quarta-feira, 27 de abril de 2016

[SERIES] THE GIRLFRIEND EXPERIENCE (ou eu seria boa, recatada e do lar)

Repare bem nessa cara de "esse peido pesou mais do que
eu esperava", é a única que você verá nessa série
Um exercício que eu faço de tempos em tempos é imaginar que tipo de pessoa eu seria e que tipo de vida eu levaria se fosse uma mulher. Claro, é um exercício de absoluta futilidade porque nossa personalidade é construída através do ambiente, genética e experiências ao nosso redor e todos esses seriam tão radicalmente diferentes caso eu  não possuísse um cromossomo Y que não seria se modo algum sequer sombra da pessoa que eu sou hoje (o que mostra o quanto o conceito de "alma" é algo infantil e profundamente preguiçoso por parte de quem nunca quis pensar muito no assunto, mas essa é outra discussão). Ainda sim, todas as coisas consideradas, dá para faze-lo.

Existem duas características intrinsecamente femininas (ao menos na sociedade atual, mas não é como se eu sonhasse ser uma mulher na idade média, nem as mulheres na idade média sonhavam em ser mulheres na idade média) que me parecem profundamente interessantes (e várias outras que parecem horríveis, mas não entrarei nessa questão hoje).

A primeira é o completo desinteresse em relação ao sexo. Não me entenda errado: mulheres podem GOSTAR de sexo, mas de forma alguma é uma necessidade física ou algo vagamente parecido com isso. Esta mais para um brinquedo que pode ser divertido, mas não faz diferença nenhuma se você passar anos sem isso - ou mesmo a vida toda, apenas não é importante.

Perceba todas as merdas que os homens fazem por causa de sexo, e passam de um ponto que o adjetivo "muito" empalidece para descreve-las, e você começará a entender o quanto a indiferença que as mulheres sentem em relação ao sexo pode ser libertador. No meu caso em particular, que tenho mais distúrbios psiquiátricos do que a Wikipédia pode descrever, a ideia de não sentir a menor necessidade biológica de um ato que depende de socialização com outro ser humano soa como pura poesia.

Então é assim que se diz SOU RICAAA em LIBRAS?
Outro aspecto que eu invejo profundamente nas mulheres é o conceito social de que trabalhar é OPCIONAL. Não tem nada de errado uma mulher ter um emprego, mas caso ela não queira também esta tudo bem também - e essa ideia soa inegavelmente atraente. Essa ideia brilha mais quando você tem um emprego absolutamente bosta e que você só atura porque paga seus hobbies, mesmo que você tenha que contar os minutos no relógio até se livrar de tamanha infelicidade e dor por mais 24 horas.

"Prostituição" é uma palavra que carrega muita estigma social, mas quando você analisa o conceito da coisa em si percebe que seu conceito está muito mais arraigado a nossa sociedade do que costumamos admitir.

Desde a dona Maria que nunca trabalhou na vida e paga por seu sustento (porque não existem almoços grátis e todo mundo paga por tudo de alguma forma) tendo 15 filhos do João Caminhoneiro e sendo a "mulher" dele até a futura primeira dama da Republica, que aos 20 anos de idade se vendeu para um homem 48 anos mais velho e garantiu o sustento das suas próximas três gerações.

E entre a dona Maria e a Marcela Temer, totalmente eu escolheria ser o tipo de prostituta que a Marcela Temer é. Na verdade, dadas as possibilidades físicas e logísticas, eu não vejo um único motivo lógico para não seguir os passos em sapatos Prada da nossa futura primeira dama.

The Girlfriend Experience é uma série sobre uma estudante de direito que pensou a mesma coisa
Eu li seu fanfic de 50 Tons de Cinza. "Pairar" não significa
o que você acha que significa.
UMA SÉRIE SOBRE A PIOR GAROTA DE PROGRAMA DO MUNDO

A melhor qualidade do programa é também seu maior defeito: a protagonista Christine Reade. Christina é uma estudante de direito e isso já deveria dizer tudo que você precisa saber sobre a personagem.

