terça-feira, 5 de abril de 2016

[ANIMES] BAKEMONOGATARI (ou carry on, my wayward harém)



Normalmente eu começo a resenha com uma imagem engraçadelha sobre o assunto, mas desta vez farei diferente apenas e exclusivamente porque Carry On My Wayward Son (o hino não oficial de Supernatural) tem a melhor introdução de uma música que eu consigo lembrar. Posto isso, podemos começar os trabalhos.

Em 2005 o até então desconhecido produtor Erik Kripke criou aquela série que certamente vai viver mais do que qualquer um lendo esse texto: Sobrenatural. Não sem seus méritos, verdade, porque a série de fato tem uma idéia tremendamente boa: dois irmãos cruzam o país num carro badass sendo fodões contra toda sorte de versão moderna de folclore, mito, divindade ou lenda urbana.

O primeiro episódio é sobre o monstro das tradições nativo-americanas Wendigo, mas temos uma temporada inteira sobre o apocalipse da Bíblia e até mesmo um episódio sobre o Slenderman - criado nos porões dos fóruns de internet. Se em algum lugar alguém escreveu ou contou alguma história sobre algum tipo de lenda, pode apostar que há um episódio sobre isso. Sem exagero, já que a série está em sua 12a temporada e sem previsão de acabar.

O modus operandi da série é muito simples: alguém morre de uma forma bizarra, os irmãos Winchester chegam na cidade para ajudar uma uber gostosa (não existem mulheres feias ou fora de forma nos EUA, pelo que eu aprendi nessa série) e enfrentam a bizarrice do dia seja ele um fantasma, a fada do dente ou um anjo babaca. As vezes um deles pega a gostosa em questão, as vezes não, mas raramente alguma resiste ao tema favorito de fanfics das adolescentes.

Agora imagine, apenas imagine, que o conceito de Sobrenatural fosse exportado para o formato de um anime. Considere também que o Japão tem o folclore mais rico e diverso do qual eu tenho conhecimento e mesmo os japoneses não arriscam dizer que conhecem tudo sobre todas as lendas, espíritos, deuses e parábolas que compõe sua cultura - sim, ter assistido Naruto ajuda, mas é MUITO mais profundo do que isso.

Qual seria o resultado disso? O resultado disso seria Bakemonogatari, praticamente a versão anime de Supernatural - para o melhor e para o pior.

EU TENHO 1/10 DE UM PLANO. E DE UM VAMPIRO.

Araragi-kun (excelente nome, bom de ficar repetindo) era um colegial normal até o dia que ele foi atacado por uma vampira e se tornou um vampiro. Mas ele melhorou e hoje é apenas 1/10 de vampiro. E não, eu não sei como se calcula isso, nem o próprio Araragi sabe... e de qualquer forma aí não é onde a história começa.

Não é dito muito sobre o passado dele, apenas superficialmente que isso aconteceu. O que importa é que Araragi tem um dom para encontrar novinhas com problemas sobrenaturais de todo tipo - um dom que só é superado pelo seu talento em faze-las se apaixonar por ele. Como eu disse, é praticamente a sinopse de Sobrenatural só que com colegiais de 30kg no lugar de uber modelos.

Nessa primeira temporada Araragi conhece cinco garotas todas atormentadas por algum tipo de entidade saída do folclore, literatura ou fábulas japonesas e resolve o problema de cada uma delas.

E sim, Bakemonogatari é um anime de harém (com muito fanservice, sim, como não), mas um muito diferente do que você poderia esperar.

HARÉM COM MUITO ORGULHO MAS POUCO DINHEIRO

Se tem algo que chama atenção nesse anime é o quanto ele é uma produção barata. E não estou falando de truques de narrativa baratos mas sim falta de grana mesmo. Frequentemente eu brinco que o orçamento da produção deve ter sido um bombom Sonho de Valsa e um sachê de açúcar diet, mas dessa vez parece que a coisa foi séria mesmo.

Reparem nesta abertura, por exemplo:



Repare no quanto os frames de animação são repetidos e no quanto há de colagem animada. Pra fazer mais barato que isso só a vergonha que foi o final de Karekano (pq a Gainax é famosa por seus desfalques financeiros e torrar o dinheiro antes do fim da série), mas todo o anime tem uma execução muito barata.

Fan service, porque esses DVDs não vão se vender sozinhos né?
Então espere muitas, mas muitas mesmo, cenas paradas (mais baratas de fazer), falas dos personagens substituídas por telas de texto (mais baratas que animar o personagem falando), quadros de animação repetidos (uma cena que deveria ter 10 quadros de animação tem 2 quadros repetidos 5 vezes, por exemplo) e qualquer outro truque para economizar dinheiro que você possa imaginar.

