segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Gravity Falls (ou até mais e obrigado pelas estranhices)

"Se você já viajou pelas estradas do noroeste pacífico, provavelmente viu um adesivo de carro de uma cidade chamada Gravity Falls.
Não está em nenhum mapa e a maioria das pessoas nunca ouviu falar.
Algumas pessoas acreditam que é um mito.
Mas se você estiver curioso, não espere.
Faça uma viagem.
E a encontre.
Esta lá fora escondida em algum lugar na floresta.
Esperando."

Uma coisa curiosa sobre a infância é que se você for colocar na ponta do lápis, ela é muito menor do que nós lembramos do que ela foi realmente. Por exemplo, eu lembro de ter assistido Jaspion por anos e anos a fio, mas a série foi transmitida pela Manchete por menos de três anos e certamente eu não assisti durante os três anos todo.  O que são dois anos e pouco, afinal?

Só pensar que se uma série tem menos que três temporadas fica um gosto amargo de que ela não foi tudo que poderia ter sido, não dá nem pra saída... Mas mesmo assim eu tenho para mim que foi algo que durou uma eternidade na televisão (no bom sentido da palavra).

Porque é assim que as coisas são quando somos crianças, e um verão de três meses parece durar uma experiência de uma vida inteira, você sabe como é. E se não sabe, bem vindo a Gravity Falls onde Alex Hirsch e sua equipe de produção compartilharão suas memórias daquelas férias de verão que pareciam durar para sempre.

Com muitos robôs gigantes, gnomos, unicórnios e demônios pandimensionais. Mais uma vez, seja bem vindos a Gravity Falls.


NOSSA HISTÓRIA COMEÇA A MAIS DE DEZ ANOS ATRÁS, EM UM DESENHO NÃO TÃO BOM ASSIM...

Existem muitas coisas que eu não consigo fazer mesmo que minha vida dependa disso. Ter uma conversa fiada, pesar menos de três dígitos e gostar de Hora da Aventura. Simplesmente não consigo: é aleatório e incomodo apenas pelo prazer de ser aleatório e incomodo, não possui um proposito (além de, como citado, ser aleatório e incomodo) e apenas não funciona.

Mas isso não quer dizer que Hora da Aventura não tenha sua relevância: ele abriu as portas para uma nova era dos desenhos animados na televisão. Desenhos animados agora podiam ser estranhos e únicos, bastava apenas usar essa nova força para o bem. E enquanto Hora da Aventura não faz isso, a equipe e circulo de amizades de Pendleton Ward (criador de Hora da Aventura) levaram sua ideia ao próximo passo evolutivo.

Rebecca Sugar (roteirista e artista de storyboard de Hora da Aventura) criou seu próprio desenho animado que não por acaso é o melhor desenho da televisão atualmente: Steven Universe. Patrick Mchale partiu para o elogiado Over the Garden Wall e Alex Hirsch (que frequentou a falcudade de Artes da Califórnia com ele) criou o não menos espetacular Gravity Falls

Sabe uma forma muito simples de detectar se alguém é um idiota? Mas simples mesmo? Basta ver alguém dizer: "Não se fazem mais desenhos bons como antigamente". De fato, não se fazem desenhos como antigamente: ainda bem, porque estamos na era de ouro dos desenhos animados e nunca a televisão viu tantos desenhos tão bons em uma mesma época. Sim, mais até do que nos anos 90.

Méritos reconhecidos, vamos para esta cidadezinha no cu do Judas ...

... ONDE A GRAVIDADE CAI

Gravity Falls conta a aventura de dois gêmeos, Dipper e Mabbel, que são despachados pelos seus pais para passar o verão no interior com seu tio-avô (doravante tivô) Stan. Stan é um trambiqueiro rabugento profissional e vive de uma cabana de atrações fajutas para tirar dinheiro na cara dura de turistas.

Nossas aventuras começam quando Dipper encontra um misterioso diário com os segredos misteriosos desta cidade. Logo no primeiro episódio, ele tem que enfrentar gnomos que sequestram sua irmã para ser a rainha gnômica deles, o que acaba em uma épica batalha entre um mecha formado por gnomos e um soprador de folhas. É. Pois é. Isso mesmo. É assim que as coisas rolam por aqui.

Entre uma aberração hilariamente disfuncional e outra como os MANOTAUROS ou a namorada virtual yandere de um Dating Sim que ganha vida (é, eu sei, pois é) Gravity Falls (a série) presta grandes homenagens as séries de conspiração (a muita coisa, na verdade) e a cidade possui segredos encobertos pelo governo, outros que envolvem viagens no tempo e mais algum, envolvendo dimensões paralelas.

