sábado, 6 de fevereiro de 2016

[OSCAR 2016] A garota dinamarquesa (ou o filme que eu sou descolado demais para gostar)

Diversas vezes na história do Oscar um ator ou filme recebeu o prêmio por questões que tinham menos haver com o que estava dentro da tela e mais com o que estava fora dela. Ou deixou de ganhar também.

Essas coisas vem e vão: em 2014 "Doze Anos de Escravidão" ganhou por ser um filme sobre o racismo, em 2016 Michael B. Jordan (por Creed) não foi indicado ao Oscar de melhor ator por ser negro. São aves de verão.

Mas uma coisa que nunca aconteceu e provavelmente vai acontecer esse ano é um ator ganhar o prêmio de melhor ator não pela atuação ou pela conjuntura politica-social do momento e sim por causa de ... memes da internet.

A internet pode (e provavelmente vai) ganhar seu primeiríssimo Oscar através de Leonardo Di Caprio e sua atuação em "memes sobre ele nunca ganho o Oscar". O que é uma pena, porque Eddie Redmayne (vulgo Stephen Hawkin) totalmente deveria ganhar o bicampeonato do carequinha dourado. Ou de melhor atriz, os pronomes daqui para frente ficarão confusos.

Dessa vez ele não foi indicado por interpretar um Dalek (teve alguma haver com o drama do maior gênio vivo, mas sabemos que o premio foi pela interpretação de Dalek mesmo), mas sua atuação é tão boa quanto e torna assistível um filme que de outra forma não teria muita coisa de interessante.




Existem algumas coisas na vida que eu jamais vou conseguir entender: por que mulheres vão em baladas (dos homens eu consigo extrair um objetivo prático), por que os homens comentam em fotos de gostosas no Facebook em paginas de putaria como se estivessem conversando com a mulher, e acima de tudo isso, por que as pessoas acham que tem que ter uma opinião sobre o que os outros fazem com suas respectivas bundas (e pintos, como neste caso).


Minha posição sobre qualquer tema "polêmico", basicamente
Em 2015 ainda é motivo de polêmica ou tabu que alguém queira se vestir ou mesmo se identificar fisicamente como alguém de outro sexo e isso está além do que eu consigo compreender. Quer dizer, porque isso seria sequer relevante em primeiro lugar? Se o cara quer dar a bunda ou quer ser chamado de Janice (fazendo inclusive uma cirurgia muito complicada para isso), então deixa o cara se chamar Janice ué. Desde que não faça mal aos outros, ele pode muito bem fazer o que lhe der na telha, porra. Ainda mais se for algo vitalmente importante pra ele. Porque alguém, e mais importante, porque eu deveria ter sequer uma opinião sobre isso está além de mim.

De igual modo eu não entendo esse tesão que as pessoas tem ao se meter em assuntos que não lhes dizem respeito como opção preferencia (não é uma opção) e gênero sexual, aborto e eutanásia. Ou porque governos tem que meter nessas coisas.

Dessa forma minha reação durante quase metade do filme sobre os problemas de Einar Wegener em querer ser uma menina se resumiram a:


Racionalmente eu sei que é realmente importante para as pessoas serem cuzonas e tornarem a vida de todo mundo o pior possível. Se tem algo pelo qual nossa espécie se destaca na natureza, é o quão longe estamos dispostos a ir apenas para estragar o dia de alguém. Eu sei disso, é um dos motivos que eu evito sair de casa sempre que possível e pelo qual uso um addon que bloqueia os comentários na internet, mas mesmo assim... BUT WHY?

Einar quer se chamar Lili e ter uma vagina, bom pra ele, cara. Ou pra ela. De verdade, boa sorte ae. E se não quiser tudo bem também. Mas eu honestamente não consigo entender porque isso deveria ser sequer polemico, quanto mais virar um filme. Novamente, eu entendo a época e o pioneirismo e tudo mais, RACIONALMENTE eu entendo que tudo isso é importante, mas por dentro meu lado mais honesto não conseguia deixar de gritar: "... BUT WHY?!?"

Não, sério, mas pq?

UM ENSAIO SOBRE O AUTISMO

Cheguei a conclusão que "A Garota Dinamarquesa" é um filme sobre transexualidade, obviamente, mas também é um filme sobre autismo. Isso porque o filme na verdade são dois filmes bastante diferentes: o filme que o diretor filmou, que é muito cafona, e o filme que Redmayne atuou, que é muito bom.

Explico: o filme em si é bastante brega, previsível, repleto de clichés e por mais surpreendente que pareça, politicamente correto. Ele tem a graça de um estivador numa loja de cristais. Paralelo a isso, Redmayne tocou o foda-se para o que diretor estava falando e em seu próprio mundinho fez sua atuação completamente a parte: ela é sensível, delicada, elegante e repleta de nuances que fogem das escolhas fáceis.

Algumas vezes, é claro, Redmayne não consegue fugir do shitstorm que foi colocado para ele e sua atuação superior se choca com o mar de clichés e cenas bregas que constituem o resto do filme, mas o que define grandeza não é não ter problemas e sim a forma como lidamos com eles.

