila por julgamento, não é quem ele é de verdade.

De verdade ele é o cara que cuida de um irmão mentalmente doente, tem um escritório no fundo de um salão de beleza coreano, não passa uma cena sem ser insultado por alguém e tem o orçamento de uma caixa de fosforos e dois Doritos sem molho. Mais importante que isso, no entanto, é que ele nunca reclama. Nunca. Ele apenas faz o que tem que fazer da melhor forma que consegue, mesmo que para isso tenha que usar metodos pouco ortodoxos.

Como já dizia o velho que sabia lutar, a vida não é sobre o quanto voce bate mas o quanto você aguenta apanhar. E Jimmy Mcgill apanha o tempo todo da vida, de todo o lado. Apanha forte, e apenas não desiste. Se puxar um trambique do bolso é a única arma que ele tem, então é o que ele pode usar. Você honestamente não faria o mesmo?

Ao fim da temporada você está torcendo por ele, porque você sabe como essa história termina. Jimmy Mcgill adotará o nome de Saul Goodman e acabará ganhando mais dinheiro do que todas aquelas pessoas horriveis que descem a lenha nele jamais ganharão em todas as suas vidas. De uma forma distorcida, ele será o grande vencedor dessa história e você torce para que ele realmente consiga, porque ele fez por merecer, porque ele honestamente tentou o seu melhor.

E a vida não quis o seu melhor. Bem, então fodam-se todos vocês, vocês merecem Saul Goodman.
Saul Goodman não é o advogado que o Novo México precisa, mas é o que ele merece nesse momento.

MIKE EHRMANTRAUT E MÁQUINA MORTÍFERA

Better Call Saul não é uma história de origem apenas para o jovem garoto trambiqueiro de Chicago, Jimmy Sabonete. Ela também é a história de origem de um, agora sim, do personagem mais legal de Breaking Bad: o vovô fodão Mike Ehrmantraut.

Nosso herói taciturno que fala tanto quanto um crossover do Justiceiro com o Luke Cage tem suas origens também contada nesta série. Como ele passou de ex-policial a hitman de um chefão da droga? E como diabos mirabolantes um zé ruela como Saul Goodman conhecia alguém tão foda assim? Essas perguntas nunca foram satisfatoriamente respondidas em Breaking Bad, mas agora que meio que tem uma série para isso.

E a melhor coisa é que o roteiro sabe dosar as cenas do Mike para que ele não se torne uma paródia de si mesmo com tempo demasiado de exposição em tela (cof, Batman, cof). Mike aparece o suficiente para que você lembre que ele é o cara mais foda da série, mas não demais para que isso chegue a cansar.

Adicionalmente, são ótimas as cenas em que contrastam a rigidez moral (e habilidades mortais) de Mike com a "flexibilidade" de caráter de Jimmy (e sua completa inaptidão física). Parece quase um filme de dupla de policiais dos anos 80. Só que isso com a qualidade cinematográfica e narrativa que fez Breaking Bad ser tão elogiada.

"Eu conheço crimosos bons e policiais maus. Padres ruins, ladrões honrados...
Você pode estar de um lado da lei ou do outro. Mas se você faz um acordo
com alguém, você mantém sua palavra. Você pode ir pra casa com seu dinheiro
e nunca mais fazer isso novamente. Mas você pegou algo que não era seu.
E vendeu para lucrar. Você agora é um criminoso. Bom, mau? Isso é
com você"
DIRIGINDO COMO GENTE GRANDE

Mas nem Jimmy Sabonete nem Mike Murtaugh, a verdadeira evolução desta série vai para o diretor Vince Gillian que aprendeu com todos os erros de Breaking Bad e no seu segundo trabalho já os está corrigindo.

Talvez por ser uma série menor (a primeira temporada tem só dez episódios), mas a evolução narrativa do diretor é gritante a olhos vistos. Nada mais de cinquenta subtramas que vão ser abandonadas dois episódios depois, nada mais de prosopopeias visuais que não tem relevância nenhuma da série (eu ainda quero dar um tapa nesse safado pela MOLECAGEM que foram os destroços do avião em Breaking Bad), nada mais de enrolation sem propósito nenhum. Agora as coisas vão que vão, e vão quicando.

