domingo, 6 de março de 2016

Kung Fu Panda 3 (ou ninguem fode com Pandaria!)

Existe um charme muito único ao Kung Fu que é a coisa da sabedoria e do encontro espiritual consigo mesmo. Claro, conseguir atirar um homem do outro lado da rua com um soco de meia polegada de distancia é tão legal quanto mas isso é apenas uma consequência da paz interior e da harmonia consigo mesmo.

Em 2008 a Dreamworks conseguiu fazer um filme que retrata bem esses dois aspectos do Kung Fu: que derrubar um exercito de inimigos com as mãos nuas é maneiro pra caralho, mas não é apenas isso e sim uma jornada de iluminação e autoconhecimento sem deixar de ser engraçado e divertido de se assistir.

Seja como a água, meu amigo. Seja como a água:



Claro que ajudou muito a Dreamworks ter reunido um puta elenco de dubladores para dar vida a esse projeto: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Lucy Liu, Jackie Chan, Seth Rogen...

Entretanto há uma pegadinha aqui: animações são tentadoramente fáceis de se escrever já que crianças tem o senso crítico de quem discute política no Facebook. Basta colocar algo colorido se movendo e o trabalho praticamente está pronto, tem um canal inteiro que se sustenta com essa premissa (e como um desenho bom como My Little Pony foi parar no Discovery Kids é um ícone de tudo que há de errado no gerenciamento da televisão).

Por mais criativos e inspiradas que sejam, as animações tendem a ter um começo único e promissor e depois escorregar para filmes feitos por um gerador de clichês programado em java. Sim "Era do Gelo", Madagascar, Minions e Shrek, estou olhando para vocês.

Exatamente por isso é muito surpreendente que uma franquia de animação seja pensada como uma trilogia, não só com coisinhas coloridas se movendo na tela e piadas de pança, mas com desenvolvimento e crescimento não apenas da trama como dos personagens.

No primeiro Kung Fu Panda, Po descobriu que mesmo o mais perdedor entre os gordos pode ser um herói. No segundo ele encontrou a paz interior e consolidou o papel de quem ele realmente é. Agora o que falta então para encerrar a trilogia? Ora, é hora de se tornar um mestre, Leroy.




Zumbis de Jade. A promotoria encerra.
SE VOCÊ SÓ FIZER O QUE SABE, NUNCA VAI SER MAIS DO QUE É AGORA

A Dreamworks teve uma grande sacada aqui para esta animação: obviamente não se pode falar "morte" em uma desenho infantil, mas não tem nenhum problema em dizer "reino espiritual". Pode parecer um detalhe bobo, mas essa pequena sacada faz toda a diferença no filme.

A história começa no mundo dos mortos espíritos quando vemos novamente o mestre Oogway sendo confrontado por um antigo desafeto do passado. O boizão Kai andou ocupado no mundo dos mortos espíritos recolhendo as almas o chii de todos os grandes mestres do kung fu mortos que se tornaram espíritos e com isso está pronto para voltar ao mundo dos vivos mortais para terminar sua vingança contra Oogway: destruir o seu legado para que ninguém se lembre dele como ninguém se lembra de Kai.

Isso quer dizer, é claro, o Palácio de Jade e o Dragão Guerreiro.

Até onde motivações de vilão vão, Kai é um vilão decentemente construído. Claro, ajuda muito que ele tenha o visual inspirado no Kratos de God of War e seja dublado pelo homem, a lenda, o mito J.K. Simons. Dessa vez Po terá que enfrentar ninguém menos do que Cave Fucking Johnson.

E eu destruirei todos os deuses do Olímpo!
Enquanto isso, na ensolarada Filadélfia, o mestre Shifu apresenta a Po um novo desafio: tornar-se um mestre - com resultados altamente previsíveis, e engraçados. A escolha de Shifu de que Po deveria se tornar um professor parece quase aleatória e por um momento cheirou a continuação aleatória.

Ao mesmo tempo, o filme continua onde o 2 parou e o pai de Po aparece (dublado por Bryan "Say my name" Cranston). A um primeiro momento parece que o filme tenta contar três história quase inteiramente separadas: a da vingança de Kai, de Po tentando se tornar um professor e dele lidando com suas origens e seu passado pandarico.

Por alguns momentos realmente parece uma bagunça desordenada, mas paciência jovem gafanhoto: tudo vai se encaixar em seu lugar.

Então por razões, Po vai a última vila de Pandas do mundo junto com seus dois pais (Bolsonaro desaprova esse filme) se encontrar e aprender a ser um "Panda de verdade" e o filme se torna como a água, flui naturalmente e se molda, amarrando as três narrativas com elegância e graça.

