quarta-feira, 13 de abril de 2016

[GAMES] MAX PAYNE 3 (ou o Brasil não é para os fracos)

Uma das cenas que mais me marcou na segunda temporada de Demolidor é quando o Matt está conversando com a Karen na calçada naquela fase pré-namoro. Eles conversam e depois ela vai embora. Depois que ela sai a rua passa a ser barulhenta, suja, repleta de traficantes e perigo. A metáfora visual da cena é ótima - com ela o mundo dele não é um lugar horrível - mas não foi exatamente isso que me marcou. 

O que realmente me marcou foi o pensamento de que Hell's Kitchen é o bairro mais violento, barra pesada e trevoso de Nova York. Chances boas são de que no caminho para casa você seja assaltado, esfaqueado, decapitado por ninjas que saem um buraco infinito e controlado por um maluco que você pode jurar que é a cara do Doutor. Necessariamente nesta ordem.

E ainda sim eu fiquei cá pensando com meus botões: "Opa, gajo, a cozinha do inferno não é lá muito fixe realmente. Mas ainda sim é infinitamente mais segura do que qualquer cidade no Brasil". Sim, meus monologos internos são em portugues de Portugal, maldito seja BSPlayer!



Voltando ao assunto, faça o teste: coloque um terno bacana e sente na calçada de uma rua deserta de qualquer região metropolitana a sua escolha depois que anoitece (não sei como anda a vida no interior, mas não coloco minha mão no fogo que seja qualquer coisa diferente) e sente na calçada com sua novinha de 30kg. Você sabe que não pode fazer isso no Brasil em cidade alguma. Eu tinha essa mesma sensação assistindo "Todo Mundo Odeia o Chris" quando o bairro de Bedford Stuyvessan (Bed Stuy para os intimos) era pintado como o lugar mais perigoso na face dos US and A para os não-nativos, e ainda sim para os brasileiros parecia um passeio no parque.

Os nativos daqui te dirão sem a menor cerimonia que a coisa mais estúpida que você pode fazer é sair a noite sem pelo menos 50 reais na carteira para dar para o assaltante ou de propina para a polícia. Mas não se preocupe, nossa polícia não é do tipo cretina de filme dos anos 80 que o policial diz:

- Você está sendo multado por trafegar com o farol quebrado.
- Mas policial, meu farol não está quebrado.
CRASH!
- Agora está!

Não, não. Nossa polícia vai te estorquir dinheiro porque você tem alguma pendencia com a regularidade do veículo e decidiu que prefere dar cinquentinha para o guarda fingir que não viu. Nós vivemos em um atoleiro tão grande de violencia e corrupção, e tratamos toda essa merda toda como se fosse a coisa mais natural do mundo, que mesmo um tira durão de filme americano empalideceria com o quão sujo, violento e corrupto o Brasil é.

Max Payne 3 é um jogo sobre isso.


ESSE PAÍS NÃO FAZ SENTIDO NENHUM

Max Payne é o terceiro jogo da franquia homonima feita por um dos maiores estúdios de games que há: a Rockstar Games. Mais conhecida por sua série GTA, caralho, até sua mãe já ouviu falar de GTA! Bem, o ponto é que um jogo feito por gringos para gringos, isso será muito importante daqui a pouco.

O personagem-título é um ex-policial alcolatra durão do tipo que mastiga balas e diz frases de efeito cafonas depois de tiroteios com no mínimo trinta mortos. Ou seja, o bom e velho herói americano modelo exportação, ele tem até um nome foda: Max Payne que soa como "Máxima dor". Se o seu nome é "Máxima Dor" ou você é foda pra caralho ou é o pior quiropraticista do mundo.

Na terceira empreitada da franquia, Max veio parar em São Paulo como guarda-costas de um empresário brasileiro com mais dinheiro que os advogados do Thor Batista: Rodrigo Branco. Eu lembro bem desse nome porque só de sacanagem a Rockstar escolheu um dos nomes mais dificeis para um americano pronunciar e você vai ouvir muito "braaaaaaaancccooowww" durante o jogo. Alias português é uma lingua dificil pra caralho, eu nunca tinha pensado muito sobre isso até ver tanto um gringo apanhando para nossa língua mãe.