A tonica da série era que Alex pegava um tema e pensava "ok, como podemos deixar isso o mais épico e divertido possível?". Assim temos um estranhocalipse que não deixa nada a desejar para Mad Max, uma guerra épica e feroz entre ... os povos que vivem dentro de cada pista do campo de mini-golfe e viagens no tempo que despertam a fúria do Bebê do Tempo.

É como se a equipe de criação tivesse uma consultora Rainbow Dash que lesse os roteiros e dissesse "ok, está legal, mas dá para deixar, sei lá... 20% mais legal?". Mesmo quando a série não vai pelo épico, nunca te desaponta com a inversão de expectativas, como se a consultora Rainbow Dash dissesse "Certo, mas isso já foi feito... dá para fazer de novo só que 20% mais legal"?

Todo mundo já, por exemplo, viu um episódio onde o protagonista faz um clone de si mesmo e as coisas acabam dando errado. Uma boa quantidade de desenhos já fez isso, mas nunca como Gravity Falls faz isso, posso te garantir. 20% mais legal ou seu dinheiro de volta.

Você jamais verá unicórnios da mesma maneira, eu garanto.

O ÚLTIMO MABELCORNIO

Existem obras que você consegue escrever uma única vez na vida, porque colocou naquilo anos de experienciais, ideias e sonhos. Os irmãos Wachoswki, por exemplo, passaram anos e anos cozinhando o primeiro Matrix dentro de suas cabeças, foi um trabalho sincero  e repleto de alma com a experiência de uma vida inteira.

Nos anos 80 quando o minisculo estúdio Squaresoft empilhava fracasso atrás de fracasso e estava prestes a fechar suas portas, Hironobu Sakaguchi disse "Senhores, foi um prazer programar com vocês mas o sonho acabou. Depois deste jogo vamos fechar as portas e vamos ter que aceitar empregos comuns em uma vida comum, então sugiro que encerremos façamos deste último o jogo que sempre sonhamos fazer pois esta será nossa última oportunidade. Nossa fantasia final". O último jogo da até então esquecível Squaresoft se chamou "Final Fantasy" justamente em referencia a isso.

Trinta anos e mais de quinze continuações depois (sem contar os spin-offs), os benefícios de colocar sua alma em alguma coisa são mais do que visíveis.

Estou falando isso porque você sente assistindo Gravity Falls que Alex Hirsch e sua gangue realmente fizeram o desenho que eles esperaram a vida toda para fazer. De fato, assistindo, você consegue identificar as coisas que Alex e seus caras realmente amavam quando eram crianças nas férias de verão. Enigmas, puzzles, criptografia, Arquivo X, robôs gigantes, histórias de fantasmas, videogames, dating sims e The Last Unicorn. A lista é longa e você consegue sentir como se conhecesse esses caras assistindo o que eles fizeram.

Com efeito, você pode ouvir aqui Alex Hirsch fazendo uma brilhante imitação do Último Unicórnio (aos 57:27 do podcast)

Só que tem uma coisa nisso: a série é repleta de referencias, obviamente (inclusive um episódio chamado "O último Mabelcornio"), mas não é nas referencias obvias que está o segredo da coisa e sim nos pequenos detalhes.

Por exemplo, o conceito da cabana de trambicagens do tivô Stan é tirada diretamente do filme: em uma cidade que transborda magia e sobrenatural, é preciso uma armação fajuta para que as pessoas se surpreendam. Talvez você nem lembre desta cena do Último Unicornio (mas totalmente deveria, o filme é a melhor coisa que já fizeram com unicórnios depois da Rarity e da Grande e Poderosa Trixie), mas esse é o ponto: o mesmo foi feito com pedacinhos de Arquivo X, de Goosebumps, Transformers, conspirações iluminatti, a garota mais velha que foi sua primeira paixão, MUITO de Twin Peaks e por aí vai, a série foi construída com pedacinhos pequenos de memórias e sonhos que juntos formam o amalgama de algo único.

Sério, a batalha final tem um mecha com mão de dinossauro (um dinossauro vivo) e referencias a Pacific Rim. Não tem como não amar esses caras.

FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA

Mesmo quando a trama do episódio não é particularmente brilhante (até porque ninguém acerta todas), isso não é tão grande problema porque a maior qualidade de Gravity Falls está em seus personagens. Eles são construídos com a mesma técnica que a narrativa da história e o cenário é construído: com pedacinhos de memórias e referencias, o que torna os personagens únicos e vivos.

Soos, por exemplo, poderia escorregar no cliché do bobalhão ridículo que mesmo grandes comédias como Brooklyn  99 e Parks and Recreations volta e meia caem, mas não. Tem algo de muito único e verdadeiro nele, ele não é só um estereótipo. E sério, se você está fazendo algo melhor do que Parks ou Brooklyn 99, puta merda, você está fazendo muito certo.