Só que sabe qual o grande truque aqui? O anime é dirigido de forma a parecer que isso foi uma escolha inteiramente intencional e eu não poderia elogia-los mais por seu talento em fazer a pobreza parecer uma escolha artística.

Se aproveitando que o anime é baseado em uma light novel ilustrada por um artista conceitual (suas ilustrações parecem mais pinturas do que imagems de mangaka), o anime tem um certo ar de "filme europeu" com sua tonalidade parada e criando contraste em coisas que não custam nenhum dinheiro como jogo de cores ou backgrounds copiados e colados por computador.

Tem uma cena por exemplo que se passa em um bicicletário e uma das bicicletas que está estacionada ali foi feita no computador. Em seguida eles copiaram e colaram essa bicicleta a exaustão, criando um cenário surreal com mais de mil bicicletas estacionadas. Visualmente impressionante e muito barato de se fazer.

Esse tipo de criatividade permeia o anime, ele é editado de forma a parecer incrivelmente dinâmico e confuso mesmo que não tenha nada demais acontecendo. É meio que como os julgamentos de Danganronpa e no começo eu achei que esse razzle dazzle todo era apenas pra desorientar para que o espectador não prestasse atenção nas limitações narrativas do anime.

Aquele momento que você abre um pacote de bolacha
e pensa que consegue não dividir com a sua namorada
Estava meio certo: ele é editado de moda louca sim, mas não para esconder um roteiro fraco e sim para esconder a pobreza da produção.

Outra boa sacada do anime, mas que infelizmente não funciona para nós brasileiros, é que o anime é repleto de trocadilhos e jogos de palavras - principalmente com os kanjis. "A palavra X é composta pelo kanji de Y e Z, mas pode significar W se lida da forma H" é muito comum no anime.

Imagine que acadêmicos de Letras estão fazendo piadinhas que só pessoal de Letras entendem. Agora imagine que é em um idioma que você fala. Com a tipografia de caracteres que você não conhece. Mesmo para os japoneses foi difícil acompanhar o ritmo do anime porque não é todo japonês que domina kanji - com efeito ler jornal no Japão é um sinal de status, porque eles são escritos em kanji para economizar espaço.

O estúdio SHAFT aproveitou tantos jogos de palavras e trocadilhos para justificar o uso de telas de texto no lugar de falas, dando um ar mais artístico a coisa e deixando a obra mais barata de quebra.

Com efeito, os personagens estão constantemente fazendo trocadilhos, dissecando os componentes de um caractere kanji para explorar seus significados e fazendo comentários sobre tópicos culturais que raramente são discutidos fora do Japão. Seria mais ou menos o mesmo que eu fazer um texto baseado em trocadilhos e piadas sobre colonos, a menos que você tenha crescido na mesma região que eu não vai fazer nenhum sentido e mesmo que faça não vai parecer muito interessante.

Climão homoerótico com uma catgirl, claro que sim, como não?
O próprio nome da série já é um trocadilho, vem de monogatari (contos) e bakemono (monstro), juntando os dois dá Bakemonogatari (contos de monstros).

Um dos truques para poupar dinheiro que eu achei mais legal é que eles deixaram notas de produção do anime no meio do episódio - tipo uma tela de texto escrito "aqui vai a cena 23" - que igualmente tem esse efeito: dão um ar conceitual e artístico a coisa toda e de quebra economizam a grana de alguns preciosos segundos de animação.

Bakemonogatari é um pobre orgulhoso: o orçamento não dá nem pra comprar um cafezinho, mas ele finge que foi uma escolha completamente intencional.

O resultado de tamanha pobreza acabou sendo bastante único e de forma estranhamente. Se você assistir uma cena de Bakemonogatari vai perceber na hora que está assistindo esse anime mesmo havendo outros 8 bilhões de anime. Visualmente é como se a segunda metade de Evangelion e Madoka Magica tivessem tido um filho, depois deserdado ele e o despachado para crescer na periferia de Ruanda.

UM HARÉM MUITO FAMÍLIA

O anime é, em sua essência, um anime de harém - que é a forma mais bruta e menos elegante que a indústria tem de dizer para os otakus: "Seu virjão sebento, me dá o teu dinheiro!". Usualmente esses animes revolvem em torno de um cara comum (com quem o otaku possa se identificar) coletando uma penca de menininhas apaixonadas por ele - e não ficando com nenhuma sem motivo algum.

Parece paradoxal, mas é muito importante para os otakus que as meninas deem em cima dele desesperadamente mas nunca o contrário. Comercialmente o motivo é bastante simples: a partir do momento que o "herói" ficar com alguém acabou o vínculo de identificação com o espectador. "Hey, esse cara tocou em uma menina e ela não gritou de nojo, isso nunca acontece comigo, não consigo mais me identificar com isso e não quero mais gastar dinheiro nisso".

E como eu já expliquei, a indústria de animes depende inteiramente que otakus sebentos gastem dinheiro com isso.

