domingo, 8 de maio de 2016

[FILMES] ZOOTOPIA (ou o filme sobre nudismo, política, racismo e Bolsonarismo da Disney)

"Moça do parquímetro deflagra guerra racial" pode não ser
a melhor chamada para crianças em um filme, mas não está
realmente errado
Uma coisa que eu defendo frequentemente é que escrever para crianças é muito fácil. Basta você colocar coisas coloridas, agitação, alguns sons de peido e está pronto - caso duvide é só ligar no Discovery Kids agora mesmo. Você pode argumentar que eu sou um zé ninguém e minha opinião não conta, mas essa ideia foi defendida até mesmo pelo próprio Fabio Yabu, um dos maiores criadores de conteúdo do Brasil e que teve uma série de livros infantis animadas para a televisão (Princesas do Mar).

Por isso mesmo os executivos da Hasbro devem ter arrancado os cabelos quando Lauren Faust propôs um desenho animado de Marilouponi que seria sobre amizade, sim, mas sem ser de uma forma maniqueísta e boboca e sem musiquinhas do tipo "ter amigos é bom, lugar de menina é brincando de casinha lalala". De fato eu realmente visualizo alguns engravatados gritando com as mãos na cabeça "Pelo amor de Galvatron, isso é loucura, mulher! NÃO PRECISA DISSO!"

E de fato não precisa mesmo. Crianças não são nem um pouco exigentes e você não precisa realmente fazer uma animação coerente, inteligente, com personagens bem fundamentados e mais com ideias para pensar do que lições que você acharia em horoscopo de jornal.

Precisar não precisa. Ainda bem que eles fazem mesmo assim.
Hoje falaremos sobre Zootopia.

COELHO QUANDO NÃO FAZ NA ENTRADA FAZ NA SAÍDA

Judy Hopps é uma mulher negra com um sonho: se tornar a primeira negra a fazer parte da polícia da grande cidade de Nova York, a magica terra das oportunidades onde você pode ser o que você quiser ser. Nada de determinismo social, genético ou hierárquico: se alguém trabalhar duro e acreditar em si, Nova York é o lugar para ela. Porém ao chegar lá, ela descobre que essa propaganda de "terra das oportunidades" é só isso mesmo, propaganda. O determinismo social impera por ali e antes de muito ela é socada no seu "lugar de preto" na sociedade.

Em paralelo a isso, ela conhece o árabe Nicholas Wilde. Como todos sabem, árabes são perigosos, não confiáveis e se você puder não ter um na vizinhança, tanto melhor. Mas ao contrário de Judy que dá murro em ponta de faca, Nick vive de boa com seu stigma social porque já tocou o foda-se a muito tempo mesmo.

Oh, desculpem, eu escrevi errado. Judy é uma coelha na verdade e Nick é uma raposa, o filme se passa na cidade 100% fictícia de Zootopia. Eu completamente não estou falando de quaisquer simbolismos étnicos e sociais que vemos todos os dias.

Entenderam onde o filme quer chegar?

Este blog não se responsabiliza pela manchetes
das imagens postadas aqui. Elas de forma alguma representam
algum tipo de indireta disfarçada. De forma alguma. Não.
A Disney poderia ter jogado fácil aqui: bichinhos fofinhos e antropomórficos que falam, saltitam e aprontam grandes aventuras. Ué, Madascar e Era do Gelo já tem 59 teraplex de continuações cada um, as crianças nunca se cansam dessa merda afinal.

Ao invés disso, apenas porque as estrelas estavam certas, a Disney escolheu fazer um filme com conteúdo altamente politizado e disposto a dialogar com as crianças (e os adultos, que tem uma cabeça pior do que as crianças para essas coisas). Não basta dizer "racismo é errado, amiguinhos!". Isso é tão fácil de fazer... pena que entra por um ouvido e sai pelo outro.

