segunda-feira, 14 de março de 2016

[GAMES] Super Mario RPG & Paper Mario RPG: The Thousand Years Door (ou não se fazem mais jogos como antigamente)

O ano era 1996 e a novata no ramo de videogames Sony havia lançado seu videogame a quase um ano - um tal de Playstation, talvez você já tenha ouvido falar dele. O Playstation era um quazilhão de vezes mais poderoso do que o Super Nintendo e o Nintendo 64 - o próximo videogame da Nintendo - não estava pronto ainda.

A Big N teria todos os motivos do mundo para ficar preocupada, afinal o Playstation faria paçoca do SNES brincando. Só que eles não estavam. Nem um pouco.

Diante da nova ameaça a seu império, tudo que o falecido Satoru Iwata (na época presidente da Nintendo e ainda não falecido) disse foi: "Tlagon as almas glandes, né?". Ai trouxeram a alma do Ghandhi e ele teve que pedir as armas grandes por escrito mesmo.

Em sua reta final de vida o Super Nintendo teve uma linha de lançamentos que conseguiu segurar o ímpeto até mesmo do poderoso Playstation. Com efeito, nos anos seguintes Playstation veio a se tornar sinônimo de videogame (sua vó sabe que Playstation é um videogame), mas em 1995/1996 o Super Nintendo segurou a onda.

Mario RPG sambando na cara da
família tradicional cogumelo
Star Fox, Killer Instinct, Donkey Kong Country, Street Fighter Alpha 2, Kirby Super Star, Dragon Ball Z: Hyper Dimension, Front Mission, Chrono Trigger, Super Bomberman 3, Yoshi Island, Final Fight 3...

A Nintendo estava numa fase tão inspirada naqueles dias que apenas por sim, além de tudo isso eles haviam acabado de lançar um joguinho para Gameboy chamado Pokémon - talvez você já tenha ouvido falar desse também.

Mas entre a leva de grandes jogos que encerrou o ciclo do Super Nintendo, tinha um em particular que chama atenção por ser... estranho. Um tal de Super Mario RPG... espera, como assim RPG? Eu já havia visto (e ainda veria) tudo quanto é tipo de jogo do Mario: corrida, esporte, Tetris (Dr. Mario é muito bom, alias), educativo, mas RPG? RPG do tipo RPG de turnos como Final Fantasy?

Mais precisamente, o jogo foi feito pela Squaresoft - a mesma empresa por detrás dos RPGs mais famosos do mundo - e todo mundo teve que prestar atenção que loucura era aquela. Um RPG de Mario, sério?

Mallow, uma nuvem criada por sapos, descobre
uma chocante revelação sobre sua origem...
... ele é adotado! (ta-dan-daaaaan)
UM RPG SEM HISTÓRIA E SEM DESENVOLVIMENTO DE PERSONAGENS... QUE DEU CERTO?

Os jogos da série Mario podem ser famosos por muitas coisas, mas a profundidade ou ambição de suas histórias não é uma delas. Normalmente é sobre uma princesa mocoronga ser sequestrada por motivo nenhum em particular (tirando suas perversões da internet, nunca houve realmente um motivo pelo qual o Bowser sequestrava a princesa), como se faz um jogo sobre isso?

Quer dizer, tecnicamente dá para fazer, mas ficaria tosco...

Só que a Squaresoft não fez um jogo sobre isso, mas fez sobre um tema quase tão nas coxas quanto: um vilão precisa juntar sete itens (estrelas magicas no caso) para ganhar PODER ILIMITADOOOOO e cabe a Mario e seus amigos o impedirem. É isso, basicamente.

Definitivamente não ganharia o premio de melhor roteiro, esse tanto eu te digo.

Para adicionar insulto a injúria, não é como se os personagens da série tivessem lá muita personalidade. O que você sabe dizer sobre a personalidade do Mario? Pois é, como encher um RPG de mais de vinte horas - que depende muito de dialogo, obviamente - com isso?

Não tinha como dar certo. Só que deu.

Minha vida sentimental pode ser descrita numa citação do Booster.
BOSTER, cara!
O grande pulo do gato, o grande truque aqui foi que a Squaresoft percebeu o quão idiota era a ideia de fazer um RPG do Mario e completamente abraçou essa ideia. O jogo em nenhum momento se leva minimamente a sério e essa é a beleza da coisa toda.

Mario, por exemplo, não tem personalidade, ele simplesmente não fala. Como então ele se comunica com as pessoas do mundo? Através de mimica, e esses momentos são puro ouro.

Toda a narrativa da coisa tem um ar de galhofada, o jogo começa com Mario invadindo (DE NOVO, o jogo não se furta em debochar disso) o castelo do Bowser para salvar a princesa quando o confronto entre eles é interrompido pelo vilão das estrelas lá.

Assim Mario e sua gangue rodam um mundo repleto de referencias aos jogos da série (mas não limitado a elas) passando por um inimigo mais paspalhão que o outro e isso é muito divertido. É uma patetice tão honesta e sincera que você até nem dá bola que o jogo não tem história ou grandes coisas de personagens.