Nesse sentido, Bakemonogatari é muito corajoso ao investir em algo completamente diferente. Sim, Araragi-kun tem todo um séquito de novinhas doidas para andar no seu carrossel do amor e ele não pega nenhuma delas, como todo anime de harém. Só que diferente de um anime típico de harém, existe um motivo de verdade para ele fazer isso: ele tem uma namorada.

Oh.

Aquecedores culinarários de proporções reduzidas sucederam a força da gravidade.

É algo tão simples que eu apenas me pergunto porque nenhum anime nunca pensou nisso antes. Como todo ecchi, as meninas ficam esfregando os peitos (enormes) nele e ele deve resistir bravamente a tentação, a diferença aqui é que ele tem um motivo bastante crível e palpável para fazer isso. E isso faz toda diferença do mundo para melhor!

Ao contrário de qualquer outro anime de harém cujo protagonista é só uma ferramenta para deixar o otaku excitado com o ecchi e poder se identificar, EU consigo entender o Araragi-kun e por causa disso me divertir muito mais com as trapalhadas semi-eróticas dele. Ok cara, eu te entendo, no seu lugar eu faria a mesma coisa (ao mesmo tempo que não exatamente odiaria estar no seu lugar).

Eu não posso estressar o suficiente o quanto isso torna o anime melhor - parece até que alguém pensou no assunto ao invés de apenas tacar qualquer merda para tirar dinheiro de otaku. Sim, Love Hina, estou olhando para você.

Acaba que o anime é mais um romance engraçado do que um ecchi safado. Claro, tem toneladas de fan service porque sim, como não, mas ele é mais bonitinho do que apelativo na verdade.

Anime: assistimos pelo plot. E pelos encostos serpente.
Além de todos os eventos sobrenaturais em Bakemonogatari, o anime é mais sobre jovens tentando encontrar seu lugar no mundo e sua alma gemea. Eles lidam com as incertezas típicas de adolescentes ao tentar definir seu relacionamento, tem que lidar com a noção estranha de uma vida após a escola terminar e tem que fazer planos para o futuro.

Muitos seriados, livros e filmes - ocidentais e japoneses - ignoram completamente o que acontece quando dois personagens ficam juntos - como se o começo do relacionamento fosse o fim da história e não o começo. E qualquer um que já tenha tido um relacionamento pode te dizer que o relacionamento em si dá 100 vezes mais história do que o conto de como começou.

É ótimo ver um anime como Bakemonogatari que mostra os altos e baixos de um relacionamento como o cerne da história e não apenas "ter uma namorada" como um objetivo final. Mesmo que isso signifique abrir mão de novinhas louquinhas por você.

Ui, divei!
FANSERVICE TAMBÉM É GENTE

No papel, o anime preenche todos os estereótipos de anime para alegria onanista otaku geral: temos a mocinha tsudere (meio yandere), a loli, a waifu tímida, a tomboy atleta ... me dei conta que se você sabe o que todos esses títulos significam você deve ter uma vida sexual muito parecida com a minha. Eu até diria "toca ae", mas eu realmente não quero encostar na sua mão...

... seja como for, enfim, todos os clichés estão lá. A pegadinha aqui é que o anime gasta muita energia e esforço para faze-las parecerem seres humanos dentro de seus respectivos rótulos. Senjougahara (ótimos nomes tem esse anime), a namorada de Araragi, inclusive explica porque ela se apaixonou por ele e realmente, da forma como ela coloca faz todo o sentido do mundo.

O melhor episódio do anime é de longe um que Senjougahara e Araragi saem em um encontro levados pelo pai dela (o episódio todo é praticamente só o passeio de carro com eles conversando). O dialogo é tão natural, tão inteligente que você consegue realmente acreditar que é uma conversa que você teria com a sua namorada enquanto o pai dela está no banco da frente.

Ok, talvez não você, mas um ser humano de verdade e não apenas um cliché ambulante de anime e esse é ponto aqui: os diálogos parecem algo que pessoas de verdade fariam.

- Araragi-kun, pq estamos andando assim?
- Pq deu certo para os Beatles
Senjougahara é de longe a melhor personagem do anime mesmo sendo meio tsundere (alias ela é uma personagem tão boa que ela mesma faz piada sobre isso), mas todas as personagens do anime vendem a idéia de que tem mais na vida do que vontade de agarrar o Araragi. Na verdade elas parecem apenas garotas mesmo e quando se apaixonam por ele soa quase meio que natural até, não um Deus Ex-Machina que despencou do céu porque o otakinho comprando o DVD quer ver um harenzinho para bater umazinha.

