sábado, 16 de abril de 2016

[ANIMES] ASSASSINATION CLASSROOM [1a temporada] (ou aqui pode matar aula)

Simulação do que aconteceria se um professor dissesse
em uma universidade federal que não existem almoços
grátis. Não tentem reproduzir em casa.
Você certamente conhece esse tipo de história: um grupo de alunos tidos como "caso perdido" são inspirados por um professor excêntrico que acredita neles e com seus métodos de ensino pouco ortodoxos consegue trazer o melhor dos jovens não apenas nos estudos como para as próprias deles.

Diversos filmes muito bons já foram feitos com essa premissa como Sociedade dos Poetas Mortos, Meu Mestre Minha Vida e alguns talvez não tão bons assim mas que eu gosto muito como Mudança de Hábito 2 e Escola do Rock. Em animes temos o eterno clássico Great Teacher Onizuka como exemplo. Enfim, você conhece o esquemão.

A treta aqui se passa na escola mais prestigiada do Japão: a Academia Kunugigaoka que possui um sistema de ensino moralmente questionável mas comprovadamente eficiente: a turma E do terceiro ano do colegial é composta pelos piores alunos da escola, e eles são abertamente tratados como párias perdedores asquerosos - inclusive sua sala nem é no campus da escola, é uma cabana caindo aos pedaços no meio das montanhas.

A lógica é simples: o medo de se tornar um paria e um sub-cidadão, ou seja, acabar na turma E, faz os alunos estudarem infinitos por cento mais. Nada como a motivação correta para tirar o melhor das pessoas, é o que eu sempre digo. Na verdade eu nunca disse isso antes, mas sempre se começa por algum lugar... exceto se eu nunca mais dizer.



O ponto é que  você pode questionar os métodos do colégio mas não seus resultados. Então nossa história se foca nessa turma de fracassados problemáticos, a turma E, e como um professor excepcional conseguiu resgatar não apenas suas notas mas a confiança em si mesmos.

Claro que uma história dessas não funcionaria sem um professor tão carismático quanto Robin Williams em A Sociedade dos Poetas Mortos ou professor Wenger em A Onda e neste anime não é diferente.

Nosso professor excepcional no caso é um monstro-polvo que destruiu a Lua e vai destruir a Terra em um ano, mas para dar uma chance aos terráqueos decidiu dar aulas e ensinar aos alunos como mata-lo.

Espera... O QUE?!?

FESSOR, POSSO TE MATAR RAPIDIM?

Responda depressa: qual o membro mais poderoso dos Vingadores? Difícil dizer, heim? Todos os heróis da equipe principal, a exceção do Capitão América, são mais ou menos parelhos em nível de poder de um jeito ou de outro.

Não precisa nenhuma forçação de barra para que em uma batalha envolvendo o Homem de Ferro, Thor e o Hulk, qualquer um desses saia vencedor.

Agora responda mais rápido ainda: qual o membro mais poderoso da Liga da Justiça? Essa é bem fácil de responder: é o Flash.

Ele não é só o mais rápido (obvio), mas também o mais forte (caso você lembre daquela equaçãozinha de que Força é igual a massa multiplicada pela aceleração) e não tem absolutamente nada que qualquer outro membro da Liga possa fazer contra ele em um dia ruim.

O Superman é forte, mas o Velocista Escarlate tem um socão de trilhões de megatons.
O Caçador de Marte pode manipular mentes, mas não adianta muito quando você é mais rápido que um pensamento.
O Batman... tem o poder do fanboyismo pressionando os roteiristas, ok, esse é um poder considerável.

Pra você ter uma idéia do quanto o Flash é rápido, ele consegue atravessar o universo INTEIRO correndo em dois ou três dias apenas.

O Flash é tão roubado, mas tão roubado que para ficar mais fácil escrever histórias para ele normalmente o portador do uniforme vermelho (Wally West no desenho da Liga da Justiça ou Barry Allen na série) é retratado como um completo idiota. Porque se o Flash não fosse burro como uma pamonha mal cozida, ele resolvia todos os problemas antes que o espactador entendesse o que está acontecendo e não tinha história nenhuma.



Estou explicando isso porque este fato é muito relevante a esse anime: e se o Flash não fosse um retardado? E se ele usasse seus poderes como qualquer um que já pensou sobre isso usaria? Koro Sensei é a resposta.

O monstro amarelo com cara de emoticon que destruiu a Lua e prometeu destruir a série tem um único poder: supervelocidade. E isso basta, já que é um poder tão abusivo que o torna praticamente invencível. De fato o monstro sequer tem nome, ele é chamado de Koro da palavra "korosenai" que significa "invencível".

Todos os exércitos do mundo tentaram destruí-lo de todas as formas possíveis mas não chegaram sequer perto de conseguir faze-lo. Supervelocidade é um poder muito, mas muito roubado mesmo. Até que então o monstro propôs um acordo com o governo japonês: "me deixem ensinar a turma 3E durante um ano e entre uma aula de matemática e inglês eu os ensinarei como me assassinar. Ou então eu destruo a Terra de qualquer jeito, vocês que sabem".

