sexta-feira, 11 de março de 2016

[SERIES] DOCTOR WHO: o 1o Doutor (ou hmmm?)

Tom Baker, famoso por interpretar o quarto Doutor (e mais popular da série clássica) conta que um dos momentos favoritos da sua carreira é que já nos anos 90 um dia um homem o abordou na rua e o cumprimentou. O homem contou que cresceu em um orfanato e que as coisas eram bastante difíceis por lá para todos - exceto os sábados a noite. Sábado a noite na Inglaterra dos anos 70 era quando passava Doctor Who e por alguns bons minutos mesmo a mais miserável rotina era divertida.

Algumas coisas simplesmente nunca mudam.

Mas essa história começou bem antes do que isso, tente mais de 50 anos atrás (53 este ano, precisamente). Você consegue imaginar uma série de televisão que esteja na sua 35a temporada e tão boa, na verdade melhor ainda, do que quando começou?

Usualmente se uma série passa da quinta temporada já começa a implorar para ser posta para descansar, imagine passar da trigésima quinta! Isso não é um feito ordinário, não senhor.

E esse acontecimento extraordinário só foi possível graças a uma série de limitações técnicas, infelizes acontecimentos, mas também a coragem e criatividade de uma equipe... e o talento de um homem.

Hoje não há na internet quem não tenha ouvido falar do alienígena que possui uma caixa que é maior por dentro, mas nem todos conhecem a origem dessa história: a balada de Bill e a máquina do tempo.
HOMENS DA CAVERNA, DOUTORES E CABINES DE POLICIA QUE DESAPARECEM... NUNCA VAI DAR CERTO.

Em 1963 a BBC de Londres tinha um buraco na programação no fim de tarde dos sábados que precisava ser preenchido entre o programa esportivo Grandstand e o programa de musica pop Juke Box Jury. O desafio da BBC era encontrar algo que fizesse a transição do publico padrão de esportes para o publico mais jovem, ou seja, algo que pais e filhos assistissem juntos.

Ou seja, ficção cientifica era perfeito para o papel! Mas apenas pq a BBC era a renomada BBC, talvez uma ficção cientifica que fosse meio que educativa... mas de um jeito descolado, que a garotada não percebesse que estava sendo educada até que fosse tarde demais!

Houveram diversas ideias para fazer um programa assim: discos voadores, aventuras futuristas (tipo Flash Gordon) ou quem sabe viagens no tempo. Acho que você consegue adivinhar qual foi a ideia triunfante.

Então a equipe da BBC divisou o esqueleto do programa: haveriam dois professores, que seriam os "adultos" da coisa toda, haveria uma adolescente para os jovens se identificarem... mas faltava alguma coisa. Faltava algo mais, algo que tornasse a série... única.

Foi então que veio a ideia de acrescentar um anti-herói misterioso e um tanto indiferente, detentor de tanto poder e conhecimento (e Deus Ex-Machina) quanto mistérios. Um tal de Doutor... quem?

Doutor empilhando noivas abandonadas desde o começo
QUEM É O DOUTOR QUEM?

Definido o que a BBC queira fazer, agora era a questão de COMO fazer. Alguns atores da época foram cogitados, mas ou recusaram o papel (bola fora, heim, amigão?) ou não era bem o que os produtores queriam. Vê, eles queriam algo novo, algo diferente, algo que prendesse a atenção dos jovens e adultos...

Eis aí que brilhou uma oportunidade única que mudaria para sempre a história da televisão. Acontece que por aqueles tempos, William Hartnell era um ator conhecido por fazer personagens durões como generais, gansters e etc - só que ele estava meio que cansado disso, ele queria fazer algo diferente. A equipe de produção do programa viu essa oportunidade e ofereceu a Hartnell um papel bastante diferente disso um alienígena um tanto arrogante, mas cujo maior poder seria sua inteligência e a capacidade de levar qualquer um na conversa.