Para os diálogos em português, que não são poucos,
a Rockstar Games não preparou legendas em inglês
ou qualquer outro idioma. A produtora quis passar ao
jogador a sensação de Max, ou seja, de alguém
que está longe de casa e não fala o idioma local.
Voltando ao jogo, ele é todo ambientado em São Paulo e o trabalho da localização da Rockstar é impressionante: os caras realmente fizeram seu dever de casa. Ao bater o olho você sente claramente que é uma rua brasileira, as pessoas parecem brasileiros, o jogo foi realmente feito por alguém que veio aqui e anotou tudo (e provavelmente foi assaltado no processo).

Para ter uma idéia, em determinado momento Max passa por um puteiro na favela e as putas do morro tem aquela sobrepança de vileira que teve filhos demais. Até hoje eu só vi isso nas modelos menos exemplares do nosso povo, e é um detalhe que só quem realmente gastou tempo pensando sobre o Brasil se daria conta.

Outro exemplo do capricho na localização do jogo é que os personagens brasileiros chamam os colegas de trabalho pelo primeiro nome, enquanto os americanos chamam pelo sobrenome. É um detalhe pequeno, mas novamente não tem como reconhecer que isso é muito coisa daqui.

O jogo é um jogo de tiro em terceira pessoa e tem fases ambientadas nos cenários mais brasileiros que a capital paulista tem a oferecer: um terminal de ônibus, uma favela, o estádio do Corinthians (que não tinha estádio mas a prefeitura "deu" um estádio não oficialmente para ele, coisas do Brasil) e o aeroporto de Congonhas. Sério, não tem como ficar com muito mais cara de Brasil que isso.

Max começa o jogo com a simples missão de ser o guarda-costas das família Branco, mas de alguma forma isso acaba colocando ele no meio de uma treta entre traficantes e milícias - e novamente eu não consigo imaginar um tema mais brasileiro que isso.

Como bom americano que é, Max tem dificuldade em sequer entender o conceito do que é uma milícia: simplesmente alguns policiais decidem que vão fazer mais dinheiro se adonando de uma região e cobrando uma "taxa de proteção" dos moradores. E as vezes fazendo uns freelances como exercito particular.

Tipo policiais mesmo, em serviço, usando uniforme e equipamento do estado para seus próprios fins de bandidagens. E todo mundo sabe disso, sequer é segredo. E todo mundo acha a coisa mais normal do mundo. É simplesmente demais para a cabecinha americana de Max Payne.

Ele conseguiria entender um ou outro policial corrupto, mas o nível de corrupção que o estado brasileiro chega como sistema está muito além de qualquer coisa que possa ser explicada. É como tentar explicar para um islandês (cujo primeiro ministro renunciou após a esposa ser descoberta nos Panamá Papers) que temos um Presidente da Câmara dos Deputados que foi pego em todo crime de corrupção possível imaginável e continua lá, normal. Meio difícil de explicar mesmo.

Quando Max está subindo a favela (e é assaltado no processo, nem herói de filme de ação escapa do Brasil), ele vê as pessoas tomando uma cervejinha e dançando em bailes funk entre um tiroteio (entre traficantes e milícias) e outro como se fosse a coisa mais normal do mundo. Porque no Brasil isso é a coisa mais normal do mundo mesmo.

Vendo as pessoas vivendo tranquilamente em meio a tanta violência e corrupção, e mais do que isso, ficando ofendidas - para não dizer irritadas - se você achar que a vida não tem que ser assim, Max solta a frase mais emblemática do jogo: "Esse país não faz sentido nenhum".

Não, Max, não faz mesmo.
E olha que ninguém te explicou o que é um flanelinha.

VOU METER BALA NO SEU CU, SEU ARROMBADO

As criticas sociais (e a dublagem dos inimigos xingando em português, como a frase acima) são a melhor coisa do jogo. Pena que o jogo em si não seja a melhor coisa do jogo.

Claro que Max tem que dar uma paradinha
para assistir novela, uma visita ao Brasil não está
completa sem isso.
O gameplay em si segue um roteiro muito simples: siga um determinado caminho e mate todos em seu caminho. Não há escolhas a serem feitas e todas as fases são bastante lineares e sempre vão ser encaradas da mesma maneira, não há a possibilidade de decidir ser mais furtivo em um momento ou tentar aproximações diferentes para uma determinada situação. O jogo tem um foco absurdo no que se propõe: tiro em terceira pessoa. Você MUITO raramente vai apertar qualquer botão que não seja para disparar uma arma.

Verdade seja dita, atirar nos inimigos é satisfatório. A quantidade de sangue é ideal e o corpo do alvo fica com buracos de bala exatamente onde você atingiu ele - parece incrível que em 2016 isso não seja o mais básico do básico em um jogo.

