segunda-feira, 11 de abril de 2016

[SERIES] DEMOLIDOR [2a Temporada] (ou a vida passa e o Matt nem vê)

Existem dias em que antes mesmo das 9 da manhã você já sabe que não devia ter levantado da cama e que por melhor que seja o seu esforço, esse vai ser um dia daqueles que tudo dá errado. Os traficantes de Hell's Kitchen, por exemplo, tiveram um dia desses quando acidentalmente mataram quase toda uma tal de família Castle.

Porra cara, tanta gente numa cidade com 8 milhões de pessoas e eles tinham que matar logo a família do soldado mais badass da história dos soldados badasses dos US and A? Sério, podia ter morrido sei lá, o pipoqueiro, a família do tiozinho que vende balão de bichinho, podia ter morrido até o vendedor de churros (não sei se vendem churros no Central Park, ficadica de empreendedorismo), mas não, tinha que ser os Castelinhos. É claro que tinha que ser. Puta merda, vai ser azarado assim lá na defesa do Aimoré. Aquele era um dia desses em que nada dá certo, sabe?

Você poderia até dizer que foi um caso isolado, mas a grande verdade é que as gangues de traficantes de NY são apenas um exemplo de uma temporada em que pouca gente queria ter levantado da cama.

Why so serious?
PUELLA MAGI MURDOCK MAGICA

Muitas histórias terminam naquilo que é realmente apenas o começo. A primeira temporada de Demolidor, por exemplo, tem um arco de criação do herói perfeito mas e depois disso?

Ok, o Rei do Crime foi preso, Matt Murdock defende os injustiçados nos tribunais e mete a bifa nos bandidos a noite e seu escritório não foi despejado para dar lugar um ringue de patinação no gelo para gansos (minhas ideias empreendedoras para Nova York estão a mil hoje). Certo, show de bolisse, mas o que isso significa na prática?

Como o Doutor disse, depois que se vence sua revolução e tudo sai como você planejou, o que acontece depois? Já pensou nas implicações cotidianas do mundo que você mesmo quis criar?

Uma das coisas que eu mais gosto em Madoka Magica (e dá pra ver o quanto eu gosto desse anime dado o tanto que eu cito ele) é que o anime mostra que ser herói é muito difícil, mas ser um herói e ter uma vida normal... se você acha que dá pra fazer é porque nunca pensou muito a sério nisso.

Madoka não tem amigos, não tempo nem energia para curtir com a galera, não tem um vestígio de relacionamento decente, suas notas na escola são uma piada, enfim, sua vida humana é uma bosta porque ela fica caçando monstros que não vão hesitar em comer sua cabeça com uma dentada até as 3 da manhã todo dia. Não tem santo que faça isso toda noite e acorde pra sorrir e brilhar as 8h todo dia.

E Matt Murdock entendeu isso na pele.

Esses bares da periferia em que um homem não pode
nem jogar sinuca sem ser fisicamente assediado por
novinhas de 30kg... onde ficam?
A temporada é dividida em dois arcos muito distintos: de um lado temos um justiceiro maluco limpando as ruas de Hell's Kitchen a bala e a firma de advocacia Nelson e Murdock tentando salvar esse caso impossível nos tribunais. De outros temos uma guerra mística e secreta mais antiga do que as reprises de Chapolin no SBT, e o Atrevido tem que salvar a cidade de um exército infinito de ninjas e de um buraco de 40 andares... como se salva uma cidade de um buraco?!?

Mateus Assasinodoca acha que dá para fazer os dois ao mesmo tempo (ou melhor: um de dia e outro de noite), mas cara, não dá. Fisicamente não tem como pelo melhor esforço que você tente fazer - e ele honestamente faz o seu melhor esforço, dá pra sentir isso nele na atuação do Charlie Cox.

É aqui que entra a grande sacada do roteiro da série: você esperaria que ambas as tramas se juntassem em algum ponto para todos (o Atrevido e sua gangue) saírem chutando bundas do mal em algum ponto. Só que não, o ponto é justamente esse: na vida as coisas não convergem magicamente e seus problemas se resolvem sozinhos. As tramas são separadas para mostrar que o Matt quer fazer duas coisas distintamente separadas ao mesmo tempo, para surpresa de ninguém falhando miseravelmente em ambas.

Eu aprecio muito quando a estrutura narrativa da história é montada para ilustrar o objetivo da história. Como Scott Pilgrim, por exemplo, tem seu visual de videogames intencionalmente para passar uma mensagem que não teria tanta força em uma narrativa "tradicional".

Palmas para você, Netflix.

O cheiro da sua pobreza me ofende pq eu sou
RYKAAAAAAAA!!!!
ELEKTRA DORITOS É RICAAAAAA, RICAAAAAAAAAAA!

