segunda-feira, 9 de maio de 2016

[ANIMES] NISEMONOGATARI (ou Monogatari pulou o tubarão)

Eita porra, esse vai ser um daqueles, né?
Em 1977 Happy Days era a série mais quente da televisão americana em grande parte graças ao carisma do personagem uber-maneiro e descolado Fonzie, que com sua jaquela de couro e óculos escuros foi promovido de coadjuvante a protagonista da série devido a sua popularidade.

O problema é que a série já estava lá pela sua quinta temporada e os roteiristas já tinham esgotado sua cota de ideias críveis para fazer com os personagens então a coisa estava num ponto que o que quer que quicasse na área tava valendo. Por esse motivo houve um episódio que por motivo maior nenhum Fonzie saltou de ski-aquático sobre um tanque de tubarões (usando sua jaqueta de couro, claro).

Vem daí a expressão "Jump the shark", que é utilizada para representar quando uma série se perdeu de tamanha forma que nem como paródia de si mesma ela serve mais.

Agora que você está familiarizado com a expressão, venho por meio desta informar que com Nisemonogatari a série Monogatari não saltou sobre um tubarão. Saltou sobre uma baleia azul.


Eu queria dizer que tem algum contexto para essa cena
mas meio que isso é tudo mesmo
SER POBRE FAZ VOCÊ SER ESPERTO

Uma grande verdade sobre os seres humanos é que nós crescemos muito com a dificuldade e nos acomodamos selvagemente com a abundancia. Por esse motivo pessoas bonitas tendem a ser menos inteligentes (pq elas não precisam realmente se esforçar) e por esse motivo os europeus tinham armas de fogo e espadas enquanto os índios americanos estavam na idade da pedra ainda (porque a Europa tem um clima barra pesada e os nativos teriam morrido sem o desenvolvimento da tecnologia, ao passo que na América você podia passar o dia de boa na rede).

Ou seja, de modo geral nós nos esforçamos quando PRECISAMOS nos esforçar e raramente é diferente disso.

Por isso é bastante relevante que Bakemonogatari tinha o orçamento de dois Freegels e um Pletz mascado (existe Pletz ainda?), a equipe de produção teve que dar saltos laterais inacreditáveis para compensar a falta de tutu - o que em última instancia acabou gerando uma identidade visual e narrativa muito única ao anime. Três anos depois, em 2012, isso não era tanto um problema.

Nisemonogatari, a continuação de Bakemonogatari, não era mais uma "aposta" e sim um anime no qual os investidores podiam colocar seu dinheiro com uma boa expectativa de retorno. Yay, que bom, certo?

Não realmente. Com grana sobrando o estúdio SHAFT entrou na parada de sangue doce e o resultado é bastante impressionante mas não de uma forma positiva.

Bakemonogatari seguia o esquema padrão de harem: garoto conhece
a garota garoto salva a garota, garota se apaixona pelo garoto.
O que o fazia se destacar era a atmosfera, o senso de urgência, os diálogos
inteligentes e  as personalidades únicas. Nisemonogatari
tirou tudo isso para dar espaço para cenas classudas como
"jogar Twister", "tomar banho", "secar o suor da irmãzinha",
"escovar os dentes" e "procurar cicatrizes"
FAP HERO SIMULATOR

A série original, Bakemonogatari, possuía cinco arcos separados entre si mas com um senso de progressão correndo ao fundo. Mesmo que as histórias não fossem ligadas entre si diretamente, você tinha uma sensação de desenvolvimento e de que a história e os personagens estavam indo para algum lugar.

Nisemonogatari tem apenas dois arcos (as duas garotas novas adicionadas ao harém do Araragi são suas irmãs) e cada um deles levou meio episódio para ser resolvido. Considerando então que a série tem 11 episódios e levou apenas duas metades (a metade final do episódio 7 e a metade final do episódio 11) para resolver cada arco, então o que realmente acontece nos outros 10 episódios?

Eu assisti o anime e tudo que posso te dizer é que tem... hã... fanservice... diálogos aleatórios verborrágicos... hm... mais fanservice... eu já disse que tem fanservice? Porque tem fanservice. Tipo, um monte.

Não me entenda errado: eu não tenho nada contra fanservice. Como um nerd que tem a vida sexual de um sequoia no Saara eu sou o primeiro a apoiar nudez desnecessária de novinhas se contorcendo de tesão pelo nosso herói. O problema é que isso é absurdamente demais a um ponto que incomoda. Quando um cara como eu pensa "tá, minha filha, agora coloca uma roupa que eu quero ver a história" é porque demais foi demais mesmo.

Quando eu vejo uma cena dessas e a única coisa que eu
consigo pensar é "Cara, isso é realmente necessário?"
você sabe que algo muito errado está acontecendo.
Veja, não estou dizendo que Bakemonogatari não tem fanservice porque tem a rodo, mas ele é usado como uma ferramenta dentro da história. Por exemplo, tem uma hora em que a menina chega no quarto do Araragi e tira a roupa mas é para mostrar que ela esta sendo comprimida por uma cobra espiritual invisível e precisa de ajuda de alguém que entenda "dessas coisas" de ocultismo.

Pode não ser muito nobre, mas dentro do contexto da história faz sentido.