Como os personagens tem todo o tempo do mundo para falar (falar é o que eles mais fazem, dadas as limitações orçamentárias não tem como ter muita ação afinal), o anime simplesmente não funcionaria se os personagens não fossem cativantes e críveis. Mesmo o protagonista da série, que normalmente é o ponto fraco, não é sem seus méritos e você consegue respeitar Araragi por suas qualidades e pontos de vista.

Araragi é o cara que diz, por exemplo, que essa coisa que os clichés de anime tem "irmãzinha" é fantasia de quem nunca teve uma irmã de verdade. Qualquer um que tenha crescido com uma te dirá que isso não tem a menor chance de acontecer, e palavras mais verdadeiras jamais foram ditas.

Licença ae, cliché de atleta tomboy passando
UM VAMPIRO, UM LOBISOMEM E O SACI PERERÊ

Muitos animes de harém sequer tentam ter uma história, apenas está lá o cara e as gurias e "coisas muito loucas acontecem com essa turminha de altas confusões" ou qualquer coisa que o valha na Sessão da Tarde. Alias ainda existe Sessão da Tarde? Enfim...

A coisa é que Bakemonogatari seria um bom harém sem uma história, e seria uma boa história sem o harém. Felizmente ele é as duas coisas juntas.

Como as coisas funcionam: em cada arco Araragi encontra uma garota com um problema sobrenatural - seja ele baseado em uma fabula, lenda urbana ou mito, esse tanto eu já havia explicado. Isso não é o que faz o anime especial, o que é especial é como isso é feito.

Cada um dos "causos" sobrenaturais que assolam as meninas são na verdade metáforas para falar de problemas bastante mundanos e palpáveis do cotidiano com os quais podemos nos relacionar. O primeiro arco, por exemplo, é sobre Senjougahara que tem um "problema" bastante peculiar: ela perdeu o seu peso.

"Eu só saio pelada as vezes"
Pq sempre perderia o charme, né
Não, não é uma metáfora a anorexia ou uma dieta da moda, é algo bem mais interessante: um deus carangueijo roubou o seu peso e agora ela pesa 5kg (com efeito, Araragi a conhece flutuando como uma pluma). Qual a moral da história aqui: ele fez isso para ajuda-la devido ao peso que ela carregava não em seus culotes (vou dizer que não tenho certeza do que seja isso, mas sei que é algo que as mulheres tem) mas sim em seu coração. A grande diferença é que o peso que ela carregava em seu coração não é nada relacionado a nenhuma bobagem de anime e sim algo moderno, mundano e bastante pesado. Algo sinistro que poderia ter acontecido (ou quem sabe até aconteceu) com você ou alguém que você conhece.

Coisa séria mesmo.

Nem todos os arcos são necessariamente pesados, mas todos são interessantes e bem escritos como bons contos de monstros (como o titulo do anime propõe). São boas histórias em si que não necessariamente descambam para "animezices" e isso é uma coisa boa, para não dizer surpreendente.

Uma boa história se caracteriza pela evolução dos personagens ou mesmo do cenário, e enquanto o anime não tem uma "história principal", sendo só uma coleção de contos mesmo, o roteiro não esqueceu de adicionar um proposito e uma sensação de evolução ao todo que vem na figura do protagonista.

Acontece que Araragi é ajudado por expert nos assuntos sobrenaturais que sabe um pouco de tudo, Oshino Meme (o nome é mais fofo do que ele, como o garoto diz) que faz o papel de oráculo de informações para ajuda-lo a resolver as tretas sobrenaturais exatamente como o Bob fazia em Sobrenatural

A evolução na história vem com a sensação de que Araragi está gradualmente evoluindo para ficar no lugar de Oshino e se tornar o novo consular das bizarrices da região. Isso faz muita diferença porque acrescenta um sentido de propósito ao anime mesmo não havendo "uma historia principal" por si mesma.

Uma boa história é uma onde os personagens e o status quo muda (e como eu disse, por isso o Cavaleiro das Trevas não é uma boa história) e é bom ver que Bakemonogatari pensou nisso. A história está indo para algum lugar, está evoluindo assim como seus personagens.

Aparentemente aquela coisa da mão peluda não era
apenas história de mãe...


A primeira vista Bakemonogatari impressiona por todos os motivos errados. Seu visual repleto de razzle dazzle parece feito para impedir que o espectador pense direito e a quantidade de fanservice pode ofender o mais mente aberta dos liberais (com lolis tendo os peitos apalpados e tudo mais), feito sob encomenda para adicionar mais waifus e travesseiros a coleção dos otakus.

E foi mesmo.

Mas debaixo dessa fachada se esconde um anime surpreendentemente sensível, que em seu texto verborrágico sabe rir de si mesma (e também dos clichés do genero, assim como das expectativas de seu publico) com uma narrativa cativante e desenvolvimento de personagens sublime.

Bakemonogatari é como um Transformer, mais do que os olhos podem ver.


Nenhum comentário:

Postar um comentário