sexta-feira, 1 de abril de 2016

[ANIME] FATE/ZERO (ou o que é um rei senão uma miseravel pilha de segredos?)

FATE/Zero é a prequel de FATE/stay night
você pode ler minha resenha desse anime AQUI


Esse cara não tá muito bem, melhor dar água pra ele
A cultura pop é, infelizmente, deveras proeminente em nos frustrar. Sua melhor arma para isso é criar uma idéia linda, graforrágica, toda chiquetona e na hora H... executa-la com a graça de um zagueiro do Aimoré afastando a bola (DICA: eles não são muito bons nisso).

Muitos aeons se passarão até vermos um dos maiores e melhores vilões da Marvel no cinema, sendo que boas são as chances de jamais vermos um Doutor Destino decente. Firefly nunca teve e provavelmente nunca terá outra temporada, ao passo que Heroes consegue ser progressivamente pior a cada temporada e ainda volta dos mortos com um reboot fraco. Jamais veremos o mundo de Equestria como foi plenamente idealizado por Lauren Faust e Christopher Eccleston jamais será o Doutor novamente (nem mesmo como participação especial).

Alguma dessas coisas parece certa para você?

Frustração, frustração e mais frustração é a vida de um nerd (o que meio que descreve também sua vida sexual, o mundo tem um equilíbrio estranho). E uma das maiores frustrações do meu kokoro bijin de kamisama é o anime FATE/stay night.

Quer dizer, o anime tem um conceito dos mais fodas da história das animações: sob a supervisão da igreja, tradicionais famílias de magos (pense tipo Harry Potter) evocam os espíritos de campeões lendários da história da humanidade (alguns tão fodas que realmente se tornaram lendas) para batalhar até a morte pelo cálice sagrado, capaz de realizar qualquer desejo.

Se isso não é uma premissa para um anime FODA, então não sei mais o que seria.

E no entanto, o que temos é um anime de harém nas coxas para otaku bater punheta e tanta profundidade quanto um pastel em fim de feira. Aparentemente este seria apenas mais um capitulo no livro negro de frustrações nerdicas... mas NÃO. Apenas NÃO.



Não. Calados na noite não desaparecemos sem lutar, pois hoje é o dia em que fincamos resistência e mais essa página do grande livro de frustrações nerds não será preenchida pois este é o dia em que FATE foi tudo aquilo que sempre deveria ter sido. Este é o dia em que FATE foi bom.


Se você preencher essa cartela, está assistindo um anime
de Gen Urobuchi
O HOMEM, A LENDA, O MITO

FATE/Zero é um anime adaptado não de nenhuma visual novel (um tipo de "jogo" que é mais um livro mais ou menos interativo, dependendo do jogo) mas sim de uma light novel (um hibrido de manga e livro muito popular no Japão com adolescentes e jovens adultos) escrita por Gen Uroboshi. Quem? Não, Gen.

Se o nome não é famíliar, seu trabalho deveria: Gen é o roteirista de um dos animes mais inteligentes e rompedor de expectativas que eu já assisti: Puella Magi Madoka Magica. Madoka é uma aula sobre desconstrução de gênero e inversão de expectativas, pegando um gênero xoxo pelo qual ninguém dá meia pataca furada (animes de meninas mágicas que se transformam) e o transformando em um thriller denso e pesado sobre como as implicações desse mundinho são muito menos arco-íris e unicórnios do que se pode imaginar quando se pensa sobre isso.

Seu próximo trabalho foi um thriller noir sobre uma sociedade distópica onde o camarada Estado controla tão profundamente a vida das pessoas que até escaneia os padrões de ondas cerebrais dos cidadões (o tal Psycho-Pass do título) e se a partir dessa leitura em algum ponto o Estado decidir que você tem potencial para se tornar qualquer tipo de problema a sociedade no futuro, acabou pra você. Sentou na graxa espartano.