A melhor parte do filme (e a maior) se passa no vilarejo Panda onde Po tem que aprender a ser um panda. Mas eis aqui a grande sacada da filosofia oriental: você nunca "aprende" a ser nada, você sempre será você. Se alguma coisa, você deve aprender a ser você mesmo. A jornada de autoconhecimento de Po é repleta de clichés sim, mas não aqueles que você poderia esperar.

PERGUNTAR PORQUE LUTAMOS É PERGUNTAR POR QUE AS FOLHAS CAEM


Se Kai tivesse perguntado ao Garrosh Grito-Infernal, saberia que tretear com uma terra de Pandas é o último erro que você vai cometer.

Como grande fã de World of Warcraft, não tem como não dizer que o filme não me encantou em muito pela magia de Pandaria que ecoa na película. Ao contrário do que parece, na verdade Kung Fu Panda se inspirou em Warcraft e não o contrário: Pandaria e os monges pandarens aparecem pela primeira vez na expansão The Frozen Throne de Warcraft 3, muitos anos antes do filme sequer chegar ao papel.

Seja como for, a paisagem idílica com a trilha sonora típica oriental tem um certo gosto de casa. Eu esperava que a qualquer momento espíritos de sentimentos negativos (também conhecidos como "Sha's" brotassem do chão ou zumbis de jade atacassem. A segunda coisa acontece. É extremamente único e reconfortante ver aquela vida simples e tranquila que os pandas levam na Floresta de Jade vila dos pandas e isso só torna o filme mais emocionalmente denso.

Como foi dito em Kung Fu Panda 2, o imperador Pavão ordenou que todos os pandas fossem executados para impedir que a profecia fosse cumprida e seu rabo emplumado fosse chutado - o que, como normalmente acontece quando você tenta impedir uma profecia, acabou por torna-la realidade. Se isso parece bastante com Avatar: O Último Mestre do Ar, é porque deveria mesmo.

E no terceiro filme o feeling de Avatar é bastante palpável já que os pandas passaram pelo mesmo holocausto que os monges do ar passaram. E por mais pacificia e divertida que seja a vida dos pandas que sobraram, as cicatrizes são implícitas e justamente por isso mais sensíveis. Imagine que existisse um episódio de Avatar em que Aang encontrasse uma última vila de monges do ar mas que houvessem perdido completamente a ligação com a sua cultura e passado, com a qualidade, o humor e o timing divertido porém um tanto melancólico de Avatar das grandes coisas perdidas que jamais poderão ser recuperadas.

Essa é a melhor ideia que pode ser passada sobre o filme, e no meu livro se você está sendo comparado com Avatar (qualquer um dos dois, mas a Lenda de Aang nesse caso) então algo fenomenalmente certo você está fazendo.

Ou no mestre Frango. Se puder escolher, sempre seja
o mestre Frango.
EU NÃO TENHO QUE TRANSFORMAR VOCÊ EM MIM, EU TENHO QUE TRANSFORMAR VOCÊ EM VOCÊ

Como as grandes animações modernas, Kung Fu Panda 3 funciona em níveis diferentes para adultos e crianças. Enquanto trata de temas emocionalmente densos como encontrar o seu lugar no mundo, o que realmente é uma família e o sentimento de perda das coisas que jamais poderão ser recuperadas, ao mesmo tempo segue o estilo de ser uma animação divertida e engraçada sem levar a filosofia oriental tão a sério (porém sem desrespeita-la, em uma linha de equilíbrio muito elegante).

Então enquanto temos todos estes temas profundos e que desperam sentimentos, Kung Fu Panda 3 é um filme de ação putamente divertido. Temos um vilão terrível e uma batalha épica repleta de emoção e entretenimento. Apenas Kung Fu Panda consegue unir sacrifício pessoal e o golpe do dedinho woosh na mesma cena.

O filme, assim como a jornada de seu protagonista, não tenta ser outra coisa e pelo contrário: está perfeitamente confortável em ser quem é. Sabe a hora de brincar e sabe a hora de ser sensível sobre assuntos importantes - assim como Po aprende isso sem nenhum didatismo chato.

O que mais eu poderia pedir de um filme? Kung Fu Panda 3 encerra a trilogia com chave de ouro, amarrando todas as pontas soltas e entregando um produto completo com o qual temos a sensação de termos aproveitado todas as possibilidades.



Talvez a Dreamworks continue a série, talvez não. Mas o arco de personagem de Po está concluído e não tem mais para onde seguir essa viagem - que foi uma divertidíssima viagem, afinal todo mundo ama kung-fu e aqueles garotos eram velozes como um relâmpago (na verdade era meio assustador mas eles lutavam um timing expert)

Obrigado pela aventura, mestre Po.

(e me resta agora esperar pela série da Netflix do Punho de Ferro, mais até do que a segunda temporada de Demolidor, tenho certeza que o padrão Netflix de qualidade vai fazer uma ótima série - porque sério, ele ganhou os poderes dele socando um dragão no coração, não tem como não fazer algo épico com isso)

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