Isso serviria aos propósitos da série: os jovens teriam um anti-herói esperto e intrigante, e os adultos veriam um ator conhecido fazendo algo completamente diferente de tudo que ele já havia feito na televisão - certamente as pessoas veriam isso, nem que fosse por curiosidade.

A ideia original da abetura era mostrar
o rosto do Doutor no meio do Vortice.
Felizmente alguém percebeu que seria
traumatizante, para dizer o mínimo.
Com efeito, Heather Hartnell (viúva de William) conta que quando seu irmão Terry (agente de Hartnell na época) falou sobre o papel, a primeira coisa que ela perguntou é se ele seria um "cara durão". Terry respondeu que não, que era o script mais criativo que ele já havia visto e que não sabia o que William ia dizer, mas era para uma série infantil.

Heather ficou bastante animada com a ideia, ela tinha certeza que seu marido Bill ia adorar porque era exatamente o tipo de coisa que ele estava procurando. Mais tarde naquele dia, William recebeu o script e leu em silencio do começo ao fim, sem emitir uma única observação. Quando terminou ele virou para sua esposa e o cunhado (seu agente) e disse: "Meu Deus! Eu quero esse papel!".

Isso foi em 1963. Ao fim de 1964, William Hartnell não conseguia sair na rua sem causar uma comoção de crianças e fãs do programa. Apesar de passar a maior parte da sua carreira interpretando pistoleiros, generais e coisas do tipo, Hartnell havia finalmente encontrado o papel da sua vida no homem que jamais empunharia uma arma e que resolveria todos os problemas através da inteligência. Ou um bocado de sorte, as vezes era isso também.

UMA OBRA PRIMA QUE NASCEU DAS LIMITAÇÕES  E TODAS AS COISAS BOAS CHEGAM AO FIM

Doctor Who, ainda hoje, é uma série cujo universo é construído muito mais através de limitações técnicas que acabam sendo adaptadas para um proposito maior da coisa. Por exemplo, originalmente a TARDIS deveria assumir a forma de objetos da época em que estava mas na hora de colocar isso na ponta do lápis os custos seriam proibitivos - então aconteceu que a TARDIS ficou "presa" na forma de cabine de policia azul, o que não poderia ter sido melhor.

William Hartnell, por mais empolgado que estivesse com o personagem, possuía um sério problema de saúde: arteriosclerose. Isso quer dizer que as artérias vão parando de funcionar como artérias - ou seja, levar e distribuir sangue - e por conta disso nada funciona como deveria. Os músculos falham e mesmo o funcionamento do cérebro é seriamente prejudicado.


Durante a série você vê varias vezes Hartnell errando nomes ou comentando coisas aleatórias ao texto (como os recursos de edição na época eram muito limitados, não tinha "CORTA!" e quase tudo ia ao ar). Isso acontece, mas é aí que entra a genialidade do sujeito: ele usou isso a seu favor e abraçou esse seu problema como uma característica do Doutor. Com o tempo, essa se tornou uma das características principais do personagem.

Então, sim, o Doutor erra nomes e fala coisas aleatórias mas é porque ele é um alienígena que transcende o tempo e nem sempre realmente se importa com as nossas bobagenzinhas cotidianas. Isso deu um ar muito mais distante e misterioso ao misterioso "Doutor quem" e por mais que o personagem mude com cada novo ator, essa é uma das poucas constantes para o Doutor.

As vezes é porque ele simplesmente está cagando para você (como o 12o Doutor), as vezes é porque ele é muito antigo e é realmente difícil lembrar de tudo (como o 11o Doutor).

Infelizmente com o tempo a condição de saúde de Hartnell foi se deteriorando e ele passou a aparecer cada vez menos no programa, ao ponto que haviam arcos inteiros sem a presença do Doutor. E como você pode imaginar, Doctor Who sem o Doctor Who é uma série menos do que estelar.

Desde a primeira temporada houveram arcos que tiveram que ser adaptados para não contar com o Doutor, com visível queda na qualidade do mesmo como o das chaves de Marinus, mas ao fim da terceira temporada a situação estava insustentável.