Porque tem que ter um quê de Kyubei
no Calice, como não, né?
Qual a pegadinha aqui? Parece horrível e opressor... mas o sistema funciona! A sociedade nunca esteve tão bem e as pessoas nunca foram tão felizes, elas sequer entendem mais porque haveria qualquer necessidade de trancar a porta de casa, por exemplo. Então o questionamento é: até que ponto vale a pena abrir mão da individualidade por um bem maior?

Psycho Pass é um anime filosófico que te faz pensar (o que não é tão comum assim assistindo animes), mesmo que seu desenvolvimento de personagens não seja tão interessante quanto o cenário (o que é um crime em uma narrativa noir, que depende do carisma dos personagens para funcionar).

Recentemente ele esteve escrevendo para um Kamen Rider (Gaim) e isso é definitivamente algo que eu preciso assistir.

Mas bem, agora que apresentamos as credenciais do seu moço veremos como Gen Trump tornou o anime grande novamente.

TRANSFORMANDO MERDA EM ADUBO

FATE/stay night é uma das ideias mais legais que eu já vi em um anime, ou em qualquer coisa na verdade. Recapitulando o que eu escrevi sobre o anime anterior:


Vamos lá: a cada 10 anos o Cálice Sagrado se materializa nesse mundo e convoca sete magos de tradicionais famílias arcanas a participarem de um torneio pela sua posse. Aquele que obter o cálice terá qualquer desejo atendido.

Para a disputa então o Cálice dá a cada um dos magos um campeão de algum momento da história da humanidade - a maior parte deles tão épicos que se tornaram mitos. Gente do naipe de Hércules, Gilgamesh e Sasaki Kojiro (Sasaki foi o maior rival da vida de Miyamoto Musashi, apenas o maior espadachim de todos os tempos, o que não é pouca merda MESMO).


E de alguma forma o anime conseguiu pegar um conceito tão legal e transformou em um festival de merda tão ruim e anime genérico que você não consegue assistir sem dizer "puta merda, como isso é ruim" a cada dois minutos. Claro, não é TÃO ruim quanto Mirai Nikki mas poutaqueopareo, os caras realmente tentaram.

Os personagens são um desastre de trem e o roteiro é tão cheio de furos que parece que esse trem estava carregado de fossa séptica e fetos semivivos. Não sei pq alguém carregaria um trem com isso, devem ter sido os Gorgom.

Assistir F/sn consome tanto da sua boa vontade que da próxima vez que uma velhinha quiser roubar o seu lugar no ônibus você vai se sentir inclinado a praticar tudo que aprendeu de krav-maga assistindo Matrix, o anime é ruim desse jeito.

FATE/Zero é uma prequencia que se passa dez anos antes, mostrando os eventos da quarta guerra do cálice. Ou seja, não bastasse toda a mediocridade de F/sn você ainda já sabe como vai terminar. Boohoo, o pai adotivo de Shiro (tendo a mesma Sabre como sua serva) vence a treta e decide tentar destruir o Santo Graal apenas porque ele é desses, o que acaba destruindo metade da cidade no processo (que é meio o efeito colateral de tentar explodir um artefato ciente divino capaz de reescrever a realidade, acho que saiu barato até).

O grande truque aqui é que isso não é realmente importante. Como o anime termina (que todo mundo sabe, porque é um prequel afinal) é a coisa menos importante aqui, o que realmente importa é resolver as cagadas de FATE/stay night.

Explico: Gen Uroboshi assistiu F/sn e foi anotando todas as vezes que essa porra não fazia sentido nenhum em um caderninho. O resultado foi esse:


Em seguida ele respirou fundo, muitas vezes, e resolveu: "vou concertar isso e fazer essa merda fazer sentido". E foi o que ele fez.

É dito que no universo de FATE existem famílias e toda uma sociedade de magos que vivem ocultas do mundo "trouxa", do qual a guerra do Calice na verdade é um evento não maior do que o torneio Tribruxo - apenas uma nota de rodapé na Wikipédia da comunidade magica. Meio que tipo Harry Potter, mas com a igreja católica fazendo as vezes de ministério da magia - o que é uma ideia putamente legal se você me perguntar.

