domingo, 27 de março de 2016

[SERIES] FIREFLY (ou Quarteto Fantástico nem foi uma cagada tão grande assim)

Disputar o título de pior empresa do entretenimento é uma glória indúbia que poucas companhias se empenham tanto em alcançar. Pergunte a qualquer nerd e você verá várias menções a Eletronic Arts (e seus "prêmios" de pior empresa da América em 2013-2014 no opinião popular) e correndo por fora temos a Ubisoft com sua gana de abrir a barriga do ganso em achar mais ovos dourados.

Entre o marketing terrivelmente infeliz (sim, Watchdogs, estou olhando pra você) e o seu talento de transformar franquias amadas em motivo de piada (Assassin's Creed, oi), dá pra dizer que a Ubisoft realmente se esforça para queimar seu nome de todas as formas humanamente possíveis.

Competir em ruindade com os caras que fizeram isso
não é tarefa fácil, mas alguns homens não temem
o desafio
Mas se querem a minha singela opinião (e não faço ideia de porque estaria lendo isso se não quisesse), elas tem que comer muito feijão com arroz para chegar aos pés do oceano de merda que são as decisões executivas da FOX.

Não precisa se esforçar muito para lembrar o quanto a FOX é pródiga em fazer merda, nem ir muito longe. Pegue o filme do Deadpool, por exemplo, que é uma refilmagem do teste de vídeo de 2014, com o orçamento de uma caixa de LEGO com superbonder e um roteiro que só estaria pronto em 2018.

Claro, o filme foi um sucesso financeiro porque ele fala e nerds são basicamente pré-adolescentes com cartão de crédito. Mas se for para pegar realmente pesado com a FOX, a lista é longa. A merda que virou X-Men (eles tiveram que fazer um filme só para dizer "Gente, desconsiderem o que a gente fez antes!"), pelo amor do Judas Esclerosado o que foi aquele filme pavoroso do Wolverine e não preciso sequer mencionar como eles conseguem fazer um filme do Quarteto Fantástico ser pior do que o outro, chega a ser uma arte isso.

Deadpool em X-Men Origins: Wolverine. Sério, FOX, apenas
como vocês conseguem? Não, sério mesmo!
O que realmente é uma pena, porque o Doutor Destino é um dos maiores e melhores vilões da Marvel, ele é meio que o Voldermort daquele mundo e instantaneamente quem você pensaria ao ver a palavra "vilão" ser pronunciada. Não acredito que veremos vossa malvadeza decentemente nas telas tão cedo...

Mas de qualquer forma, se você acha que a quizomba que a FOX faz com seus filmes de super-heróis é ruim, então é porque você não chegou realmente ao fundo do poço. Pergunte a qualquer nerd e ele lhe dirá um dos maiores e mais dramáticos espinhos cravados em seu coração: a trágica balada de uma nave chamada Serenity e sua única temporada.

O dia em que todas as outras merdas da FOX (que não são poucas) empalideceram diante da mãe de todas as cagadas.

JOSS VS A INCOPETENCIA DA FOX

Joss Whedon é um dos melhores diretores da atualidade, se não o melhor. Com efeito, eu não consigo lembrar de uma única coisa ruim que ele tenha feito - com exceção de Vingadores 2, mas isso foi mais porque a Marvel encheu tanto o saco para acomodar a merda do universo estendido deles que cagou os filmes e fez o cara pedir as contas da casa do tio Mickey.

Se hoje ele quiser fazer um filme sobre uma batata com um microchip, com certeza vai ter quem financie. E eu ficaria muito surpreso se não ficasse bom, tal é o nível confiança que eu tenho no cara. Só que talvez você não saiba que todo o prestígio que Joss tem hoje no cinema, no começo dos anos 2000 ele tinha na televisão.

Ele havia transformado uma série por quem ninguém dava meia pataca furada (uma adolescente luta contra o monstro da semana) em um universo completo e cativante, e de quebra ainda foi roteirista de Toy Story. O que quer dizer que ele tinha carta branca da FOX para fazer a série que ele quisesse, e felizmente o senhor Whedon é um rapaz repleto de ideias.

A próxima ideia do sujeito era um faroeste sci-fi focado nos personagens. A descrição parece estranha, e é bastante diferente mesmo, mas a execução não é tão estranha assim. Como muitos faroestes, se passa com um sobrevivente da guerra civil tentando ganhar a vida fazendo o melhor que sabe (usualmente, atirar em pessoas) neste não-tão admirável mundo novo.