"... i can't hold it anymooooore!". Ok, foi bom eu não ter
assistido no cinema, eu totalmente teria cantado.
Então, sim, todas as cenas bregas sobre o tema que você pode imaginar estão lá: quando Einar vê uma peça de roupa feminina, ele começa a alisar ela e a divar loucamente. Quando o casal está feliz eles passeiam com o cachorrinho no parque. Em determinada cena a mulher está triste e sai no meio de uma chuvarada. "Mas você não deveria levar um guarda-chuva?" alguém mais bem intencionado poderia perguntar, e a resposta dela seria: "Você está louca? Como eu vou parecer triste chorando na chuva usando um guarda-chuva?!?".


Como eu disse, breguice e escolhas piegas por todos os lados. O que torna esse filme verdadeiramente assistível é a atuação de Redmayne que foge das escolhas óbvias (quando consegue, ele ainda tem um roteiro a seguir) e entrega uma experiência verdadeiramente autentica.

Sua postura feminina não é estereotipada, ela passa na verdade a angustia de alguém que está desconfortável com o próprio corpo. Ele não tenta fazer uma voz fina de falsete (que ficaria tosca) e coloca sua feminilidade na voz de outras formas. São várias pequenas escolhas do ator que conferem uma autenticidade a personagem que você não está vendo ali o rapaz que ganhou o Oscar por interpretar um Dalek o Stephen Hawkin (naquela vez também uma atuação brilhante em um filme não tão bom assim) ou que tentou assassinato coletivo por narcolepsia em Júpiter Ascending. Não, seu poder de convencimento como Einar/Lilly é perfeito.

A impressão que passa é que o diretor apostou todas as fichas na performance do ator  e nem se preocupou com outras coisas essenciais de um filme. Sim, o rapaz brilhante como mocinha, mas um filme é muito mais do que banda de um homem-mulher só. O resultado foi esse filme, vazio.

E a maior prejudicada é sua esposa Gerda (interpretada por Alicia Wikipédia... acho que é esse o nome, sei lá, a Natalie Portman menos branquinha)

A CRONICA DO QUE FOI E DO QUE PODERIA TER SIDO

Ao assistir o filme eu pensei "Tem algo de podre no reino da Dinamarca". Em parte porque sempre quis usar essa frase, mas enfim. O ponto é que o trailer dava a entender que o relacionamento de Lili e Gerda seria um pouco diferente. Depois de assistir o filme fui pesquisar a respeito do diário que inspirou o mesmo, e minhas suspeitas se provaram corretas.

No original e no trailer, dá a entender que Gerda é bissexual e leva seu relacionamento com seu marido/esposa de boas dentro dos limites do possível. Para minha surpresa, o filme é muito menos liberal do que isso.

Toda a coisa do relacionamento "moderno" é substituída por um draminha de dupla personalidade que parece alienígena dentro da trama. Einar como Lili não é mais ele mesmo, é uma pessoa completamente diferente como se fosse outra regeneração de um Time Lord.

A impressão que dá é que o diretor quis tornar o filme mais palatável a família tradicional americana e transformou um  grande naco do que seria a discussão sobre transexualidade em um draminha furreca sobre dupla personalidade.

Ou talvez seja apenas mau gosto para escolhas narrativas, não é como se o filme tivesse poucas delas e eu totalmente vejo frases como "posso falar com o meu marido?" dentro da breguice estipulada pelo filme (que tem até um triangulo amoroso estranho, ESSE nível de cafonice com o qual estamos lidando afinal. Puta merda gente, ele é transexual, não o incrível Hulk!

Seja como for, a questão é que o tema principal do filme é diminuído por uma enjambração  sem muito fundamento e aí não tem São Redmayne que salve.

O filme é todo muito bonito, com uma excelente fotografia e enquadramento. Talvez até bonito demais ao ponto de parecer forçado (reino da breguice, vinde a mim) mas o ponto é que eu realmente não consegui entender qual era o ponto do filme.

O relacionamento de Einar/Lili e Gerda é substituído na hora importante por um drameco de dupla personalidade que nunca emplaca, o filme não é uma critica social que provoque grandes pensamentos ou parece ter qualquer proposito maior e eu tenho sérias dificuldades de sequer entender porque esse é um assunto polemico além de "as pessoas são cuzonas".

Uma critica social muito melhor e mais crível sobre transexualidade é o episódio de My Little Pony: Friendship is Magic da última temporada em que o Big Mac se veste de mulher égua(Brotherhooves Social). Dica do dedão pra cima: se o seu filme sobre o tema é mais conservador que a ultra conservadora pensem-nas-criancinhas Hasbro, é porque algo de errado você está fazendo. Muito.


Eu acho que o filme seria muito melhor se o diretor tivesse assistido pelo menos esse vídeo do ótimo Canal do Pirula para entender o mínimo sobre o tema, mas mesmo que não, apenas tivesse algum tema para propor. Porque do jeito que foi feito ficou muito parecendo cena de novela ultra liberal e progressista ... com a chocante cena de um selinho entre dois caras. Oh, família tradicional brasileira! Oh!



Alias é a segunda vez que o Redmayne pega um filme apenas regular e salva o dia gloriosamente, me pergunto como será o dia em que ele pegar um filme bom de verdade...





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