Parece meio forçação de amizade que o governo tenha aceitado tal proposta, mas ao longo da série você entende que eles realmente tentaram tudo que podiam tentar para matar o Koro-sensei.

"Ah, que bobagem, porque eles simplesmente não..." - eles tentaram isso. "Então eles deviam é..." - tentaram isso também. Acredite, minha primeira reação também foi de incredulidade porque seria necessário muita suspensão da descrença para imaginar tal acordo mas acompanhando o anime eu constatei que qualquer plano que EU tivesse bolado para matar o monstro também não funcionaria.

Koro-sensei é de fato invencível. Quase.

Aqui as novinhas querem cair matando no professor
QUEM NÃO SABE FAZER ENSINA. QUEM NÃO SABE ENSINAR... ENSINA EDUCAÇÃO FÍSICA.

Me arriscarei a dizer algo óbvio, porque sou desses: uma série que se baseia no carisma do protagonista depende do carisma do protagonista. Parece uma frase imbecil, mas a verdade é que muita gente não entendeu isso ainda.

One Punch Man só funciona porque o Saitama é... bem, o Saitama né? Ao mesmo tempo os filmes do Christopher Nolan do Batman não funcionam porque o Batman dele é ridículo. Simples assim.

Neste mesmo sentido, Assassination Classroom - como toda obra sobre professores - depende muito que Koro-sensei seja um personagem formidável e marcante. Para grande alegria de todos, a série entrega isso.

Koro-sensei é muitas coisas. Um troll federal, um motivador eficiente, um monstro com poderes sobrehumanos, mas acima disso tudo, a coisa mais impressionante e mais importante na série é que ele é um excelente professor. Ele normalmente usa sua velocidade de mach 20 para fazer algo fisicamente como fazer provas e lições de casa sob medida para cada um dos alunos da turma 3E que estimule suas qualidades e ensine novas habilidades para corrigir suas fraquezas.

No meu tempo as aulas de inglês não eram assim não.
Mariazinha é muito boa em química mas não sabe se expressar corretamente, não adianta ela ter o mesmo teste que o Joãozinho que é um líder nato mas tem dificuldade em prestar atenção em detalhes.

Mas mesmo quando Koro-sensei não está usando nenhum poder sobre humano, o quanto ele é um bom professor e acredita/inspira seus alunos é algo que não deixa nada a desejar para nenhum filme de grande professor. Apesar dele ser amarelo e ter tentáculos, você realmente gostaria de ter Koro-sensei como professor.

Pessoalmente me chama atenção que Koro-sensei tenha conseguido ME convencer como professor porque eu não sou do tipo que fica todo meloso com a meia dúzia de frases prontas sobre professores que normalmente o tema evoca. Constroem a nação, tinham que ganhar mais que jogador de futebol, blablabla.

Não. O sistema de ensino é defasado e ruim, ainda estamos usando uma metodologia do século XVI sem nem ao menos saber o motivo. Sério, qual a real função de uma escola? Porque se não for "sumir com as crianças por 8 horas para os pais poderem ter vidas depois que fizeram a cagada de ter filhos", então a escola está fazendo isso errado - seja qual for a sua resposta, existem dezenas de outros meios mais eficientes de fazer isso.


Então não, eu não morro de amores por professores tanto quanto não morro de amores por taxistas e advogados - entendo a necessidade prática de suas funções, mas em um mundo vagamente ideal as coisas seriam absurdamente diferentes.

E APESAR disso, Koro-sensei impressiona como professor. Por sua dedicação, por seu carinho e por usar sua astucia em prol dos alunos. Mesmo que ele não tivesse nenhum super poder, ainda sim seria um excelente professor.

Protótipo do novo iPad
É NO DIA A DIA QUE SE CONHECE ALGUÉM DE VERDADE

No dia-a-dia da escola os alunos vão conhecendo o professor Koro e suas fraquezas - nenhum exército do mundo descobriu que ele fica enjoado quando viaja - mas também se abrem e revelam os seus problemas. Desde Carrossel até Mentes Perigosas, você meio que já sabe o que esperar aqui.

Cada aluno tem suas particularidades e dificuldades, sejam elas acadêmicas ou na vida pessoal, que são resolvidas com a intervenção do smiley mais quente do momento. Não espere nenhum problema ou drama particularmente complexo ou pesado, o anime é muito mais Sessão da Tarde do que os quadrinhos do selo Vertigo.

Isso não é ruim necessariamente, são histórias simples porém contadas com competência e qualidade.
Sendo uma história de professor que é, não poderia de ter os vilões clássicos do gênero como o diretor malvadão que quer ferrar a turma toda ou o aluno protegido gênio. Curiosamente, a maior parte da ação da série vem justamente destes momentos - provas de final de semestre são mostradas como batalhas contra monstros e outras coisas do tipo.

Ordinário, mas bonitinho.

Existe um filme live action de Assassination Classroom.
De todas as imagens que eu poderia ter escolhido, eu
escolhi esta. Diz muito sobre mim.
MUITO BLABLA, POUCO PEW PEW

Como série de professor, Assassination Classroom funciona tão bem quanto um filme de Sessão da Tarde. Fosse só isso estaria bom, o problema é que não é só isso.