Como não é segredo para ninguém, advogados bem sucedidos - aqueles que realmente nasceram para a coisa - são sociopatas fisicamente incapazes de ter qualquer sentimento vagamente humano como moral ou empatia. Um típico advogado - assim como seu estagio larval de estudante de direito - vê uma noticia como essa e apenas esfrega as mãos em animação, porque é hoje que ele vai faturar dinheiro pra caralho garantindo que os caras maus saiam impunes de seus atos.

É preciso uma vocação especial para cursar direito até o fim, e entre os talentos necessários está a incapacidade de ter qualquer sentimento que não seja ganancia e egoísmo. Nossa protagonista não desaponta neste sentido, sobretudo no realismo que a atriz Riley Keough (a ruivinha de Mad Max) entrega na personagem. Vá até qualquer faculdade de direito e você verá dezenas de Christines sem tirar nem por. A mesma postura corporal, o mesmo estilo de roupa, a mesma incapacidade de ligar a mínima mesmo que sua família esteja em chamas (corrijo: uma estudante de direito completamente ligaria se seus entes irrompessem em chamas, já que dá para ganhar muito dinheiro processando alguém por isso).

Você já conheceu várias Christines ao longo da sua vida e a figura lhe será imensamente familiar.

E enquanto o fotorrealismo da personagem é louvável, ao mesmo tempo é limitado o quanto você consegue assistir uma protagonista fisicamente incapaz de sentir algo além de "o que eu vou ganhar com isso?". É profundamente realista, mas isso não significa que seja interessante de se assistir.

Você sabe que esta assistindo sexo na TV aberta quando
o cara está a mais de um palmo longe da mulher. Ou isso, ou
ele é o Kid Bengala branco.
Nossa história começa no ponto em que Christine tem um estágio merda e maçante em uma firma de advocacia sendo tratada como um autômato sem sentimentos (o que é adequado ao curso de direito) ou capacidade intelectual (essa parte é particularmente ofensiva, no entanto), sendo paga o equivalente a um pacote de Ruffles e dois high five.

Enquanto isso ela descobre que sua melhor amiga complementa a renda sendo namorada de velhos ricos o bastante para poder pagar por isso e pensa "que diabos, porque não?". Não existe nenhuma motivação mais profunda em Christine para começar sua carreira de garota de programa senão "porque não?", e honestamente, você vai ter que fazer muita ginástica mental para explicar porque realmente ela não deveria fazer isso sem evocar argumentos machistas da idade média. Vou lhe poupar o constrangimento e te dizer que você não pode, não existe nenhum motivo pelo qual você possa condenar a escolha dela sem soar como um eleitor do Bolsonaro.

O problema é que Christine é muito ruim nesse negócio. Como alguém consegue ter uma ereção diante da cara sempre entediada dela de "tanto faz, não ligo" é algo que explica tudo que há de errado com os homens neste mundo. Ela faz pouco ou nenhum esforço para fingir estar minimamente interessada naquilo tudo, e quando faz soa com uma artificialidade de "aham, estou falando qualquer coisa só para agradar, tanto faz" que chega a doer.

Porque alguém pagaria dois mil dólares por hora por essa cara
de "posso ir pra casa agora?" está além de mim
Claro, verdade que eu sou o mais distante possível do que um macho alfa deveria ser e me importo com frescuras que um "homem de verdade" jamais se importaria como o fato de sua parceira estar lixando as unhas enquanto faz sexo com você. Acho até que esse é um problema principalmente meu, eu sempre tive essa visão de que prostitutas não são atraentes porque essa coisa de "aham, tanto faz, só termina logo" é muito emasculante pra mim. Imagino que para machos modelo que não tenham mais transtornos psiquiátricos do que a lista de desfalques dos nossos congressistas essa atitude indiferente da Christine não seja tão importante assim, se é que é importante de qualquer modo.

Eu não consigo comprar a ideia de porque alguém pagaria dois mil dólares (garotas de programa no mundo real nunca colocam o preço no site, ficadica série) por uma hora com uma garota fazendo imitação da Bela do Crepusculo. A menos é claro que você tenha um fetiche  muito especifico por fazer sexo com a Kristen Stewart ou com uma garota em estado vegetativo (é difícil dizer a diferença entre as duas, mas a segunda parece uma parafilia crível).