Então a pergunta que realmente fica assistindo F/sn é... onde estão esses caras? Porque cargas d'água molhadas e galopantes a quinta guerra do Cálice é disputada por um bando de colegiais de anime genérico e não, sei lá.... MAGOS DE VERDADE ADULTOS?

Não faz nenhum sentido isso. Mas nenhum mesmo, é como se estivéssemos no universo de Harry Potter e o torneio Tribruxo fosse disputado pelos coleguinhas de classe do Duda. Porra, pq? Sério, uai?

FATE/Zero é sobre uma guerra do Calide de verdade, envolvendo magos de famílias tradicionais de verdade e principalmente, são todos adultos - como faria sentido. Apenas um dos magos é um adolescente, mas existe uma boa explicação para isso e mais importante, desenvolvimento de personagem como tal. Uau, agora sim.

Imagine que ao invés dos resmungos do Harry Potter, que tem o carisma de uma caixa de papelão molhado, estivéssemos assistindo uma história dos marotos, AGORA sim coloquei firmeza nessa história. Magos de verdade de famílias tradicionais treteando entre si usando campões épicos da história da humanidade de uma forma que dá gosto de ver.

Esse cara é praticamente o Lucio Malfoy do anime...
... e ele está com o coração partido. Cara, isso é contra as regras
dos caras babacas genéricos!
E talvez tão importante quanto isso, a história de FATE/Zero explica que fim levaram as famílias tradicionais de magia e porque a próxima guerra é disputada pela rapa do tacho. Enquanto a quinta guerra do Calice (mostrada em F/sn) é uma patética desculpa apenas para otaku onanista bater uma punheta vendo colegiais, nem sempre foi assim. A guerra do Calice já foi algo foda como deveria ser, lutada em toda sua pompa e glória mas isso se perdeu - FATE/Zero conta COMO as coisas chegaram a esse ponto lamentável.

Entende que tipo de consertagem de cagadas estamos falando aqui? É impressionante.

O próprio conceito da guerra em si foi concertado: o primeiro anime dá a entender que isso acontece a cada dez anos, o que não faz sentido nenhum. Imagine que a cada dez anos uma treta desse tamanho acontece (com massacres e portões do inferno abrindo no céu) e a realidade sendo reescrita... acho que alguém já teria percebido isso, não? Não é factível que uma cidade comporte essa parada a cada dez anos e ainda exista, morar nesse lugar seria mais loucura do que morar em Hell's Kitchen ou no Brasil (que é mais barra pesada que a Cozinha do Inferno, afinal). Não.

Japoneses adoram menininhas com espadões, ui
FATE/Zero também remenda essa cagada: a guerra acontece na verdade a cada sessenta anos e por motivos muito específicos (que são  mostrados no anime) DESSA vez o calide retornou após apenas dez anos. Ok, agora faz bem mais sentido e eu consigo acreditar nesse cenário. Ufa.

Diversas outras coisas que apenas pisam seus ovos (e não por uma novinha de 40kg, o que seria sexy) em FATE/stay night são concertadas.

Como assim do nada a loli de 8 anos que quer dar pro Shiro é na verdade um circuito mágico que digivolve para o Santo Graal? Como assim Rin e Sakura do nada (em pleno episódio 18) passam a ter um passado juntas e serem best friends forever se até aquele momento todas as vezes que elas se cruzaram não dava mais do que bom dia uma para outra? E nem por distanciamento ou inimizade, apenas por não ter intimidade mesmo.

Todos esses furos crassos de roteiro que fazem o filme do Deadpool parecer uma obra prima são justificados aqui. Eu apenas não tenho palavras para dizer o quanto isso é impressionante, apenas vou dizer que até fiquei com vontade de assistir FATE/stay night de novo para apreciar essa nova luz dos eventos... o que eu teria feito se F/sn não fosse um anime tão, mas tão ruim. Ainda sim me fazer cogitar essa possibilidade está além de qualquer elogio que eu poderia formular.

TACE-LE PAU, SABRE VÉIA!