Nessa temporada o papel de Matt Murdock é ficar se esfalpando de um lado para o outro, tentando assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Mas bem, só que tem um detalhe aqui: não teria para onde Matt correr se não houvessem as histórias correndo em paralelo. O que faz essa temporada verdadeiramente funcionar é que ambos arcos de história paralelo são bem construídos e funcionam crivelmente por conta própria.

No canto sexy do corner, temos Elektra Doritos, um antigo caso de Matt. Elektra tem um dos melhores superpoderes que se pode ter: ela é rica. Tipo muito rica. Mais rica que os herdeiros do Tom Clancy que continuam sendo sustentados pelos lançamentos de um cara que morreu a quase dez anos.

E por ser tão fabulosamente rica ela decidiu que queria ser ninja. Claro que sim, como não? Se você fosse tão rico que sequer faz idéia de como é perguntar o preço de alguma coisa também não faria o mesmo? Me parece uma ideia fabulosa.

Ok, certo, não é beeeeeem isso que aconteceu, mas essa é a sensação que a Elektra passa de "sou rica e não ligo", o que deixou os fãs xiitas de quadrinhos boladões porque eles queriam que a Elektra fosse o Batman com a bunda de fora como é nos quadrinhos. Acho até que na imaginação dos nerds de quadrinhos a Elektra deve ter um vozeirão igual ao da Sheema e perguntar UAIDUANAQUILME.

Deve ser isso.
Como deveria ser a Elektra, segundo os fãs do
Frank Miller
Mas olha só a coisa interessante: funcionou muito bem desse jeito. Matt Murdock é um cara certo, católico (alias é raro um personagem que realmente pareça ter fé e não apenas uma religião aleatória para preencher a ficha), que faz as coisas corretas do jeito difícil. Ao mesmo tempo, ele gosta de metar a bifa nas pessoas e se sente culpado por isso porque totalmente não é o que Jesus faria (exceto em caso de apocalipse zumbi).

Nesse contexto, a Elektra é o diabinho sentado no ombro dele dizendo "não seja careta, seu coroa! Vamos curtir essa parada que a vida é uma brasa, mora?". Sim, minhas sucubbus falam como se estivessem nos anos 70, me julgue.

Elektra Natchios é gostosa e rica, e apenas porque sim chuta bundas como ninja, que diabo de preocupação ela possivelmente poderia ter na vida? Assim como ela não tem preocupações, ela também não tem limites porque eu já mencionei que ela é RICAAAAAAAAAAAA? Pois é.

Seja apontar o dedo e dizer "vem" para ficar com quem ela quiser (nem precisa dizer na verdade), seja abrir a garganta de alguém com uma faca, ninguém nunca disse que ela não podia realmente.

"WGGGLBLBLGBGBLLBGBLL" - Murlock, Matt
Nesse sentido, ela funciona muito bem como uma tentação para um pobre advogado pobre da periferia que só quer fazer as coisas certas e sambar a porrada nos bandidos.

Por esse mesmo ângulo, no entanto, eu acho que ela funciona muito menos no final da temporada quando é dado uma "missão" e um proposito profundo a ela. Eu gostava mais quando ela era apenas uma ninja multibilionária do que a chosen one de uma coisa que ela (nem o Matt, nem o espectador) entendem direito.

Ficou muito melhor e mais natural ela sendo ruim por dentro porque ninguém nunca disse que ela não podia do que por ela ser o anticristo ou algo que valha, ninguém é perfeito afinal.

Caralho, meu raio-x ficou maneirão... acho que vai
pegar, heim!
CHICO CASTELINHO É O CARALHO! MEU NOME AGORA É JUSTICEIRO, PORRA!

Já no canto motherfucking América fuck yeah do ringue, temos a balada desabalada de Frank Castle em sua sede MORTE, SANGUE E VINGANÇAAAAAAAA!

Minha maior preocupação com o Justiceiro fosse que ele fosse apenas uma versão 2.0 do Shane, porque eu já havia visto a atuação do Jon Bernthal como surtado fodão em Walking Dead. Felizmente não, ele não é apenas mais do mesmo.

Em primeiro lugar porque a Netflix fez uma introdução magistral do personagem, realmente inteligente. Mais de um episódio ele não aparece, apenas é dito que tem um pequeno exército passando fogo nos bandidos de Hell's Kitchen e a idéia é realmente vendida com muita credibilidade tanto na edição de cenas quanto nos resultados: de fato tem uma mílicia tocando terror por aí. Quando então é apresentado que isso é trabalho de um homem só, pronto, ninguém precisa acrescentar mais nada para te convencer que esse é realmente o cara que atirou no saco do Wolverine.