Mas novamente, isso sou apenas eu e eu entendo tanto de ser um "homem de verdade" quanto entendo de ser uma "mulher de verdade". Alias vou colocar mais um "gênero de verdade" para ver se a VEJA me chama para ser colunista dela, ouvi dizer que eles curtem quem fala como um coronel da novela das 6. Talvez a apatia de Christine em tudo na vida não seja um problema tão grave para os seus negócios. Talvez. Mas isso ainda sim não a torna mais interessante de se assistir.

E aí, já está se sentindo seduzido?
QUANDO DEMOLIDOR ENCONTRA BREAKING BAD

Ok, mas tirando uma garota que fez do emoticon de whatever sua expressão facial padrão, sobre o que é essa série EXATAMENTE?

Bem, The Girlfriend é uma "série de origem". Sim, exatamente como os super heróis. Muitas histórias de origem seguem um padrão familiar: estabelecem o personagem em uma vida mundana, usualmente bem bosta em algum aspecto (Tony Stark é um babaca arrogante que não liga para ninguém além de si mesmo, Chris tem um emprego bosta e nunca tem dinheiro); mostra o acidente/sequencia de eventos que lhe dá poder (Tony Stark contrói a armadura do Homem de Ferro usando quinze parafusos e dois chicletes no fundo de uma caverna, Chris começa a sair com "amigos" de sua colega que lhe pagam bem mais do que um jantar); segue com eles polindo suas habilidades, possivelmente com alguma relutancia (Tony Stark constrói a armadura vermelha e dourada e aprende a usar os propulsores, Chris tem  muitas tentativas e erros sendo uma profissional por conta própria); então alguma tragédia ou ameaça os força a focar suas habilidades e salvar o dia (Tony Stark se assume como herói, Chris se assume como garota de programa).

A coisa da "série de origem" é tão blatante que mais de uma vez eu pensei estar assistindo uma paródia de Demolidor. Inclusive a coisa de tentar conciliar sua vida noturna secreta com a rotina de uma estagiaria/aluna de direito - seria até engraçado, caso a vida de Chris não se resumisse a imitar o meme do Bob Esponja em todo seu entusiasmo.




O curioso é que a série tem muitas boas ideias sobre o tema e lembra bastante Breaking Bad em vários aspectos. Para quem não lembra, Breaking Bad é a série que mostra a épica epopeia de um "professor classe média voto no Aécio" em barão das drogas, com todos os resultados que você poderia esperar de um nerd se metendo a gangsta.

Aqui não é tão diferente: logo nos primeiros episódios Christine dispensa o acompanhamento de uma cafetina profissional porque isso afetava seus lucros e ganancia é o único sentimento humano que estudantes de direito conseguem sentir, afinal. Como era de esperar, a vida de prostituta não é um passeio no parque e as coisas degringolam mais rápido do que ela consegue dizer "aipim frito com torrones", porque essa vida não é só financiada por nerds beta perdedores. Considerando ainda que prostituição é ilegal no estado onde ela mora (os US and A não fazem sentido), esta pronta a receita para um festival de merda.

No papel, como ela conseguiu sobreviver no ramo, escapar da própria noobice e usar seu superpoder (a incapacidade de ter sentimentos) para ganhar um milhão de dólares, seria uma história muito interessante.

Na prática, eles apenas não tinham a mais remota ideia do que estavam fazendo.


Você achou que a coisa da cara de "peido pesa?" era
brincadeira, não é?
Contando por alto, eu consigo lembrar de SEIS subtramas (em uma série de 13 episódios) que são desenvolvidas, apresentadas (acho que inverti a ordem) e então completamente esquecidas. Mas se puxar bem são mais que isso. Ou a série foi escrita por um bando de roteiristas que nunca conversaram entre si, ou foi escrita por alguém que tem transtorno de defict de atenção porque nenhum dos subplots efetivamente resulta em alguma coisa, apenas é mostrado gratuitamente porque sei lá, o diretor deve ter achado Batman V Superman o filme do ano ou algo do tipo.

