segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

[OSCAR 2016] Ponte dos Espiões (ou o pior advogado do mundo)

Vou apresentar aqui uma equação bem maneirinha para você: os irmãos Cohen são conhecidos por seus roteiros cínicos, frios, sem heróis e onde o "cara mau" usualmente triunfa. Steven Spielberg é conhecido por seus filmes positivos, para família e de entretenimento. O que aconteceria então se juntássemos os dois?

Ponte dos Espiões é este filme escrito pelos irmãos Cohen e dirigido por Spielberg e para surpresa de pouca gente, o resultado é um meio termo competente. Que pode ser "bastante" competente ou "apenas" competente, dependendo das suas expectativas.

MY NAME IS ABEL, RUDOLF ABEL

Existem duas formas que o cinema retrata o tema espionagem: altas perseguições, estripulias, piruetas e pegação de novinhas (ou seja, muita baderna que o Change Dragon desaprova), ou uma pegada mais realista em que os espiões nada mais são do que funcionários públicos ganhando diárias. Ponte dos Espiões segue a segunda opção e começamos com a nada dramática vida do espião soviético Rodolfo Abel que entre tomar chá de camomila e pintar quadros, recebe bilhetinhos com babados do governo americano.

O irmão da Athena inclusive protagoniza uma das cenas de perseguição menos emocionantes da história do cinema. Após um começo que deixa claro que espionagem é apenas uma forma glorificada de burocracia, Abel é preso e é então que o filme começa de verdade.

Tom Hanks (baseado na história real de James Donovan) é o advogado escolhido pelo governo americano para representar o espião em sua condenação. Veja que eu não disse julgamento, eu disse condenação já que ele iria ser condenado de qualquer forma, o governo americano só achou que ficaria chato se ele não fingisse que o soviético teve um julgamento justo mesmo que seja só pra inglês ver.

Direitos americanos para americanos direitos!
Tudo teria corrido muito bem se não fossem esse cachorro idiota e esses meninos intrometidos o fato que o governo estadunidenho escolheu o pior advogado do mundo para o caso. Donovan possuía um defeito terrivelmente grave para a advocacia e muito me surpreende sua família não esteja hoje mendigando esmolas na nevasca que atingiu os US and A recentemente.

Donovan tinha consciência e um coração, e isso é algo que advogado algum se permite ter. Tenho bastante certeza que existe um semestre (nem é uma cadeira apenas) dedicado a desumanizar os advogados, dadas as experiências que eu tenho com os profissionais da categoria, mas pode ser que isso tenha começado depois da traição histórica de Donovan - imagino que até lá os advogados se comportavam como cretinos sem escrúpulos apenas por um dever moral.

Seja como for, Donovan se opõe aquela palhaçada e é aqui que eu percebi que muita gente dormiu assistindo o filme (não que eu culpe, o começo não é exatamente eletrizante). A maior parte das criticas negativas que eu li a respeito do filme questionam como o sistema de justiça americano é belo e invencível, como se o filme fosse uma babação de ovo de duas horas em cima dos Estados Unidos.

Show de bola, só que o filme não é assim. O filme não poupa acidez para demonstrar o quanto o sistema é corrompido e as leis são um mero inconveniente aos propósitos do país - tanto que a cena do julgamento é substituída por uma tomada de crianças na sala de aula jurando a bandeira americana. O que foi a mesma coisa.

De todos os apelos legalmente fundamentados de Donovan para salvar o seu cliente, o único que não cai em ouvidos surdos é o de caráter utilitarista: ao menos o espião russo pode vir a ser útil no futuro.

A maior crítica que pode ser feita é que não mostra os Estados Unidos torturando seus prisioneiros soviéticos como os russos faziam com os seus, mas não tenho tanta certeza se isso realmente acontecia. Acho até que foi mais pelo estilo do Spielberg dirigir do que ser "politicamente correto" com os Estados Unidos, não consigo imaginar um filme dele com um velhinho sendo torturado.

Seja como for, o meu ponto é que onde isso é ser uma patuscada patriótica? O filme debocha abertamente do sistema de justiça americano (e do modo americano de fazer politica externa) e o advogado que quer fazer as coisas funcionarem como deveriam ser é tratado como uma aberração lelé da cuca. Deus, não imagino que tipo de pesquisa essa última frase vai atrair para o meu blog...