Só que no lugar de cidadezinhas esquecidas da Putaquepariu do Oeste são planetas e o assalto ao trem pagador aqui envolve trens-bala.

Parece divertido, certo? Bem, não para os executivos da FOX. Nunca vazou para o público qual era EXATAMENTE o problema dos caras com Whedon, embora existam algumas teorias.

A mais corrente é de que eles simplesmente não gostavam da aura de gênio que podia fazer qualquer merda dar certo que ele já tinha naquela época e queriam "ensinar-lhe uma lição". Se você acha que um executivo não atiraria milhões de dólares fora e a reputação da sua empresa para satisfazer seu ego, realmente você não sabe muito sobre como a televisão funciona (oi, Korra).

Outro problema era o conceito: os executivos não acreditavam que televisão se fazia com TANTAS ideias inovadoras assim. Firefly não tinha só um conceito inovador, tinha também uma protagonista feminina forte mas que nem chutava bundas no kung-fu nem apelava para o fan-service. Com certeza os executivos ficara muito animados quando a principal personagem feminina da série seria uma prostituta tanto quanto ficaram frustrados quando descobriram que ela seria o membro mais elegante do grupo.

Verdade seja dita, isso ainda é verdade hoje e muito mais verdade em 2002: o público não gosta de personagens femininas protagonistas que não sejam:

A) Fanservice/fetiche
B) Chute bundas aloucadamente

Inara não é nenhuma destas duas coisas, ao contrário, ela é o que Morena Baccarin faz de melhor: uma mulher intrigante com sua própria aura.

Também não caiu muito no gosto dos executivos o protagonista da série: eles queriam um protagonista mais machão, mais pegador, que atirasse primeiro e atirasse depois - afinal é um faroeste, não? O capitão Malcom de Nathan Fillion está muito mais para o Doutor do que para o Justiceiro, e isso é algo que os executivos não podiam tolerar.

Quando Joss explicou que a Serenity sequer teria armas, certamente um executivo desmaiou dramaticamente.



"Não é assim que se faz televisão, não no meu turno!" alguém deve ter bradado.

Outro ponto é que os executivos que haviam aprovado a série foram substituído e seus sucessores queriam validar seu cargo sabotando o projeto de seus antecessores.

Existem diversas outras teorias sobre porque a FOX declarou guerra contra sua própria série, nem todas são verdade obviamente. Tem também a questão da pura e simples incopetencia da FOX, mesmo séries tinham todo o marketing da emissora jamais passaram da primeira temporada, como Terra Nova. Má-fé e incopetencia são bastantes difíceis de se distinguir, ainda mais numa empresa cuja palavra associada é "cagada".

Mas provavelmente jamais saberemos. O que realmente ficou é que a emissora havia firmemente decidido que...

... ESSE VAGALUME TEM QUE SER APAGADO

Qualquer entrada na wikipedia te mostra que o principal motivo da série ter sido cancelada foram o alto custo dos episódios e  audiência baixa. Ambos os fatos são verdades puras e simples (estima-se que o custo médio de um episódio de Firefly era de 2 milhões de obamas). Mas entender como isso aconteceu é o mais importante.

Pra começar, o show foi colocado no pior horário da televisão americana: sexta-feira de noite. Para você ideia do quanto esse horário é ruim, ele é conhecido como "Friday night death slot" e tem uma entrada na Wikipédia falando sobre ele!

Uma série que ensina novas formas de chamar alguém de
idiota é sempre algo que merece ser visto
Basicamente, é onde você enfia uma série se quiser matar ela. A coisa é tão séria que hoje a FOX sequer passa algum programa nesse horário, apenas merdas tapa-buraco de videocassetadas e coisas assim porque ninguém assiste mesmo.

Então quando uma série é jogada nesse horário, você sabe que grandes coisas não se pode esperar. Mas ok, fosse só isso não daria para acusar a FOX de deliberadamente tentar matar a série, até aí é apenas mal gerenciamento mesmo.

Outro problema é que a série teve seu marketing voltado para o público juvenil e se tem algo por qual um adolescente não vai se interessar é Firefly. Não tem batalhas espaciais, não tem fanservice e o ritmo é lento como o de um faroeste. A menos que a Inara andasse com os peitos de fora e a Serenity fizesse pew-pew-pew, seria idiotice direcionar essa série para adolescentes.