Apenas brincando, eu fiz meu dever de casa e sei que os co-criadores Lodge Kerrigan e Amy Seimetz escreveram todos os episódios juntos, eles apenas são muito ruins no seu trabalho mesmo.

Veja, existem diversos temas que poderiam ser discutidos de forma interessante na série sobre as relações humanas modernas, sobre a solidão masculina, sobre o status quo feminino, sobre o significado do sexo e as hipocrisias associados a isso, sobre quebra de paradigmas e uma visão utilitarista do mundo - o assunto é riquíssimo e daria para fazer muito com ele.

Eu esperava da série algo mais no estilo Mr. Robot, que igualmente é inspirado em um filme (Mr. Robot é muito baseado em Clube da Luta, The Girlfriend Experience é baseado no filme homônimo de 2009 protagonizado pela lenda Sasha Grey) usa a narrativa para dizer "hey sociedade, eu vou te fazer algumas perguntas e tudo bem se você se sentir desconfortável ao perceber que não sabe responder".

Ah dane-se a mala, vou só postar fotos da Sasha Grey daqui
pra frente porque ela é fofa, linda e faz boquetes que curam o
câncer.
Mas ao invés disso temos apenas ganchos de ideias que são empilhados e depois abandonados no ostracismo para dar mais espaço para as cenas de sexo mais chatas da história da televisão. Por exemplo, logo nos primeiros episódios Christine tem um cliente que deixa parte da sua fortuna para ela ao bater as botas (cerca de 500 mil obamas). A família dele não fica feliz com a decisão, obviamente, só que o testamento foi deixado no "nome de guerra" de Christine e ela precisa provar que é a tal garota de programa sem ter seu nome jogado na lama (até porque a sociedade americana não parece  muito melhor que a nossa, arrisco até a dizer que o Donald Trump é o Bolsonaro com gel deles). Parece interessante?

Pois é, dois episódios depois o assunto foi esquecido sem nenhum tipo de resolução, apenas ninguém mais falou no tema e esta tudo certo. Agora repita a exaustão e temos a estrutura dessa série.

Eu sei que foi completamente intencional e a narrativa escolhida reflete a protagonista incapaz de se interessar por qualquer coisa exceto a frase "O que eu ganhou com isso?". Usar a narrativa como ferramenta para induzir o clima é uma escolha altamente louvável, só que quando o clima é uma pessoa fisicamente incapaz de sentir qualquer coisa... então você pode querer rever suas escolhas.

Sasha é tão fofa que eu levei 5 minutos para perceber que tinha
um senhor de FRALDA nessa foto. Ou uma seta azul.
O BERMUDÃO

A única trama realmente desenvolvida da série tem pouco haver com sexo, que é sobre o chefe do estágio de Christine está envolvido em um esquema de corrupção, e como ela usa isso para se dar bem em um sistema legal falido e corrupto. As idas e vindas do esquema, como Christine quase quebra a cara e como ela tem melhor mão varia ao sabor dos episódios e é de longe a parte mais interessante do programa.

Arrisco dizer que se a série fosse sobre ISSO, seria um seriado bastante interessante. Algo na linha O Lobo de Wall Street com The Big Short só que com mais peitos de fora e caras blasé de indiferença. Seria uma série interessante de fato. Mas infelizmente essa boa ideia é soterrada sob diversas outras que só estão ali para mostrar o quanto nada realmente importa, o quanto a vida é feia e suja, só há infelicidade e dor e blablabla. Imagino que Nietzsche deve ter sido um adolescente chato pra caralho, mas ele completamente aprovaria esse ode ao niilismo filmado em quartos de hotel com chão de mármore impecável e cenas de sexo assépticas onde ninguém nunca desarruma o cabelo.

Honestamente, não há nenhum contexto para postar essa
imagem. Mas eu não acho que ela precise de um.
O show é bastante parecido com sua protagonista: bonito de se olhar, mas essencialmente vazio, mesmo quando tenta te tratar com o mínimo de humanidade. Em seu site, Christine anuncia que oferece "experiência tipo namorada" a seus clientes, daí o nome da série. Obrigado, mas eu passo esse namoro.




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