Entretanto por melhor que seja sua violência, um jogo precisa de mais do que isso. Sério, porque meio que todos os jogos de ação dos últimos 15 anos já fizeram isso e a série precisa de um diferencial. Ah sim, tem também um sistema de cobertura, o que todos os jogos de ação nos últimos 10 anos já fizeram. A série realmente precisa de um diferencial do que apenas andar e atirar.

Eu gostaria muito de conseguir passar por
duas salas sem ser interrompido por uma
cutscene. Mas não desta vez, Billy Joe,
não desta vez.
Max Payne tem o bullet time como diferencial, e eu não tenho como dizer isso de forma mais clara: ele não funciona nesse jogo. Você sabe que uma mecânica não está funcionando quando você esquece dela jogando o jogo e em diversos momentos eu até me surpreendia "ah é, tem bullet time", então usava e depois esquecia por mais três ou quatro capítulos.

Tem algo errado e desconfortável no bullet time, ele não é divertido de usar como se poderia esperar de uma mecânica assim tampouco muito útil no jogo. Ok, eu achei que poderia ser porque é o terceiro jogo de uma franquia que eu nunca havia jogado, mas vejo que os fãs da série também reclamam que o jogo não parece muito "Max Payne".

O que acontece é que nos jogos originais você tinha bullet time infinito enquanto continuasse a matança. Tem uma sala cheia de inimigos, pule lá, plante uma bala em cada um, role pelo cenário, enxague, repita. Eu vejo isso funcionando.

Então o que aconteceu com Max Payne 3? O sistema de cobertura aconteceu.

Para o jogo ficar "moderno" foi adicionada a mecânica que todos os jogos de ação tem desde Gears of War: a necessidade de te rum botão para "grudar" na parede e não levar tiro. O problema é que isso, e fazer o jogo de tal forma que isso seja importante, desacelerou o ritmo do jogo.

Então nos jogos originais você tinha muito bullet time porque estava sempre matando algo, aqui com a lentidão que o sistema de cobertura - e a necessidade de esperar uma brecha para atirar - você não mata o suficiente para ter sua barra de bullet time sempre cheia. O que você tem é cerca de 1-2 segundos de bullet time a cada dez inimigos e pode levar minutos para você matar isso de inimigos.

Tempo de bala, motherfucker
O jogo se tornou burocrático e  Max Payne sempre foi um jogo de ação rápido onde você corria entre hordas de inimigos atirando em tudo em câmera lenta. Agora você tem que se esconder atrás da cobertura, esperar, esperar um pouco mais, esperar de novo, atirar e repetir para cada inimigo. Faça diferente e você morre em dois ou três tiros.

Mas o pior mesmo é que você sente que nunca está no controle do personagem. A mira é imprecisa nos pouquíssimos segundos que você tem de bullet time, mas mesmo fora dele mirar é algo troncho. Para piorar, as armas não fazem diferença nenhuma: todas matam com mais ou menos o mesmo número de tiros então usar escopetas é completamente desnecessário.

Sério, em mais de vinte anos jogando foi a primeira vez que eu vi a pistola básica ser melhor que a escopeta porque ela atira mais rápido e alcança mais longe. Não haver diferenciação entre as armas (alem de quantos tiros cada uma dá) mata muito da variedade e estratégia no jogo, que já não é lá muita.

Um dos grandes elementos de estratégia em Halo é escolher quais armas levar, porque elas tem efeitos diferentes contra inimigos diferentes - isso faz de Halo um bom jogo. Aqui tanto faz, pega só a que dá mais tiros antes de precisar recarregar. Chato.


Perdeu preibói, perdeu!
NOIR TUNTZ TUNTZ

Até onde eu entendi, Max Payne sempre foi um jogo noir. Muita narração em off, desesperança, cinismo, ambientes cinzentos. Eu sei disso porque Max continua tentando ser um (ex) detetive noir com abuso de bebida barata... burante uma balada de música eletrônica e durante um baile funk na favela.

Aí não tem clima, né amigo?

- Minha família está morta e eu sou um ...



- Não há esperança e a corrupção está...



Sério, aí é muito difícil.

Além disso parece que a Rockstar não entende muito bem o que noir significa.