Me surpreende que até mesmo um analista de cinema renomado como Rubens Ewald Filho pegou no sono durante o filme e acordou lá pela metade "hã? O que? Morte ao imperialismo yankee!". Vai entender.

ENTRANDO COM TUDO NA PERESTROIKA

O modelo comunista é tão atrasado que ainda usam a paleta
de cores de "Os Miseráveis".
TURN DOWN FOR WHAT!
O filme poderia se arrastar por mais uma hora sobre o tema, sobre batalhas legais e sobre o quanto os Estados Unidos não eram melhores do que os soviéticos moralmente, mas então algo muito mais legal acontece: o filme passa a ser sobre uma coisa inteiramente diferente, é quase outro filme e um filme bem melhor.

Como Donovan previu, um espião americano é capturado pelos soviéticos (verdade seja dita, o filme já vinha construindo isso desde o começo) e o governo americano propõe uma troca do seu espião pelo deles. Agora a pegadinha: "oficialmente" o governo americano não vai fazer nada, Donovan que vai pra lá como representante do seu Abel fazer uma negociação inteiramente civil.

Porque isso é tão interessante? Porque "lá" é a Alemanha Oriental na época que estavam erguendo um muro. Se a visão cínica dos irmãos Cohen do governo americano na época do Macartismo é deliciosa, a visão deles do mundo comunista é um tom de comédia surreal.

O grande lance aqui é que as pessoas tendem imaginar o comunismo como o irmão menos famoso do nazismo mas a verdade é que enquanto tinha lá seus gulags, 90% do sistema comunista era apenas burocracia, O filme acerta em não tentar demonizar os russos quando na verdade eles eram em sua maioria apenas funcionários públicos, apenas isso.

Donovan não saberia lidar com ditadores sanguinários sem alma, mas funcionário públicos desapaixonados é algo com o qual ele poderia trabalhar. Assim ele parte em uma jornada pessoal para enrolar o governo americano, o governo soviético e o governo da Alemanha Oriental (que aquela altura não estava totalmente integrada a mãe Rússia) para trocar dois prisioneiros americanos pelo seu bom e velho Abelão.

É nessa parte que o cinismo prático dos irmãos Cohen casa perfeitamente com a utopia heroica de Spielberg e o filme funciona em seu melhor. Donovan não é um herói idealista e não tem ambições maiores do que salvar uns caras e ir pra casa, nem tem super poder nenhum senão usar o sistema contra ele mesmo - basicamente que é o que um advogado faz.

Para sorte dele, o mundo comunista não é nada senão um enorme sistema. Adicione a isso a bizarrice que só um mundo estatizado pode criar (como as pessoas se acotovelando para tentar passar para o lado bom do muro... sendo que nem a quinhentos metros dali tinha passagem abertas que qualquer um poderia cruzar) e temos alguma diversão. A cena da gangue de ladrões cavalheiros alemães é pura arte.

GLASNOST VELHA É QUE FAZ COMIDA BOA

No fim o filme é bastante redondinho e consegue entreter durante suas duas horas e meia enquanto alfineta os dois regimes de forma inteligente e pouco explorada. São quase dois filmes em um só, e a direção de arte corrobora essa ideia com cenas ensolaradas durante o dia nos Estados Unidos e cena lúgubres no inverno soviético, mas não se engane: ambos os lados são espezinhados de uma forma sútil e inteligente.

É bem verdade que o filme soe tanto prolixo e tenha lá sua série de pieguices – que é até uma marca registrada do diretor. A cena final no metrô repetindo um momento do longa, retratada depois de modo vitorioso e o encontro familiar são exemplos de excessos que podiam passar. Mas nada que manche de alguma maneira a excelência artística, política e social da obra num todo. “Ponte dos Espiões” é sem duvidas um dos filmes mais interessantes de Steven Spielberg em anos.



Ah sim, por fim, vejo que muita gente entendeu o título do filme errado. Não é um filme sobre espionagem, quais são os segredos de Abel por exemplo não são nem vagamente importantes. O título "Ponte de Espiões" foi baseado no livro "Uma ponte entre espiões" e se refere ao advogado que faz a ponte entre os espiões capturados,  mas a espionagem em si (alem do fato deles serem espiões) não é parte relevante do filme. Foi uma pegadinha do malandro, rá!

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