Ter poder de regeneração significa que você vai se foder
pra caralho. Prefira o poder de ser rico mesmo.
Mas a menos que você esteja em um filme do Robert Rodriguez, um personagem precisa ser algo mais do que ser fodão com uma metralhadora  na mão e é aqui que o Justiceiro realmente brilha: ele é uma interpretação brilhante de um paladino, e a série sabe como explorar as nuances disso.

Frank Castle é colocado em muitas situações nas quais meter bala nas pessoas não ajuda realmente, e a saída mais eficiente é dobrar suas convicções e fazer um acordo. Mentir só um pouquinho, fazer um pacto com um cara mau "por um bem maior". Em diversas situações você fica realmente pensando "vai cara, dá uma aliviada só de levinho pra resolver isso, só um pouquinho faz as manhas do jogo".

A única resposta que o Justiceiro tem para esses momentos é: teu cú.

Frank Castle definitivamente não tem nada de brasileiro. É realmente interessante como ele não escolhe o caminho fácil mesmo quando o caminho fácil resolveria todos os problemas dele. Isso cria um contraste com todo o processo do julgamento dele, e melhor ainda são as cenas em que ele contracena com o melhor ator da série, Wilson Fisk.

O que acontece quando uma força irresístivel encontra um objeto que não pode ser  movido? Toda química que falhou entre o Batma e o Coringa (porque apesar da atuação muito interessante do Coringa, o Batman do Christopher Nolan é ridículo), aqui funciona maravilhosamente bem. Em nenhum momento o Justiceiro deixa de ser o paladino incorruptível (ou seja, completamente surtado) que ele é, e de alguma forma o Rei do Crime consegue usar isso a seu favor.

Nada do que eu comentar aqui
acrescentará mais humor a esta
HQ realmente lançada pela Marvel
São momentos completamente deliciosos e de uma amarração narrativa ímpar. O Justiceiro é um personagem tão legal que ele sequer tem evolução como personagem e isso não é um problema. Ele termina a temporada exatamente como começou mas francamente, você não precisa muito ser outra coisa quando você é o THE MOTHERFUCKING PUNISHER. Mesmo.

Tanto é que o Demolidor não tem realmente um argumento quando o Justiceiro lhe diz que o jeito dele de combate o crime é fofo, mas não resolve realmente. Matar os caras maus é que resolve, e Matt Murdock não sabe como responder a isso - e esse é mais um prego no caixão das coisas que não dão certo na vida de Matt Murdock.

A boa sacada aqui (e a série é cheia de boas sacadas, como da pra ver) é que enquanto o cara que chamam de Atrevido não sabe responder, a série trata de providenciar uma resposta. Sim, talvez o jeito do Matt não funcione mas o jeito do Frank tampouco é mais recomendável pelas consequências que causa - ou você realmente achou que os criminosos iam apenas abaixar a cabeça e ir embora?

NÃO FOGGY, PORRA!

Falando em evolução de personagem, a evolução mais notável da temporada passada para essa é a do seu truta Foggy Nelson. Se na temporada passada ele era só o amigo gordo engraçadinho do protagonista, nessa temporada ele ganhou todo um arco de evolução do personagem - justamente sobre ser o amigo gordo do protagonista, embora dizendo isso apenas nas entrelinhas.

Foggy já manjava de uma das grandes verdades da vida:
"Bowties are cool".
Quando Matt começa a dar pra trás na firma de advocacia deles, Foggy é obrigado na marra a tomar as rédeas do protagonismo da sua própria vida e para grande surpresa dele próprio, ele é melhor nisso do que você poderia imaginar.

Com efeito, em determinados momentos você passa a torcer para o Foggy conseguir mesmo (ou principalmente) quando Matt o deixa empenhado. Sem ter como se esconder atrás da figura onipresente do seu melhor amigo mais bonito, mais bem articulado e que por acaso tem super poderes, Foggy se promove de alivio comico a protagonista - não apenas na série como para si mesmo.

É uma jornada muito interessante de se assistir.

Ah sim, a Karen também tem uma evolução e blablabla, mas eu não gosto dela e não vou falar no assunto porque ela é chata.

Ouvi dizer que vocês gostam de cenas de luta em corredores
nessa série
JÁ DIZIA O VELHO QUE SABIA LUTAR: NÃO É O QUANTO VOCÊ BATE, É O QUANTO AGUENTA APANHAR

Então sobre o que é essa temporada, exatamente? Sobre Matt Murdock apanhando.
Não de motoqueiros, de ninjas ou da tiazinha da limpeza, se fosse só isso esse seria o menor dos seus problemas. Ele apanha feio da vida: tudo que ele tenta fazer dá tremendamente errado, porque a sua vida virou um combo daqueles dias que você não deveria ter saído da cama.