Noir é um gênero que apresenta o homem comum. Protagonistas tendem a ser pessoas comuns que precisam expor uma conspiração ou escapar de uma ameaça muito maior do que eles mesmos. Muitas vezes eles são policiais, bandidos menores, prostitutas ou detetives particulares, mas seja quem eles são, eles estão sozinhos no grande mundo mau, extremamente vulneráveis e lamentavelmente despreparados para os perigos e misérias que enfrentam. Eles nunca são ricos. Eles são, por vezes, inteligentes. Eles são sempre durões. O que os mantém vivos não é a capacidade de fazer o que outros não conseguem, é a capacidade de fazer o que outros não querem fazem. O super poder de um herói noir é a perseverança - ele continua indo quando qualquer pessoa razoável iria sair. Ele pode terminar a história derrotado, morto, ou expulso, mas porra, ele vai chegar ao fim. Max Payne 3 esquece que Noir é sobre sair vitorioso apesar de sua impotência.


video
Bullet Time sendo usado com sabedoria

Max é tudo menos impotente: ele salta no meio de um exército armado e derrota mais de 30 homens enquanto voa escadaria abaixo atirando em câmera lenta. Isso é completamente super-humano, é incrível e Max é um exército de um homem só que faria inveja ao Justiceiro.

Só que em despeito de tudo isso, ele passa o jogo todo choramingando sobre como ele não conseguiu proteger uma única pessoa de um EXÉRCITO INTEIRO muito bem armado e equipado. Sério que ele reclama disso. Antes da metade do jogo Max já matou mais de mil pessoas (o jogo conta isso pra você), e ainda sim ele choraminga sala após sala sobre como ele é inútil e fraco.

Puta que pariu, tu é uma máquina de matar que dizimou um exército inteiro sozinho e atira em granadas enquanto elas estão no ar, isso não é ser inútil! Para de resmungar da vida, seu emo de merda!

Visualmente o jogo chega a ser ridículo de quantos inimigos tu mata e acredite: mesmo em um dos países mais corruptos e violentos do mundo, ALGUÉM iria notar mais de 100 corpos e um tiroteio de quinze minutos em um terminal de ônibus. Vai por mim.

O fato é que Max não passa por uma sala sem reclamar de alguma coisa. Odeio esse idioma. Minha família está morta. Meu sapato está apertado. Sou um inútil. Minha família continua morta. Estou trabalhando para idiotas. Tenho 40 anos. Sou alcoolatra. Escolhi uma camisa idiota. Minha família não ficou menos morta desde a última vez que eu reclamei. Futebol parece um jogo idiota. Estou gordo. E careca. E careca e gordo. Sou um gringo burro. Minha família... ainda morta.

Ah mas vá pra puta que o pariu, Max! Ele não fala uma ÚNICA fala no jogo inteiro que não seja um lamento ou uma reclamação, mas UMA! Puta merda, depois de algum tempo já virou piada o quanto ele consegue achar algo novo para choramingar a cada nova sala que você entra.

Oh, desculpem, me equivoquei. Eu disse que o Max não fala nada além de resmungar mas não é verdade: ele também fica te apressando quando você, o jogador, decide explorar o cenário. Se você fizer qualquer coisa que não seja correr de uma sala para outra, Max começa a soltar frases para te apressar que te enchem tanto o saco que fariam sua ex parecer Jesus 2: a continuação.

Antes do terceiro capitulo do jogo minha relação com o protagonista era: "Puta merda cara, dá um tempo pra cabeça".

Segundo Max Payne 3, a polícia de São Paulo
É COXINHA!
GRINGO BURRO E GORDO

Max Payne 3 tem uma ideia muito boa: pegar um típico herói de filme de ação americano e coloca-lo em uma realidade mais absurda do que qualquer blockbuster hollywoodiano - também conhecida como Brasil. Como o próprio Max diz, ele é apenas um gringo burro e gordo querendo bancar o herói americano em uma realidade complexa demais para ele entender.

A localização do jogo certamente é acima de críticas, mas todo o resto do jogo não é. A ação não sente confortável em suas mãos em nenhum momento, o bullet time não funciona e o clima não poderia ser menos bem construído.

Max reclama como se fosse um ex-policial de sobretudo em uma cidade fria e cinzenta, só que ele próprio está vestido assim:



Aí não tem atmosfera que resista. E a família dele ainda está morta, como ele faz questão de te lembrar. Como português é uma língua realmente difícil para não nativos, vou te ajudar no bom e velho idioma bretão, Max: SHUT THE FUCK UP, MAN!

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