Não, o filme explica - sem didatismo ou pedantismo - da onde nascem os preconceitos e o quão essencialmente idiota você se torna ao abraçar preceitos que fariam o Bolsonaro sorrir de orelha a orelha.

Porque Judy não pode ser uma policial? "Porque coelhos nunca foram policiais, esse não é o lugar deles", a sociedade do filme te responde. Qualquer criança assistindo o filme te dirá que esse é um motivo completamente imbecil e não faz sentido nenhum. A mesma criança que vai chegar em casa e ouvir o pai e a mãe dizendo que lugar de preto/mulher/viado (e árabes também, mas no Brasil nós ainda não temos esse problema) não é *insira aqui qualquer coisa que seu tio que diz "no tempo dos militares que era bom" diria que é coisa para homem branco, cristão e heterossexual fazer*

As referencias a construção dessa ideia são muito sutis e distribuídas em pequenos detalhes. Em uma cena, por exemplo, um policial tentando ser legal com Judy chama ela de fofinha e ela explica que apenas coelhos podem chamar outros coelhos de fofinho, se um não-coelho fizer isso não pega bem. A referencia aqui é nos Estados Unidos é muito forte essa ideia de que apenas negros podem chamar outros negros de preto (ou nigger, em inglês).



Todo o filme é construído sobre pequenos pedaços de metáforas assim, inteligentemente distribuídos. Frases como "é, como se a palavra de uma raposa valesse alguma coisa", quantas vezes você já ouviu e até mesmo disse algo do tipo?

Pois é.

O que virá a seguir? Cães e gatos vivendo na mesma cidade?
INCONCEBÍVEL!
TROTEANDO A DIREITA DE TROTSKI

Colocando dessa forma, o filme poderia facilmente descambar para um manifesto socialista tirado dos campus de uma universidade pública brasileira. Felizmente esse não é o caso: o filme está acima disso.

Seria muito fácil eleger um vilão - como os socialistas de Iphone fazem no Facebook - mas a verdade é bem mais complicada que isso: a própria Judy poderia ser uma mocinha perfeita e imaculada, apenas vitima de um sistema perverso mas ela própria tem sua quota de preconceitos. E ainda por cima, ela tem o pior tipo de preconceito: aquele no qual você nunca pensou muito a respeito dele, apenas o assumiu como uma verdade básica da vida.

Neste mundo os coelhos tem enorme preconceito com raposas porque a centenas (ou milhares) de anos atrás blablabla. A pergunta é: alguma raposa já te fez alguma coisa POR SER UMA RAPOSA? Não, mas Judy nunca se questionou a respeito disso até o momento em que começa a conviver com uma. Quando um imbecil coloca um capuz branco e sai queimando cruzes por aí fica muito fácil apontar que ele é um imbecil, o problema mesmo é o tipo de preconceito que simplesmente está lá como se fosse parte da fabrica do continuo espaço-tempo.

Se você perguntar, quase ninguém vai honestamente se declarar homofóbico. E ainda sim, viado ainda é usado como ofensa. Ué, né?

Nesse sentido a Judy está mais para a srta. Morello do que um retardado da KKK e esse é todo o ponto aqui: ao contrário do que você lê no Facebook, não existe bem ou mal. Lado certo e lado errado. Vilões e paladinos da justiça. Malvadões e vitimas. Não, TODOS estão um pouco errados, mesmo que você seja vitima em uma ponta continua fazendo isso na outra SEM NEM PERCEBER e esse é o verdadeiro problema aqui.



Além disso, a animação é sincera. Seus protagonistas não estão acima do preconceito. A intolerância existe e precisa ser admitida para ser superada, não mascarada com desculpas, descobrem Judy e Nick ao longo da sua investigação. Fruto de uma nova fase do estúdio Disney, que também evitou transformar Elsa em uma vilã unidimensional, Zootopia serve a uma geração que, por ser mais cínica, não aceita uma fábula de distância professoral. O público precisa fazer parte da história para captar a mensagem, uma missão que o filme cumpre com êxito, sem esquecer a diversão pelo caminho.