Seu relacionamento com a Karen não dá certo (porque ele é ruim demais), seu relacionamento com a Elektra não dá certo (porque ele é bom demais), apesar de todos seus esforços Hell's Kitchen nunca esteve pior (como as pessoas ainda moram lá é um mistério), Wilson Fisk está se tornando mais poderoso do que nunca... depois de preso! Ele apanha feio do Justiceiro quando não consegue dar uma resposta satisfatória porque o jeito dele é melhor, ele entra de gaiato em uma guerra milenar que ele não entende muito bem ou mesmo acredita (infelizmente para ele, o exercito de ninjas imortais parece acreditar o bastante por ele), sua vida profissional inexiste ... eu realmente não o culparia se ele resolvesse apenas sentar e chorar. O acharia tremendamente frutinha por fazer isso, mas entenderia.

Apenas um dia comum na vida de Matt Murdock

A coisa é tão feia (mas feita de um modo certo, não parece uma paródia em algum momento) que eu esperava que a qualquer momento aparecesse o Stalonne para dar um discurso sobre a vida. Tem dias que apenas não dá, e Matt Murdock tem uma maratona desses.

A série também faz outra coisa muito bem que é introduzir o mundo místico da Marvel. Ela já havia feito isso muito sutilmente na temporada passada com o Céu Negro e Madame Gao, mas agora não dá mais para ignorar que existem mais coisas entre o céu e a terra do que citações baratas de Shakespeare.

- Eles estão ali, atire neles!
- Para de apontar com o pé, seu merda!
Ou dá, porque Matt faz o meio de campo com o espectador assumindo uma postura de "vudu é pra jacu" e sendo cético a esses conceitos místicos. Entretanto serve ao seu papel de apresentar as ideias de uma forma sutil porém com credibilidade.

A partir da metade do ano a Marvel vai pegar pesado com lado místico do seu universo, com o filme do Doutor Estranho e a série do Punho de Ferro, e essa temporada do Demolidor serve para tirar um pouco o foco dessa coisa de que o universo da Marvel é só Policia-Aliens-Tecnologia. Existe sim magia, rituais e pesadelos Cthullianos nesse mundo (embora nenhum possa ser pior que o  Blackheart que fizeram no filme do Motoqueiro Fantasma, que coisa ruim!), e as sementes foram sutilmente plantadas agora.

Mais pra frente quando vermos Danny Rand socando o coração de um dragão e enfrentando ninjas imortais (sim, estou ansioso pela série do Punho de Ferro, me julgue), vamos pensar "Tá, isso não caiu de paraquedas, já tinham mostrado algo do tipo mesmo".

Isso foi feito através de uma escolha narrativa curiosa mas que não foge do tema principal: não existe um grande vilão a ser enfrentado na temporada apenas porque não é assim que a Mão funciona, e embora isso seja adequado ao tema da história, decepcionou algumas pessoas que esperavam ver uma construção mais tradicional de um grande confronto final. Eu achei o final da temporada menos frustrante (como o de Jessica Jones foi) e mais um ato de ligação como a segunda parte de uma trilogia (pense em como o episódio V de Star Wars termina, por exemplo)

- Eu sou o Céu Negro. Não faço idéia do que isso significa
nem os espectadores, mas foda-se porque deve significar
que eu sou a escolhida pra fazer o que me der na telha,
E vou continuar sendo ricaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Isso quer dizer também que sambar a porrada em ninjas não vai resolver o problema, porque essa é uma luta que não tem como ganhar descendo o cacete. Infelizmente, descer o cacete é o que o Demolidor faz de melhor - só que como eu já disse, esse é um dia daqueles que nada da certo.

Felizmente para Mateus, ele conhece um maluco capaz de enfrentar um exército sozinho, conhece alguém que conhece um cara que tem superforça e a pele indestrutível e que por acaso é (ou vai se tornar, mais provável) melhor amigo de outro cara que manja tudo de sabedoria zen e essas paradas místicas.

O que eu quero dizer é que essa temporada de Demolidor conseguiu fazer o que o filme do Soldado Invernal tentou fazer e não conseguiu: ser uma deixa para os próximos projetos da Marvel, mas ao mesmo tempo sem deixar de ser um entretenimento completo e apreciável por seus próprios méritos.

Antes da terceira temporada de Demolidor (que não foi confirmada ainda) teremos pelo menos a série do Luke Cage, do Punho de Ferro e dos Defensores, mas mesmo sem essa ligação a temporada é boa por si só, repleta de camadas e com propósitos narrativos muito bem atingido.

Só não vê quem não quer. E o próprio Murdock.
Vulgo Atrevido.


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