E no entanto, foi o que a FOX fez.

Isso, no entanto, não foi sequer o pior ainda que ela fez.

Assim como Battlestar Galáctica, Firefly tem um episódio piloto de duas horas que introduz o cenário, os personagens, o que está em jogo e os objetivos - coisas básicas da narrativa, sabe?

O que a FOX fez a respeito disso? Simples: mandou arquivar o episódio já gravado e deu a Joss dois dias para escrever um novo piloto. DOIS DIAS para escrever o episódio mais importante de uma série, aquele que decide se você vai continuar assistindo um programa ou não (Sense8, tchau).

"The Train Job" foi o primeiro episódio exibido pela FOX, e embora não seja um episódio ruim (muito pelo contrário), sem o piloto inicial fica muito difícil entender que porra está acontecendo ou quem são aquelas pessoas.

Essa lógica se seguiu e a ordem dos episódios apresentados foi essa:

Episódio 2
Episódio 3
Episódio 6
Episódio 7
Episódio 8
Episódio 4
Episódio 5
Episódio 9
Episódio 10
Episódio 1
Episódio 14
Episódio 11 (transmitido aleatoriamente avulso mais de 6 meses depois)
Episódio 12 (transmitido aleatoriamente avulso mais de 6 meses depois)
Episódio 13 (transmitido aleatoriamente avulso mais de 6 meses depois)

Uau. Apenas uau. Mesmo os executivos da Nick responsáveis por tentar avacalhar a exibição de Korra o máximo possível ficariam constrangidos disso. Em uma série que se baseia primariamente em desenvolvimento de personagens, não é necessário explicar o resultado.

A FOX usou todas as armas que tinha para que a série fosse cancelada, e obviamente conseguiu seu objetivo. Alguém ficou muito feliz com isso e teve seu ego atendido, mas a televisão perdeu enormemente com isso.

O lado bom é que esse não é o fim da história. Todas as coisas consideradas, essa história tem até um final feliz.

SERENITY (OU COISAS BOAS VEM AQUELES QUE ESPERAM)

Firefly acabou e a equipe de produção seguiu suas vidas. Para muitas séries este seria o fim da história, mas essa não é uma série como outra qualquer.

A série foi lançada em DVD, como era de costume, mas dessa vez com a ordem dos episódios correta e sem a desvantagem de horários merda ou marketing infeliz. O resultado foi obvio: os nerds adoraram essa série, porque tem muitas coisas para adorar nela realmente.

Ao final de 2005 a série já tinha vendido mais de 500 mil cópias em DVD, o que é um numero muito expressivo para uma série de TV, e se transformado em um fenômeno cult. Os DVDs desapareceram na pré-venda menos de 24 horas depois de anunciados. Quando as pessoas descobriram Firefly já era era tarde demais, mas não deixaram de amar a série mesmo assim.

Em 2004, dois anos após o final da série, Joss Whedon conseguiu convencer a Universal a comprar os direitos da FOX (usando os números das vendas dos DVDs como argumento) e lançar o final da série em formato de filme. Certo, era uma série planejada para 7 temporadas que teria que ser resolvida em duas horas, mas ao menos seria resolvida!

A FOX News é uma das maiores apoiadoras da candidatura do
Trump. De alguma forma, isso não me surpreende...
Todo o elenco original da série aceitou imediatamente parar o que estavam fazendo e filmar o longa Serenity. Whedon conseguiu amarrar tantas pontas quanto podia no roteiro, fazer uma introdução acessível mesmo para quem não acompanhava a série e ainda fazer um bom filme - não uma pequena tarefa, diga-se de passagem.

Quase tão importante quanto isso, foi o primeiro filme dirigido por Joss Whedon. Se hoje temos uma abundancia de filmes de heróis no cinema, agradeçam a Serenity que levou Joss aos Vingadores e o resto é história.

Como eu disse, todas as coisas consideradas, o final foi melhor do que o esperado embora os nerds jamais esquecerão a trágica história daquela que poderia ter sido a melhor série de TV de todos os tempos. Ou não, jamais saberemos e esse é o ponto aqui.


Nenhum comentário:

Postar um comentário