The Celestial Toymaker foi o arco que deixou bem claro que as coisas não podiam mais continuar do jeito que estavam. O roteiro do arco teve que ser jogado fora quase em cima da hora e gravado uma série de episódios que claramente parecem encheção de linguiça. Infelizmente a série precisava mudar.

E foi aí, em seu momento mais triste e sombrio, que nasceu a ideia mais brilhante de todo o programa. Uma ideia tão boa, tão incrível, tão única que faria o programa não apenas durar mas ser um sucesso de audiência mais de cinquenta anos depois: a regeneração.

Muitas séries simplesmente substituem atores sem dar explicação alguma - na verdade produções milionárias modernas ainda fazem isso, como o Máquina de Combate nos filmes da Marvel - mas os produtores da série tiveram uma ideia bem mais ousada e melhor: dizer que foi intencional.

Mas é agora que entra o lance de gênio: o Doutor não apenas mudaria seu rosto e sim sua completa personalidade, dando ao novo ator carta branca para começar como quisesse. De fato, quando Patrick Toughton assumiu como o Doutor ele não tentou imitar a atuação de William Hartnell e sim encontrar o seu próprio Doutor - o que também se tornou um tema recorrente ao personagem, toda 8a temporada da nova série se baseou nisso. Embora eu esteja começando a assistir seus slideshows episódios agora e por isso seja contratualmente obrigado a odiar o novo Doutor, tenho que reconhecer a importância das fundações que ele ajudou a criar.

Doctor Who sempre foi, e ainda é, uma série que tanta erra quanto acerta mas que usa esses erros para improvisar e crescer com isso.

Verity Lambert e Russel T. Daves dando
um role com a TARDIS
UMA SÉRIE A FRENTE DO SEU ESPAÇO E TEMPO

Quando eu comecei a assistir as antigas temporadas de Doctor Who, minha maior preocupação é que a série parecesse muito antiga. "Oh, duh, no shit, Sherlock!". Sim, é uma série de 1963 em preto e branco, mas não é disso que eu estou falando.

Recentemente eu assisti os primeiros episódios de Star Trek e puta que pariu, como essa série envelheceu mal. Não que as ideias de Gene Rodenberry não sejam boas, pelo contrário, puta merda aquele homem não ficava devendo nada a ninguém em matéria de ter ideias originais e com certeza ele comeu o pão que o diabo amassou por colocar um russo ao lado dos americanos nos anos 60 para mostrar que no futuro nós não seriamos tão babacas assim - era meio que a época errada para ser otimista em qualquer coisa relacionada a união soviética.

Mas ainda sim, Star Trek é muito embaraçoso de se assistir. Não por causa dos efeitos especiais ou dos cenários baratos, eu tenho espaço no meu coração geek para abraçar isso de boa e lidar com essas coisas. O que realmente me incomoda é que Star Trek é um produto do seu tempo: a atuação canastrerrima (ainda eram os dias de galãs estilo Clark Gable) do elenco e o sexismo blatante da produção.

Tudo bem, era assim que as coisas eram feitas nos anos 60, mas assistir a forma com que as mulheres eram tratadas ou a atuação ridícula de "galã" do capitão Kirk é engraçado pelos motivos errados em 2016. Então eu meio que esperava isso de Doctor Who de 1963, porque era assim que o bonde rolava.

Para minha grande surpresa, Doctor Who foi uma série muito elegante e ciente das suas limitações desde o começo e muito disso vem, claro, da atuação inspiradíssima de William Hartnell mas os grandes heróis da história aqui são a produtora Verity Lambert e o diretor Waris Hussein.

Verity assumiu como produtora aos 26 anos de idade, a pessoa mais jovem a produzir uma série da BBC até então, e a única mulher como produtora naquela época. Nos anos 60, isso significava que as pessoas diziam na cara dela nos corredores que ela certamente deveria ter dormido com alguém para chegar até ali. Verity era uma mulher a frente do seu tempo, e assim foi a série que ela produziu.