Zootopia cita explicitamente as palavras “preconceito”, “biologia”, “cultura”. Em tempos de Jair Bolsonaros e Donald Trumps ganhando cada vez mais e mais seguidores, é uma atitude corajosa porém que não delimita o filme, apenas o incrementa.


Essa quantidade abusiva de imagens da Judy tem propósitos
totalmente cristãos.
MAIS DO QUE "JUSTIÇA SOCIAL - O FILME"

Nada disso faria a menor diferença se o filme não fosse bom, e nesse aspecto a Disney tem aprendido algumas coisas nos últimos anos. A primeira, e mais importante, é que filme não pode ser de um gênero só.

Claro, você pode sim fazer um filme de super-heróis que seja apenas isso - caras de roupas coloridas lutando contra um vilão mau aleatório - mas o ideal é que não seja. Homem-Formiga é um filme de roubo com Super Heróis. Soldado Invernal é um filme de espionagem com Super Heróis. Jessica Jones é uma série sobre relacionamentos abusivos que por acaso tem super poderes no meio.

E o mesmo se aplica a animações. Animação apenas por ser animação é muito meh, o ideal é que o filme seja um bom filme que também seja uma animação. No caso, Zootopia é um bom filme policial. De verdade, se fosse um filme com pessoas mesmo - tirando toda a coisa dos bichos - ainda seria um thriller policial interessante e inteligente.

O roteiro se baseia no clássico 48 Horas, em que uma dupla improvável de policiais (o policial certinho vivido por Nick Nolte e o policial malandrão interpretado por Eddie Murphy) tem 48 horas para resolver um crime (ao contrário do que o título poderia sugerir). A dupla improvável é formada pela coelha certinha Judy e pela rapoza malandrona Nick.

Melhor do que isso na verdade: a trama do roteiro é atualizada para a realidade moderna e o caso dos desaparecimentos o qual Judy e Nick investigam é mais do que o fruto de um vilão mau como um pica-pau e sim uma trama de conspiração que soa perigosamente familiar aos dias de hoje: como políticos usam o preconceito e o medo para continuar mantendo sua mamata. Vindo de um país que reelegeu um presidente com a promessa de que a "Guerra ao Terror" foi vencida (esqueceram de avisar aos terroristas, mas tudo bem) e prestes a eleger outro que já escolheu um inimigo comum para unir a nação através do ódio, significa muita coisa.

Banquinha de DVDs piratas em Zootopia com Detona Rino,
Pig Hero 6 e... e... eu postei uma imagem sem a Judy. Me
sinto sujo por dentro.
Nem é preciso olhar muito longe, no entanto, para ver essa trama acontecendo no Brasil. Basta lembrar que teremos um pastor evangélico como ministro de Ciência e Tecnologia, ou que deputados que tem quadros de presos sendo torturados e suspiram sempre que passam por eles ("ai, nesse tempo que era bom... um dia... um dia...") passam com facilidade de um milhão de votos.

Tramas policiais interessantes a parte, a melhor parte do filme vem da dupla de protagonistas. Judy e Nick não funcionam muito bem como personagens individualmente, mas a química entre eles é algo natural e fluída como vimos poucas vezes desde que Mel Gibson e Danny Glover imortalizaram o cliché da "dupla improvável de tiras" em Máquina Mortífera.

De fato funciona tão bem que eu terminei o filme pensando "é, eu assistiria mais uma aventura desses dois", o que raramente acontece.

Estrelando Shakira como... ah, não é a mesma coisa.
Ainda sujo.
O VERDADEIRO PERSONAGEM PRINCIPAL DO FILME: A CIDADE DE ZOOTOPIA

Se não estivéssemos tão imersos no drama humano (oh, a ironia), Zootopia ainda interessante pelo universo único criado como cenário. É um mundo onde tudo é incrivelmente inteligente para tornar crível uma cidade onde todos os animais vivem juntos - existe um "bairro artico", um "bairro para criaturas minusculas", um "bairro floresta tropical" e assim vai, assim como não ignora as questões de escala entre os diferentes animais.