Essa é a melhor coisa do desenho: ele não se limita aos estereótipos, o que torna toda a experiência muito mais viva, muito mais interessante e imprevisível ainda que coerente. Então sim, Stan é um trambiqueiro safado que no fundo tem um bom coração, mas não pense por um único momento que ele vai hesitar em contrabandear filhotinhos pela fronteira para faturar um troco. De verdade.

Em uma série um pouquinho menos bem escrita, Mabel seria apenas burra - porque é a saída mais fácil para que ela fizesse as coisas que faz de forma crível. Gravitty Falls faz aquele esforço a mais para tentar o caminho difícil.

A mistura de experiências pessoais, referencias e clichés cria algo verdadeiramente único e delicioso de se assistir.

E sim, Alex tem uma irmã gêmea que adorava suéteres e se apaixonava pelo menos três vezes por semana durante o verão.


In my mind, Dipper is a character who wants to grow up too fast. He takes himself too seriously, and he desperately craves respect from everyone around him, particularly from anyone older than him, because he just doesn't want to be a kid. He wants to fast-forward this part of his life.

Mabel is someone who's very comfortable being a kid. She wants to be goofy and silly and have fun all the time. Mabel is a lot smarter than anyone gives her credit for, and she knows in her core that Dipper's quest for maturity is, in itself, immature. So whenever he takes himself too seriously, it is her duty to knock him down a peg. If Dipper is just relaxing and having a good time, Mabel will not give him any harassment. The moment he starts getting too big for his britches, she starts acting intentionally dumb and goofy to get him to take himself less seriously and chill out a little bit. There's a constant tension of Dipper trying to grow up too fast and Mabel trying to subconsciously keep him in that kid space where he should be.

Um destaque em particular vai para o vilão da série, Bill Cypher (que é inspirado no símbolo Iluminatti) e que a primeira vista parece um vilão engraçadão e trickster - como o Loki ou o Discordia - mas na verdade ele está muito mais para o Coringa e é um dos personagens mais maus e sólidos que eu já vi em um desenho animado. Não mau no sentido "Dr. Evil eu sou mau huahauah" e sim em um sentido realmente perturbador, do tipo que não tenho certeza como isso passou no Disney Channel



Ajuda muito que a série tenha tido um elenco de participações especiais de altíssima qualidade como Mark Hammil (Shapeshifter), Weird Al (Probabilator), Nathan Fillion (pai da Pacifica), Larry King (como ele mesmo), Alfred Molina (Multiurso), Neil deGrasse (Wadles), Chelsea Peretti (Darlene), Tara Strong, Jonathan Banks (pai do Stan e do Ford), Nick Offerman (agente Powers) e JK Simons (Ford Pines)

O LAR É ONDE O SUETER ESTÁ

Gravitty Falls é excelente em seus enigmas, conspirações, no humor absurdo ou nas aventuras de crianças salvando o dia (algo que um elo perdido entre Goonies e Harry Potter), mas a série é verdadeiramente sobre os personagens. Mais precisamente, sobre família, sobre crescer e não querer que as coisas mudem.

Entre lutar para libertar o sereio da piscina publica da cidade e escapar dos jogos mortais organizados pelo Bebê do Tempo, Gravitty Falls é verdadeiramente sobre coisas sobre as quais podemos nos identificar. Todos tivemos um verão que desejamos que nunca tivesse terminado, ou arrependimentos sobre a forma com que tratamos (e fomos tratados) por nossas famílias, ou ainda a percepção de quem nossa família realmente é (DICA: não tem nada haver com genealogia).

Gravitty Falls é tão sincero e honesto que não temos como não nos relacionar. Ou emocionar com a despedida de um porco, ou o reencontro de dois policiais gays.

E agora Gravity Falls encerra sua jornada de um verão de deliciosas aventuras, descansando para sempre como um dos melhores desenhos da história da televisão se juntando a constelação dos grandes desenhos animados que partiram mas viverão para sempre em nossos corações ao lado dos dois Avatar (tanto "O Último Mestre do Ar" quanto "A Lenda de Korra")

Eu realmente acredito que estamos vivendo em uma era dourada da animação ocidental, com desenhos como My Little Pony e Steven Universe lidando com questões modernas, introduzindo personagens atemporais e sendo atraentes para publicos de todas as idades — a criação de Alex Hirsch e sua gangue facilmente liderando suas fileiras

Que passeio foi esse! Adeus Gravity Falls e obrigado por todas essas estranhezas.
Eu até tinha mais coisas para dizer, mas agora eu já sentei.


E você achando que Marvel VS DC nos cinemas era o crossover que você sempre quis ver...

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