Doctor Who é uma série muito elegante em todos os aspectos, tanto na forma com que lida com as mulheres como na forma com que lidava com os monstros. Embora claramente inspirada nos quadrinhos pulp, a série tentava dar um padrão BBC de qualidade a isso. Então não haviam monstros ridículos em roupas de borracha, robôs ridículos com raios da morte ou discos voadores toscos pendurados em cordinhas, e quando haviam eles eram bem mais do que isso.

Ela lutou muito para transformar algo visualmente ridículo em algo com uma mensagem profunda ou algum sentido, tudo isso com o orçamento de uma xícara de café e duas rosquinhas.

Um dos meus arcos favoritos é Galaxy 4, onde o Doutor e sua gangue encontram uma tripulação de belas mulheres lutando para sobreviver contra uma raça de monstros asquerosos (que para parecerem menos ridiculos, apareciam apenas através de um vidro embaçado) em um planeta condenado a destruição em pouco tempo. As novinhas precisam da ajuda do Doutor para consertar sua nave e fugir. Agora aqui o plot twist: os monstros asquerosos é que são os caras legais aqui e as mulheres bonitas é que são os verdadeiros monstros.

Quantas vezes uma série usou ficção cientifica para elaborar tão bem e de forma tão inteligente a mensagem de "não julgue pela aparência"? Até os dias de hoje, bem poucas.

Verity sempre lutou por esse nível de qualidade e de mensagem em sua série e tenho certeza de que hoje ela ficaria bastante orgulhosa em ver Doctor Who usando estas mesmas ferramentas para falar de temas atuais?


Para mim, boas obras de ficção conseguem criar cenários instigantes que aticem nossa curiosidade, mas que ao mesmo tempo tracem paralelos com problemas debatidos pela sociedade. O elemento fantástico nessas histórias por vezes cria o distanciamento emocional necessário para que o espectador possa refletir melhor sobre determinados temas e Doctor Who já fazia isso desde sua primeira temporada.

Apenas uma série produzida por uma mulher e dirigida por um diretor "marromzinho" (o diretor era indiano e os ingleses não levavam isso esportivamente) nos anos 60 entenderia como usar a ficção cientifica para falar de algo sobre o qual precisa ser falado.

E talvez disso a criação mais icônica da série seja o fruto do trabalho de Terry Nation: um saleiro com um desentupidor de pia e uma batedeira de bolo. Como algo tão bobo, que Terry deve ter juntado enquanto lavava a louça, pode ter se tornado um dos vilões mais icônicos da cultura pop? Resposta: o background.

Os Daleks não são apenas robôs ridículos com raios da morte, eles já foram pessoas como nós que foram mutilados pela guerra e pela radiação (na época a ameaça de uma guerra nuclear era uma preocupação constante, tanto quanto o terrorismo hoje em dia) até se isolarem em conchas de ferro e passarem a odiar tudo que não seja exatamente como eles.

Abra seu Facebook em 2016 e verá que a mensagem está ainda mais válida do que em 1963.

Ah sim, os Daleks fizeram tanto sucesso em 1963 que a BBC passou a ganhar com merchandising, praticamente toda criança na Inglaterra queria brincar de ser uma pequena máquina da morte repleta de ódio, não é adorável? Seja como for, o retorno comercial que a emissora teve com um programa infantil gravado num estúdio furreca estava além de seus sonhos mais molhados.

NÃO É ASSIM QUE FAZEMOS AS COISAS NO OESTE, SUGAR CUBE

Doctor Who tinha dois tipos de episódios: episódios no futuro que ensinavam ciência e possuíam metáforas, e episódios no passado que ofereciam um viés diferente da história ("a história real", como o diretor de drama da BBC, Sidney Newmann, disse).

Todo mundo sabe, por exemplo, que Kublai Kahn (neto do famoso Gengis Kahn e o ultimo grande imperador mongol) era um ditador grosso e rude, cuja melhor ferramenta de argumentação era a bainha de sua espada - mesmo a ótima série da Netflix sobre as aventuras de Marco Polo na Mongólia não desmentem que ele fosse mais grosso do que um dedo destroncado.