A série tem como tema "assassinato" e entre uma aula de literatura  e outra de técnicas domésticas, nossos jovens mancebos tem aulas de tiro e luta corpo-a-corpo já que o verdadeiro objetivo da classe é assassinar o professor e salvar o mundo.

Em um primeiro momento isso funciona maravilhosamente bem - é muito único ver o Koro-sensei fazendo a chamada enquanto todo mundo da turma mete bala nele. Algo verdadeiramente único em um gênero marcado por não ter momentos inovadores. E claro, é divertido ver o professor explicando química enquanto seus alunos tentam esfaqueá-lo sem sucesso.

O problema é que com o tempo o anime vai ficando estranho. E não estranho no sentido bom (embora ele seja isso também), mês estranho em um sentido esquizofrênico.

Parece que em nenhum momento ninguém realmente pensou nas implicações de, sabe, matar o professor. Talvez seja porque é algo tão improvável que eles saibam que podem tentar o quanto quiser porque não vão conseguir mesmo, mas em nenhum momento ninguém para e pensa "hey, e se a gente conseguir mesmo e matar esse cara que a gente gosta pra caralho?".

É estranho.

Com sua velocidade, Koro-sensei pode dar aulas customizadas
para cada aluno conforme as necessidades do aluno.
Ciências, inglês, Naruto... espera, Naruto?
Fica mais estranho ainda quando toda reta final do anime é sobre usar o treinamento que eles tiveram como assassinos mas sem matar ninguém porque matar é errado. A mensagem é essa e isso é repetido inclusive pelo próprio professor diversas vezes, não importa o quanto cara mereça matar não é algo que um herói faria.

Matt Murdock aprova.

Ok, meio piegas, meio moralista, mas... espera, esse anime todo não era sobre matar alguém? Eu não sei, é muito esquisito para mim. Avatar, por exemplo, aborda essa questão muito bem: o Aang acredita que matar é errado e ele gasta muito tempo ruminando sobre o que fazer exatamente com o Senhor do Fogo.

Aqui não, a mensagem é "matar é errado, mas se for com o cara mais importante na nossa vida ta de boas". Espera, o que?

Para adicionar insulto a injuria, todos os professores assistentes da classe são assassinos profissionais enviados pelo governo e a classe trata essa coisa de assassino como uma carreira... só que parece que em nenhum momento ninguém pensou na implicação de que ser um assassino realmente parece uma carreira muito glamorosa e legal (viajar o mundo, missões críticas, conhecer gente única), mas... isso também envolve matar pessoas, sabe?

Muito esquisito.

Você sabe que está assistindo uma série japonesa quando
o governo é um parâmetro de qualidade
FILLER NÃO, TEMPORADA!

Desde o sucesso de Attack on Titan os animes estão tentando outra abordagem na adaptação de mangas em andamento. Enquanto alguns enchem até o toba de filler (46% dos episódios originais de Naruto são encheção de linguiça), os japoneses tentaram uma tática mais ocidental e mais agradável: dividir os animes em temporadas.

Na teoria é ótimo, na prática eles não sabem muito bem como fazer isso ainda. Porque uma temporada é mais do que uma coleção de episódios: uma temporada é um tema dividido ao longo dos episódios que evoluem de alguma forma.

Eu entendo que o anime não queira ou não possa compartilhar os segredos da série toda agora, mas ao menos algum osso deveria ser jogado ao espectador. Você termina o anime sem saber mais sobre o que exatamente é o Koro-sensei, seu passado, porque ele quer destruir a Terra e porque ele quis ser professor do que sabia no primeiro episódio. Não há evolução alguma e você não tem a sensação de que chegou a algum lugar realmente.

Liga não Teresaka, só dar load e escolher a outra opção
Ao invés disso temos uma reta final sem a participação do professor sobre o amadurecimento dos alunos como assassinos... sem matar ninguém realmente. Os japoneses realmente tem que aprender ainda uma coisa ou outra sobre arco narrativo ou ganchos.

O manga terminou em março agora e a segunda temporada do anime ainda está sendo exibida (o que, suponho, signifique que serão três temporadas no total)

Mas apesar do final frustrante, Assassination Classroom é um anime muito divertido que te entretem com momentos pequenos sobre coisas do cotidiano, o polvo-emoticon (?!?) mais carismático dos animes e muito nonsense, basta ver a abertura.

Por algum motivo que eu não entendo - talvez o titulo - achei que AC seria algum tipo de survival game entre alunos, tipo Danganrompa ou Battle Royale. Pesquisando a respeito vi que mais pessoas também tiveram essa impressão mas asseguro que não, a única coisa que essa série assassina são as suas expectativas.


E o encerramento tem uma música muito bonita realmente. Mesmo.
É só isso, não tem piadinha dessa vez.

Ah, em tempo: eu ainda não utilizei a fórmula de Bhaskara na minha vida. Os manterei atualizados sobre o assunto.




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