Seguindo a proposta da série anterior, não existem vilões em Better Call Saul: existem canalhas para quem a gente torce mais ou menos. E mesmo assim ninguém é  completamente bidimensional. O irmão de Jimmy, Chuck, é o melhor exemplo disso. Sim, ele tem uma demência mental grave MAS AO MESMO TEMPO ele é absurdamente inteligente e não em um sentido Rainman da coisa. E enquanto ele é digno de pena, ele AO MESMO TEMPO também é um filho da puta. É realmente complexo e bem trabalhado.

Isso vale, em maior ou menor escala, para todos os personagens da série. Mesmo o "antagonista" de Jimmy, o advogado uber bem sucedido Hammond, é mais do que o olho pode ver.

Mais importante do que isso, todos esses personagens são ferramentas para contar a história. Eu vou repetir mais uma vez algo óbvio: uma história é uma sequencia de eventos concatenados que levam a algum ponto, e o quanto mais paradas tiver essa jornada, melhor.

Por exemplo, porque Bruce Wayne decidiu ser o Batman é simples, dá para contar em uma linha (e meio que esse é um problema de filmes de origem de super heróis). Agora porque Jimmy Mcgill se tornou Saul Goodman, é bem mais complicado de explicar porque não houve um único motivo e sim uma sequencia muito única de eventos que precisou de um conjunto muito único de personagens. ISSO é uma boa história.

E uma boa história não se faz na corrida. Vivemos em na era do Miojo do Apocalipse: se tudo não estiver pronto em três minutos, o mundo acaba. E infelizmente isso não funciona para todas as coisas.

Godzilla, por exemplo, é um filme que funciona justamente por ser lento. O filme intencionalmente demora para mostrar o bichão finalmente saindo no braço que quando o faz, é aquela alegria incontida represada. As pessoas reclamaram que queriam era menos enrolação e mostrar a porra do monstro desde o começo. Só que é só olhar para nossa câmara de deputados para perceber o óbvio: as pessoas não sabem o que é melhor para elas. Godzilla seria um filme chato se fosse do jeito que as pessoas queriam que fosse.



E Vince Gillian é a pessoa mais paciente da televisão. Paciente até demais e esse é um dos problemas de Breaking Bad, que em seus piores momentos parece uma cruza de faroeste com filme europeu. Agora com mais experiência sob seu cinto, Vince soube usar sua paciência para o bem.

Como um filme de origem, os elementos que formarão Saul Goodman vão surgindo aos poucos, de forma natural e orgânica de uma forma que só a paciência pode contar. Essa é toda a diferença do mundo entre Martha ser o nome da mãe do Batman e do Super Homem servir como momento de reflexão e mudança de paradigma do personagem... ou apenas virar mais uma das muitas piadas involuntárias do filme.

E é muito importante que seja assim porque o show não funcionaria de outra forma. Breaking Bad é, em essencia, sobre a criação de um monstro: Walter White é um cara normal de classe média que prova o poder, toma gosto por isso e sua história é uma descendente inexorável. Jimmy Mcgill é uma figura muito mais complicada.

Mostrar isso de forma interessante também é muito mais complicado: Breaking Bad tinha a sua disposição um arsenal de recursos de peso como assassinatos, explosões, frases de efeito, a Jessica Jones chapada pra caralho e coisas do tipo. Better Call Saul não tem nenhuma dessas ferramentas visuais impactantes, tudo que ele tem para te segurar na frente da tela é a mesma única arma que o seu protagonista tem: usar as palavras.

Que o diretor consiga fazer com menos recursos uma série melhor que a anterior - e sem parecer um clone de desesperado de baixo orçamento - diz muito sobre sua evolução pessoal. Nesse ritmo ele será o próximo Joss Whedon.



3 comentários:

  1. Então quer dizer que o senhor veio parar aqui né?

    Bom texto bro. Os gigantes não morrem: eles fazem blogs minúsculos para lutar contra o sistema. É nóis.

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    1. Onde eu errei? Como fui descoberto?

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    2. Errou em ser leitor da Mara, igual eu :/

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