Um trem, por exemplo, tem três tipos de portas para os animais grandes, médios e minúsculos. Judy, que é um coelho, parece realmente minúscula perto de elefantes e bisões. Pode parecer estranho ressaltar isso como qualidade, mas basta lembrar que nas animações todos os animais antropomórficos sempre são nivelados para terem o mesmo tamnho, desde Robin Hood até Madagascar.

Agora mais interessante do que a cidade usa a coisa de adaptações para representar a sociedade humana através de animais. Assim, Judy vai horrorizada até um clube de nudismo onde os animais andam sem roupa, o horror! Ó, o horror! (e não, infelizmente ela não adere a prática). Ou então temos preguiças como servidores públicos (juro que os roteiristas devem ter ido numa agencia do INAMPS, porque eu vejo aquela cena das preguiças todo santo dia mais de uma vez por dia), ou quem sabe um laboratório de metaanfetamina azul dirigido por uma ovelha.

Pois é, mais do que uma referencia a Breaking Bad tem um laboratório de drogas em um filme da Disney, quem diria?

Afinal, estamos em um contexto de grandes corporações, violência nas cidades, transporte público superlotado, abusos éticos da polícia. As pessoas se movem entre a casa e o trabalho, os moradores do campo migram para as metrópoles, a publicidade está em todos os lugares e os ícones da música pop se tornam formadores de opinião. Talvez os animais tenham sido a concessão necessária para tornar esta história, de fundo amargo, mais engraçada e palatável ao público infantil. Em outras palavras, os animais humanizados, vestindo roupas modernas, estão muito mais próximos dos seres humanos contemporâneos do que dos bichos selvagens.

Ok, me sinto melhor agora
Eu sempre digo que uma boa obra precisa de uma boa ideia bem executada, se forem duas ou três melhor ainda. Zootopia é o segundo caso, já que faz muito bem tudo que se propõe a fazer. É uma critica social inteligente sem descambar para o "chato que faz textão no Facebook", é um universo criativo magnificamente inteligente e acima de tudo, funciona como FILME - algo que os produtores volta  e meia esquecem.

Numa época de discursos reacionários, é louvável encontrar uma animação infantil que debata, por meio do humor, temas como o preconceito, o machismo, o racismo, a homofobia, o consumo de drogas e as tensões entre classes sociais, sem precisar embutir artificialmente uma história de amor romântico ou familiar. Através da metáfora do comportamento selvagem, a Disney conseguiu representar os perigos que assolam as sociedades intolerantes de hoje em dia.

A narrativa torna-se ainda melhor porque Zootopia busca a reflexão ao invés da doutrinação. Muitas animações limitam-se a ditar às crianças o que devem fazer: “Preserve a natureza”, “Ame sua família”, “Seja gentil com os colegas”. Mas o roteiro deste filme explica porque as crianças não deveriam ser preconceituosas, mostrando passo a passo como nascem os preconceitos, passando pela cultura do medo e pelo fantasma da tradição, além do já citado “papel biológico” de cada pessoa na sociedade. Estas discussões são embaladas pelas regras do suspense policial, com direito a uma longa investigação, sombria e cheia de significados, que rompe com o aspecto frenético e episódico que tem pautado as histórias infantis. Zootopia respeita o seu público, apostando na capacidade de acompanhar um caso parcimonioso.

E um filme que respeita a inteligência do publico está se tornando tão raro quanto um brasileiro (ou americano, não acho os dois povos muito diferentes) que consiga ter uma opinião sem transformar isso em torcida de time de futebol.

Nenhum comentário:

Postar um comentário