Não são apenas os epaminondicos furos de roteiro do anime antecessor que são reparados: as cenas de ação também são repensadas para redobrar o seu deleite. Apesar de não serem mal feitas per se, as cenas de ação de F/sn são chatas e genéricas como quase de qualquer anime de ação.

Como tantos outros, o combate em FATE/sn funciona assim:



Além disso, uma das coisas mais irritantes de FATE/sn é o quanto ele considera pouco a sua inteligência e apela para o sensacionalismo mais barato possível para promover suas lutas. Quando Sabre aparece é dito que ela é o servo mais forte, mas depois quando ela luta contra todo e qualquer outro servo, é dito que ESSE é o servo mais forte... TODO MUNDO é o mais forte apenas para fazer um draminha quanto o roteiro precisa disso. É um truque barato que só diminui o anime.

Em FATE/Zero... TODO MUNDO é o mais forte também. Só que do jeito certo. Sabre, por exemplo, é dito como o servo mais forte em força bruta, o que não ajuda tanto assim quanto seria ter as melhores técnicas. Mas  nem é esse o ponto: o ponto é que todo mundo parece de fato abusivamente poderoso.

Vamos dar mana infinita ao conjurador, eles disseram.
Vai ser divertido, eles disseram.
O Conjurador tem uma relíquia que lhe dá mana infinita, o que é putaquepariumente roubado. Você pensa "Puta que pariu, esse cara é muito roubado!"

O Berserker consegue transformar qualquer coisa que ele toque em uma extenção do corpo dele - o que não parece tão roubado quando ele  pega um pedaço de pau, mas muda completamente de figura quando ele pula em cima de um caça F16 e começa a fazer chover misseis Tomahawk e balas de metralhadora .50 na cabeça da negada a moda louco. Puta merda, esse cara é muito roubado também.

E por aí vai.

Esse é o ponto aqui: TODOS parecem incrivelmente roubados de alguma forma, todos tem os holofotes para si e são tratados com respeito como se fosse, olha só, realmente espíritos de campões lendários! Todos os espíritos heroicos são tratados com o grau de respeito como se fossem o protagonista da série, nenhum é apenas um inimigo genérico apenas bucha de canhão (né Rider em F/sn), todos brilham a sua própria maneira

Isso torna os combates muito interessantes e imprevisíveis, porque quando duas forças épicas se embatem o resultado deveria ser épico. Aqui é.

Mesmo Gilgamesh, que é uma lenda entre as lendas (afinal ele é o primeiro herói de que se tem registro, tão antigo que sua balada inspirou até mesmo as histórias do Antigo Testamento), é abusivamente roubado, claro, mas mesmo ele reconhece que cada um dos adversários recebe um tratamento de "chefão do jogo".

O anime realmente passa a sensação de que são os maiores campeões da história da humanidade se sentando o sarrafo, e isso é realmente épico. Como sempre deveria ter sido desde o começo! Caralho, não era tão difícil assim, cazzo!

ALEXANDRE, O GRANDE, CALADO É UM POETA

Os combates em FATE/Zero são realmente muito bons, mas o anime brilha em seu melhor quando as pessoas (ou os espíritos) apenas sentam e conversam. O dialogo tem momentos de riqueza e eloquência que fariam inveja a muito seriado pseudo intelectual.

Um dos grandes trunfos aqui é que a "guerra" entre os magos é muito mais do que "vem na mão, bola da vez" de anime e muito mais um thriller sobre orgulho, alianças, traições e estratégias. Grande mérito disso vem do protagonista do anime, Kiritsugu Emiya, que é um caçador de magos contratado por uma das grandes famílias magicas para ganhar o Calice para a família (e por "contratado" entenda-se que teve um casamento arranjado com a herdeira da família).


Emiya é um homem pragmático e eficiente, e não se roga em usar o melhor do mundo dos trouxas e o melhor do mundo da magia para lidar com seus oponentes. Claro que feitiços de buffs pessoais e contratos mágicos ajudam, mas as vezes tudo que você precisa é de um bom tiro de sniper ou de explosivos C4 posicionados no lugar certo.

Ele é totalmente adepto do "se Voldemort usasse uma arma, Harry Potter seria uma história bem curta".