Tanto é que por muito tempo o termo "mongol" era utilizado como sinônimo de retardado, de imbecil. Na minha região "mongolão" ainda é usado como ofensa.

Só que na verdade Kublai Kahn era o líder da nação mais avançada do mundo no século XIII. Enquanto a gloriosa Europa chafurdava em lama e peste, a Mongolia possuía um sistema de saneamento básico. Para os padrões da época, Kublai Kahn era um homem muito instruído e apreciador de uma boa partidinha de damas chinesas, esse é o "ditador" que o Doutor encontra quando visita a época de Marco Polo.

Ou então, todos sabem que a revolução francesa derrubou uma monarquia podre e corrupta com a força do povo - qualquer professor de história brasileiro vai delirar em te contar esse épico bravado das classes oprimidas.

O que é pouco dito foi que o reinado de terror de Robespierre e sua gangue tornaram as coisas muito piores. Tanto que pavimentou o caminho para um jovem militar se tornar um dos mais famosos ditadores da história, tentando fazer dois séculos antes o mesmo que Hitler fez no século XX (e com os mesmíssimos resultados, porque aparentemente ninguém consegue ver o quão ruim é a ideia de atacar a Russia no inverno).

Poucas histórias (e menos ainda professores de história) realmente contam o que aconteceu após a celebríssima Revolução Francesa, exceto pelo inspirado arco de Doctor Who.

Ou então, você sabia por exemplo que todo o nosso conceito moderno de faroeste (pense em "Velho Oeste", é exatamente isso que te veio a mente) nasceu de um fato histórico? Na cidade de Tombstone houve um duelo entre a família de bandidos Clanton (ajudada pelo vil Johnny Ringo) e a família de homens da lei, os Earp (ajudados por Doc Holliday).

Esse episódio ficou conhecido como "Tiroteio no O.K. Corral" e é um dos episódios mais famosos da cultura americana (como eu disse, todo o conceito de "Velho Oeste" vem daí). O que pouca gente sabe é que houve outro Doutor envolvido neste episódio além do "Doc" Holliday


E POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE, O HOMEM QUE COMEÇOU ESTA FESTA

No curta Time Crash o Doutor (em sua décima regeneração) disse:
Lá no inicio, quando eu comecei, eu estava sempre tentando ser velho e rabugento e importante, como você faz quando é jovem.
Assistindo a série original com a perspectiva moderna não tem como não se surpreender em como o Doutor é jovem nesse começo. Como um adolescente querendo se passar por alguém mais velho e sábio do que é realmente (todos nós fizemos isso antes de percebemos o quão idiota isso é) e de certa forma, justamente o oposto do 11o Doutor.

O Doutor tocando guitarra sobre um tanque enquanto
enfrenta um viking. Era esse tipo de coisa que eles tinham em
mente quando começaram a série.
O Doutor interpretado por Matt Smith é alguém fabulosamente velho e cansado, mas que se esforça para parecer jovem e despreocupado. O Doutor de William Hartnell é claramente alguém muito jovem e inexperiente se esforçando para parecer "adulto". Considerando os padrões dos Senhores do Tempo (conceito que nem existia naquela época), o Doutor era praticamente um adolescente naquela época.

Essa miríade de camadas se deve a atuação magistral de William Hartnell que ao mesmo tempo conseguia transmitir a sensação de ser um velho sábio com o coração de um moleque atrevido. Hartnell inventou e deu vida a todas as coisas que amamos no Doutor: sua capacidade de resolver qualquer problema conversando e, não raramente, enrolando as pessoas como na vez em que ele enrolou um vendedor a ponto que o cara comprou dele as roupas que o Doutor havia acabado de roubar do próprio vendedor.