Em Nisemonogatari essa mesma menina aparece em uma cena para jogar Twister com  nosso herói de saia apenas pelo único motivo de ... bem, jogar Twister de saia porque depois ela não aparece mais uma única cena no anime inteiro ou é sequer mencionada. Sim, foi só para o otakinho bater uma punhetinha e era isso.

Esse é o ponto aqui: a produção simplesmente tocou o foda-se e empilha a maior quantidade de cenas sensuais sem a menor justificativa ou razão. Araragi sequer é um personagem consistente mais, é apenas uma ferramenta dos animadores para mostrar o maior número possível de tetas sendo apertadas.

Eu não estou sendo moralista aqui, mas sejamos realistas: quando os personagens começam a parecer mais ferramentas de marketing do que consistentes e criveis, sim, há um problema aí. E sim, fanservice sempre foi parte de Monogatari, mas nunca a custa de seus personagens. Aqui as personalidades deles são distorcidas para aumentar o numero de cenas ecchi e esse é meio que único ponto dos personagens aqui.

Esse efeito é bastante comum em animações ocidentais muito longas, como Simpsons ou Family Guy quando um defeito de um personagem passa a se tornar sua única característica. Nas primeiras temporadas Homer é um idiota, sim, mas também um cidadão americano regular. Atualmente ser um idiota é a única coisa que o define enquanto personagem.

O mesmo vale para os personagens de Nisemonogatari. Olha, muitas coisas faziam de Bakemonogatari uma experiência divertida e entre essas coisas estavam as indiretas sexuais, diálogos picantes ou uma centena de cenas de fanservice. Mas enquanto Bake usava esses elementos de forma inteligente, em Nise eles parecem apenas gratuitos e forçados.

Essa é a coisa que mais me incomoda realmente: Bake era um anime de harém, mas um anime de harém bastante inteligente e que parecia dizer "olha, já que eu vou ter que colocar esses estereótipos de qualquer jeito, então vou aproveitar para trabalhar os personagens de uma forma que me satisfaça artisticamente.". Tudo que Nisemonogatari tem a dizer é "aehoooooooo, olha essa novinha gemendo huehuehue br!"

Poucas vezes na minha vida eu havia visto um descaso tão grande e falta de interesse em contar uma história ou escrever personagens. E a epitome de tudo isso é a infame cena em que Araragi faz sexo com sua irmã usando uma escova de dentes, mas essa é só a cereja do bolo de infelicidade e dor do qual o anime é feito.



Você sabe que uma cena é constrangedora quando nem a música do John Cena consegue salva-la. Porque tudo fica melhor com a música do John Cena.

ENTREVISTA COM SHINOBU

Para não dizer que eu não gostei de NADA no anime, bem, tem a Shinobu. E mesmo isso é uma coisa mal feita, já explico.

Em Bake, Araragi explica que foi vampiro por um tempo mas que melhorou - daí suas habilidades e tal. E enquanto isso, tem uma vampira na forma de criança que fica jogada pelos cantos em estado catatônico - nunca é explicado o que REALMENTE aconteceu entre ele e a vampira que o transformou, ou como Shinobu terminou nessa forma semi-vegetativa. Você pode apenas inferir que tem uma história muito boa por trás.

Quando a loli fogozinha é a melhor personagem do anime
é um sinal de que estamos muito bem...
Agora em Nise a vampira Shinobu desandou a falar como uma lavadeira e por motivo nenhum. Sério, a única explicação que é dada é "ah, deu vontade" e novamente os níveis de preguiça do roteiro me surpreendem. Imagine que do nada a próxima temporada de Demolidor começa com ele enxergando e toda explicação que é dada para essa mudança é "deu vontade, não vamos mais falar disso". Sério.

Mas eu disse que isso era uma coisa boa porque apesar da sua mudança repentina sem motivo algum, Shinobu é a única personagem bem escrita no anime inteiro. Ela parece uma vampira com todos os traços que imaginamos na fantasia dos vampiros: arrogância, perigo, segurança da sua sexualidade, controle.

Até onde vampiros vão, Shinobu é uma das boas. Claro que ela é tudo isso no corpo de uma menina de 8 anos, o que torna coisa toda um tanto incomodo - mas um incomodo bom, não um incomodo gratuito como todo o resto do anime.

ONDE SEUS PIORES PESADELOS SE TORNAM REALIDADE

Quando você vê a proposta de Bakemonogatari, a primeira coisa que você imagina é um anime preguiçoso e barato feito por otakus e para otakus, apenas para ser surpreendido por diálogos inteligentes, um desenvolvimento de personagem crível e diversos outros acertos. Já Nisemonogatari joga tudo isso pela janela e é justamente o que você poderia esperar de um anime de harém.

O que não deixa de ser irônico porque nisemono significa "impostor" e nos poucos momentos em que tenta chegar a algum lugar, o anime é todo sobre falsários. Justamente um anime que tem como tema falsidade consegue ser tão honesto ao conceito negativo que os animes tem.

Sendo a sequencia de um anime tão inteligente e que sabe jogar tão bem com as suas expectativas, é duplamente frustrante. Ainda pretendo assistir alguma coisa da série, mas Nisemonogatari queimou o filme de uma forma marcante. Honestamente espero que não aconteça novamente.


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