Ironicamente, e em uma sacada genial do roteirista, ele imita o comportamento do Shiro em FATE/stay night e raramente envolve a sua serva Sabre em suas lutas. Mas não porque "mimimi, ela tem ppk então tem que ficar na cozinha fazendo sanduiches" como o Shiro, mas simplesmente porque a Sabre é uma ogra que só tem como skill dar porrada - mesmo que ela seja a melhor em força bruta, qualquer jogador de RPG que já jogou de Barbaro pode te dizer que causar 1d12 + 246 de dano não passa nem perto de resolver todos os problemas do mundo.

Com efeito, ele comenta que ficou decepcionado em ter a Sabre como serva, ele ficaria mais bem servido com um servo menos porrador e mais versátil como o Conjurador ou o Assassino. Este é o nível de nosso protagonista.

Mas mesmo aquém dele, todos os personagens são interessantemente desenvolvidos. Principalmente os magos das famílias tradicionais e seus joguinhos e tramoias de clãs. Esquemas, armações e tretas entre eles são o que movem esse anime quando o pau não está comendo, e mais importante, eles esquemam para o pau comer da forma mais benéfica possível para eles no melhor estilo Game of Thrones.

Todos os personagens são, no entanto, compostos por camadas e esse nível de profundidade agrega muito valor a série. Tokiomi Tohsaka (pai de Rin, que eu ainda insisto que deveria ter sido a protagonista de FATE/sn) é um comensal da morte babaca arrogante esculpido em carrara, com a frieza e a praticidade de um oficial da Gestapo mas ao mesmo tempo é um homem profundamente devotado a sua família e com conceitos de nobreza e cavalheirismo muito arraigados dentro de si.

O padre Kotomine, que em F/sn é só um vilão malvadão genérico sem muita motivação em ser mau a não ser pelo prazer de ser mau, aqui ganhou um banho de loja lindo e tem um perfil psicológico muito bem feito, em diversos momentos eu cheguei a me identificar muito com aquele que era um dos piores personagens de um anime que já é bem ruim.

Mas se os personagens humanos brilham em suas motivações e construções psicológicas, o grande destaque do anime certamente é o trabalho feito com os servos. Todos são igualmente desenvolvidos e bem construídos, mas tem o plus de que eles também são figuras trágicas que já tiveram um dia uma vida mortal que não acabou exatamente bem na maioria dos casos.

Essa coisa de herói morrer com uma jornada de redenção completa é uma moda relativamente recente, a maior parte dos heróis das mitologias da antiguidade e todos os heróis baseados em personas reais tiveram um fim trágico e repleto de pontas soltas. Ser ressucitado como um espirito obrigado a obedecer um mago arrogante não é o melhor epilogo possível para essa história. E como vimos em Madoka Magica, Gen Uroboshi sabe como poucos fazer um dramalhão que seja realmente trágico.

Mas nem só de desgraça vive um personagem, e o aspecto trágico é apenas um dos muitos que compõe o personagem (ouviu, Final Fantasy XIII?), todos terrivelmente interessantes.

Gilgamesh, por exemplo, que também era só um vilão mauzão genérico de anime na série anterior agora tem sua personalidade trabalhada e transpira a arrogância daquele que se acredita verdadeiramente rei de tudo que foi, é  e será. Com efeito, ele sequer está interessado em ganhar o Santo Graal, apenas não quer que ninguém mais ganhe um tesouro seu (por definição, todos os tesouros do mundo são dele e ele fala com uma naturalidade que é difícil discordar). É uma questão de princípios, sabe?

Mas ele transparece essa soberba não só em cenas clichés de luta, mas em todos os aspectos do personagem: quando ele está sendo intrigante com os mortais, quando ele está sendo humilde e reconhecendo o valor de alguém (Gilgamesh tem um jeito muito único de ser humilde, isso há de ser dito) ou apenas quando está confraternizando com seus inimigos.