Adicione a isso um sistema de combate muito funcional (porque RPGs meio que eram a especialidade da Squaresoft) e gostoso a gráficos impressionantes para o Super Nintendo. O jogo é tão gostoso que na época meu inglês não podia nem ser chamado de primitivo porque homens das cavernas são muito bem articulados e eu jogava mesmo assim porque o gameplay era gostoso e o jogo visualmente impressionante.


Né gente, pq senão vira bagunça
Apenas recentemente eu assumi a tarefa de jogar o jogo novamente, e fiquei deliciado sobre o quão leve e divertido ele é.

Como se não fosse bom o bastante, a Squaresoft ainda adicionou diversos minigames e coisinhas para se fuçar nos cenários e nas cidades. O jogo é repleto de segredos e o nível de atenção que eles colocaram no jogo é incrível.

Mesmo passados 20 anos, Super Mario RPG ainda é um jogo tremendamente agradável de se jogar mesmo pelos padrões de hoje.


Não há muito que eu precise dizer sobre Super Mario RPG que já não tenha sido dito nos últimos 20 anos (completados agora em março de 2016).



Parecia que havia sido descoberto um novo paradigma, agora já existia uma trilha a ser percorrida e nos anos seguintes a Nintendo só precisava polir essa receita.

PAPER MARIO RPG: THE THOUSAND YEAR DOOR

Os anos seguintes foram menos do que estelares para a Nintendo. Atropelada pelo locomotiva que foi o sucesso do Playstation, ela ainda assistiu ninguém menos do que a Microsoft entrar na brincadeira (apenas o que a Microsoft paga de vale-refeição a seus funcionários já compraria a Nintendo duas vezes) e dias sombrios vieram para a produtora japonesa.

Não tema, caro Bowser, tenho o jogo
perfeito para você...
A Nintendo já não possuía boa relação com as produtoras de jogos - seu modelo de gestão de negócios eram tacanho e baseado no "não gostou? Vai na concorrência então... opa, não tem nenhuma!" - e quando a Sony surgiu acenando com maços de dinheiro elas não hesitaram duas vezes em pular para o time favorito do Yudi.

Incluindo aí a Squaresoft, o que significa que nunca houve um Super Mario RPG 2... mas não significa que a Nintendo tenha se dado por vencida. Ela decidiu ela mesma fazer o seu RPG (através da sua subsidiaria Inteligent Systems) e disso nasceu a série Paper Mario.

Eu nunca tive um Nintendo 64 e logo não joguei o Paper Mario original, mas todas as opiniões apontavam unanimemente que a continuação para o Gamecube, Paper Mario: The Thousand Year Door era o melhor jogo da série.

Então vamos começar pelo melhor, o que poderia dar errado?

Quando o jogo precisa pedir ao jogador para prestar
atenção... eu tenho um mal pressentimento sobre isso
VOCÊ TINHA UM ÚNICO TRABALHO!

A Inteligent Systems tinha um caminho simples a seguir e trabalhar em cima disso: pegar a essência de Super Mario RPG e colocar todo o poder de processamento do Gamecube, não era pedir muito.

E com efeito, eles acertaram em muitas coisas já que o jogo tem elementos divertidíssimos e muito bem bolados. Ele mantém um sistema de combate simples porem interessante com aquela pegada de pegar os clichês de RPG e construir uma piada com cara de jornada épica em cima dele, além de que algumas ideias são simplesmente geniais.

Um dos capítulos, por exemplo, é sobre "A Comilança no Expresso Excedente" e todo o capitulo se passa em um trem, parodiando o grande livro da Agatha Christie. É uma das ideias mais inspiradas que eu já vi em um videojogo.

Weegie está farto das suas merdas, Steven
Ou então por exemplo, durante sua jornada você cruza com o Luigi e ele também está vivendo sua aventura. E pelo que ele conta da aventura dele parece bastante épica, mas ninguém dá a menor bola pra ele porque é o fucking perdedor Luigi! Genial, Luigi é o Jerry do Super Mario!

Como eu disse: diversas coisas são feitas brilhantemente neste jogo. Masmorras criativas, diálogos inspirados, NPCs bem escritos, cada um dos seus companions tem habilidades únicas que podem ser utilizadas para explorar o mundo fora do combate, e por aí vai.

Sério, não faltam boas ideias para Paper Mario: The Thousand Years Door. A história, assim como o Mario RPG original, é perto do inexistente (juntar sete estrelas de cristal, tesouro, blablabla) mas mesmo uma história pífia se vira bem feita de uma forma divertida com boas sacadas.

E tal qual o jogo original, não tenho duvida que TTYD seria um excelente jogo para suas 10 horas de duração.

Pena que ele tem mais de trinta.