O Doutor consegue ser adorável e cativante ao mesmo tempo que você quer socar sua cabeça por sua arrogância de Time Lord, tudo isso graças a grande atuação de Hartnell. Nas primeiras temporadas inclusive o Doutor parece muito mais com o comportamento dos Time Lords que nos acostumamos a ver, no primeiro arco ele quase pisa em alguém que está caído simplesmente por não se importar o bastante. Novamente, vendo a perspectiva do todo é fascinante ver o quanto ele parecia muito mais um membro do seu povo (Time Lords são babacas arrogantes, afinal) antes de "amolecer" pela convivência com os humanos.

Se em seu primeiro arco ele não liga em pisar em alguém caído, em seu último ele não hesita em meter o dedo na cara de um cybermen por ameaçar seus bródis.

E ao mesmo tempo em que ele claramente é um adolescente e faz merdas que a gente só faz quando é jovem, ele passa uma aura de autoridade e confiança de que se há algum problema o Doutor pode resolve-lo. Ele passa uma aura de mistério e magia, vendendo completamente a ideia de que a qualquer momento ele pode tirar uma solução mágica do bolso (ou de seus conhecimentos de Time Lord, para esse proposito).

Com efeito, seu modus operandi padrão era deixar os companions correndo por aí e ir direto a quem manda na parada, sentar com ele e falar com ele até conseguir o que quer. De fato algumas coisas não mudaram tanto assim e esse é o ponto aqui: Hartnell não estava simplesmente interpretando o Doutor, ele estava criando isso do nada.

Ele é o Doutor com todos os flashes de brilhantismo que viriamos a ver posteriormente, mas ao mesmo tempo completamente inescrutável. Mais do que qualquer um, ele levou a cabo o mistério de ser o "Doutor Quem?". Tanto que o máximo que ficamos sabendo sobre ele é uma descrição que a Susan dá sobre Gallifrey (que não tinha nome ainda na época), muito bonita e melancólica na verdade, de seu céus vermelhos e sua grama prateada.

Contudo, apesar de todos os méritos para a sua época, os roteiros ainda eram produtos da sua época. Sobretudo a série que a BBC administrava a série, com uma política muito estranha sobre o prazo de validade dos companions - após mais ou menos um ano ele eram chutados da série sem formalidade nenhuma, as vezes menos do que isso.

Enquanto alguns tiveram um arco de desenvolvimento de personagem e um final (correto ou não, ele ter deixado a Susan foi uma daquelas cagadas de adolescente), mais pro final da encarnação do Doutor as coisas eram feitas meio a toque de caixa sem nenhum desenvolvimento dramático. A Dodô nem despedida teve, apenas sua substituta disse que ela tinha vazado e era isso (o que teve uma resposta ótima por parte do Doutor, pelo menos).

Ainda sim minha sensibilidade moderna gostaria de um pouco de drama mais elaborado, a despedida de Matt Smith como Doutor foi uma cena linda e marcante, e o velho Bill não merecia nada menos do que isso. Ao contrário, muitas cenas dramáticas na série pareceram não desenvolvidas o suficiente parte porque metade da série era no improviso, parte porque era uma coisa da época mesmo. Essa coisa de cenas dramáticas com música de fundo incidental é uma exigência relativamente moderna.



Todas as coisas consideradas, a primeira encarnação de Doutor Quem foi bastante acima das minhas expectativas. Ideias muito criativas, história sendo contada por outros ângulos, personagens femininas fortes (em um tempo que o papel da mulher era ser a mocinha indefesa, Barbara já estava atropelando Daleks com um caminhão), histórias ambiciosas e a semente de tudo aquilo que viriamos a conhecer como "o Doutor" em um velhinho adoravelmente sapeca. Bem além das minhas expectativas e poesia pura, meu rapaz!



MEUS DOUTORES FAVORITOS ATÉ O MOMENTO:

1) Peter Capaldi (12o Doutor)
2) Christopher Eccleston (9o Doutor)
3) William Hartnell (1o Doutor)
4) Matt Smith (11o Doutor)
5) David Tennant (9o Doutor)

Nenhum comentário:

Postar um comentário