E esse é o ponto aqui: qualquer anime de fundo de quintal pode fazer um vilãozinho babaca e arrogante a lá Vegetta, mas ir a fundo e imiscuir esse traço na personalidade do personagem de uma forma crível e cativante, isso é algo que poucos podem se orgulhar.

A um certo nível, todos os personagens são tridimensionais e interessantes por n motivos, mesmo aqueles dos quais você menos esperaria alguma coisa. Os monólogos loucos do conjurador sobre a verdadeira natureza de Deus são uma pintura, e o Cavalariço que a principio parece ser apenas uma parede burra de musculos se mostra um líder ao qual qualquer um seguiria até os confins da Terra.

Uma das minhas cenas favoritas do anime é quando os três heróis reis (Sabre, o rei dos cavaleiros, Alexandre, o rei dos conquistadores e Gilgamesh, o rei dos heróis) se reúnem para conversar e chegar a um consenso sobre quem deveria vencer o Graal.

O dialogo e o consequente desenvolvimento dos personagens sobre o que significa realmente ser um rei é excelente, mas mais importante, quando um texto te faz refletir e considerar sobre coisas completamente fora da sua realidade identificável (acredito que "ser um rei" não é algo que um dia fará parte da minha lista de preocupações), é porque algo muito certo ele fez.

ENQUANTO ISSO, NO LUSTRE DO CASTELO....

Enquanto faz todas essas coisas muito bem, ainda sobra tempo para que alguns dos melhores episódios do anime sejam praticamente spin-offs. Existe um episódio inteiro seguindo Rin (ainda criança nessa época) que não tem muita relação com a guerra em si e Kiritsugu tem dois episódios todos focados no seu passado, mostrando como ele passou de um garoto que sonhava ser herói a um caçador de magos frio e pragmático. Estes estão entre os melhores episódios do anime, e isso que estão lá apenas para dar uma arejada nas coisas.

Falando em Kiritsugu, ele é certamente o melhor personagem de um anime repleto de personagens muito bons. Nós todos crescemos ouvindo "As necessidades de muitos superam as necessidades poucos” mas raros são os casos em que alguém vive por este mote. Ele realmente não se importa com as "necessidades de poucos" mesmo que as necessidades dele estejam entre as desses poucos e ele não hesita em derrubar um avião repleto de pessoas inocentes se matematicamente isso for salvar mais vidas.

Só que ao mesmo tempo, ele não é um fanático ou um paladino, muito menos uma máquina de matar sem emoções - ao invés disso sua personalidade altruísta se choca fortemente contra seus métodos abrasivos, resultando em um personagem que é interessante e trágico ao mesmo tempo. Todas as vezes que ele aparece em FATE/sn (nas memórias de Shiro, pq ele já está morto a essa altura) ele parece um homem cansado e quebrado, mas que encontrou algum pequeno conforto. Essa é a história de como ele chegou a esse ponto.

Ajuda muito que a animação tenha saído das mãos do estúdio Deen e que os caras da Ufotable fazem uma boa ideia de como se usa 3D em um anime. Para não mencionar aquela cena medonha de sexo do dragão em F/sn...

ALL HAIL THE KING!

FATE/Zero é a redenção de uma ótima idéia que parecia destinada a agonizar nas mãos de um anime ruim. Agora executada com toda a pompa e glosa que a premissa demanda, é um anime riquíssimo e interessante sob todos os aspectos.

Gen Urobochi é mestre em subverter clichés de anime e soprar uma nova vida em gêneros que já haviam se tornado uma paródia de si mesmo, e dessa vez ele criou um novo patamar que os animes de luta devem atingir para serem levados a sério.

Por melhor que sejam lutas visualmente legais, melhor ainda são lutas visualmente legais com personagens com os quais você se importa (mesmo que seja para torcer contra eles), e para isso não existe saída fácil senão muito trabalho e diversas camadas de profundidade. Felizmente esse é um japonês que não tem nenhum medo de botar a mão na massa e trabalhar. Mesmo que de uma forma sombria e trágica (e envolvendo uma grande quantidade de tortura e vermes, nunca uma combinação agradável de se ver), porque é assim que o tio Gen rola.


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