Se eu achei Majora's Mask ruim, TTYD é uma aula de como encher
linguiça. O jogo é tão ruim que tiveram que colocar um NPC para te dizer
(ao custo de algumas moedas) para onde você tem que ir! Sério, eu nunca
vi um negócio desses antes!
METODICAMENTE PARA TE MANTER APENAS VAGAMENTE VIVO

Eu assisti Deadpool ontem e entre os experimentos que o tornaram "o" Deadpool, havia um que consistia em uma câmara de pressão que esvaziava o ar até você sufocar e ficar 0,01% vivo... para então te dar um pouco de ar e começar o processo novamente. Jogar TTYD é uma experiência muito parecida com isso.

O jogo te afoga em tanta merda, tanta lazarentice e design ruim (quando não apenas meramente preguiçoso) até você ficar 0,01% perto de largar o jogo de vez... e então te atira uma boia o suficiente apenas para você continuar jogando e a tortura recomeçar.

Todas as coisas boas do jogo, e que até nem são tão poucas assim, são diluídas em um oceano de coliformes fecais que fariam as praias do litoral gaúcho parecerem o Caribe por comparação.

Um jogo do Mario que se passa no Brasil,
quem diria hã?
O design das dungeons é ótimo, mas é casado com uma quantidade ofensivamente preguiçosa de backtracking. Claro, temos uma grande fase... então vamos te mandar atravessar ela e voltar pelo menos 5 vezes sem lá grandes justificativas. Como tudo nesse jogo é longe e burocrático, RPG feito da forma mais preguiçosa possível.

Esses AMADORES que nunca jogaram um adventure de texto nos anos 80 devem ter achado brilhante ("uau, adicionamos horas de jogo com esforço zero, como será que ninguém nunca pensou nisso?" - pensaram SEUS FILHOS DA PUTA, SE CHAMA ANOS 80!) pra forçar o cara a ir de um lado para outro para usar itens por nada só pra dar mais voltinha: opa, encontrei uma caveira com um encaixe de uma joia, conheço um cara que tem  uma JOIA QUE ENCAIXA NESSA BIROSCA LÁ NO COMEÇO DA DUNGEON, então toca o desgraçado a fazer todo o caminho de volta.

Aí no começo da dungeon O CORNO CARCUMIDO ESCOLEOSO te diz que vai te dar a joia se você conseguir um coco, que fica lá NA PORRA DO FINAL DO CU DA DUNGEON E QUE TU PASSOU POR ELE MAS NÃO PODIA PEGAR. Aí vai o batemtope lá pro final da dungeon buscar a cornice do coco. E volta o roscafroxa para o começo da dungeon para entregar o coco e pegar a porra da joia pra enfiar na merda do olho do cu da caveira que adivinha só? FICA LÁ NA PUTA QUE PARIU EM CHAMAS ARDENTES SATANICAS INFERNAIS DO FIM DA DUNGEON!

MAS VÃO SE FODEREM! VÃO SE FODEREM COM CHOQUITO E LEITE CONDENSADO!

Aí não tem santo paquito que aguente uma putaria dessas, e a desgraça do jogo todo é desgraçada assim! Eu realmente não tenho palavras para descrever os níveis de preguiça que o jogo emprega para aumentar artificialmente sua duração, sério, EU fiquei constrangido jogando essa coisa, EU me senti mal pela nenhuma vergonha na cara que esses amarelos safados não apresentaram!

Naturalmente, Bowser não é uma constante do jogo.
Caso contrário haveria o risco dos jogadores se divertirem
e eles não queriam isso.
Esse tipo de expediente vagabundo e malemolente que é ao que eu me refiro que para cara coisa boa que o jogo tem, um oceano de desgraça segue. Pra ter uma ideia do quão desavergonhado é esse jogo em comer tempo com merda, em determinado momento você tem que ouvir um personagem repetir a mesma frase CEM VEZES para poder prosseguir. Não é brincadeira.

Toda e qualquer arma de design ruim pode e será usada contra você!

Um excelente estágio final casado com um chefe tosco e diversas cutscenes com papinhos de anime sobre amizade. Uma arena que não é opcional, mas obrigatória. E então de vez em quando você tem momentos de pura genialidade como jogar as fases do Mario Bross original com o Bowser e você pensa "Ok, não vou desistir desse jogo ainda." E então o backtracking e as quests de buscar coisas idiotas recomeçam por mais algumas horas.

Isso é sádico, é cruel, é pior que obrigar alguém a assistir a décima primeira temporada de Supernatural!

Como eu disse, TTYD poderia ter funcionado como um jogo de 15 horas. Mas com 15 horas você não está nem na metade do jogo! Esse é um RPG DEMORADO PRA CARALHO e o jogo não se carrega sozinho. Jogar isso é uma tarefa, não uma diversão. Nada acontece e os pequenos bons momentos são soterrados por um oceano de mediocridade. Piadinhas só podem levar uma história nas costas até certo ponto (cof *Deadpool* cof).

Caralho, Adelle, já deu!


O que eu estou dizendo pode parecer loucura para a maioria dos gamers, mas jogos deveriam ser divertidos e TTYD não diverte. DICA DO DIA: se a sensação que você tem quando termina um jogo é de ALIVIO, então alguma coisa errada não está certa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário